Colômbia: um país em busca de si
por Rudá Ricci
Colômbia, desde o final do ano passado, se
constituiu numa atração especial para analistas políticos e para
os que acompanham o cenário internacional. A libertação, pelas
FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia), de reféns,
movimentou discussões intensas em todo espectro ideológico. Em
seguida, a resposta desastrada do governo Álvaro Uribe, que
gerou a morte de Raúl Reyes, o segundo nome do comando das FARC,
alimentou ainda mais a tensão na região, promovendo discursos
radicais de oposição à sua liderança por parte dos governos de
esquerda da Venezuela, Bolívia e Equador. Reyes tinha como
aliados Joaquín Gómez e Iván Ríos (nos segmentos menos moderados
das FARC) e Iván Máquez, Pablo Catatumbo e Alfonso Cano (mais
moderados). Também tinha influência e vínculos com os segmentos
militarizados (como Fabián Ramírez e Carlos Losada). Portanto,
era uma liderança com amplo trânsito político nas FARC. Reyes
era apontado pela França, Espanha e Suíça como o pólo de
negociação possível para a promoção da paz na Colômbia. Sua
morte, portanto, interessa a quem deseja a guerra.
A Colômbia, infelizmente, é ainda uma incógnita
para a maioria dos brasileiros, incluindo a grande imprensa.
Recentemente, tive oportunidade de estar em diversos encontros e
seminários acadêmicos com lideranças políticas e intelectuais da
Colômbia. Os relatos foram objetivos e extremamente
preocupantes.
Fábio Velásquez, da Fundação Foro Nacional pela
Colômbia (http://www.foro.org.co/),
traçou, num seminário sobre democracia na América Latina
realizado em Guadalajara, um rico painel do país mais analisado
no momento. Iniciou dizendo que, ao contrário do Brasil e
Argentina, trata-se de um país unitário, não federado, marcado
por ditaduras fortíssimas e divisão do país em guerrilhas e
controle territorial de grupos paramilitares de direita, todos
municiados pelo narcotráfico. Paradoxalmente, em 1986, a
Colômbia iniciou uma reforma política que gerou grande
descentralização e institucionalizou a participação popular
(através de mais de 30 mecanismos e instrumentos legais). Um
forte movimento municipalista fortaleceu o poder local.
Tratava-se não de radicalizar a democracia, mas de criar uma
alternativa à corrupção que assolava todo sistema político. O
fato é que dez anos depois, grupos paramilitares começam a
capturar as organizações locais, percebendo o movimento de
descentralização. A costa leste do país passou a ser comandada
por esta estrutura de extrema direita, com fortes raízes e
relações com o Exército e o governo Uribe. No extremo oposto do
país, das sete organizações guerrilheiras, restaram duas: FARC e
ELN. Para Fábio, a Colômbia gerou um "clientelismo armado",
enraizado e pulverizado. O narcotráfico também possui esta
estrutura, ramificada, com diversos núcleos de comando, muito
infiltrada em toda estrutura institucional da Colômbia. Não se
trata mais de grandes cartéis (embora ainda existam), mas de uma
rede de pequenos, médios e um ou outro grande grupo que se
espalham pelo país.
Outros intelectuais analisaram recentemente a
crise colombiana. Na lista de discussão mais importante do
terceiro setor do Brasil (3Setor@yahoogroups.com.br)
circulou um texto em que se afirmava:
A crise que se abate sobre a Colômbia tem
cerca de 50 anos. Desde 1946 com mortes em uma campanha
presidencial, o país vive uma divisão sangrenta (...). As
FARC nasceram nos anos 60 combatendo a miséria [a partir]
dos ideais da revolução cubana e de Che, pela liberdade e o
socialismo. Em meados dos anos 80 as FARC deixaram as armas
e decidiram participar do processo eleitoral. Com um apoio
popular foi organizado o movimento União Patriótica, que
reunia representantes de vários movimentos sociais da
Colômbia, trabalhadores, intelectuais, militantes populares
e sindicalistas. A UP conquistou uma grande vitória,
encerrando o domínio dos partidos Liberal e Conservador.
