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WALDIR
JOSÉ RAMPINELLI
Professor do Departamento de
História da Universidade Federal de Santa Catarina
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ZINN,
Howard. La otra historia de los Estados Unidos (desde 1492 hasta
hoy). 2 ed. México: Siglo XXI Editores, 2005, 520 p.
Uma
história não contada
por Waldir José Rampinelli
Nos arredores de Boston, em uma lápide no parque
nacional se lê a inscrição: “Aqui jaz uma mulher índia, uma
wampanoag, cuja família e tribo entregaram suas vidas e suas terras
para que esta grande nação pudesse nascer e prosperar”. Muitos
cidadãos estadunidenses, gente decente e bem intencionada – diz Noam
Chomsky – desfilam continuamente junto a esta tumba, lendo o
epitáfio sem exibir a mínima reação, quando não um sentimento de
satisfação pela homenagem prestada a esta pobre gente. Talvez não
fizessem o mesmo diante de um Auschwitz ou Dachau. O genocídio dos
nativos – cuja população girava em torno de 12 a 15 milhões de
pessoas por volta de 1492 – se estendeu mais tarde aos negros, sem
esquecer a opressão e a exploração da classe dominante aos brancos
pobres, às mulheres e às crianças. No plano externo, com as guerras
os Estados Unidos não apenas conquistaram 55% do território
mexicano, como se apoderaram de domínios e ilhas espanholas,
obrigaram a França a vender a Luisiânia e impuseram, baseados em
suas mais diversas doutrinas, uma hegemonia sobre a América Latina.
O historiador Howard Zinn mostra A outra história
dos Estados Unidos, a que não é ensinada nas escolas e
universidades e tampouco escrita nos livros e revistas. “Se a
história tem que ser criativa – para assim antecipar um possível
futuro sem negar o passado – deveria, creio eu, se centrar nas novas
possibilidades baseando-se no descobrimento dos fatos esquecidos do
passado, nos quais, ainda que seja só em breve pinceladas, as
pessoas mostraram uma capacidade para a resistência, para a unidade
e, ocasionalmente, para a vitória” (p. 21). Ao se referir à
Declaração de Independência, redigida por Thomas Jefferson e
proclamada em 4 de julho de 1776, afirma que, embora ela enunciasse
“que todos os homens são criados iguais, que seu Criador lhes dá
certos direitos inalienáveis, entre outros o da Vida, o da Liberdade
e o da Felicidade”, ocorreu, no entanto, que uma grande maioria de
estadunidenses foi claramente excluída destas conquistas, como os
índios, os negros, os brancos pobres e as mulheres A estes foram
oferecidas as aventuras e as recompensas do serviço militar para que
lutassem por uma causa que talvez nunca sentiram como própria.
Persiste até hoje nos Estados Unidos uma verdadeira
mitologia em relação aos Pais Fundadores da Pátria. Segundo Zinn,
eles não buscavam o equilíbrio de poder, mas sim um mecanismo que
desse o total controle à classe dominante da época. “O certo é que
não queriam um equilíbrio igualitário entre escravos e patrões,
entre os sem terras e os latifundiários, entre os índios e os
brancos” (p. 82). Os Fundadores não levaram em conta as mulheres,
que significava a metade da população, nem sequer foram mencionadas
na Declaração de Independência e estiveram ausentes da Constituição,
sendo a parte invisível da nação.
A Guerra Civil (1861-1865), apresentada como a da
abolição da escravidão, teve um objetivo fundamental, qual seja, o
de transferir mais poder aos ricos do norte, de modo especial aos
monopólios. “Um governo assim”, afirma Zinn, “não aceitaria que fora
uma revolta que pusera fim à escravidão. Só se acabaria com a
escravidão em termos ditados pelos brancos, e somente quando o
exigissem as necessidades políticas e econômicas da elite
empresarial do Norte. Foi Abraham Lincoln quem combinou com toda a
perfeição as necessidades do empresariado, a ambição do novo Partido
Republicano e a retórica do humanismo” (p. 142). Uma vez libertos,
os negros tiveram que se alistar no exército e na marinha. No
entanto, já na década de 1870, quando eles começaram a se organizar
para exigir seus direitos civis, a oligarquia branca do sul usou de
seu poder econômico para preparar grupos racistas com práticas
terroristas, como a Ku Klux Klan. No centenário da independência
(1876), uma “Declaração Negra da Independência” denunciou o Partido
Republicano que antes havia merecido sua confiança na busca da
liberdade, conclamando os votantes negros a assumir uma posição
política independente. A Declaração, entre outras coisas, dizia que
o sistema atual “apresentou ao mundo o absurdo espetáculo de uma
terrível guerra civil pela abolição da escravidão negra enquanto a
maioria da população branca [os brancos pobres] – aquela que criou a
riqueza da nação – se vê obrigada a sofrer uma escravidão muito mais
dolorida e humilhante” (p. 182).
A outra guerra civil é o
termo utilizado por Zinn para analisar o incremento da luta de
classes nos Estados Unidos ao longo de todo o século XIX, totalmente
ausente dos livros de história (cap. 10). Juntamente com a
industrialização aparecem os operários que vão incrementar o
conflito capital versus trabalho. As greves são uma constante
não apenas por salário, mas também por redução de jornada laboral e
direito à sindicalização.
