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HENRIQUE
T. NOVAES
Doutorando
em Política Científica e Tecnológica –Unicamp.
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Os miseráveis fazem história
por Henrique T. Novaes
Estive na Venezuela duas semanas antes do referendum,
em novembro de 2007. Meu objetivo era triplo: apresentar um artigo
no congresso latino-americano de economia política, entrevistar
alguns membros dos ministérios que promovem o cooperativismo e a
Ciência e Tecnologia e conhecer algumas cooperativas.
Conhecemos o Núcleo de desenvolvimento endógeno
“Fabrício Ojeda”. Nele, parece haver uma revolução invisível
principalmente devido ao papel dos cubanos na medicina de cunho
popular. Os médicos venezuelanos têm uma nítida formação de classe,
orientada para o atendimento dos problemas de saúde dos “ricos”.
Se a formação convencional em medicina inculca nos
médicos a idéia de ascender profissionalmente, ter uma carreira,
prestígio e poder, na Venezuela a proposta parece caminhar noutro
sentido. Disse uma mulher que os médicos convencionais tem horror ao
seu povo, consideram-no como uma gentalha. Será que há alguma
semelhança com os brasileiros? Querem subir na vida, ter carro do
ano, etc. Eles se negaram a realizar os projetos de atender os
favelados dos Núcleos e foi por isso que foram chamados os cubanos.
São 30 mil. Hoje, para sorte do povo venezuelano, já há médicos
“sensibilizados” para as causas da saúde pública. Eles estão sendo
formados com uma certa urgência, como tudo na Venezuela.
Os relatos do povo da favela são interessantíssimos.
Dizem que agora se sentem como seres humanos. Tem tratamento
decente, que vai desde a ginecologia até odontologia e cirurgias. Um
povo que sempre foi massacrado e nunca teve vez na história, parece
agora respirar e ser dono da sua história. Ainda na área da
medicina, Chávez quer realizar 6 milhões de cirurgias de catarata
gratuitas. Já iniciou este processo.
No núcleo de desenvolvimento endógeno, há uma escola
de pedreiros que estão testando e construindo casas com tecnologia
apropriada, as “Petrocasas” e são ajudados por uma engenheira com
“viés social” da PDVSA que está aplicando suas idéias. Além disso,
uma fábrica recuperada de Santa Catarina (Brasil) ajudou no
desenvolvimento do projeto.
A Universidade Central da Venezuela é
hiper-conservadora, ainda que haja fissuras. Ainda que nela haja
cérebros pensando a necessidade de estabelecer vínculos mais
estreitos com o povo, é preciso reconhecer que a grande maioria dos
professores permanece blindada a qualquer mudança. Os estudantes
desta universidade são da elite e se declaram anti-chavistas, fazem
passeatas contra o governo e alguns têm atitudes fascistas.
Chávez criou e vem criando um sistema universitário
paralelo para a massificação do ensino, muito centrada na formação,
dando pouca atenção à pesquisa, ao menos neste momento. Para se ter
uma idéia da quantidade, o sistema “oficial” tem 450 mil estudantes.
Nos últimos 9 anos, Chávez criou 350 mil vagas em novas
universidades.
Na Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV) há uma
crítica implícita às profissões liberais e um indício de que estão
formando alunos com compromisso público: médicos comunitários,
engenheiros agrônomos compromissados com a agroecologia e não com o
agronegócio, economistas públicos e economistas políticos, etc.
Estas universidades são muito politizadas, e muitos desses
estudantes parecem em alguns casos repetir frases ocas, parecendo
robôs. Por outro lado, parece nascer uma nova geração de alunos
compromissados com a emancipação do povo latino-americano.
Ainda no núcleo de desenvolvimento endógeno, há
cooperativas de produção de calçados e roupas, além de um mercado
comunitário a preços baixíssimos chamado “Mercal”.
As cooperativas têm 60% de sua produção atreladas às
demandas do Estado, principalmente da PDVSA (Empresa de Petróleo).
