“Todos nós vivemos numa sociedade e somos
membros de uma nacionalidade com sua própria língua,
tradição e situação histórica. Até que ponto os intelectuais
são servos dessa realidade, até que ponto são seus inimigos.
A mesma coisa acontece com a relação dos intelectuais com as
instituições (academia, Igreja, entidade profissional) e com
os poderes de um modo geral, os quais, na nossa época,
cooptaram a intelectualidade em grau extraordinariamente
alto. Como assinala o poeta Wilfred Owen, o resultado é que
“os escribas impõem sua vozes ao povo / E apregoam
obediência ao Estado. Por isso, a meu ver, o principal dever
do intelectual é a busca de uma relativa independência em
face de tais pressões. Daí minhas caracterizações do
intelectual como um exilado e marginal, como amador e autor
de uma linguagem que tenta falar a verdade ao poder”
(p.15).
“Ao sublinhar o papel do intelectual como um
outsider, tenho tido em mente o quão impotente nos sentimos
tantas vezes diante de uma rede esmagadoramente poderosa de
autoridades sociais – os meios de comunicação, os governos,
as corporações etc. – que afastam as possibilidades de
realizar qualquer mudança. Não pertencer deliberadamente
a essa autoridade significa, em muitos sentidos, não ser
capaz de efetuar mudanças diretas e, infelizmente, ser às
vezes relegado ao papel de uma testemunha que confirma um
horror que, de outra maneira, não seria registrado” (p.
16).
“E há algo fundamentalmente desconcertante
nos intelectuais que não têm nem escritórios seguros, nem
territórios para consolidar e defender; por isso, a
auto-ironia é mais freqüente do que a pomposidade, a
frontalidade melhor que a hesitação e o gaguejo. Mas não há
como evitar a realidade inescapável de que tais
representações por intelectuais não vão trazer-lhes amigos
em altos cargos nem lhes conceder honras oficiais. É uma
condição solitária, sim, mas é sempre melhor do que uma
tolerância gregária para com o estado das coisas” (p.
17).
“Não existe algo como o intelectual privado,
pois, a partir do momento em que as palavras são escritas e
publicadas ingressamos no mundo público. Tampouco existe
somente um intelectual público, alguém que atua como uma
figura de proa, porta-voz ou símbolo de uma causa, movimento
ou posição. Há sempre a inflexão pessoal e a
sensibilidade de cada indivíduo, que dão sentido ao que está
sendo dito ou escrito. O que o intelectual menos deveria
fazer é atuar para que seu público se sinta bem: o
importante é causar embaraço, ser do contra e até mesmo
desagradável” (p.26-27).
“Mas o que representa o intelectual hoje?
Penso que uma das melhores e mais honestas respostas a essa
questão foi dada pro C. Wright Mills, um intelectual
ferozmente independente, com uma visão de mundo social
apaixonada e uma capacidade notável de expressar idéias numa
prosa clara e envolvente. Em 1944, ele escreveu que os
intelectuais independentes se confrontavam com uma espécie
de sentimento melancólico de impotência em face de sua
posição à margem da sociedade, ou com a opção de se
juntar às fileiras de instituições, corporações ou governos,
enquanto membros de um grupo relativamente pequeno de
insiders que tomavam decisões importantes de forma isolada e
irresponsável” (p.33-34).
“Não tenho dúvida alguma de que o
intelectual deve alinhar-se aos fracos e aos que não tem
representação. Robin Hood, dirão alguns. No entanto,
sua tarefa não é nada simples e, por isso, não pode ser
facilmente rejeitada como se fosse idealismo romântico.
No fundo, o intelectual, no sentido que dou à
palavra, não é um pacificador nem um criador de
consensos, mas alguém que empenha todo o seu ser no senso
crítico, na recusa em aceitar fórmulas fáceis ou clichês
prontos, ou confirmações afáveis, sempre tão conciliadoras
sobre o que os poderosos ou convencionais têm a dizer e
sobre o que fazem” (p. 35-36).
“Penso que a escolha mais importante que
se depara o intelectual é aliar-se à estabilidade dos
vencedores e governantes ou – o caminho mais difícil –
considerar essa estabilidade um estado de emergência que
ameaça os menos afortunados com o perigo da extinção
completa e levar em conta a experiência da nossa própria
subordinação, bem como a memória de vozes e pessoas
esquecidas” (p. 46).
“... os intelectuais se situam em dois
extremos: ou são contra as normas vigentes ou, de um modo
basicamente acomodado, existem para garantir “a ordem e a
continuidade da vida pública”. Na minha opinião, apenas a
primeira dessas duas possibilidades descreve, de fato, o
papel do intelectual moderno, ou seja, questionar as
normas vigentes...” (p.46-47).
“Muitos intelectuais, levados por uma
tentação fácil e de apelo popular, sucumbem a uma retórica
justificativa e hipocrisia que os torna cegos diante de um
mal ou barbaridade perpetrado em nome da sua própria
comunidade ética ou nacional. (...) No entanto, embora nada
possa torná-lo mais impopular, o intelectual tem o dever de
manifestar-se contra essa posição gregária – e que o custo
pessoal dessa atitude vá para o diabo” (p. 54-55).
