
LEANDRO
KONDER
Filósofo
marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da
Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro
Nota do editor:
Os
textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna
da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo
é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e
publicados em "Intelectuais brasileiros &
marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991).
O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA.
Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.
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Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Otto
Maria Carpeaux (1900-1978)
por Leandro
Konder
Em
agosto de 1939 Otto Maria Carpeaux chegou ao Brasil, fugindo da
Holanda, em companhia de sua mulher, dona Helena. Era um escritor
austríaco antinazista, cuja vida tinha se tornado impossível na
Áustria, anexada por Hitler à Alemanha. Vira o começo de uma época
terrível da história da Europa e decidia vir para o “Novo Mundo”.
Para sublinhar sua decisão de recusar qualquer conciliação com o que
estava havendo no Reich, mudara seu sobrenome germânico Karpfen para
o francês Carpeaux.
Chegou sem saber mais de quinze ou vinte palavras em
português. Com sua extraordinária autodisciplina, porém, dedicou-se
a aprender o idioma e três anos depois já falava o suficiente não só
para obter a cidadania brasileira como também para escrever seu
primeiro livro na nossa língua: uma coletânea de ensaios intitulada
Cinza do purgatório.
Carpeaux tinha dificuldade para se comunicar
oralmente com as pessoas. Primeiro, porque era muito gago. Depois,
porque tinha uma deficiência na articulação do maxilar e, de vez em
quando, o queixo como que se “soltava” ligeiramente, ficava um tanto
“caído”, até o escritor “encaixá-lo” novamente com suas próprias
mãos no devido lugar. Esses obstáculos o estimulavam a se expressar
por escrito; e durante várias décadas ele alimentou a imprensa
carioca e a imprensa paulista com artigos.
Em seus primeiros anos de atividade entre nós,
Carpeaux se mostrava muito cauteloso em relação aos problemas
políticos brasileiros. As autoridades do Estado Novo getuliano não
tinham porque hostilizá-lo. Vendo que ele não era reprimido e
sabendo que tinha vindo da Alemanha, alguns jovens intelectuais de
esquerda passaram a desconfiar dele. Quando perceberam que Carpeaux,
em seus artigos, criticava as posições do “marxismo-leninismo”,
então, os aguerridos moços revolucionários o estigmatizaram como
“nazistóide” (o que era grotesco, quando se leva em conta o fato de
que o homem tinha vindo para cá fugindo do nazismo).
Carpeaux ficou, compreensivelmente, magoado com essas
pessoas. Até o fim da vida, manifestou sempre irritação, por
exemplo, contra Jorge Amado. Com seu rigor, descobriu que, num de
seus romances, o autor da Tieta do agreste chamava a palavra
“inacreditável” de advérbio; e se perguntou, ironicamente, em que
outra literatura mundial seria possível encontrar um escritor
consagrado capaz de confundir um adjetivo com um advérbio. Jorge
Amado detestava Carpeaux (e nos anos sessenta chegou a haver
pugilato num encontro entre os dois).
A importância da atuação de Carpeaux como crítico
literário no Brasil dos anos quarenta e cinqüenta foi enorme.
Alfredo Bosi, o autor da excelente História concisa da literatura
brasileira, recorda com emoção os artigos que lia, “cheios de
verve, poesia e paixão”; e declara ter ficado marcado pela postura
despreconceituosa que encontrou no ensaísta austríaco: “a ampla
margem de liberdade que ele se atribuía ao enfrentar qualquer autor
e ao exercer qualquer método”. O ensaísmo de Carpeaux, na avaliação
de Bosi, “é um diálogo com a historicidade profunda de todas as
obras”.
Outro depoimento importante é o do nosso mestre
Antonio Candido, que fala do “impacto renovador” causado pelos
ensaios de Carpeaux e da amplitude do seu ponto de vista universal,
que lhe permitia “transpor as limitações eventuais do nacionalismo
crítico, cuja função histórica é importante em certos momentos, mas
não deve servir para obliterar a dimensão verdadeira do fenômeno
literário, que por sua natureza é tanto transnacional quanto
nacional”.
