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MÁRIO MAESTRI
Professor do curso e do
programa de Pós-Graduação em História da UPF. É autor de, entre
outros, Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista
revolucionário, escrito em associação com G. Candreva [São
Paulo: Expressão Popular, 2007]
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PRINZ,
Alois. Disoccupate le strade dai sogni: La vita
di Ulrike Meinhof [Trad.: Monica Marotta]. Roma: Arcana, 2007
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Alemanha, 1968:
dos sonhos e dos
pesadelos de uma geração derrotada
por
Mário Maestri
Já é
habitual a apresentação pela editoria, pela cinematografia, pela
grande mídia fala, escrita, televisiva, etc. européias dos "Anos de
Chumbo" como mero resultado da ação de jovens desajustados que, no
contexto de cultura esquerdista da violência,
entregaram-se à prática do terrorismo, em boa parte devido ao gosto
pela aventura. A essa leitura associou-se habitualmente a
apresentação das jornadas de 1968, que cumprem, agora, em 2008, seus
quarenta anos, como gestação dos anos de violência vividos na década
seguinte.
Sobretudo
na Alemanha, essa explicação ideológica daqueles complexos e
germinais embates sociais e políticos exige mergulho na mistificação
plena, sobretudo porque os acontecimentos propiciados pela chamada
Banda Baader-Meinhof, principal grupo guerrilheiro da
Alemanha Federal, iniciaram-se e concluíram-se com atos de sangue
promovidos, não pelos terroristas derrotados, mas pelo Estado
alemão vitorioso. Também devido ao seu epílogo dramático, a
Fração do Exército Vermelho [RAF] assombra ainda hoje a Alemanha,
exigindo uma catarse nem que seja historiográfica até hoje jamais
realizada.
Execuções a Sangue Frio
Na
madrugada de 8 de maio de 1976, pouco mais de dez anos após as
memoráveis mobilizações estudantis e populares, Ulrike Meinhof, de
42 anos, a mais conhecida militante da RAF, foi morta na prisão por
policiais ou militares alemães. Por solidariedade diante do
inimigo comum, o mundo político europeu manteve total silêncio
sobre o frio assassinato que reavivava a ferida ainda semi-aberta do
excídio nazista. A execução exacerbou o esforço dos remanescentes da
organização militarista, num contexto de crescente desmobilização
das lutas sociais, devido ao forte refluxo das mobilizações de
1967-8, para libertar os companheiros sob risco de morte na prisão.
Em 5 de
setembro de 1977, um comando da RAF seqüestrou o patrão dos
industrialistas da Alemanha, exigindo em troca militantes presos. Em
13 de outubro, comando da Frente Popular pela Libertação da
Palestina, solidário, seqüestrou Boeing 737 da Lufthansa com oitenta
passageiros, para fortalecer o pedido de libertação dos presos da
RAF. Na madrugada de 17 de outubro, comandos alemães assaltaram o
avião, libertaram os passageiros, executando os guerrilheiros
palestinos. Era a primeira vez que as forças armadas alemãs atuavam
fora de suas fronteiras, desde a derrota nazista de 1945.
Na manhã
do dia 18, três fundadores da RAF – Andréas Baader, Jan-Carl Raspe e
Gundrun Ensslin – foram igualmente assassinados em suas celas. O
governo alemão apresentou as execuções como suicídios, sem sequer se
preocupar em explicar como os presos teriam obtido em cárceres de
máxima segurança pistolas exclusivas das forças armadas e
dispararam, à distância, em suas próprias nucas. Ou por que, com tão
potentes armas nas mãos, não dispararam contra seus carcereiros ...
Não houve também qualquer questionamento sobre os fatos por parte
dos governos aliados ocidentais.
História para Jovens e Adultos
Em 2003,
Alois Prinz publicou, na Alemanha, Desocupem as estradas dos
sonhos: a vida de Ulrike Meinhof, lançado, em 2007, na Itália,
pela editora Arcana. Com o livro, o jornalista alemão de 49 anos,
autor de biografias para jovens, com sucesso também entre os
adultos, junta-se ao esforço permanente de justificação dos crimes
de Estado e, sobretudo, de encobrimento das jornadas
anti-capitalistas dos anos 1960-1970 na Alemanha Federal. Jornadas
de rica complexidade, envolvendo dezenas de milhares de estudantes,
operários e populares ativistas e simpatizantes através de todo o
país, nas quais as poucas dezenas de militantes da RAF assumiram
caráter protagonista apenas devido à midiatização orquestrada
e utilizada política e ideologicamente pelo governo alemão na época.
