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EVELINE PASQUALIN SOUZA
Especialista em Gestão Educacional
(UFSM) e bolsista da CAPES no curso de Mestrado em Educação nas
Ciências da UNIJUÍ
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O senso comum e a construção da política pública educacional
por Eveline Pasqualin Souza
Vivemos em um tempo que as sombras do passado
intercruzam as do presente e se espelham num futuro. Dessa forma,
não conseguimos demarcar as fronteiras entre uma ou outra. Isso é o
que chamamos de crise paradigmática. Não estamos falando apenas do
fim de um paradigma e do início de outro, mas sim da interposição de
duas ou mais idéias. O paradigma da modernidade, por exemplo, vive
uma grande crise assinalada principalmente pela evolução da ciência.
Ele iniciou no século XVI com as idéias de Descartes e foi se
desenvolvendo nos séculos seguintes sob o domínio das ciências
naturais e da racionalidade científica (MARQUES, 1993; SANTOS,
2006). Atualmente, outros paradigmas se sobrepõem a ele (paradigma
da pós e da neomodernidade), o que ocorre principalmente em função
da evolução do conhecimento científico e tecnológico. Entretanto, a
crise em questão nos apresenta uma nova fase: o final do ciclo
hegemônico da ordem científica e da razão como reguladora e
possuidora da verdade, pois nenhuma forma de conhecimento, seja ele
científico ou não, é por si mesma racional (SANTOS, 2006).
O conhecimento científico para o paradigma emergente
está embebido no diálogo de diversas formas de conhecimento, e por
elas é penetrado. Ou seja, o conhecimento “verdadeiro” a união de
diferentes formas de pensamento, inclusive do senso comum.
O senso comum é um tipo de conhecimento resultante da
utilização espontânea da razão, provinda, também, dos nossos
hábitos, sentidos, memória, imaginário, emoções, crenças e cultura (STENGER,
1990; SANTOS, 2006). Como explicação do mundo, o senso comum nos
guia na busca do sentido da existência, ao mesmo tempo em que nos
fornece condições de agir sobre ele. O senso comum foi marginalizado
pela ciência moderna por não estabelecer um caráter formal e
científico, considerando-o falso e superficial. Além disso, ele não
é provido de razão pura, científica, não é complexo e muito menos
quantificável, consequentemente cientificamente irrelevante para o
paradigma moderno.
A ciência moderna é constituída por um tipo de causa
formal que enfoca o “como funciona” o que se está conhecendo em
detrimento do agente causador ou da finalidade das coisas. Por isso,
o conhecimento científico moderno rompe com o senso comum. A ciência
moderna é formulada partindo de leis, estabelecendo uma ordem, uma
racionalidade e uma formalidade, cujos fenômenos que para serem
considerados científicos, necessariamente devem acontecer em todos
os lugares que forem testados e, caso isso não incida a lei é falha.
O padrão constituído pela racionalidade científica
moderna, totalitária, exclui qualquer conhecimento que não siga seus
princípios epistemológicos e regras metodológicas, não acreditando
em evidências da experiência imediata, que são entendidas como
vulgares e ilusórias. Dessa forma, a ciência moderna, além de
distanciar a natureza do ser humano, confia na matemática e na
lógica seus instrumentos ideais de análise, visando prever
incidência futura dos fenômenos. Com isso, a compreensão mecanicista
resultante desse processo proporcionou que a realidade fosse menos
entendida e mais dominada.
Assim, observa-se a importância do conhecimento
prático, do senso comum, que está presente no cotidiano de todas as
pessoas independente do nível de escolaridade ou classe social. Ele
apresenta seu caráter significante por se traduzir em um
conhecimento prático, do dia-a-dia, que só quem convive com a
realidade que está posta conhece.
Como exemplo, referente à importância deste tipo de
conhecimento, podemos citar a elaboração de políticas públicas
educacionais amparadas por um regime de democracia participativa, em
que conhecer a realidade local é fundamental para se pensar em ações
capazes de mudar o futuro. Por este fato, convocar a presença da
comunidade escolar é chamar aliados preocupados com um futuro digno
e justo, em função de se tratar do planejamento da vida de cada
cidadão envolvido pela política que está sendo concebida.
Além disso, ninguém melhor do que os próprios
cidadãos submersos no cotidiano em questão para saber as
necessidades regionais e os problemas que devem ser combatidos.
Assim, ao se estabelecer a participação dos agentes sociais para a
construção das políticas, está subentendido que o conhecimento do
senso comum servirá de propulsor para o processo de elaboração da
mesma, desde que estabeleça um diálogo com o conhecimento científico
da equipe técnica especializada.
Evidentemente que o senso comum está enraizado por
concepções mistificadoras, mas, mesmo assim, tem uma dimensão
libertadora e utópica que faz uso do diálogo entre os diferentes
tipos de conhecimentos, principalmente o científico, para se chegar
a uma idéia aceita pela maioria dos agentes participantes, pois ele
é transparente e tem como fonte o princípio da igualdade.
O senso comum por si só acaba sendo conservador por
não aceitar outros tipos de conhecimentos, mas se for amparado pelo
conhecimento científico e estabelecer com ele um diálogo
encontraremos a origem de um novo tipo de racionalidade. Dessa
forma, o exposto anteriormente não foi comentado com a intenção de
elevar o senso comum e sim, com o intuito de evidenciar que o senso
comum e o conhecimento científico são dependentes e ambos são
válidos quando caminham juntos. Neste caso podemos concordar com o
fato da Ciência partir do senso comum, sendo que é justamente a
crítica ao senso comum que permite que este seja corrigido ou
substituído. Assim toda Ciência é senso comum esclarecido (POPPER
apud HÜHNE,1989)[i].
Referências bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política.
Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2000.
BOUFLEUER, José Pedro. Pedagogia da
ação comunicativa: uma leitura de Habermas. 3 ed. Ijuí: Editora
Unijuí, 2001.
DESCARTES, René. Discurso do método.
Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2007.
MARQUES, Mario Osório. Conhecimento e
modernidade em reconstrução. Ijuí: Ed. Unijuí, 1993.
HÜHNE, L. Miranda. Metodologia
científica. Rio de Janeiro, Ed. Agir, 1989.
SANTOS, Boaventura de Souza. Um
discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2006.
STENGER, I. Quem tem medo da ciência.
Ciências e poderes. São Paulo, Siciliano, 1990.
[i]
POPPER, Karl. Concimento objetivo, EDUSP, São Paulo,
1975.
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