“Mesmo os intelectuais que são membros
vitalícios de uma sociedade podem, por assim dizer, ser
divididos em conformados e inconformados. De um lado,
há os que pertencem plenamente à sociedade tal como ela é,
que crescem nela sem um sentimento esmagador de discordância
ou incongruência e que podem ser chamados de consonantes:
os que sempre dizem “sim”; e, de outro, os
dissonantes, indivíduos em conflito com sua sociedade e,
em conseqüência, inconformados e exilados no que se
refere aos privilégios, ao poder e às honrarias. O
modelo do percurso do intelectual inconformado é mais bem
exemplificado na condição de exilado, no fato de
nunca se encontrar plenamente adaptado, sentindo-se sempre
fora do mundo familiar e da ladainha dos nativos, por
assim dizer, predisposto a evitar e até mesmo a ver com maus
olhos as armadilhas da acomodação e do bem-estar nacional.
Para o intelectual, o exílio nesse sentido metafísico é o
desassossego, o movimento, a condição de estar sempre
irrequieto e causar inquietação nos outros” (p.60).
“Um intelectual é como um náufrago que, de
certo modo, aprende a viver com a terra, não nela;
ou seja, não como Robinson Crusoé, cujo objetivo é colonizar
sua pequena ilha, mas como Marco Pólo, cujo sentido do
maravilhoso nunca o abandona e que é um eterno viajante, um
hóspede temporário, não um parasita, conquistador ou
invasor” (p. 67).
“Para o intelectual, o deslocamento do exílio
significa ser libertado da carreira habitual, em que “fazer
sucesso” e seguir a trilha das pessoas consagradas pelo
tempo são os marcos principais. O exílio significa que
vamos estar sempre à margem, e o que fazemos intelectuais
tem de ser inventado porque não seguimos um caminho
prescrito. Se pudermos tentar esse destino não como uma
privação ou algo a ser lastimado, mas como uma forma de
liberdade, um processo de descoberta no qual fazemos coisas
de acordo com nosso próprio exemplo, à medida que vários
interesses despertarem nossa atenção e segundo o objetivo
particular que nós mesmos ditamos, então será um prazer
único” (p.69).
“O exílio é um modelo para o intelectual
que se sente tentado, ou mesmo assediado ou esmagado, pelas
recompensas da acomodação, do conformismo, da adaptação.
Mesmo que não seja realmente um imigrante ou expatriado,
ainda é possível pensar como tal, imaginar e pesquisar
apesar das barreiras afastando-se sempre das autoridades
centralizadoras em direção às margens, onde se podem ver
coisas que normalmente estão em perdidas em mentes que nunca
viajaram para além do convencional e do confortável. (...)
O intelectual que encarna a condição de exilado não
responde à lógica do convencional, e sim o risco da ousadia,
à representação da mudança, ao movimento sem interrupção”
(p. 70).
“A ameaça específica ao intelectual hoje,
seja no Ocidente, seja no âmbito não ocidental, não é a
academia, nem os subúrbios, nem o comercialismo estarrecedor
do jornalismo e das editoras, mas antes uma atitude que vou
chamar de profissionalismo. Por profissionalismo eu
entendo pensar no trabalho do intelectual como alguma coisa
que você faz para ganhar a vida, entre nove da manhã e cinco
da tarde, com um olho no relógio e outro no que é
considerado um comportamento apropriado, profissional –
não entornar o caldo, não sai dos paradigmas ou limites
aceitos, tornando-se, assim comercilizável e, acima de tudo,
apresentável e, portanto, não controverso, apolítico e
“objetivo” (p. 78).
“A sociedade atual ainda enclausura e cerca o
escritor, às vezes com prêmios e recompensas, muitas vezes
rebaixando ou ridicularizando totalmente o trabalho
intelectual e, ainda com maior freqüência, dizendo que o
verdadeiro intelectual, homem ou mulher, deveria ser apenas
um profissional experimentado em seu campo. (...) Apesar da
sua difusão. Cada uma dessas pressões pode ser contestada
pelo que chamo de amadorismo, o desejo de ser
movido não por lucros ou recompensas, mas por amor e pelo
interesse irreprimível por horizontes mais amplos, pela
busca de relações para além de linhas e barreiras, pela
recusa em estar preso a uma especialidade, pela
preocupação com idéias e valores apesar das restrições de
uma profissão” (p. 80).
“O intelectual hoje deve ser um amador,
alguém que, ao considerar-se um membro pensante e
preocupado de uma sociedade, se empenha em levantar
questões morais no âmago de qualquer atividades, por mais
técnica e profissional que seja. (...) Além disso, o
espírito do intelectual como amador pode transformar a
rotina meramente profissional da maioria das pessoas em algo
mais intenso e radical; em vez de se fazer o que
supostamente tem que ser feito, pode-se perguntar por que se
faz isso, quem se beneficia disso, e como é possível tornar
a relacionar essa atitude com um projeto e pensamentos
originais” (p.86-87).