Carpeaux, por sua história de vida, estava vacinado
contra a ingenuidade do “nativismo”: seu quadro de referências é,
como se pode notar em seus ensaios, vasto demais para permitir
encantamentos ilusórios em relação à “pureza” de alguma
“brasilidade” oculta, de onde virá a nossa “redenção” cultural (e
política?).
Não basta se abrir para a riqueza da cultura alheia:
é preciso não se prender a um “modelo” particular de qualquer
cultura estrangeira. É preciso diversificar as fontes de
conhecimentos. E Carpeaux, num Brasil cujos intelectuais tendiam a
se encantar exclusivamente com a cultura francesa, introduziu as
reflexões espanholas sobre o barroco; revelou a riqueza das
preocupações dos ensaístas italianos com a história (com Vico e De
Sanctis) e ampliou nosso contato com a literatura de língua alemã.
Foi Carpeaux, aliás, quem apresentou Kafka aos brasileiros
(fascinando-nos a todos nós com o relato de seu encontro pessoal com
o genial escritor tcheco: os dois foram apresentados uma vez e o
nosso bem-humorado ensaísta austríaco confessava que nem sequer o
nome do autor de O processo ele conseguiu entender
direito...).
Carpeaux tinha um senso de humor muito especial. Era
um católico convicto, mas ridicularizava o atraso do pensamento
católico conservador no Brasil. Divertia-se com as manifestações de
misticismo manipuladas pelos grandes meios de comunicação de massa.
E se divertia consigo mesmo, com as vicissitudes cômicas de sua
experiência pessoal. Lembro-me de tê-lo ouvido contar uma história
impagável: ele tinha ido a Belo Horizonte e estava na estação
rodoviária tentando comprar uma passagem de ônibus para voltar ao
Rio. Na época, os jornais falavam insistentemente de um padre
milagreiro, que estava fazendo curas espantosas, em Urucânia, em
Minas Gerais. Carpeaux chegou ao guichê e pediu: “Quero uma passagem
para o...” Nesse momento, o queixo dele caiu, o maxilar
sofreu um deslocamento que o impedia de continuar falando. Então, o
homem do guichê atalhou: “Para Urucânia, já sei”. E Carpeaux,
reajustando o maxilar deslocado, replicou, enérgico: “[...] para o
Rio de Janeiro, seu idiota!”.
Às vezes era difícil saber quando ele estava falando
com seriedade e quando estava brincando. Sua maneira de ver as
coisas comportava o reconhecimento de que existem princípios pelos
quais os seres humanos devem lutar até morrer e existem
circunstâncias passageiras que nos envolvem mas nós não devemos
respeitar além da conta. A condição humana é cheia de ambivalências.
E o melhor da literatura, segundo Carpeaux, estava na sua capacidade
de registrar a força dos princípios essenciais, sem no entanto
forçar artificialmente a supressão das ambigüidades que proliferam à
nossa volta.
A literatura nos ensina a não sermos simplistas.
Carpeaux trazia para seus leitores brasileiros observações que os
ajudavam a compreender as sutilezas e diversidades dos grandes
autores. Seus ensaios, parcialmente reunidos em livros (Origens e
fins, Perguntas e respostas, Retratos e leituras, presenças),
discorriam sobre os romances de Graciliano Ramos e sobre os poemas
de Carlos Drummond de Andrade, mas também sobre Fernando Pessoa,
Shakespeare, James Joyce, Jonathan Swift ou Jorge Luís Borges. Tinha
uma imensa capacidade de admirar a obra dos “grandes”; porém
dispunha, igualmente, de uma disposição incansável para investir
contra os falsos valores.
Não perdoava besteira, qualquer que fosse a boca que
as pronunciava, qualquer que fosse a caneta que as escrevia.
