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WALTER
PRAXEDES
Docente
na Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências
Sociais; Doutor em
Educação pela USP e co-autor de O Mercosul e a sociedade
global (São Paulo, Ática, 1998) e Dom Hélder Câmara:
Entre o poder e a profecia, publicada no Brasil pela Editora
Ática (1997) e na Itália pela Editrice Queriniana (1999)
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Sobre o indivíduo e o individualismo
por Walter Praxedes
Este ensaio apresenta algumas reflexões sobre o
indivíduo e o individualismo na modernidade, abordando a emergência
de uma “razão técnica ou instrumental” que orienta as condutas
individuais com sentidos finalísticos e utilitários e leva à
desarticulação das instâncias coletivas da vida social como a
família, as associações de todos os tipos e até do Estado em muitas
sociedades.
Segundo os estudos de Bauman (2001) a modernidade é a
era em que a vida social passa a ter como centro a idéia da
existência do indivíduo e do individualismo, demarcados por uma
crescente autonomia em relação à vida comunitária e social. Para
utilizarmos as próprias palavras do autor, “a apresentação dos
membros como indivíduos é a marca registrada da sociedade moderna”
(Bauman, 2001: 39).
Com o cartesianismo difunde-se a idéia de que o
indivíduo pode racionalmente chegar ao conhecimento da verdade. O
indivíduo racional, sujeito de um conhecimento que leva à verdade é
também um dos marcos da modernidade, e o assombro desse indivíduo
“diante de tudo que é como é” (Arendt, 1999: 286) vai alimentar a
dúvida cartesiana contra a certeza da salvação e impulsionará a
pesquisa racional e metódica sobre os fatos da realidade.
Seguindo esta linha de raciocínio, pode-se dizer, que
a Reforma Protestante provoca o surgimento do indivíduo religioso
que buscará por si mesmo a sua ligação com o sagrado e os sinais da
salvação. Já no pensamento contratualista que inspirou a Revolução
Francesa são os indivíduos que se tornam os portadores de direitos,
como indica a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”
aprovada pela Assembléia Constituinte Francesa em 26/08/1789,
segundo a qual “os homens nascem e permanecem livres e iguais em
direito; a associação política tem por finalidade assegurar a
liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão; a
lei passa a ser considerada como expressão da vontade geral e todos
os cidadãos têm o direito de participar, com liberdade de
expressão.
Na era moderna, desde estes seus prenúncios
mencionados acima, a tradição passa a ser sistematicamente rejeitada
pela obsessiva busca da novidade, que deve ser entendida
simplesmente como tudo aquilo que até então não fora visto,
vivenciado ou criado por ninguém.
A criação se efetiva como uma forma de busca do novo
e da substituição do existente por algo feito pelo homem e que não
pode ser encontrado na natureza. Conservar, manter, garantir a
durabilidade e evitar a obsolescência ou a depreciação de um bem
eram formas que a humanidade encontrara para lidar com a escassez.
Na era moderna, ao contrário, a destruição se tornou uma das
principais alavancas da produção e a depreciação planejada dos bens
e criações humanas passou a alimentar uma economia baseada no
desperdício que propicia a nova produção, o consumo deixa de ser um
meio para a satisfação das necessidades humanas para se tornar um
meio de incrementar a produtividade.
Para criar o novo e produzir ininterruptamente o
indivíduo desenvolve um verdadeiro culto à atividade produtiva, como
indicou Weber ao evidenciar a importância da ética do trabalho na
doutrina da vocação de Lutero, invertendo a tradicional ordem
hierárquica que colocava a vita contemplativa em
primeiro plano em relação à vita activa, como nos recorda
Hannah Arendt em “A condição Humana” (Arendt, 1999: 302). Como
escreveu esta autora “a produtividade e a criatividade, que iriam se
tornar os mais altos ideais e até mesmo ídolos da era moderna, em
seus estágios iniciais são qualidades inerentes ao Homo Faber,
ao homem como construtor e fabricante” (Arendt, 1999: 309).
O indivíduo moderno buscará os meios materiais
reclamados por sua engenhosidade na própria natureza, que passa a
ser instrumentalizada como um mero recurso a disposição de si,
alçado à posição soberana de “medida de todas as coisas”.
As máquinas-ferramentas que elevaram à máxima
potência a capacidade de o animal humano se apropriar da natureza
ganham um local de destaque no altar da modernidade.