Os empresários venezuelanos, muito conscientes da classe que
pertencem, estão sabotando, boicotando e fazendo todas as manobras
possíveis pra deslegitimar a transformação em voga. Chávez, para
contrarrestar essas ações, criou o Mercal e os “Megamercal” para
frear a inflação e dar uma resposta a este boicote. Nos Megamercal,
a população sofre numa fila interminável, mas compra os “bens
básicos”: arroz feijão, frango, etc. Aliás, diga-se de passagem, a
Sadia está ganhando muito dinheiro naquelas terras.
A Venezuela importa 80% do que consome. Ou é petróleo
ou nada. Estão tentando criar há nove anos uma política de
substituição de importações. Basta ver os gastos com agricultura e
com a indústria leve para se ver que em algum momento a importação
está diminuindo.
Em nossas visitas aos ministérios, a conclusão que
tiramos é a de que Chávez carece de quadros para realizar a
transformação desejada. É impressionante a falta de quadros ou
funcionários do Estado capazes de implementar as diretrizes gerais
esboçadas pelo presidente. É como se a Venezuela tivesse um grande
líder, um movimento social muito frouxo ou até mesmo inexistente,
mas que vem caminhando a passos largos, e um vazio no meio. A
sensação que me dá ao visitar e entrevistar os membros da burocracia
venezuelana é a de que predomina a tentativa e erro, o improviso, a
ausência de um plano ou projeto de transformação. Para sorte ou azar
deles, há muito dinheiro e a possibilidade de realizar inúmeras
correções de rota. Mas até quando poderá durar isso? Convivem
inúmeras diretrizes e experimentações. Ao mesmo tempo que a
criatividade e o improviso sinalizam a possibilidade de ousar e
corrigir a rota ao longo de um caminho, elas nos mostram que há a
ausência de um projeto bem preciso de transformação social. E isso
pode ser perigoso.
A elite está furiosa. A mídia, o verdadeiro partido
de oposição, cria fantasmas e difunde os mesmos na classe média. O
que achei mais curioso é que a TV afirma que Chávez irá colocar um
negro na casa de cada membro da elite.
O povo é pobre, vive na miséria, mas é feliz, como
todos os latino-americanos. Isso é incrível! Como pode um povo
mergulhado na miséria ser tão feliz? São descontraídos, alegres,
carinhosos com os brasileiros. Tem em sua memória vários episódios
de massacre, entre eles o Caracazo é o mais destacado. Há relatos de
3000 a 10000 mortos que se rebelaram em função da alta do preço do
petróleo, alimentos, transporte, etc promovida por Carlos Perez. O
povo saiu às ruas para “saquear” produtos. O Estado repressor desceu
a lenha no povo. Para os que não sabem, 80% dos venezuelanos vivia
na mais absoluta miséria em 1989.
Agradecem muito o envio de petróleo por Lula durante
o “Paro Petrolero” e acreditam que isso foi decisivo para a
continuidade da revolução. A sujeira da cidade é incrível. O
semáforo é um enfeite. O trânsito é um caos. Aquele velho ditado que
diz que devemos olhar para os dois lados antes de atravessar a rua é
extremamente válido para o caso da Venezuela. Os carros e os ônibus
são muito antigos. Para encher um tanque na Venezuela, basta 4
reais. O metrô é baratíssimo e de excelente qualidade, às vezes
muito frio. A palavra “casco”(capacete) não existe na Venezuela.
O povo é sofrido, mora nos morros e trabalha que nem
condenado. A informalidade é imensa, atinge 50% da população. Os
informais são os que mais veneram Chávez, suas vidas parece ter
melhorado substancialmente....
Chávez fez uma campanha para economizar energia.
Quando se olha as favelas observa-se que a maioria das casas agora
tem luz branca (sendo um símbolo de que são chavistas).
