FABRÍCIO MACIEL

Sociólogo e mestre pela UENF e membro do CEPEDES – Centro de pesquisas sobre desigualdade, da UFJF, coordenado pelo Prof. Jessé Souza

   

O que o Bope representa para a brasilidade

por Fabrício Maciel*

 

Nas últimas semanas, um fenômeno da indústria cultural de gigantescas proporções tomou ruas e casas de todo o Brasil, principalmente da cidade do Rio de Janeiro. Trata-se da disseminação do comércio pirata do filme “Tropa de Elite”, do diretor José Padilha, inspirado (mas não fielmente) no livro “Elite da Tropa”, de Luiz Eduardo Soares, et al (Objetiva, 2006). A intensa procura pelo filme, bem expressa na fala dos ambulantes que o vendiam (“todo mundo está vendo”), é sintomática de que seu conteúdo é facilmente aceito e que toca em pontos delicados do sentimento da população carioca como um todo, o que exprime bem o sentimento do brasileiro comum. Como já era de se prever, o lançamento oficial foi um sucesso, colocando-o imediatamente no centro do debate nacional.

O Rio de Janeiro é, há algum tempo, a sede de uma guerra que alcança níveis de violência já comparados por especialistas como semelhantes aos de Jerusalém. Ao mesmo tempo, é a cidade símbolo da brasilidade. Quem é que nunca ouviu algum de nossos mestres da MPB celebrando a magia e as beldades da cidade maravilhosa, enquanto palco central de todas as virtudes da identidade brasileira?

O fato de uma cidade sintetizar tal contradição certamente não é por acaso, e deveria despertar a curiosidade e atenção de todos que pretendem compreender a realidade social brasileira. Isto por que o Rio de Janeiro parece maximizar, e por isso mesmo tornar mais evidente à compreensão intelectual, o que considero um dos principais dilemas brasileiros: uma realidade de conflito cotidiano permanentemente negada pelo mito pacificador da brasilidade.[1] A negação do conflito em nosso imaginário nacional não podia se operar de outra maneira, a não ser negando também a luta de classes no cotidiano brasileiro, como pretendo desenvolver aqui, para compreender melhor a naturalização do conflito retratado no filme. Na realidade, o mito da brasilidade, para negar a luta de classes, precisa o tempo todo reificar uma idéia de singularidade brasileira que simplesmente omite a existência de classes sociais no Brasil (SOUZA, 2003; 2006). Para tanto, o mito brasileiro precisou ser constituído em torno de um ideal de harmonia e paz, através da idéia de síntese de opostos, exaustivamente sistematizada por Gilberto Freyre, desde seu clássico Casa Grande & Senzala.

Entretanto, para compreendermos bem a força deste mito pacificador, mesmo diante de uma verdadeira guerra na cidade-sede do mito, bem como o atual conteúdo velador que o mito assume hoje, é preciso voltar um pouco à história, onde tudo começou. Desde 1822, quando as elites brasileiras articularam a independência política do Brasil, em prol de seus próprios interesses diante da anterior dependência em relação ao Pacto Colonial português, o Brasil foi constituído como uma nação diante do cenário capitalista moderno. Este passo em nossa história exigia uma peculiaridade fundamental: nenhuma nação moderna é digna deste nome sem possuir uma identidade. Assim, José Bonifácio, o principal articulador da independência, foi quem melhor assumiu a tarefa de construção de um mito brasileiro (MACIEL, 2007).

Como nunca tivemos uma tradição de construção democrática de baixo pra cima, marcada pela predominância de uma concepção de conflito no sentido mesmo da polis grega, do embate de idéias que atua como mediador das relações intersubjetivas, traço este marcante do processo de construção nacional europeu, nosso mito precisou de outro conteúdo. Isto por que um mito, para alcançar eficácia prática, precisa mobilizar e exagerar traços comportamentais facilmente vistos no cotidiano, mesmo que isso signifique apenas uma construção ideológica a partir de traços superficiais de um povo, que nunca dão conta da totalidade de sua prática social. Na verdade, esta é a principal função social de um mito, e é só assim que ele consegue distorcer, mascarar e naturalizar a prática social de um povo.

