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MARIA NILZA DA SILVA
Professora de Sociologia nos cursos
de Graduação e Pós-Graduação junto ao Departamento de Ciências
Sociais da Universidade Estadual de Londrina, Mestre e Doutora
pela PUC/SP e foi coordenadora do Núcleo de Estudos
Afro-Asiáticos da Universidade Estadual de Londrina (dezembro de
2004 a junho 2006).
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O negro em Londrina: da presença pioneira negada à fragilidade
das ações afirmativas na UEL
por Maria Nilza da Silva
Há
algum tempo venho pensando em escrever sobre o negro em Londrina. A
idéia surgiu da constatação de que a presença do negro na cidade é
lembrada apenas pela memória da própria população negra. Existe uma
espécie de culto
aos pioneiros da “Pequena Londres”;
contudo, desde a minha chegada à cidade, em abril de 1998, noto que
estes são sempre e somente representados por pessoas brancas.
Estudar a trajetória da população negra londrinense
foi o primeiro desafio que me impus ao chegar a Londrina, tarefa
que, porém, foi adiada em razão da pesquisa que realizei sobre a
segregação urbana e racial na cidade de São Paulo, durante
doutorado, entre os anos de 2000 e 2004.
Ao retomar a pesquisa, em curso, constato que a
trajetória da população negra na cidade de Londrina provavelmente é
muito semelhante à experiência dos negros presentes em outros
lugares do país, já que a invisibilidade negra foi utilizada como
estratégia de branqueamento da população. Quando uma cidade
pretendia tornar-se símbolo do desenvolvimento não poderia
considerar em seu caminho algo que significava atraso e empecilho do
progresso (SILVA; LARANJEIRA, 2007), como foi considerado o negro no
final do século XIX, início e ao longo do século XX. Provavelmente,
tenha ocorrido o mesmo com a “Pequena Londres”, o que justificaria a
ausência do negro nos registros oficiais da cidade.
Contudo, a sua presença pode ser constatada nos
relatos dos descendentes dos primeiros negros que chegaram à cidade.
A trajetória da população negra, desde a formação de Londrina, pode
ser verificada também nas fotografias dos álbuns das famílias. Mas
somente em 2004 foi publicado o livro de Idalto José de Almeida,
Presença negra em Londrina, com o apoio da Prefeitura Municipal,
que apresenta depoimentos e breves relatos sobre personalidades
negras na cidade. Em livro, este foi o primeiro registro sobre o
negro em Londrina.
Alguns jornais, sobretudo do ano de 1988, período do
centenário da Abolição da escravatura, publicaram matérias sobre o
negro na cidade em virtude da mobilização da comunidade negra com
manifestações culturais para a conscientização sobre a perversa
desigualdade a que a população negra foi submetida ao longo da sua
história no Brasil.
1 - O negro em Londrina
O Movimento Negro na cidade de Londrina há muitos
anos vem atuando contra o racismo, a discriminação e as
desigualdades. Embora numa configuração diferente daquela que se
conhece na atualidade, desde a década de 1940, os negros começaram a
se reunir, inicialmente sob a liderança de Manoel Cypriano,
na Associação Recreativa Beneficente Princesa Isabel.
Em 1956, dando continuidade àquela Associação, surge
a AROL, Associação de Recreação Operária Londrinense. Mas com a
morte da principal liderança, Manoel Cypriano, e, provavelmente, com
os reflexos da política nacional de repressão, a AROL entra num
processo de decadência, vendo retomado o terreno doado pela
Prefeitura, quando a Câmara de Vereadores, em 1981, revoga a posse
da propriedade em que estava localizada sua sede, no bairro Vila
Nova.
No entanto, se bem que relegados da história oficial,
os negros de Londrina estão presentes e os dados do IBGE mostram que
existem semelhanças da realidade social do negro de Londrina com a
de outras regiões do Brasil. Atualmente o contingente populacional
dos pretos e pardos é de 21,74%, segundo o Censo de 2000 do IBGE.
Veja-se, portanto, a Tabela 1, sobre a distribuição
da população segundo cor/raça:
Tabela 1: Distribuição da população por raça/cor –
Londrina – IBGE 2000
|
COR/RAÇA |
N° ABSOLUTOS |
% |
|
Branca |
331.634 |
74,20 |
|
Preta |
15.172 |
3,40 |
|
Amarela |
16.069 |
3,59 |
|
Parda |
82.040 |
18,35 |
|
Indígena |
1.158 |
0,24 |
|
Ignorada |
996 |
0,22 |
|
Total |
447.069 |
100,0 |
Fonte: IBGE: Censo Demográfico de 2000.