Algumas categorias, como as feministas que se
organizaram nos locais de trabalhos, passaram a fazer greves
exigindo não apenas salário igual para a mesma tarefa realizada,
como também o fim da opressão sexual. Muitas delas se aliaram aos
negros, enquanto alguns sindicatos de trabalhadores brancos exigiam
que os trabalhadores de cor criassem os seus, na luta pela
desigualdade racial e de gênero.
A busca por uma sociedade mais justa – identificada
como socialista – foi intensa no final do século XIX e
principalmente no XX dentro dos Estados Unidos (cap. 13). Escritores
famosos, como Upton Sinclair, Jack London, Theodore Dreiser, Frank
Norris e outros defendiam publicamente o socialismo ao mesmo tempo
em que atacavam violentamente o capitalismo. Uma parcela dos
trabalhadores, dando-se conta de que a raiz de sua miséria estava no
sistema capitalista, começou a trabalhar por um novo tipo de
sindicato. Em junho de 1905, na cidade Chicago, cerca de duzentos
socialistas, anarquistas e sindicalistas radicais de todas as partes
dos Estados Unidos fundaram o Industrial Workers of the World (IWW)
que faria um grande trabalho na organização de um sistema
alternativo ao capitalismo.
Embora as mulheres tenham conseguido o direito ao
voto, apenas em 1920, após a aprovação da Décima Nona Emenda
Constitucional, muitas delas, como Emma Goldman, tinham claro que
apenas o sufrágio universal não ajudaria a mulher na busca de sua
emancipação. Era fundamental continuar a luta – dizia Goldman –
reafirmando sua personalidade, tendo direito sobre seu corpo,
negando-se a ter filhos a não ser que os deseje, recusando-se a ser
uma empregada de Deus, do Estado, da sociedade, de seu marido, de
sua família, enfim, fazendo sua vida mais simples, porém mais rica e
profunda. Somente isto e não o voto libertará a mulher (p. 255).
O Estado foi o grande propulsor do sistema
capitalista nos Estados Unidos. Para isto criou toda uma estrutura
que possibilitasse a existência de uma classe dominante que gerasse
o lucro a partir do mecanismo da mais-valia explorando o trabalho
dos imigrantes irlandeses, alemães, italianos, chineses e,
posteriormente, judeus e gregos. A Corte, o Congresso e o Executivo
atuaram em perfeita consonância na consecução deste objetivo. Já em
1893, um juiz do Supremo Tribunal – David J. Brewer – dirigindo-se
ao Colégio de Advogados do estado de Nova Iorque disse que “é uma
lei invariável que a riqueza da comunidade esteja nas mãos de uns
poucos” (sic). O governo, por sua vez simulando neutralidade para
manter a ordem, foi servindo aos interesses dos ricos. O mesmo
aconteceu com os partidos políticos, o Republicano e o Democrata. Um
acordo entre os dois – que possibilitou a eleição de Rutherford
Hayes, em 1877 – defendia que, ganhando um ou outro, já não haveria
mudanças significativas na política nacional.
O governo protegeu a indústria nacional de suas
concorrentes estrangeiras, facilitou o surgimento dos monopólios,
buscou mercados cativos para compra de matérias-primas e vendas de
produtos e lançou mão, principalmente no final do século XIX e
início do XX, de estratégias como o pan-americanismo, o big tick,
a diplomacia do dólar e a boa vizinhança para avançar sobre a
América Latina.
As reformas de Roosevelt para salvar o capitalismo da
grande crise foram importantes, mas não fundamentais. Na realidade,
foi a Segunda Guerra Mundial que debilitou a velha militância
trabalhista dos anos trinta, já que o conflito passou a gerar
milhões de novos empregos com salários mais altos. O New Deal
só havia reduzido o desemprego de 13 para 9 milhões de pessoas. Além
disso, a guerra aumentou o patriotismo e a união de todas as classes
para derrotar os inimigos externos, enfraquecendo assim a luta
contra os monopólios e as greves por melhorias salariais.
Zinn termina seu livro mostrando que o Vietnam foi a
primeira grande derrota do império global estadunidense no
pós-Segunda Guerra Mundial, o que se deveu à luta dos camponeses
revolucionários e ao movimento de protestos dentro dos Estados
Unidos. Analisa os novos movimentos de mulheres, negros, índios e
carcereiros nos anos 1960 e 1970. Mostra como Watergate, com a saída
de Nixon, deixou intacto o sistema, tanto que as multinacionais
atuaram na queda de vários governos, principalmente na América
Latina. Comenta o trabalho da Agência Central de Inteligência e da
Comissão Trilateral, esta criada para favorecer a união entre Japão,
Europa Ocidental e Estados Unidos na luta, não contra o comunismo
monolítico, mas sim contra os movimentos revolucionários do Terceiro
Mundo que questionavam o sistema capitalista. Não deixa de falar de
Carter-Reagan-Bush e o consenso bi-partidista.
Sem dúvida trata-se de um grande livro para conhecer
uma história que sempre nos foi contada de outra maneira. A obra foi
escrita em poucos anos, mas o seu autor conta com mais de vinte de
pesquisa e ensino e tantos outros de participação em movimentos
sociais.
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