Uma vez que não tínhamos o conteúdo da tradição européia e precisávamos também atender à necessidade de singularidade e autenticidade, sendo este outro traço central do nacionalismo moderno constituído a partir do século XVIII, nosso mito foi remetido à oposição extrema destes imperativos modernos. Apenas uma idéia de amálgama de extremos opostos, como iniciado por Bonifácio, poderia dar conta de mobilizar alguns aspectos minimamente convincentes da realidade brasileira, marcada pela existência de três raças de origens e hábitos culturais completamente distintos (MACIEL, 2007).

Todavia, a complexidade da coesão nacional exigia algo mais do que a síntese das três raças. Era preciso também justificar como tais raças, apesar da marca da escravidão, conseguiam conviver em um território tão vasto. Foi assim que Bonifácio articulou ideologicamente um cosmos mágico para dar conta de tamanha complexidade, montando uma espécie de sintonia entre o mundo natural das riquezas brasileiras com o mundo sobrenatural, de onde viriam as bênçãos e orientações para a organização e condução de nossa natureza. Isso foi desdobrado em um composto mágico que sintetizava em um só tempo Deus, a política, o povo e o território brasileiro. O maior símbolo de tal invenção encontra-se no Dia do Fico, onde D. Pedro I ritualisticamente teria recebido uma espécie de procuração social de toda a nação, confiando em seus critérios e em sua condição de representante abençoado (MACIEL, 2007).

Assim, estava pronto um mito perfeito. Perfeito por que encontrava, a um só tempo, um lugar ideal e único para cada elemento singular de nossa cultura, para cada raça, para todos os fatores naturais e todas as contingências da política. Sutilmente, o mito escondia os interesses de uma classe atrás da ilusão de um composto natural fruto da junção de todas. O que isso tem a ver com a guerra cotidiana do Rio de Janeiro e com os sentimentos mobilizados pelo filme que a retrata? Em primeiro lugar, é preciso compreender como o mito da brasilidade pacífica sobreviveu ao tempo. Em segundo, qual é a relação entre seu conteúdo específico e a naturalização de seu oposto, ou seja, um cotidiano marcado por uma realidade de conflito e de índices de violência que desafiam qualquer idéia de civilidade. Assim, será preciso compreender a relação do mito com a naturalização de uma ausência de classes sociais no Brasil, e neste ponto será possível entender onde o BOPE entra na infeliz história de sucesso da brasilidade.

A sobrevivência da brasilidade

Quanto ao primeiro ponto, conforme desenvolvi em meu já citado livro O Brasil-nação como ideologia, é preciso entender que todo mito precisa se revestir ao longo do tempo, apesar de manter um núcleo ideológico básico. Geralmente, um mito nacional se apropria de fatos marcantes da história, muitas vezes criando por si mesmo tais fatos, de modo a parecer dissolvido ou, no mínimo, enfraquecido diante do desenvolvimento da história nacional. É como se a história pudesse acontecer sem ele, como se ele fosse mero folclore, celebrado inocentemente em datas festivas oficiais. É exatamente esta capacidade de improviso e autonegação do mito que proporciona seu potencial de sobrevivência. Quanto mais parece fragmentado e fragilizado, mais esconde sua força no imaginário social da nação.  

Um excelente exemplo disso, provavelmente o maior, é a afinidade eletiva entre a sistematização do mito por Gilberto Freyre e a proposta governamental integradora de Getúlio Vargas. Neste episódio emblemático, a brasilidade foi, ao mesmo tempo, fruto e fator construtivo da história, sugerindo um cenário de mudança, em nome do progresso e da modernização, quando na verdade atualizava elementos ideológicos em função da integração nacional, continuando a tarefa inicial de Bonifácio (MACIEL, 2007). A sutileza da brasilidade em se apropriar de discursos momentâneos é bem ilustrada neste exemplo. Um de seus traços centrais, a capacidade de síntese de opostos, o que significa também resolução de situações difíceis e aparentemente insolúveis, foi posta a serviço do ideal de industrialização que solapava o Brasil naquele momento. De modo que a promessa de progresso e modernização foi suavemente re-significada pela força da brasilidade, como se esta tivesse a capacidade de realizar um processo de modernização autêntico, digno da suposta singularidade brasileira.