A população negra tem, historicamente, ocupado
lugares discriminados e estigmatizados em várias sociedades. No mapa
1, a região que aparece com menos de 2% de negros é considerada de
maior poder aquisitivo, única região em que mais de 7% da população
tem renda superior a 20 salários mínimos.
Mapa 1:

A distribuição da população negra na cidade apresenta
uma maior presença em territórios considerados discriminados, pobres
e marginalizados ou de menor prestígio (SILVA, 2006). A desigualdade
racial em Londrina também aparece em outros indicadores, como de
renda e escolaridade.
Gráfico 1:

Fonte: IBGE, Censo Demográfico de 2000.
No Gráfico 1, a distribuição da população por anos de
estudo e raça/cor mostra que, no contingente não negro, 16,35%
possuem até três anos de estudo, enquanto que entre os negros a
percentagem é de 28,80. Também, entre aqueles que têm nível superior
(12 e mais anos de estudo), a distância entre negros e não negros é
grande. Os primeiros representam 3,06%, enquanto que os demais são
15,70%.
Gráfico 2:

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000.
Gostaria de destacar os dois extremos do Gráfico 2:
em primeiro lugar, entre aqueles que recebem até um salário mínimo
estão 2,4% de não negros e 6,3 % de negros. Entre aqueles que
percebem mais de 20 salários mínimos estão 14,5% de não negros e
2,6% de negros. Na faixa intermediária entre 5 e 10 salários mínimos
estão 29,8% de não negros e 27,7% de negros. Nessa faixa há uma
maior aproximação entre os dois grupos de cor/raça, com ligeira
desvantagem para os negros.
É contra esta realidade que o Movimento Negro de
Londrina sempre se manifestou, mesmo diante das inúmeras
dificuldades para se reunir, pois os membros não têm disponibilidade
para dedicar-se ao Movimento de forma integral. Apesar dos desafios,
um dos momentos marcantes foi a mobilização deste movimento em torno
da reivindicação para a implantação das políticas da Ação Afirmativa
na Universidade Estadual de Londrina, considerada consensualmente
uma das instituições mais importantes da cidade.
2 - As políticas de Ação Afirmativa: a experiência
da Universidade Estadual de Londrina
Em 2002, lideranças do Movimento Negro de Londrina
procuraram a administração da Universidade Estadual de Londrina para
propor o início das discussões sobre a adoção do sistema de cotas na
UEL. Foram realizados dois debates naquele ano e um em 2003.
Um dos marcos do debate sobre as ações afirmativas na
UEL foi a realização do Seminário “O Negro na Universidade”,
organizado conjuntamente pela Fundação Cultural Palmares e a
Universidade Estadual de Londrina, entre os dias 13 e 15 de abril de
2004.
O evento, segundo os organizadores, foi muito importante para a
adoção das cotas na UEL.
Um dos problemas discutidos durante os debates
realizados com integrantes da universidade e com a comunidade
externa foi a desproporção existente entre a presença de estudantes
oriundos de escolas públicas em cursos mais concorridos, como o de
Medicina, e sua presença naqueles menos concorridos, como o de
Pedagogia. No primeiro, apenas 7,5% dos estudantes haviam estudado
em escolas públicas, enquanto que o percentual dos demais era de
66%, segundo a ex-reitora Lygia Pupatto.
Após o período de debates realizados com a sociedade
civil e setores da universidade, chegou-se a uma percentagem para a
reserva das vagas: 40 por cento do total das vagas oferecidas no
vestibular seriam destinadas aos candidatos oriundos de escolas
públicas, metade das quais seria destinada aos candidatos negros
também oriundos de escolas públicas. A proposta inicial previa que a
implantação das cotas na UEL teria validade por um período de 10
anos.
Havia a preocupação em abranger os estudantes carentes de recursos
financeiros e discriminados social e racialmente.
No ano de 2004, a temática das cotas na UEL foi um
dos principais temas abordados pelos meios de comunicação da cidade
de Londrina. Algumas lideranças do Movimento Negro, como Vilma
Santos de Oliveira, além de reivindicar a adoção da reserva de vagas
no vestibular da UEL, manifestavam preocupação diante da necessidade
de garantir a permanência dos estudantes negros. Adotar as políticas
de ação afirmativa deveria representar a adoção de um conjunto de
medidas para garantir não somente o ingresso dos estudantes negros,
mas também a sua permanência na universidade.