“Cada intelectual tem uma audiência, um
público. A questão é se essa audiência está lá para ser
satisfeita, e, consequentemente, manter-se feliz, ou se ela
existe para ser desafiada e, portanto, instigada a uma
oposição direta ou mobilizada para uma maior participação
democrática na sociedade. Mas, em qualquer dos casos, não há
como se desviar da autoridade e do poder, nem da relação
intelectual com ambos. De que forma ele se dirige à
autoridade: como um bajulador profissional ou como uma
consciência crítica dessa autoridade, ou seja, um amador que
não espera recompensas” (p.87).
“Em outras palavras, o intelectual
propriamente dito não é um funcionário, nem um empregado
inteiramente comprometido com os objetivos políticos de um
governo, de uma grande corporação ou mesmo de uma associação
de profissionais que compartilhem uma opinião comum. Em tais
situações as tentações de bloquear o sentido moral, de
pensar apenas do ponto de vista da especialização ou de
reduzir o ceticismo em prol do conformismo são muito grandes
para serem confiáveis. Muitos intelectuais sucumbem por
completo a essas tentações e, até certo ponto, todos nós.
Ninguém é totalmente auto-suficiente, nem mesmo o mais livre
dos espíritos” (p. 90).
“No mundo secular – nosso mundo, o mundo
histórico e social feito pelo esforço humano –, ele tem
apenas meios seculares para trabalhar, a revelação e a
inspiração divinas, embora perfeitamente plausíveis como
modos de compreensão na vida privada, são desastrosas e
mesmo bizarras quando usadas por homens e mulheres de
espírito especulativo. Na verdade, eu iria mais longe, a
ponto de dizer que o intelectual deve ser envolver numa
disputa constante contra todos os guardiões de visões ou
textos sagrados, cujas depredações são enormes e cuja
mão pesada não tolera o desacordo e, certamente, nenhuma
diversidade. A liberdade de opinião e de expressão é o
principal bastião do intelectual secular: abandonar sua
defesa ou tolerar adulterações de qualquer dos seus
fundamentos é, com efeito, trair a vocação do intelectual”
(p.92).
“... a busca do debate árduo é o centro da
atividade, o verdadeiro palco e contexto onde atuam os
intelectuais seculares” (p.93).
“”Talvez essa seja também a razão da minha
falta de vontade de ir tão longe quanto forma muitos dos que
se comprometeram com uma causa ou partido, indo até o fim em
termos de convicção e engajamento. Simplesmente não tenho
sido capaz de fazê-lo, preferindo a dupla autonomia do
outsider e do cético à qualidade vagamente religiosa
revelada pelo entusiasmo dos convertidos ou dos verdadeiros
crentes. Descobri que esse sentido de distanciamento
crítico me foi útil...” (p.100).
“... sou contra a conversão e a crença em
qualquer tipo de deus político” (p. 100).
“Não se pode e não se deve dizer
que acreditar no intelectual que afirma escrever apenas para
si mesmo ou em benefício do puro aprendizado ou da ciência
abstrata. Como disse certa vez Jean Genet, um dos
grandes escritores do século XX: no momento em que alguém
publica ensaios numa sociedade, significa que ingressou na
vida política; portanto, quem não quiser ser político não
deve nem deve escrever ensaios nem falar publicamente”
(p.111).
“A crença religiosa, em si mesma, é para mim
tão compreensível como profundamente pessoal. Quando um
sistema de todo dogmático, em que um lado é inocentemente
bom e o outro é irredutivelmente mau, é substituído pelo
processo, pelo dinamismo do intercâmbio vital, o intelectual
secular sente a indesejável e inapropriada invasão de um
domínio sobre outro. A política torna-se um entusiasmo
religioso...” (p.114).
“A ironia é que, com muita freqüência, os
ex-convertidos e os novos crentes são igualmente
intolerantes, igualmente dogmáticos e violentos”
(p.115).
“Porque, quando se serve a um deus sem
qualquer visão crítica, todos os demônios vão estar sempre
do outro lado...” (p.119).
“A análise verdadeiramente intelectual
proíbe chamar um dos lados de inocente, e o outro, de
perverso” (Id.).
“Mas, se nossos olhos estão fixados em
nossos protetores, não podemos pensar como intelectuais, mas
apenas como discípulos ou acólitos. No fundo do nosso
inconsciente há o pensamento de que se deve agradar, e não
de desagradar” (Id.)
“O verdadeiro intelectual é, por contraste,
um ser secular” (p.120).
“Quanto a abstrações ou ortodoxias, o
problema é que elas são patrocinadoras que precisam ser
apaziguadas ou protetoras o tempo todo. Os princípios e
a envergadura moral de um intelectual não deveriam
constituir uma espécie de caixa lacrada, que impele o
pensamento e a ação numa direção e é movida por uma máquina
com apenas uma fonte de combustível” (Id.).
“... enquanto intelectual, você tem
escolha: representar a verdade de forma ativa e da
melhor maneira possível, ou então se permitir, passivamente,
ser dirigido por uma autoridade ou um poder. Para o
intelectual secular, esses deuses sempre falham” (p.121; os
grifos são nossos).