Este caso é sintomático do que sempre aconteceu em nossa história, estando a brasilidade sempre presente e colocando sua força ideológica integradora a serviço das várias fases de nosso processo de modernização. Este movimento é ambíguo, pois detrás de discursos modernos a brasilidade mantém seu conteúdo ideológico de que não somos modernos, de que lidamos com a modernidade do nosso jeito, meio que desdenhando de seus ideais e deixando que estes entrem apenas na medida em que não firam nossa identidade, sugerindo que jamais fomos e que talvez jamais sejamos plenamente modernos. O conteúdo afetivo de nosso mito é fundamental neste ponto, pois o que ideologicamente se sustenta é que a modernidade está aqui, mas apenas de forma epidérmica, pois o conteúdo frio e individualista de seu modo de vida é moralmente pior do que nossa personalidade dócil e amistosa. O preço político pago por nossa cidadania e democracia por conta desta fantasia substitutiva é incalculável, e isto é fundamental para compreendermos a força da brasilidade hoje.

Não é à toa que a principal propaganda do governo Lula seja “Brasil, um país para todos”. Neste momento, um de seus desdobramentos está sendo veiculado na TV aberta através de uma propaganda que mostra várias etnias indígenas se intitulando como brasileiras. Isto exprime bem o “progresso” de nossa ideologia nacional desde Bonifácio, onde os índios ainda não eram considerados brasileiros, mas sim povos amigos que deveriam ser integrados nesta identidade. Agora, não só eles, mas qualquer etnia que aqui resida está plenamente “integrada”, pois é exatamente isto que a citada propaganda, desdobramento da primeira, está sugerindo. Mais uma vez, o que temos aqui é o casamento ideológico entre ideais modernos (igualdade plena para todos) e a força da brasilidade (muitas diferenças suficientemente integradas), como se colonizássemos os primeiros em função da segunda, como se a brasilidade fosse a verdade, e não a ideologia. Assim, a brasilidade se apropria do discurso do multiculturalismo contemporâneo, adaptando-se facilmente a ele e conferindo-lhe sua cor verde e amarela. Ao invés de originalidade de um modo de vida, o que parece sugerido, o que temos é a sutil re-significação de uma ideologia nacional diante de ideais ocidentais modernos, numa fase do mundo globalizado onde o discurso do respeito às diferenças, apesar de conflitos identitários crescentes no mundo inteiro, está na ordem do dia.

Neste bojo, a força atual do movimento negro no Brasil me parece outro importante exemplo de re-significação da brasilidade. Todos sabem muito bem que este movimento se considera crítico da brasilidade, quando questiona seriamente a farsa das três raças e reivindica a partir disso uma releitura do lugar do negro em nossa história desigual. O que parece passar um tanto quanto despercebido nesta história de luta pela re-significação da função social de uma etnia específica é o significado de sua força exatamente nas duas últimas décadas, que não por acaso são as mesmas da predominância do imaginário multicultural contemporâneo. Como a brasilidade se atualiza aqui, apesar de ser conscientemente criticada por este movimento? Se olharmos bem, veremos que não há ênfase em conflitos de classe neste tipo de discurso, pois se trata da defesa de uma etnia historicamente prejudicada e não de alguma classe.[2] Ora, não é exatamente isso que a brasilidade sustenta, que não há classes sociais no Brasil, muito menos classes em conflito, uma vez que seu ideal é a harmonia entre todas as diferenças humanas, agora atualizada na versão multicultural do “Brasil, um país para todos”?

Assim, apesar da boa intenção do movimento negro (mas infelizmente não é isso que deve interessar à verdadeira sociologia crítica, mas sim os motivos e efeitos da ação social), a força e a influência de suas reivindicações só podem ser explicadas pela atual configuração da brasilidade em sua versão “multicultural”, onde como sempre não há conflitos de classe. Isto significa que um movimento social só alcança eficácia prática quando encontra no imaginário social o terreno moral e simbólico apropriado para sua recepção, o que neste caso é conferido pela força da brasilidade.