A
biografia aborda inicialmente as origens familiares e os primeiros
anos de Ulrike Meinhof, que viveu até os dez anos sob o regime
nazista. Análise que apresenta, sem aprofundar, a dilaceração, no
após-guerra, dos democratas e socialistas alemães, diante da
reconstituição do Estado autoritário, expressão do grande capital
que sustentara a gênese, ascensão e consolidação do regime nazista
e, a seguir, seus inomináveis crimes. Uma ordem democrática
que, sob o comando das forças conservadoras alemãs, ilegalizou o
Partido Comunista; proibiu o emprego público aos marxistas;
institucionalizou o controle ideológico dos sindicatos; rearmou o
país, exigindo o armamento atômico, sempre sob a hegemonia do
imperialismo estadunidense.
À
contextualização dos anos quarenta e cinqüenta segue-se, entretanto,
uma muito avara abordagem do forte confronto político, ideológico e
social vivido na Alemanha Federal nos anos de 1960 e 1970. Confronto
estreitamente determinado pela atração-repulsão exercida pela
República Democrática Alemã, quase ausente na abordagem. Para Alois
Prinz, é como se os acontecimentos das décadas de sessenta e setenta
não tivessem relações com o confronto e, a seguir, com a derrota e a
anexação da RDA, sob a pressão da avalanche neoliberal geral dos
anos oitenta.
Os
Grandes Ausentes
Alois
Prinz praticamente não se refere ao movimento operário alemão, sob o
controle de social-democracia ainda formalmente marxista, mas já
totalmente subordinada ao grande capital alemão e mundial, o que lhe
permitiu ascender ao governo em 1969. Não há igualmente
recapitulação pertinente da rica oposição, em boa parte
revolucionária e anti-capitalista, de parte da juventude estudantil,
operária e popular alemã, que se exprimiu criativamente no mundo da
política, da cultura, do comportamento, etc. Realidades
paradigmáticas como as "comunas" de Berlim são liquidadas pelo autor
com referências sarcásticas e ideológicas.
A
apresentação da esquerda bordeja ao caricatural. Os militantes
incultos e desinteressados com o marxismo do autor chocam-se com
geração que redescobriu a literatura marxiana e marxista,
tradicional e heterodoxa, consumindo vorazmente autores como Lênin,
Trotsky, Rosa Luxemburgo, Walter Benjamin, Theodor Adorno, Erich
Fromm, Georg Lukács, Ernst Bloch. Com a abordagem seletiva de
debates da época, Alois Prinz apresenta o ativismo anticapitalista
como negação da vida, que levaria inexoravelmente à melancolia,
registrando o objetivo socialmente quietista desse livro
destinado à juventude.
É também
pobre a abordagem de temas essenciais como a União Socialista dos
Universitários da Alemanha [SDS] e o atentado a Rudi Dutschke,
principal líder da Oposição Extra-Parlamentar, em 11 de abril de
1968. Incentivado pelo grupo editorial Springer e possivelmente
organizado pela polícia secreta alemã, o atentado, com enorme
repercussão mundial, motivou fortes manifestações estudantis através
do país. Falecido em 24 de dezembro de 1979 devido às seqüelas do
atentado, Rudi Dutschke opunha-se claramente às propostas de "luta
armada" propugnadas pela RAF e outros grupúsculos da RFA.
O
importante movimento de universitários, secundaristas, aprendizes,
etc. ensejou fortes mobilizações que, centradas em Berlim, atingiram
e convulsionaram todos os cantos da Alemanha Federal. Principal
expressão pública desse movimento de politização, Rudi Dutschke foi
também o porta-voz da proposta de luta por uma “Universidade
Crítica”, discutida naqueles anos através de todo o mundo
universitário convulsionado por mobilizações semelhantes. No Brasil,
a luta por uma “Universidade Crítica” foi defendida, com forte
repercussão nas universidades, pelo recém-organizado Partido
Operário Comunista, de composição sobretudo universitária e juvenil.