Venceu em mais de 300 prefeituras, elegendo mais de 10
senadores e mais de 50 deputados. Durante a campanha o
candidato a presidente foi morto a tiros em um comício. Após
menos de um ano as elites e barões da droga com apoio dos
EUA, infligiram uma guerra contra a UP e mais de 50% dos
deputados e prefeitos eleitos foram assassinados. As FARC
tiveram que reorientar sua política e voltar às selvas e a
guerrilha. (...)
A central sindical CUT, por exemplo teve mais
de 10 dirigentes assassinados nos últimos 6 anos. (...). Em
um encontro internacional latino americano realizado em
Niterói, há cerca de três anos, organizado por entidades
sociais como o MST, o presidente do PCC - Partido Comunista
da Colômbia, que é professor da Universidade em Bogotá, deu
um depoimento de que ele só saia de casa, para reuniões, ou
dar aulas com seguranças armados já que era constantemente
vítima de ataques e ameaças contra a sua vida, já que tantos
integrantes do partido e dos movimentos sociais tinham sido,
seqüestrados, assassinados por esquadrões da morte.
Em outubro do ano passado, estive reunido com
Guillermo Asprilla, militante político da Colômbia, que
completou o cenário que procuro descrever. Asprilla afirmou que
em 1991, com o pacto que gerou a Constituição Política da
Colômbia, o movimento guerrilheiro M19 entregou suas armas e
constituiu-se como partido. Conseguiu, em seguida, apenas 10%
dos votos e desapareceu aos poucos. A partir de seu
desaparecimento, todo pacto estabelecido pela Constituição de 91
(fundado no modelo de Estado de Bem-Estar Social Europeu,
influenciado pelo municipalismo citado por Fábio Velásquez) foi
esquecido pelo novo governo. Em seguida, implantaram-se
iniciativas governamentais de tipo neoliberal e aflorou uma
estrutura paramilitar que hoje ocupa toda costa leste e controla
33% do Congresso Nacional. Mesmo assim, citou experiências
inovadoras, como as "Constituintes Locais".
Há quinze dias, o Foro Nacional por Colômbia
divulgou nota pública, rechaçando a possibilidade de nova
reeleição de Álvaro Uribe, que possui contraditoriamente, altos
índices de popularidade.
Diz a nota:
Hace un poco más de dos
años, cuando se planteó la propuesta de reformar la
Constitución de 1991 para permitir la reelección inmediata
con nombre propio, Foro Nacional por Colombia emprendió, al
igual que muchas otras organizaciones y personas de la
sociedad civil, la tarea de oponerse a esa iniciativa por
considerar que no contribuiría al propósito de avanzar en la
búsqueda de una verdadera democracia para Colombia.
Pensábamos,
como lo hacemos
ahora, que por más respaldo popular y apoyo de encuestas que
tenga el mandatario de turno, no es con la entronización en
el poder del presidente y de su clase política de apoyo como
se solucionarán los problemas del país. Al contrario,
consideramos necesario trabajar en el propósito de más largo
plazo de consolidar instituciones, normas y comportamientos
democráticos en el Estado y en la Sociedad Civil que
respondan a un proyecto de solidaridad, justicia, equidad y
paz.
A tensão política colombiana chega, assim, a um
ponto de ebulição imprevisível, agora envolvendo diretamente
vários países vizinhos. As FARC têm, hoje, como reféns 800
civil, 23 políticos e 47 oficiais do Exército. Exigem a troca
por mais de trezentos guerrilheiros presos.
Os segmentos e instituições mais equilibradas e
comprometidas com a democracia da Colômbia ficam reféns, a
partir de agora, de um jogo tenso entre países do Continente.
Nunca o futuro da Colômbia esteve tão intimamente vinculado à
geopolítica regional. Se antes, o governo norte-americano
procurava ditar o futuro do país, a partir de fartos recursos
injetados para “combate ao narcotráfico”, agora a polarização
ideológica é evidente e radical. O país parece na ante-sala de
mais uma profunda crise institucional, emoldurada pelas disputas
internacionais de toda região vizinha. Uma situação que não
interessa em nada aos colombianos. E tampouco ao Brasil.