Bem, se estivermos convencidos de que a brasilidade ainda existe, depois destes três exemplos, um histórico e dois atuais, então já podemos começar a pensar em sua relação com a eficácia de fenômenos de massa no Brasil, como é o caso do filme “Tropa de Elite”. Por que os brasileiros, de todas as classes, se identificaram tanto com este filme? O que há de tão forte em seu conteúdo que, mesmo apesar da intenção crítica do diretor em “chocar” o público com a realidade da guerra, mobilizou tão facilmente os sentimentos do brasileiro mediano?[3]

A brasilidade e o conflito

Como vimos, um dos traços centrais da brasilidade é a negação, com a idéia de amálgama, de que haja qualquer tipo de conflito entre nós, incluindo aqueles derivados de qualquer contexto de luta de classes. Na verdade, nem mesmo há classes sociais para a brasilidade. A relação que nossa identidade nacional possui com a idéia de conflito, ou seja, uma verdadeira aversão que construiu um mito pacífico remetendo-se assim ao seu extremo oposto, é algo que só pode ser compreendido se pensarmos no ideal de autenticidade que assolou, desde o século XVIII, todas as nações que se propuseram o desafio de se enquadrar nos moldes modernos que definem a própria idéia de nação.

Toda a construção ideológica realizada desde Bonifácio ofereceu ao Brasil uma aparência de autenticidade pelo fato de se apresentar como o extremo oposto dos casos europeus clássicos de construção nacional. Enquanto eles precisaram trilhar o caminho “frio e cruel” do individualismo, nós teríamos encontrado uma saída bem mais agradável e amistosa para chegar ao mesmo lugar, ou seja, lidar com as exigências do modo de vida moderno. O que a brasilidade sustenta, ainda hoje, é que jamais nos rendemos a um modo de vida alheio, mas continuamos driblando-o e tirando dele apenas o que precisamos. Isto é o que se retrata em nosso imaginário do malandro e do jeitinho. Enquanto a história de construção nacional européia foi marcada por sangue e, como diria Foucault (2005), teve a política como continuação da guerra, a nossa teria sido muito melhor, pulando esta etapa inicial dolorosa e já começando perfeita, com a predominância inabalável da paz.

A análise do que o BOPE representa em nosso imaginário hoje é mais uma prova de que este imaginário de paz da brasilidade não passa de uma ideologia. Bem, comecemos pelo que aparentemente é a guerra que assistimos constantemente na cidade do Rio. Num primeiro momento, ela não passa de um combate ao crime organizado e fortemente armado, que ao mesmo tempo oferece perigo à população como um todo e é sustentado em grande parte pelo consumo de drogas da classe média. Assim, o próprio “asfalto”, como se costuma dizer, teria grande parcela de culpa pela desgraça no “morro” e que acaba respingando em todo mundo.  Isto é cruamente retratado no filme, sem nenhuma mediação crítica. Sutilmente, tudo acontece a partir de uma visão subjetivista de mundo, como se tudo dependesse de nossa vontade racional pessoal.

Se for mesmo assim, duas soluções facilmente são imaginadas: a classe média precisa parar de consumir, e isso é veiculado exaustivamente em inúmeras propagandas de TV, e por outro lado o Estado precisa cumprir sua parte, entrando na favela fortemente armado para combater os traficantes mais perversos. Obviamente, é aqui que entra o papel do BOPE em nosso imaginário. Ambas as soluções imaginadas pelo subjetivismo estão sendo encaminhadas, como se Estado e sociedade, numa falsa separação, estivessem cada um “fazendo sua parte”. O consumo de drogas parece não estar diminuindo, apesar de todo o incentivo moral, mas quase ninguém contesta que esta intenção seja pura e verdadeira, e no compartilhamento deste consenso a sociedade está cumprindo sua parte. O Estado, obviamente, já tem o BOPE pra cumprir a sua. Assim, tudo parece estar pelo menos encaminhado, ou seja, estamos tentando resolver a situação.

Mas, será mesmo assim? Em primeiro lugar, é preciso desconstruir esta separação entre Estado e sociedade. Nenhuma medida estatal encontra eficácia prática se não for embasada pela vontade nacional, ainda que esta não passe de ideologia. O que justifica o enorme interesse demonstrado pelo filme “Tropa de Elite” é que toda a postura e ideologia sintetizada no BOPE (pelo menos em sua versão idealizada no filme, e isto é o que importa para a análise de seu efeito) é exatamente aquilo que o brasileiro mediano mais quer ver, o que mais mobiliza seus sentimentos de apoio e mais o conforta. Assim, não é apenas uma medida do Estado, mas um efeito do que realmente pensamos e sentimos sobre o evento em jogo, ou seja, a guerra. Por quê? Que sentimentos são estes? E que tipo de guerra é essa, onde parece que não estamos todos envolvidos, que se trata apenas de uma questão de Estado, em cumprir sua tarefa com a segurança pública?