As manifestações favoráveis e contrárias eram constantes,
salientando-se mais aqueles que eram resistentes à adoção da reserva
de vagas.
Uma audiência pública também foi promovida para
debater as cotas na UEL. O debate foi polarizado pelos professores
Jairo Queiroz Pacheco,
então Pró-Reitor de Graduação da UEL, na defesa da reserva de vagas,
e Yvonne Maggie, intelectual convidada pela Câmara Municipal de
Londrina, contrária à adoção das cotas.
Praticamente toda a cidade de Londrina se envolveu
nas discussões e no processo de adoção das reservas de vagas no
vestibular da UEL, também pelo fato de esta ser considerada uma das
principais universidades da região Sul e ter um dos vestibulares
mais concorridos do Estado do Paraná. Em 23 de julho de 2004, a
atenção da população da cidade voltou-se para a universidade e para
a votação do Conselho Universitário, que culminou com a aprovação
das cotas na UEL para o vestibular de 2005.
“Até” quando?
Os meios de comunicação deram destaque para a
aprovação da mudança no concurso vestibular da universidade, a qual
adotou as políticas de ação afirmativa. A informação em todos os
veículos de comunicação versava sobre a percentagem reservada aos
estudantes oriundos de escolas públicas e para os negros. O total
das vagas reservadas era de 40% para a escola pública, incluindo
metade para os negros também provenientes de escola pública em todos
os cursos da UEL, conforme a proposta inicial amplamente debatida.
A informação foi exaustivamente divulgada nos meios
de comunicação, gerando comemoração daqueles poucos que apoiavam a
mudança e resistência dos muitos que eram contrários às políticas de
ação afirmativa. Praticamente a maioria passou a acreditar no número
que foi amplamente divulgado e ratificado pelos responsáveis dessa
mudança no vestibular. Das 3.010 vagas oferecidas, 40% estariam
destinadas aos estudantes de escolas públicas,
sendo metade para os estudantes negros,
ou seja, a UEL receberia 1.204 estudantes de instituições públicas
no seu vestibular, 602 dos quais seriam estudantes negros.
Mais de três anos após a aprovação das cotas na UEL,
a sociedade local ainda acredita nos números divulgados pela
imprensa. Contudo, a realidade mostrou-se diferente. No vestibular
de 2005, matricularam-se 286 estudantes negros, menos da metade do
que era esperado.
Membros da comunidade negra, professores que
participaram dos debates na defesa das mudanças implementadas,
demonstraram-se surpresos com o resultado do vestibular de 2005.
Somente após uma consulta mais cuidadosa à Resolução do Conselho
Universitário que implementou as ações afirmativas é que se percebeu
que a reserva das vagas estava limitada à proporção de inscritos no
vestibular. A resolução 78 do Conselho, quando se refere à
percentagem, utiliza a palavra “até”, que passou despercebida para
muitas pessoas, ou seja, “até” 40% para estudantes de escola pública
e “até” 20% para os negros. Mesmo após a aprovação das mudanças
relacionadas à proposta original não houve preocupação da
administração da UEL em informar a comunidade e divulgar a condição
de proporcionalidade das cotas
e muitos ainda hoje continuam pensando que a UEL destina 40% das
suas vagas às cotas.
Para que a UEL pudesse receber 20% de negros em seu
vestibular era necessário que os inscritos negros atingissem a mesma
percentagem. De 35.531 inscritos naquele ano,
7.106 deveriam ser negros. O número de inscritos de negros foi de
apenas 2.197.
Abaixo segue o quadro
de distribuição das vagas segundo a proposta inicial que foi
debatida pela sociedade civil e pela comunidade universitária
(professores, funcionários e estudantes). Deve-se considerar que a
UEL oferece 3.050 vagas a cada ano.
