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JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP
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A
sociologia não volta às aulas
por José de Souza Martins
Os freqüentes indícios de insuficiências e
ineficiências na educação brasileira indicam a ausência de uma
diretriz educacional que oriente o ajustamento da escola ao mundo
contemporâneo e ao seu melhor legado. A sociedade muda todo o tempo,
mas em nosso País a escola não acompanha o ritmo dessa mudança. O
aluno fica no meio, confuso, entre a mudança social que o alcança e
a educação que não o ajuda a situá-la e compreendê-la. Nem o ajuda a
nesse processo decidir entre o que dissemina os valores de afirmação
dos direitos sociais e da grandeza humana possível, de um lado, e,
de outro, o aniquilamento desses valores que está nos riscos de toda
mudança capturada e instrumentalizada por agentes de interesses
anti-sociais.
Na boa linguagem sociológica, a escola, numa situação
social crítica, como a nossa, tende à anomia. Tende àquela situação
em que o entendimento que as pessoas têm das relações sociais não
corresponde ao que a realidade é, o que as transforma em vítimas e
não em agentes ativos da mudança. Esse desencontro, entre
consciência social e sociedade, afeta particularmente os jovens,
divididos entre os valores e orientações do grupo familiar, e de
grupos de referência altruístas, e as solicitações de um mundo,
cheio de incógnitas e desafios, que se abre diante deles
continuamente e os questiona. É como se a sociedade em que vivem não
tivesse normas nem valores e as normas e valores que conhecem já
pouco ou nada valessem. Nessa privação, uma das poucas instituições
que poderiam ajudá-los no processo de ressocialização de que
carecem, é a escola. Porém, ela se omite, em vez de educá-los e
ressocializá-los para os dilemas da mudança, sem neles anular a
diversidade social e cultural pela qual transitam, quase sempre num
único dia.
Várias causas concorrem para esse forte traço do
nosso subdesenvolvimento. Destaco-lhe dois aspectos. De um lado, o
descompasso e a distância social e cultural que separa gerações,
abrindo abismos entre elas, agravando desenraizamentos e a
desorganização da vida que não raro os acompanha. De outro lado, os
descompassos decorrentes dos ritmos desiguais do crescimento
econômico e do desenvolvimento social. Mesmo as famílias e os jovens
que não passam pela experiência do desenraizamento súbito e
profundo, sobretudo na classe média, entram nas crises dos
desencontros de uma sociedade que, cada vez mais, muda a cada dia e,
todos os dias, se torna novamente misteriosa e alienante.
O alarmante assédio das escolas, dos adolescentes e
dos ambientes juvenis pelos traficantes de drogas e pela sociedade
do crime tem um dos seus fatores justamente na deterioração dos
vínculos comunitários que decorre de mudanças sociais anômicas. O
“barato” da droga passa a ocupar vazios deixados pela privação de
referências culturais oníricas e pela supressão das bases sociais da
utopia e da esperança. Seu efeito perverso é, ainda, potencializado
pelo comunitarismo da cumplicidade que geralmente há em grupos
delinqüentes.
O entendimento da realidade social em crise que
assedia e afeta a situação do aluno na escola pede que,
honestamente, tenha ele acesso no ensino médio à sociologia básica
que o capacite a compreender o outro e o diferente e, na mediação do
outro, compreender-se. Para que possa ressocializar-se continuamente
a partir dos desafios que nesse sentido encontra ao longo da vida.
O movimento pela sociologia no ensino médio, no
entanto, se arrasta sem rumo até hoje, perturbado pela compreensão
pobre que dele tem os governos, as escolas e o professorado. Uns
porque tem como referência uma economia de resultados, em que o bom
e apropriado ensino é confundido com o número de alunos que uma
escola catapulta no vestibular das boas universidades públicas.
Pouco se fala do que acontece com não poucos desses alunos depois,
nas desistências, nas opções erradas e nas frustrações freqüentes,
pagas pelo governo. Outros, porque supõem que a missão do professor
de sociologia é a de arrebanhar os jovens para as novas religiões em
que se converteram muitos partidos de esquerda.
Os próprios Parâmetros Curriculares do Ensino Médio,
do Ministério da Educação, e os livros didáticos que por eles se
pautam, constituem nesse sentido um problema, pois preconizam o
cumprimento do conteúdo dos quatro anos de duração do curso
universitário de Ciências Sociais no pouco tempo de que o ensino
médio dispõe para a sociologia. Um convite à superficialidade da
falsa erudição. No pólo oposto surgiu o argumento de que a
sociologia é disciplina transversal cujo conteúdo se pode ministrar
nas aulas de matemática ou de biologia. A tese do transversal é um
desses recursos de linguagem para acomodar interesses e resolver na
aparência problemas que pedem soluções ousadas e criativas.
Mas, o objeto da sociologia e a formação requerida
pelo sociólogo se diferenciam significativamente do que ocorre na
matemática e na biologia. O objeto da sociologia é constituído pelo
princípio da contradição e pelo da identidade e não só pelo
princípio da identidade. É objeto dotado de historicidade e seu
sujeito de referência é um ser humano pensante, diferente de um
número ou de uma minhoca. Na perspectiva transversalista, a
sociologia se anula e descumpre sua essencial função
ressocializadora, que daria ao estudante os instrumentos teóricos e
metodológicos que, ao longo da vida, pudesse utilizar para decifrar
e superar, criativamente, as contradições e irracionalidades que são
constitutivas do social. A impugnação da sociologia em nome de sua
suposta transversalidade é simples e pobre ideologia.
Quanto mais demorarmos para colocar esse meio de
discernimento ao alcance dos jovens, mais se agravará o
analfabetismo cultural que limita o alcance e empobrece as outras
disciplinas do ensino médio. É pobre a compreensão que os estudantes
podem ter da matemática ou da biologia se não compreenderem
sociologicamente o lugar social do conhecimento e seu próprio lugar
na sociedade que os desafia.
Professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da
Universidade de São Paulo.
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