Bem, aqui é preciso entender a forma sutil como a brasilidade vela a luta de classes. No fundo, o que está em jogo na atuação do BOPE é um tipo de guerra ideológica entre o bem o mal, em sua versão naturalizada pela brasilidade. O BOPE, conforme retratado pelo filme, é uma corporação de homens justos, não corrompidos, puros, que por uma causa nobre, sem ganhar mais por isso, decidem ir para a guerra e cumprir sua missão em nome do bem, combatendo o tráfico e a violência, num cenário onde sutilmente é sugerido que esta é fruto direto do tráfico, como se nada tivesse a ver com nossa desigualdade estrutural.[4] Uma leve inversão de causas e efeitos é operada aqui. Como não há classe social em toda esta história, nenhum de nossos problemas sociais pode ser derivado de alguma desigualdade de classe. Do mesmo modo, em nosso imaginário do bem e do mal não há classe. Assim, o outro lado da guerra, os traficantes, é a representação encarnada do mal, administrando a entorpecência dos filhos da classe média, além de atuarem como verdadeiros tiranos para suas comunidades, oferecendo falsa proteção, que no fundo sai caro, em sua condição de “poder paralelo”.[5] Assim, eles seriam uma “causa”, senão a única, da grande questão social em pauta no Brasil de hoje: a violência.

A análise de nossa luta de classes velada pela brasilidade procura mostrar exatamente o contrário: tanto traficantes quanto o BOPE são “efeitos” de um mesmo processo de naturalização de nossa desigualdade[6]. Se para a brasilidade não há classes sociais em luta no Brasil, então jamais poderemos ver os traficantes enquanto efeitos, enquanto filhos de uma massa de gente naturalizada como inferior pelos acordos morais de nossa sociedade do mérito, que valoriza e prioriza um tipo específico de gente para uma inserção considerada digna no mercado de trabalho. Trata-se daquele tipo portador do auto-controle e do cálculo prospectivo, disposições estas que a “ralé estrutural”, como vem analisando Jessé Souza desde seu Construção Social da Subcidadania (2003), já em sua socialização primária na família está impossibilitada de adquirir.

Ademais, a brasilidade também nos impede de ver o BOPE enquanto efeito, exercendo ele um duplo papel, perfeitamente afinado. Por um lado, ele mobiliza facilmente os sentimentos de brasileiros de todas as classes, pois parece estar ocupando o vazio de nossa impunidade generalizada, pensamento este que só é possível exatamente por não vermos nossa desigualdade de classe, o que alimenta a idéia de que todo erro, transgressão ou corrupção é uma questão de foro individual e por isso deve ser combatido da maneira que for necessária, mesmo que esta seja a força e envolva os maiores riscos para a vida de inúmeras pessoas, como é o caso da guerra na favela. Isto já toca no segundo ponto.

A atuação do BOPE representa também um efeito dos sentimentos de classes médias e dominantes, onde estas precisam se proteger do perigo oferecido pelo tráfico. Toda vez que o “Fantástico” da Rede Globo mostra o BOPE subindo o morro, o sentimento compartilhado por quem não é da ralé, pré-reflexivamente, mas em alguns casos de conservadorismo mais assumido até mesmo conscientemente, é de que estamos combatendo estes “delinqüentes” que são a causa de todos os nossos problemas, como se a ameaça real de perigo para todas as classes não fosse um efeito dos acordos morais modernos classificadores e naturalizantes de nossa desigualdade de classe.