Quadro 1:
|
VESTIBULAR 2005 –
PROPOSTA INICIAL – NÚMERO DE VAGAS |
|
Curso/vagas |
Inscritos
vestibular |
Proposta inicial/vagas |
Vagas
proporcionais |
|
Cand |
EP |
Neg |
Univ |
EP |
Neg |
Univ |
EP |
Neg |
|
CIÊNCIAS EXATAS |
|
Eng. Civil (integ) |
70 |
495 |
118 |
13 |
42 |
14 |
14 |
53 |
15 |
2 |
|
Matem. (not) |
40 |
205 |
124 |
21 |
24 |
8 |
8 |
24 |
11 |
5 |
|
CIÊNCIAS SOCIAIS
APLICADAS |
|
Direito (not) |
120 |
1840 |
769 |
157 |
72 |
24 |
24 |
72 |
37 |
11 |
|
Serv. Soc. (mat) |
40 |
259 |
140 |
31 |
24 |
8 |
8 |
24 |
11 |
5 |
|
CIÊNCIAS DA SAÚDE |
|
Medicina (int) |
80 |
5601 |
751 |
121 |
48 |
16 |
16 |
69 |
9 |
2 |
|
Enferm. (int) |
60 |
849 |
417 |
81 |
36 |
12 |
12 |
36 |
18 |
9 |
|
CIÊNCIAS HUMANAS |
|
História (mat) |
40 |
246 |
81 |
10 |
24 |
8 |
8 |
26 |
12 |
2 |
|
C. Sociais (not) |
50 |
291 |
170 |
23 |
30 |
10 |
10 |
30 |
13 |
7 |
|
CIÊNCIAS BIOLÓGICAS |
|
Ciên. Biol.(int) |
60 |
1106 |
337 |
50 |
36 |
12 |
12 |
41 |
16 |
3 |
|
Psicologia (int) |
80 |
1223 |
337 |
52 |
48 |
16 |
16 |
57 |
19 |
4 |
Fonte: Pró-Reitoria de Graduação - PROGRAD 2007.
No Quadro 1, referente ao ano de 2005, a proposta
inicial para o curso de Engenharia Civil previa a reserva de 14 das
70 vagas existentes para os estudantes negros, caso prevalecesse a
proposta original da reserva de 20% do total das vagas por curso.
Mas com a proporcionalidade baseada no número de inscritos as vagas
ficaram reduzidas apenas a duas. No caso do curso de Direito, a
proposta inicial previa o ingresso de 24 estudantes, mas o número de
vagas foi reduzido para 11. O curso que teve menor impacto com a
reserva de vagas foi o de Medicina, pois das 16 vagas previstas
apenas duas foram destinadas aos negros.
Quadro 2:
|
VESTIBULAR 2006 –
PROPOSTA INICIAL – NÚMERO DE VAGAS |
|
Curso/vagas |
Insc.
Vestibular |
Proposta inicial/vagas |
Vagas
proporcionais |
|
Cand |
EP |
Neg |
Univ |
EP |
Neg |
Univ |
EP |
Neg |
|
CIÊNCIAS EXATAS |
|
Eng. Civil (integ) |
70 |
438 |
131 |
11 |
42 |
14 |
14 |
49 |
19 |
2 |
|
Matem. (not) |
40 |
122 |
75 |
7 |
24 |
8 |
8 |
24 |
13 |
3 |
|
CIÊNCIAS SOCIAIS
APLICADAS |
|
Direito (not) |
120 |
1223 |
506 |
72 |
72 |
24 |
24 |
72 |
38 |
10 |
|
Serv.Soc. (mat) |
40 |
143 |
83 |
20 |
24 |
8 |
8 |
24 |
10 |
6 |
|
CIÊNCIAS DA SAÚDE |
|
Medicina (int) |
80 |
3909 |
534 |
68 |
48 |
16 |
16 |
69 |
9 |
2 |
|
Enferm. (int) |
60 |
550 |
284 |
47 |
36 |
12 |
12 |
36 |
18 |
6 |
|
CIÊNCIAS HUMANAS |
|
História (mat) |
40 |
182 |
81 |
14 |
24 |
8 |
8 |
24 |
12 |
4 |
|
C. Sociais (not) |
50 |
177 |
98 |
17 |
30 |
10 |
10 |
30 |
15 |
5 |
|
CIÊNCIAS BIOLÓGICAS |
|
Ciên. Biol.(int) |
60 |
637 |
213 |
14 |
36 |
12 |
12 |
39 |
19 |
2 |
|
Psicologia (int) |
80 |
858 |
295 |
34 |
48 |
16 |
16 |
52 |
24 |
4 |
Fonte: Pró-Reitoria de Graduação - PROGRAD 2007.
O Quadro 2 também apresenta grande desproporção entre
a expectativa inicial e a política efetivamente implantada pela
Universidade Estadual de Londrina. Em 2006, o segundo vestibular
pelo sistema de cotas na UEL sofreu outra mudança, que gerou mais um
impacto negativo sobre o número das vagas para os estudantes negros.