Grande
Ausente
Em
Desocupem as estradas dos sonhos, o principal e grande ausente é
sobretudo o enorme confronto da época entre o imperialismo
estadunidense e seus aliados e o impulso revolucionário mundial que,
após as vitórias da revolução anticolonial argelina e socialista
cubana, se espraiava através do mundo, incendiando o Vietnã, a
Camboja, a Palestina, a Pérsia, as colônias portuguesas da África
etc. Confronto que explodiria, em maio de 1968, na França, levando o
espectro da revolução operária ao coração duro da Europa Ocidental,
e prosseguiria, com singular vigor, na Itália, até inícios dos anos
1970, quando entraria em claro refluxo.
É
precisamente a ignorância do confronto mundial entre o mundo do
capital e do trabalho, que se expressava igualmente, em forma
oblíqua e deturpada, no embate entre Leste e Oeste,
que permite ao autor apresentar a guerrilha urbana alemã como
simples resultado da atração patológica pela violência de jovens
esquerdistas desorganizados para a vida, e não como ação marginal de
militantes protagonistas, em momento de refluxo das amplas lutas
sociais dos anos anteriores. Os militantes da RAF de Alois Prinz são
semi-adolescentes incultos, quase delinqüentes, como Baader, ou
intelectuais protagonistas, de hábitos burgueses, frustrados por
vida amorosa fracassada, como Ulrike Meinhof, sua biografada.
Sobretudo,
os anti-heróis dessa aventura política dramática são péssimos pais,
que doutrinam em forma sectária os filhos desde o nascimento para, a
seguir, abandoná-los sem pena e dó, expondo-os comumente aos piores
perigos, a fim de dedicarem-se com maior liberdade à vida de
guerrilheiros tresloucados. Abordado longamente com sentimentalismo
pegajoso, o tema "filhos abandonados" demarca em forma gritante os
objetivos do autor de vacinar afetivamente a juventude alemã atual
contra o vírus do radicalismo anticapitalista, não apenas na forma
restrita e desviada de ações militares em nome de um movimento
social e objetivos político que jamais se identificaram nesses atos.
Sem
Coca-Cola, não é possível!
A
desconstrução literária dos militantes da RAF é levada ao extremo
também no relativo às capacidades de militantes. Absolutas nulidades
políticas, mentecaptos ideológicos, como guerrilheiros são
verdadeiros diletantes, chegando ao desplante de exigirem, acredite
quem quiser, em pleno campo de treinamento palestino, máquina
distribuidora de Coca-Cola! O que não impede, segundo o autor, que
esses aprendizes de guerrilheiros – que se inspiravam no
“Mini-manual do Guerrilheiro Urbano”, escrito por Carlos Marighella
em 1969 – tenham descoberto, na vertigem da atração pela violência
pura, tenham descoberto forte "paixão pelas armas".
A
assinalada explicação dos sucessos abordados, como produto de
idiossincrasias pessoais, à margem dos fortes confrontos políticos e
sociais dos anos 1960 e 1970, em claro refluxo na Alemanha e na
Europa, fecha definitivamente a possibilidade de compreensão da
gênese desses pequenos grupos armados – e do apoio e simpatia que
conheceram, ainda que muito pontual e decrescente – como a RAF, na
Alemanha; as Brigadas Vermelhas, na Itália; a Ação Direta, na França
etc. Fortemente midiatizadas, as ações desses grupúsculos
serviram para demonização das lutas sociais e políticas
anti-capitalistas, das quais eles se autodenominavam como vanguarda,
apesar de se manterem estranhos e dissociadas das mesmas,
orgânica, política e ideologicamente.
Ao abordar
a vida dos militantes da RAF na prisão, Alois Prinz quase justifica
as macabras experiências alemãs de longas reclusões à margem de
estímulos visuais e sonoros, com o objetivo de destruir os
prisioneiros, sem violências físicas direta, experiências mais tarde
generalizadas pelos estadunidenses, após o 11 de setembro. Métodos
de tortura limpa que levaram os presos da RAF a greves de
fome, como as empreendidas por Holger Meins que, com 1,83 de altura,
morreu de inação, com 39 quilos, em 9 novembro de 1974, contribuindo
para que nova geração de ativistas, já radicalmente dissociada de
movimento social em forte refluxo, seguisse em luta cada vez mais
isolada e sectária.