O que jamais pode ser tematizado por nossa naturalização, operada pela brasilidade, é que esta espécie de vingança da ralé, impessoal e inarticulada, expressa na violência como um todo, não só no tráfico, é um efeito da dominação impessoal de classe. É como se o “feitiço virasse contra o feiticeiro”. Só que o feiticeiro aqui não é nenhuma classe específica, mas sim toda a sociedade meritocrática que compartilha uma concepção hierarquizante comum de dignidade e do que é “ser gente” e que paga com o risco de todas as classes pelo efeito de uma violência inarticulada por parte daqueles que não são reconhecidos como dignos de respeito, pois não tiveram a oportunidade objetiva de trilhar o caminho incontornável do mérito capitalista.

Assim, a guerra BOPE x traficantes nada mais é do que um dos mais nítidos reflexos de nossa luta de classes velada, reflexo este desdobrado em um nível de conflito e violência mais do que suficiente pra desmentir qualquer idéia de pacificidade no cotidiano brasileiro, para além daquele idealizado na imagem da “cidade maravilhosa”. As duas faces desta mesma moeda de nossa luta cotidiana, que nesta guerra é maximizada, mas que ocorre invisivelmente (e aqui sim, pacificamente, com a ajuda da brasilidade) em nossa distinção de classe, onde o mérito atribui espontaneamente privilégios para um lado e sacrifícios para o outro, podem ser vistas da seguinte maneira. Por um lado, o título “Tropa de Elite” parece exprimir um significado ambíguo, referindo-se a algo mais do que apenas uma tropa de alto nível de treinamento, e a “elite” aqui pode ser as classes e segmentos de classe cujos sentimentos ele mais representa; por outro, sua formação também é ambígua, e aqui se reflete mais uma vez o paradoxo de nossa desigualdade: os homens que compõem o BOPE são originados em sua maioria das classes baixas, ao mesmo tempo em que a corporação representa especialmente sentimentos de classes médias e dominantes, ou seja, do bem.

Deste modo, a realidade do BOPE é uma só, nua e crua: é ralé matando ralé. O significado dessa matança, justificada pela brasilidade como uma guerra do bem contra o mal, deriva de um sistema impessoal de naturalização da desigualdade que deixa bem claro quem deve ser preservado e quem pode morrer na guerra. Trata-se de uma guerra impessoal entre classes que, como diria Foucault (2005), tem como objetivo “fazer viver” e “deixar morrer”.

 

Bibliografia

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. São Paulo: Global, 2004.

MACIEL, Fabrício. O Brasil-nação como ideologia: a construção retórica e sócio-política da identidade nacional. São Paulo: Annablume, 2007.

SOARES, Luiz Eduardo; BATISTA, André; PIMENTEL, Rodrigo. Elite da tropa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

SOUZA, Jessé. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade periférica. Rio de Janeiro; Belo Horizonte: IUPERJ; UFMG, 2003.

______. A invisibilidade da desigualdade brasileira. Belo Horizonte: UFMG, 2006.

“Tropa de Elite”. O filme. Direção: José Padilha. 2007.


 

* Sociólogo e mestre pela UENF e membro do CEPEDES – Centro de pesquisas sobre desigualdade, da UFJF, coordenado pelo Prof. Jessé Souza

[1] Ver meu livro “O Brasil-Nação como ideologia: a construção retórica e sócio-política da identidade nacional” (São Paulo: Annablume, 2007).

[2] Recentemente, Jessé Souza analisou esta grave inversão em nosso imaginário em seu artigo “A visibilidade da raça e a invisibilidade da classe: contra as evidências do conhecimento imediato” (In: Jessé Souza (org.) A invisibilidade da desigualdade brasileira. Belo Horizonte: UFMG, 2006).

[3] Este foi o posicionamento do diretor no programa “Roda viva” da TVE veiculado logo após a estréia oficial do filme.

[4] Mesmo que o BOPE não seja mais a corporação tão “perfeita” do início, o que importa aqui é compreender seu significado em nosso imaginário, ou seja, por que sua postura e ideologia original mobilizaram tão fortemente os sentimentos dos brasileiros.

[5] Longe de romantizar a liderança do tráfico na comunidade, o que precisa ficar claro é que este discurso sobre seu “poder paralelo” é sutilmente utilizado nesta inversão em nosso imaginário sobre causas e efeitos da violência.

[6] Para um entendimento cabal deste processo ver o livro organizado por Jessé Souza A invisibilidade da desigualdade brasileira (Belo Horizonte: UFMG, 2006).

   

 

 

 

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