O vestibular passou a ter duas fases. Na primeira, o número de vagas
é definido pelo número de inscritos até o limite máximo de 20%.
Contudo, os inscritos negros que passaram para a segunda fase não
têm garantido o número das vagas proporcionais na segunda fase.
Então ocorreu um impacto negativo para os negros. De 279 matrículas
de estudantes negros em 2005, o número passou para 209 estudantes em
2006. Os matriculados neste ano foram de 6.85% contra 9.21% do ano
anterior, quando havia somente uma fase no vestibular da UEL.
Gráfico 3:
Tabela 2:
|
VESTIBULAR 2005 |
MATRÍCULAS – N° - % |
|
CANDIDATOS INSCRITOS |
35.531 |
Universal |
2.017 |
66,59 |
|
Esc. Pública |
733 |
24,20 |
|
Negros |
279 |
9,21 |
|
VESTIBULAR 2006 |
MATRÍCULAS – N° - % |
|
CANDIDATOS INSCRITOS |
24.399 |
Universal |
2010 |
65,88 |
|
Esc. Pública |
832 |
27,27 |
|
Negros |
209 |
6,85 |
|
VESTIBULAR 2007 |
MATRÍCULAS – N° - % |
|
CANDIDATOS INSCRITOS |
25.451 |
Universal |
2003 |
65,67 |
|
Esc. Pública |
821 |
26,92 |
|
Negros |
226 |
7,41 |
Fonte: Pró-Reitoria de Graduação - PROGRAD 2007.
A proporcionalidade praticamente acabou com a
perspectiva de mudar radicalmente o perfil dos estudantes da UEL,
sobretudo nos cursos mais procurados, como o de Medicina. Conforme a
então reitora Lygia Pupatto afirmava, por ocasião do debate que
antecipou a decisão do Conselho Universitário, era necessário mudar
o perfil dos estudantes nos cursos mais disputados, como Medicina e
Biomedicina. Os negros encontravam-se mais na área das Ciências
Humanas, sobretudo em cursos menos concorridos, como Pedagogia e
Ciências Sociais.
A política de ação afirmativa pressupõe um tratamento
diferenciado para aqueles que estão em desvantagem na sociedade. Com
base nesse pressuposto, não existe justificativa para a
proporcionalidade. Esta invalida o princípio da Ação Afirmativa, que
é promover a igualdade de oportunidades e diminuir as desigualdades
que as políticas universais não resolvem.
As desigualdades elencadas no início deste texto
mostram que é impossível alcançar igualdade de condições para
concorrer. A existência de proporcionalidade pressupõe que os negros
teriam as mesmas condições de concorrer que os outros estudantes, o
que representa uma enorme incoerência com a proposta para adoção das
cotas na UEL. Se as cotas se destinam a corrigir as desigualdades
existentes por causa do racismo que se manifesta em todos os
aspectos da vida social brasileira, sobretudo no acesso da população
negra à universidade brasileira, a existência desse tipo de
proporcionalidade no vestibular da UEL configura-se como mais uma
barreira ao acesso dos negros ao ensino superior.
É urgente a necessidade de revisão deste aspecto
fundamental do sistema de cotas na Universidade Estadual de
Londrina, retomando-se a proposta original para que o debate e a
luta do Movimento Negro se façam ecoar de forma coerente com a
proposta de adoção de Políticas de Ação Afirmativa.
Considerações Finais
A população negra continua praticamente ausente da
história oficial da cidade de Londrina. Existe uma espécie de
teimosia que persiste em “desconhecer” aqueles que fizeram parte da
trajetória histórica da cidade desde os seus primórdios
contribuindo, como os outros grupos populacionais, para que a
“Pequena Londres” se tornasse a segunda maior cidade do Estado do
Paraná.
A constatação das desigualdades raciais e de
oportunidades, vivenciadas pelos negros em Londrina, levou a UEL à
adoção do Sistema de “cotas” ou das Políticas de Ação Afirmativa que
deveriam corrigir as históricas desigualdades de acesso ao ensino
superior, porém a ação apresentou-se mascarada por estratégias que
continuam preservando o acesso privilegiado de quem sempre o teve.
Bibliografia
ALMEIDA, José Idalto de.
Presença negra em Londrina: historia da caminhada de um
povo. Londrina: PROMIC, 2004.
Os documentos fazem parte do material que analiso na
pesquisa “Território e segregação urbana: o lugar da
população negra em Londrina”, em andamento.
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versão para imprimir (arquivo em pdf)
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