A conquista da cidadania
por Henrique Rattner
O sistema que predomina no mundo capitalista oferece
vantagens para uma minoria de indivíduos, empresas e países,
enquanto condena a maioria à miséria e marginalidade.
Enaltece a concorrência e a produtividade, abstraindo da
pobreza e dos efeitos destrutivos causados por uma corrida
cega por mais lucros, mas elimina a cooperação e a
solidariedade – essenciais para a sobrevivência da
humanidade. A competição entre as empresas leva
inexoravelmente à concentração de capitais e à formação de
oligopólios e conglomerados como forma dominante das
atividades econômicas nas sociedades. Para maximizar os
lucros são relegados os valores da vida individual e
coletiva – os direitos humanos, a justiça social e a
participação democrática na gestão da causa pública –
deixando de proteger os mais fracos e dependentes e,
sobretudo, a natureza e seus recursos limitados que são
explorados e devastados sem preocupação com as necessidades
das gerações futuras.
A mídia dá ampla divulgação à responsabilidade social das
empresas que destinariam parte de seus lucros a projetos
ambientais, sociais e culturais. Na realidade, trata-se de
mais uma forma de burlar o fisco, abatendo seus gastos dos
impostos a pagar, enquanto realizam um marketing
desenfreado. Ao mesmo tempo e apesar das ações
“filantrópicas”, as empresas realizam lucros fabulosos e
demitem trabalhadores, sem piedade, invocando a “lei” de
seleção natural e a sobrevivência dos mais aptos,
supostamente de acordo com uma interpretação viciada da
teoria darwinista.
A exploração da mão-de-obra, tanto na indústria, operando em
intensidade e ritmo acelerados para acompanhar a velocidade
das máquinas e equipamentos automatizados, quanto na lavoura
onde prevalecem, conforme freqüentemente divulgado pela
mídia, condições de trabalho equivalentes à escravidão dos
séculos passados. Enaltece-se o “rei da soja”, barões de
engenhos e grandes fazendeiros, donos de imensas áreas de
terra, muitas vezes fruto de grilagem e ocupação ilegal de
bens públicos. Os avanços de plantio de soja e, agora, da
cana-de-açúcar no cerrado, na catinga e crescentemente na
floresta amazônica evidenciam, também, a concentração de
terras transformadas em base de poder político de seus
donos.
Essas imensas propriedades, semelhantes aos feudos dos
antigos senhores escravocratas, constituem também os currais
eleitorais nos quais prevalece o “voto de cabresto” que
garante aos seus donos um assento no Congresso, onde
legislam em favor de seus interesses, em vez do progresso,
segurança e paz social. Colocando o Estado a serviço dos
interesses das classes dominantes, ficam patentes as
injustiças e crimes cometidos contra os mais fracos, em nome
da democracia.
Efetivamente, vivemos num regime democrático viciado, com o
poder de coerção e a exploração dos trabalhadores sendo
legitimados por um sistema cruel, injusto e prepotente para
com os mais pobres e marginalizados. Mas, não é só na área
rural que a desigualdade e o poder discriminatório
prevalecem. Nas cidades e, particularmente nas metrópoles, o
contraste entre a opulência e o consumo de luxo de poucos
contra a miséria e as carências da maioria da população é
dramático. A vida na “polis”, a cidade que prometia libertar
os indivíduos da servidão, transformou-se em um verdadeiro
calvário para aqueles que têm o acesso vedado aos serviços
de “direito” conforme a legislação, tais como transporte
público, saneamento, educação e saúde de qualidade.
Como ensinar aos alunos os conceitos básicos de cidadania –
cooperação, solidariedade e responsabilidade perante a
família e a comunidade – diante a precariedade da vida em
favelas e cortiços, sempre sob a ameaça de violência e
repressão da própria polícia?
A função dos professores nessas condições – carga horária
excessiva, baixa remuneração, falta de equipamento básico e
salas de aula deterioradas sem manutenção – é extremamente
ingrata. Quais são as imagens positivas (role model) a serem
apreendidas pelos jovens? A projeção contínua da guerra nas
favelas, as cenas de violência e intrigas projetadas pela TV
e as notícias repetidas do comportamento escandaloso dos
“representantes” do povo no Congresso? Como explicar à
juventude os casos de corrupção, do “mensalão”, das
ambulâncias, da operação “navalha”, e tantas outras que
correm na Justiça?
No setor de negócios, quem entra neste mundo em que vale
tudo para “vencer”, superar ou eliminar os concorrentes é
nada edificante e certamente não prepara os jovens para
assumir o papel de responsabilidade social. Como reagir
quando se descobre que se alteram produtos – combustível,
leite, queijo, bebidas e materiais de construção
deficientes? Obras públicas como metrô apresentam falhas
sérias, sem explicação de causas e punição dos responsáveis.
Da mesma forma, prédios residenciais desabam e causam
vítimas e prejuízos imensos, mas os responsáveis pelas obras
são inocentados pela justiça ou se beneficiam de recursos,
liminares, hábeas corpus e outras artimanhas, com a
ajuda dos escritórios de advocacia mais bem remunerados.
Ademais, empresários sonegam impostos e tributos, não
recolhem as contribuições retidas dos salários dos
empregados, praticam evasão de divisas, sub e
superfaturamento, sem serem indiciados. É notório o caso de
um vice-presidente da FIESP que sonegou impostos durante
anos e, quando descoberta a fraude, fugiu para o Uruguai.
São as grandes empresas e empreiteiras que contribuem para o
“caixa dois” que financia as campanhas eleitorais de boa
parte dos legisladores, em nível municipal, estadual e
federal. Como ficou de conhecimento público no período
pré-eleitoral. Não há democracia – o governo do povo, para o
povo e pelo o povo, nas palavras de Abraham Lincoln,
enquanto não houver maior e eficaz controle sobre os
legisladores e o processo eleitoral. Se for democrático o
processo, deverá prevalecer o voto aberto e não secreto nos
diversos órgãos legislativos, a fim de que a população possa
conhecer quem realmente defende seus interesses. A
verdadeira democracia abolirá a imunidade parlamentar e seu
julgamento no Supremo Tribunal Federal, em processos que
levam anos para transitar, devido aos recursos apresentados
por advogados bem remunerados e que permitem a candidatura
de pessoas que têm processos pendentes na Justiça a cargos
públicos, de deputados, senadores e governadores.
A verdadeira democracia se pautará pela inelegibilidade
daqueles que têm processo na justiça e optará pela revogação
dos mandatos cujos detentores conseguiram burlar a Justiça.
A verdadeira democracia exercerá maior controle sobre o
Judiciário, após ser de conhecimento público casos de
corrupção (vide a construção de um prédio para a Justiça do
Trabalho, com perda de mais de cem milhões de reais para o
Tesouro), a venda de sentenças por juízes e o envolvimento
de outros com o crime organizado.
Não basta ter eleições manipuladas e controladas pelas
oligarquias ou grupos que se mantêm no poder por décadas.
Numa democracia verdadeira, os cidadãos e seus
representantes agirão de acordo com os valores
internalizados de cidadania e responsabilidade social,
reduzindo até a eliminação de violações da Lei, dispensando
a atuação de um poder coercitivo, muitas vezes corrupto,
violento e ineficaz.