O julgamento que o indivíduo moderno passou a
realizar tanto sobre o mundo natural quanto sobre o mundo humano,
passou a estar orientado pelo princípio da utilidade para os fins da
produtividade e da criatividade. Assim nasceu, segundo Henri
Bergson “o desprezo por qualquer pensamento que não possa ser
considerado como ‘primeiro passo’ para a fabricação de objetos
artificiais, principalmente de objetos para fabricar outros
instrumentos e permitir a infinita variedade de sua fabricação”.
(Citado por Arendt, 1999: 313).
Este culto à produtividade e à criatividade só poderá
ser mantido se ao menos alguns indivíduos resistirem ao “canto das
sereias” da satisfação imediata através do consumo, para com isso
conseguir acumular a propriedade dos meios de produção, enquanto a
maioria se entregará ao consumo como consolação pela sua
impossibilidade de acumular propriedades mas não sem uma competição
acirrada para a definição daqueles que serão os proprietários.
Para realizar suas inclinações, esse indivíduo
desenvolve uma concepção instrumental de razão, fundamentada no
princípio da causalidade, na dimensão contábil e quantitativa, e na
utilidade econômica das coisas, incluídos entre estas os demais
seres humanos. O problema central da modernidade é que como
conseqüência desta racionalidade instrumental, o aumento das forças
produtivas, o desenvolvimento da técnica, da capacidade de
organização e a qualificação da força de trabalho, podem
inviabilizar a emancipação humana.
A propriedade acumulada, como resultado alcançado
pelo espírito empreendedor e ascético, sobre o qual escreve Max
Weber, é o signo que distingue aqueles que chegam ao sucesso de
todos os demais que concorrem no mercado com o mesmo objetivo. Para
Weber a origem dessa nova mentalidade capitalista remonta à Reforma
Protestante com seu estímulo para a orientação ascética da conduta
individual. De acordo com essa reflexão Weberiana as formas de
representação religiosa se desdobram em formas de racionalidade
características da era moderna, e que podem ser exemplificadas pela
conduta racional capitalista de busca irrefreável pela
rentabilidade, ou seja, um lucro sempre renovado a ser acumulado sem
limitações por um indivíduo.
O capitalismo se desenvolve, possivelmente, segundo
Weber, ao combinar “a restrição do consumo com essa liberação da
procura da riqueza”, resultando, assim “a acumulação capitalista
através da compulsão ascética à poupança” e o seu uso como
investimento de capital (Weber, 1985: 121). Esse processo de
racionalização da conduta individual decorre da destruição das
concepções mítica, religiosas e metafísicas do mundo, gerando, em
conseqüência, uma cisão entre os indivíduos e a sociedade, cisão que
só aumenta com o progressivo “desencantamento do mundo”.
O indivíduo perde, assim, o sentido da sua própria
vida ao romper os seus vínculos comunitários. Abandonado à sua
própria racionalidade finalista sua atividade social termina
subordinada a um aparato administrado burocraticamente através de
normas racionais que tolhem a sua liberdade, reduzindo a vida humana
à função desempenhada no interior de uma estrutura organizacional.
Em conseqüência, no mundo moderno, como escreveu
Lucien Goldmann,
"A vida econômica assume o aspecto do egoísmo
racional do homo oeconomicus, da busca exclusiva do
máximo de lucros, sem qualquer preocupação pelos problemas da
relação humana com outrem e, sobretudo sem qualquer consideração
pelo todo. Nessa perspectiva os outros homens tornar-se-ão, para
o vendedor e o comprador, objetos semelhantes aos outros
objetos, simples meios que lhes permite a realização de seus
interesses e cuja qualidade humana única e importante será a
capacidade para concluírem contrato e engendrarem as obrigações
constrangedoras" (Goldmann, 1967, p178).
Referências
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Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1999.
ANDERSON, Perry. As origens da
pós-modernidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade
líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.
______. Modernidade e ambivalência.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999.
GIDDENS, Anthony. As conseqüências
da modernidade. São Paulo, Unesp, 1991.
GOLDMANN, Lucien. Sociologia do
Romance. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1967.
HELLER, Agnes. “Uma crise global da
civilização: os desafios do futuro. In: HELLER, Agnes [et al.]. A
crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios do século XXI.
Rio de Janeiro, Contraponto, 1999.
TOURAINE,
Alain. Crítica da modernidade. Petrópolis, Vozes, 2002.
WEBER, Max. A ética protestante e o
espírito do capitalismo. São Paulo, Livraria Pioneira Editora,
1985.
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