Escrachou o filme Moulin Rouge e a biografia de Toulouse
Latrec que lhe serviu de base, pondo a nu o conteúdo reacionário das
mentiras “sentimentais” acolhidas e divulgadas pela obra. Quando
Aldous Huxley do alto da sua “cultura enciclopédica”, afirmou que a
“bondade” era o verdadeiro fundamento da poesia e que um criminoso
nunca poderia escrever um bom poema, Carpeaux protestou
energicamente; e disse que Huxley, cuja leitura preferida era a
Enciclopédia Britânica, provavelmente ainda não tinha, em seu
livro de cabeceira à letra V, de “Villon” (que era escroque e
assassino, embora tenha sido também o maior poeta francês do seu
tempo).
A ingenuidade, aplicada a fenômenos humanos
complexos, prejudica o valor das criações literárias. Quem ama de
fato a literatura está obrigado a amá-la com inteligência. E
Carpeaux, empenhado na guerra em prol do amor inteligente pelas
letras, redigiu sozinho uma monumental História da literatura
ocidental, em oito grossos volumes (mais um volume de índices e
suplemento). Diversos críticos assinalaram falhas nessa realização
colossal, tropeços, omissões, ninguém, entretanto, pode deixar de
admirá-la, em sua imponência. Nunca no Brasil alguém tinha
empreendido algo parecido. E talvez jamais venha a se tentar algo
semelhante.
Mas Carpeaux não se limitava a amar a literatura;
amava também a música. Seu amigo o crítico Álvaro Lins (que o lançou
como colunista de jornal no começo dos anos quarenta) me contou uma
vez que Carpeaux gostava de ouvir a execução de certas peças de
criação musical acompanhando-as pela leitura das respectivas
partituras. Estava tão familiarizado com os sons como com a teoria
musical. E foi esse sólido conhecimento que lhe permitiu escrever e
publicar (em 1958) o fascinante livro Uma nova história da música.
Ainda há mais, contudo: Carpeaux estudava e amava a
literatura e a música, estudava e amava a história, mas também a
política. Seu destino pessoal tinha sido marcado por acontecimentos
políticos e ele não podia deixar de se interessar pelas vicissitudes
do poder, das instituições e dos conflitos sociais. Se não
desenvolvermos uma consciência crítica das condições em que o poder
se exerce nas nossas sociedades, ficaremos à mercê de tiranos que
exercerão o poder abusivamente sobre nós. Carpeaux, então, se sentia
obrigado a ler – e muito! – sobre política. E a inclusão de mais
esse campo de observação em seus estudos ampliou ainda mais seu
quadro de possibilidade. (O que levou Antonio Candido a escrever:
“Otto Maria Carpeaux poderia ter sido o que quisesse, cientista,
professor, crítico de arte, de música ou de literatura, líder
político, doutrinador”).
Mas Carpeaux não se limitava à teoria; também estava
disposto a ter participação prática. Quando o golpe de 1964 desabou
sobre nós, inaugurando uma era de repressão extremada na sofrida
história do Brasil, o bravo ensaísta austríaco – já completamente
abrasileirado, mas identificado com o povo brasileiro do que os
novos detentores do poder – passou a usar sua coluna no Correio
da Manhã para fustigar, implacavelmente, as arbitrariedades do
governo. Fazia-o indiretamente, discorrendo sobre o que se passava
em outros países, cujos povos também estavam sendo oprimidos.
Recorria ao velho método alegórico, à técnica do fabulista Esopo:
como ele mesmo dizia, servia-se de uma “linguagem esópica”. Os
leitores o liam, compreendiam o recado que estava sendo transmitido
e se deliciavam. Os censores se irritavam, porém não conseguiam
fazer nada para impedi-lo de continuar a escrever seus artigos
(reunidos, afinal, no volume O Brasil no espelho do mundo).
Tornou-se, de uma hora para outra, bastante popular.
O que o trabalho de uma vida inteira não tinha conseguido, foi
obtido através da repercussão de sua firme atitude de oposição à
ditadura: os estudantes o descobriram. Carpeaux passou a ser
reiteradamente solicitado a fazer conferências e convidado a
participar de debates e eventos políticos. As pessoas o apontavam na
rua, umas para as outras, identificando-o, cheias de admiração.
