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por
EZIO FLAVIO BAZZO
Doutor
em Psicologia Clínica e escritor. Autor de Vagabundo na China, Dymphne
a santa protetora dos loucos; Ecce Bestia, entre outros
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  COMTE-SPONVILLE,
André. Espírito do ateísmo. São Paulo: Martins Fontes, 2007
(192p.)
DAWKINS, Richard. Deus, um delírio.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (508p.)
HARRIS, Sam. Carta a uma nação
cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (96p.)
Nos
subterrâneos da fé
por Ezio Flavio Bazzo
“Se você topar com alguém que
lhe diga “eu sei que Deus não existe”, não é um ateu, é um
imbecil. E, igualmente, se você encontrar alguém que lhe diga
“eu sei que Deus existe”. É um imbecil que confunde a sua fé com
um saber.”
A. Comte-Sponville
Nas últimas décadas – por sorte – o mundo não viu
apenas o crescimento vertiginoso de religiões, de sectarismos, de
seitas, desvarios místicos e de fundamentalismos associados ao
terror e à fé. Vem testemunhando também a contra investida de livres
pensadores, laicos, filósofos e intelectuais ateus de todos os
matizes cientes, por um lado, de que as religiões podem ser
extremamente maléficas, e por outro, que é possível ser honesto,
ético, verdadeiro, menos salafrário, criativo e até mesmo
espiritualista sem Deus. No meio de tanta massificação e de
tantos olhos voltados para o além esses estudiosos vêm produzindo
importantes trabalhos sobre o assunto, fazendo-nos compreender que
por de baixo da aparente democracia do velho axioma “religião e
política não se discutem” havia – e há – um sutil artifício de
censura e de interdição de esclarecimento pessoal que pode muito bem
ter sido responsável pelo estado de alienação e de atraso em que os
países latinos em geral – e o Brasil em particular – se encontram
atualmente, tanto no universo da política como no da religiosidade.
A crença num ou noutro Deus ou em nenhum, a filiação a
esta ou àquela religião ou a nenhuma, tem sido o motivo principal
daquelas tão bem conhecidas discórdias e mixórdias que vieram pelos
séculos a fora regando a terra de imposturas e de sangue.
Entre os livros recentes, traduzidos para o
português, podemos mencionar Deus, um delírio, do biólogo
norte americano Richard Dawkins, Carta a uma nação cristã, do
filósofo de Stanford, Sam Harris, e o Espírito do ateísmo, do
pensador francês André Comte-Sponville. Três ensaios mais do que
oportunos que, sem nenhuma sisudez e sem nenhuma fobia conectam-se
entre si principalmente pela consciência de que o ateísmo não é o
fim do mundo e que o fanatismo e o irracionalismo religioso são
igualmente insalubres tanto para a civilização como para as
sociedades. Além dos esclarecimentos concernentes à crença no
suposto Design Inteligente, o que é precioso nesses livros é
tanto a sinceridade como a objetividade com que os autores tratam os
absurdos, os erros, as ficções, as irracionalidades e as neuroses
inerentes às crenças no sobrenatural que, mesmo estando presentes em
todo o planeta, inclusive em países influentes como os EUA, causam
muito mais estragos naqueles atascados na pobreza e no
subdesenvolvimento. Para Harris, o fato de quase a metade da
população norte americana ainda acreditar na vinda do Messias, na
idéia de que o mundo está prestes a acabar – e mais – que o fim será
glorioso deve ser considerada uma emergência moral e
intelectual.
Além do resgate das idéias anticlericais e ateístas
clássicas, esta tríade de pensadores contemporâneos chama atenção
para o fato de que tanto a pregação da intolerância religiosa contra
os “infiéis” e contra os “ateus”, como a interpretação ao pé da
letra dos ditos livros sagrados, além de desrespeitar a liberdade
individual e de interditar os avanços das Ciências podem colocar em
risco até mesmo a sobrevivência da humanidade. Neste particular, –
sem falar do dogmatismo religioso a respeito de questões como o
aborto, a transfusão de sangue, o uso de preservativos, as células
tronco etc. –, é importante lembrar que em muitas daquelas escolas
primárias dos EUA onde a Bíblia é usada como livro didático,
continua sendo proibido mencionar o nome de Darwin assim como fazer
menção às suas teorias evolucionistas. Daí o espirituoso alerta de
Harris: “Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e
senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os
dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz de
galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros
membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do
hálito divino, em um jardim com uma cobra falante e pela mão de um
Deus invisível.” E o mais bizarro de tudo isso, é que esse Deus
absconditus tem sido o motivo principal de muitas chacinas, de
muitas imposturas e de incontáveis sofrimentos. Se pelo menos
aparecesse, desse uma pista aos homens de pouca fé. Mas não, prefere
o anonimato e a clandestinidade. Insiste em habitar no invisível,
fato que para o filósofo Sponville, é simplesmente espantoso. Um
Deus que se esconde com tanta obstinação! “Seria mais simples e mais
eficaz – diz – Deus consentir em se mostrar, pois se quisesse que eu
acreditasse nele resolveria num instantinho esse assunto. (...) Um
Deus oculto! “Os humanos só se escondem quando têm medo ou vergonha.