Sobre o debate entre autogestão, co-gestão,
propriedade do estado com control obrero, propriedade comunal, etc a
“classe trabalhadora” (se é que existe, pois tudo na Venezuela é ou
informalidade ou petróleo) parece mais perdida que os quadros dos
ministérios. A cada dia mudam de opinião, seguem experimentando,
tentando, também sem um rumo definido. É impossível descrever o que
se passa nessas fábricas pois o que você descreve num dia já não
vale para o mês seguinte. É impossível ser pesquisador na Venezuela,
dada a dinâmica e a inconstância do país.
Sobre a política cooperativista, eles reconhecem que
no começo esteve muito centrada na oferta de crédito. Isso foi um
fracasso quase total. Hoje, parecem corrigir a rota e frear ou dar
maior apoio para a criação das mesmas. Sobre a política de Ciência e
Tecnologia, sofrem de esquizofrenia e transtorno bipolar. Basta ver
alguns documentos do ministério pra constatar que há inúmeras idéias
progressistas e a continuidade com o passado (discurso empresarial,
etc). Derrapam em vários momentos e trazem novidades.
O que a TV brasileira mostra, manipula e frisa é que
Chávez poderá se eternizar no poder. Por que será que nem menciona
os outros 66 artigos da constituição que seriam mudados? Por que
manipula e descontextualiza as imagens dos protestos? Por que cria
um estado de terror e abusa do sensacionalismo? Por que ela
“esquece” vários fatos e enfatiza com sensacionalismo outros?
Chávez distribui nas praças públicas diversos livros.
Um dos que me falaram é o Dom Quixote do Cervantes, mas há inúmeros
outros. Está restaurando os prédios públicos, investindo em cinema
para o povo. Chávez publicou algumas das obras de Oscar Varsavsky,
o melhor latino-americano na área de Ciência e Tecnologia. Está
colocando o povo em teatros que somente eram freqüentados pela
elite. Colocou todo mundo de novo na escola. Convivem diversas
propostas e novamente a experimentação reina. Na Venezuela, todas as
vertentes do marxismo, anarquismo, desenvolvimento endógeno, etc
parecem ter vez.
O que ainda tenho dúvida é sobre a eternização de
Chávez. Convivem no mesmo espaço os CHAVISTAS, os Chavistas, os
chavistas e os que estão com Chávez por que reconhecem o processo
histórico, mas não criam nenhum tipo de idolatria. Os últimos têm
críticas ao presidente, não são cegos.
O problema da Venezuela é justamente o fato de que os
movimentos sociais ainda são muito frouxos ou não existem. O que
mais me impressionou, enquanto proto-movimento social foi o “Frente
Campesino Ezequiel Zamora”. Jamais foi esquecer destes moleques que
largaram a Universidade para lutar ao lado do povo, o povo da terra.
É a coisa mais curiosa do mundo. A pergunta que fiz: há lideres mais
velhos, pois na reunião só tinha jovens. São muito conscientes,
enfatizam muito a tática e a estratégia. O MST está lhes ajudando
na área de educação.
Reconhecem a fragilidade da sociedade venezuelana e
por isso acreditam que sem a continuidade de Chávez por um largo
tempo, todas as mudanças desmoronarão. Parece ser uma faca de dois
gumes: se sai Chávez, a sociedade desmorona. Por outro lado, pode
haver a criação de novos caudilhos/eternização de “líderes”. Parece
que os venezuelanos em geral não vêem o Chávez como um Deus. Vêem de
forma mais pragmática e com razoável consciência do atual momento
histórico (sem Chávez o país se dilacera). Algo mais ou menos assim.
“sempre estivemos sufocados, trabalhando até a exaustão e agora
aparece um presidente que implementa diversas políticas que melhoram
nossas vidas”. Nesse sentido, aquilo que a mídia brasileira parece
frisar não é importante pra eles. O que é mais importante: como suas
vidas têm melhorado, desde a participação em comitês de bairro, mais
direitos para os informais, expectativa de melhora. Se isso for
verdade, os miseráveis estão fazendo história. |
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