Na
conclusão de Desocupem as estradas dos sonhos: a vida de
Ulrike Meinhof, já despudoradamente, Alois Prinz lava as mãos no que
se refere à morte de sua biografada e de seus companheiros,
avalizando tanto a possibilidade do suicídio, como a das execuções,
questão, para ele, quase de menor importância. "[...] entre os
companheiros e simpatizantes surgiu o suspeito que os detidos
tivessem sido assassinados. A questão se e fosse tratado de
homicídio ou suicídio tornou-se uma questão de fé". Ou seja, crença
apoiada em pressupostos pré-determinados, independente de
acontecimentos objetivos, sobre os quais o autor praticamente não se
pronuncia.
Uma
História sem Fim?
Apenas em
1998, já desmobilizada, a RAF realizaria autocrítica parcial, ao
anunciar sua dissolução: "A RAF foi uma tentativa revolucionária de
uma minoria, em oposição à tendência da sociedade, de contribuir à
modificação das relações capitalistas [...]. A conclusão deste
projeto demonstra que não podíamos fazer daquele modo. Mas não
renegamos a necessidade e a legitimidade da revolta".
Nesse
então era já claro que a luta iniciada em 1969-70, sobretudo após o
enorme refluxo da vaga revolucionária e vitória mundial da
contra-ofensiva neoliberal, favorecera apenas a demonização
recém-assinalada do ativismo social na Alemanha e a ampliação da
legislação autoritária que se mantém, em boa parte, até hoje.
Realidades que sugerem o sentido da instrumentação daqueles
acontecimentos, desde seus inícios, pelo Estado alemão, ao igual do
ocorrido, talvez ainda em forma mais clara, na Itália. O próprio
Alois Prinz assinala – muito rapidamente e sem se aprofundar – que
as primeiras armas e bombas obtidas pelos estudantes, após o
assassinato do universitário Benno Ohnesorg, em 1967, por um
policial, foram cedidas pelos serviços secretos alemães.
Em março
de 2007, Brigitte Mohnhaupt, de 57 anos, membro da segunda geração
da RAF, obteve liberdade condicional, após 24 anos de prisão. Três
outros membros da RAF, todos eles já cinqüentenários, Christian Klar,
Eva Sybille Haule e Birgit Hogefeld, seguem ainda na prisão. A
liberdade de Brigitte e a próxima libertação de seus companheiros,
após cumprirem as penas exigidas pela lei aos condenados à prisão
perpétua, ensejou campanha de imprensa e declarações de órgãos
patronais denunciando a libertação de esquerdistas que, mesmo
renegando os atos violentos incondicionais, não abdicaram de suas
convicções sociais.
Imprensa e
associações patronais que, com seu silêncio cúmplice, permitiram
que, nas últimas três décadas, dezenas de milhares de oficiais,
soldados e funcionários nazistas, responsáveis pelas mortes de
milhões de civis, velhos, adultos e crianças, morressem gozando das
pensões recebidas pelos serviços prestados ao Estado alemão.
Responsáveis por crimes terríveis e notórios o como do pequeno
lugarejo toscano de Sant’Anna di Stazzema [www.santannadistazzema.org/],
onde, em 12 de agosto de 1944, mais de quatrocentos populares
refugiados da guerra, sobretudo velhos, mulheres e crianças, foram
assassinados a sangue frio. Apesar do crime bestial, os oficiais
nazistas responsáveis –
Werner Bruss; Alfred Concina; Ludwig Göring; Karl Gropler; Georg
Rauch; Horst Richter; Heinrich Schendel; Alfred Schönemberg; Gerhard
Sommer, Heinrich Sonntag etc. –
seguiram após a guerra comumente morando tranqüilamente na Alemanha
Federal. Um Estado alemão que, até hoje, nega-se a conhecer suas
responsabilidades e a levar à justiça os responsáveis diretos e
indiretos pelas execuções, a sangue frio, dos prisioneiros da RAF,
em maio e setembro de 1977.
Mário
Maestri é
professor do curso e do programa de Pós-Graduação em
História da UPF. É autor de, entre outros, Antonio
Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário,
escrito em associação com G. Candreva [São Paulo: Expressão
Popular, 2007]
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