Mas Deus?” Para Dawkins, um dos efeitos verdadeiramente negativos da
religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o
não-entendimento. Sim, a religião permite – segundo também Harris –
que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais quando não
são – isto é, quando elas não têm nada a ver com o sofrimento ou com
o alívio do sofrimento. A religião permite que as pessoas imaginem
que suas preocupações são morais, quando na verdade são altamente
imorais – isto é, quando insistir nessas preocupações inflige um
sofrimento atroz e desnecessário em seres humanos inocentes.
Mas ser ateu não é necessariamente uma opção
glamurosa e nem tão fácil como se pode pensar. Pesquisas tanto lá
nos Estados Unidos como aqui no Brasil e em outros países já
demonstraram que a população que votaria num candidato ateu à
presidência da república é mínima e que os eleitores elegeriam com
muito mais tranqüilidade (apesar do racismo e da homofobia latente)
um candidato que fosse bandido, negro ou homossexual. “Se você tem
razão ao acreditar que a fé religiosa oferece a única base real para
a moralidade – escreve Harris –, então os ateus deveriam ser menos
morais do que as pessoas de fé. Na verdade, os ateus deveriam ser
totalmente imorais. Será que são mesmo? Será que os membros das
organizações de ateus nos EUA cometem crimes violentos em proporção
maior que a média? Será que os membros da Academia Nacional de
Ciências, dos quais 93% não aceitam a idéia de Deus, mentem, enganam
e roubam deslavadamente? Podemos estar razoavelmente seguros de que
esses grupos se comportam pelo menos tão bem quanto à população em
geral.” “Não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral e
de mim mesmo em particular para imaginar que um Deus esteja na
origem desta espécie e deste indivíduo”, declara Sponville para
explicar seu ateísmo. E é esse mesmo filósofo materialista e
racionalista que acredita que prescindir de religião não o obriga a
prescindir de espiritualidade e que ser ateu não significa abandonar
seu espírito aos padres, aos mulás ou aos espiritualistas.
Tanto a intervenção de Harris como a de Sponville bem que poderiam
fazer o universo religioso mais tolerante para com os ateus, pois
está provado, por um lado, que o ateísmo é compatível com as
aspirações básicas de qualquer sociedade civil, e por outro, que a
crença generalizada em Deus não é garantia para a saúde física e nem
para a saúde mental de ninguém, pelo contrário. Entre seus
correspondentes Harris lembra que os mais mentalmente perturbados
sempre citam capítulos e versículos bíblicos. Em Carta a uma
nação cristã, o filósofo norte americano lembra ainda que embora
se acredite que acabar com a religião é um objetivo impossível, é
importante perceber que ele já foi alcançado por boa parte do mundo
desenvolvido. Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça,
Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão entre as
sociedades menos religiosas da terra. De acordo com o Relatório do
Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades
também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa
e vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional,
igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil.
Inversamente, os cinqüenta países que ocupam os lugares mais baixos,
segundo o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, são
inabalavelmente religiosos.
Enfim, as leituras aqui mencionadas são obrigatórias
a qualquer um, – ateu ou crente – que queira estar à altura de sua
época, pois o dogmatismo e o obscurantismo são temas aos quais
ninguém pode ficar indiferente. As pessoas precisam tomar as rédeas
de suas vidas nas próprias mãos e quem quiser compreender como
acontece a fanatização e a massificação na fé, basta lembrar que se
você levar a vítima (principalmente crianças e pessoas pouco
esclarecidas) por um caminho conhecido ela não perceberá que você a
está levando para uma armadilha. “Seria um erro – alerta Sponville –
abandonar o terreno para eles. A luta pelas Luzes continua,
raramente foi tão urgente, e é uma luta pela liberdade.”
Para aqueles que não vivem sem seus álibis e que
estão acostumados a fazer jogo duplo em tudo, inclusive em relação
às coisas da eternidade, Dawkins nos lembra que quando
perguntaram a Bertrand Russel o que ele diria se morresse e se visse
confrontado por Deus, exigindo saber por que Russel nunca acreditou
nele, este teria respondido: “Não havia provas suficientes”. |
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