Lembro-me de ter ido uma vez com ele a Juiz de Fora,
para participarmos de um debate. Eu era filiado ao Partido Comunista
Brasileiro, estava emprenhado em fortalecer os movimentos sociais
para uma longa luta de resistência antiditatorial e via com
ceticismo o estado de espírito “radical” que se manifestava em
diversas lideranças e setores expressivos do movimento estudantil.
Carpeaux, que ardia de impaciência e revolta, ia disposto a jogar
lenha na fogueira. Conversamos com franqueza durante a viagem;
expusemos um para o outro, lealmente, nossos pontos de vista. Não
consegui convencê-lo da razoabilidade das minhas apreensões (que o
AI-5 – o famigerado Ato Institucional nº 5 – confirmaria,
tristemente, alguns meses mais tarde). Carpeaux também não conseguiu
me convencer da justeza de suas combativas posições.
Quando chegamos a Juiz de Fora, vimos que a promoção
da Editora Civilização Brasileira tinha mobilizado muita gente e que
os estudantes enchiam o lugar onde íamos debater. Percebi que, entre
eles, as tendências de esquerda mais extremadas eram hegemônicas. Os
ventos iam soprar mais para o lado do Carpeaux do que para o meu.
Tive, então, por um momento, um pensamento mesquinho: “Tomara que a
gagueira atrapalhe o discurso dele.”
Não atrapalhou. Carpeaux, rejuvenescido pela paixão e
pela combatividade, comoveu o público com suas palavras candentes,
denunciando a ilegitimidade da ditadura militar e conclamando as
pessoas à desobediência civil. A estudantada vibrou de entusiasmo. E
eu acabei contagiado pelo clima que se criou. Olhando o
septuagenário Carpeaux, que lançava as palavras como dardos, que
fulminava os reacionários com seu sarcasmo, tive, por um instante, a
impressão de que ele era mais forte do que o general-ditador.
Hoje, ao recordá-lo, me dou conta de que Carpeaux
realmente tinha um poder maior, que o traz de novo para nós,
redivido, enquanto o outro mergulha cada vez mais num merecido
esquecimento.
O próprio Carpeaux, seguramente, caracterizaria sua
vitória póstuma como uma comprovação da superioridade do espírito
sobre a matéria. Sua convicção inabalável era essa: os valores do
espírito acabam preponderando sobre a força bruta. E, para confirmar
sua tese, o ensaísta católico, nas conversas que tinha com seu
interlocutor marxista, citava o exemplo de Antonio Gramsci, cuja
inteligência fulgurante continuou a brilhar no cárcere fascista,
apesar da devastação que os asseclas de Mussolini produziram em seu
frágil corpo alquebrado.
Desde o começo dos anos sessenta, começaram a se
multiplicar as referências de Carpeaux a Gramsci. Em março de 1966,
na Revista Civilização Brasileira, Carpeaux publicou um
artigo intitulado “A vida Gramsci”. Nesse artigo, sublinhava
importância da sólida base cultural e filosófica do pensamento
gramsciano, destacava suas raízes croceanas e chamava as Cartas
do cárcere de “obra-prima da literatura italiana”. Reconhecia,
em três momentos, a universalidade da lição do fundador do PCI: 1)
no exemplo de resistência incansável à ditadura fascista; 2) na
denúncia da alienação do elitismo “cosmopolita” dos intelectuais e
na necessidade de uma reconstrução da intelligentsia em bases
verdadeiramente nacionais; e 3) na crítica radical às distorções
profundamente antidemocráticas acarretadas à sociedade pela falta da
reforma agrária e pela preservação dos latifúndios.
Entusiasmado com a vitalidade do pensador italiano,
Carpeaux assegurava: “O pensamento de Gramsci está hoje mais vivo
que no momento da morte do seu corpo. A vida de Gramsci continua”.
Lembro-me de que, quando li o artigo, pensei: o meu
valente amigo católico, finalmente, encontrou o seu marxista.
23-2-1990
In: KONDER,
Leandro.
Intelectuais
Brasileiros e Marxismo.
Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 59-64
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