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ALEXANDRE BARBOSA FRAGA
Graduado em Ciências Sociais pela
UFRJ e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia da UFRJ.
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De substantivo plural a singular: a transformação das classes
trabalhadoras em classe operária
por Alexandre Barbosa Fraga
Resumo:
Este artigo confronta as teorias de Thompson e Hobsbawm a respeito
da época e das circunstâncias em que as classes trabalhadoras
inglesas transformaram-se em classe operária.
Palavras-chave:
Thompson, Hobsbawm, classe operária, classes trabalhadoras,
Inglaterra.
I – A formação da classe operária
Thompson e Hobsbawm indagaram-se sobre uma mesma
questão: quando e como as classes trabalhadoras transformaram-se em
classe operária? Para ambos essa transformação é um fenômeno
histórico que ocorreu na sociedade inglesa, mas enquanto para
Thompson a classe operária se formou de 1780 a 1832, para Hobsbawm
isso somente ocorreu bem mais tarde, de 1870 a 1914. Dessa forma, há
entre eles uma discordância no aspecto temporal que, como será aqui
retratado, tem por trás uma interessante diferença teórica.
Edward P. Thompson, em A Formação da Classe
Operária Inglesa, estudou o processo de fazer-se da classe
trabalhadora na Inglaterra. Os trabalhadores antes de serem
operários, reagiram para se manterem artesãos. Para ele, neste
processo de transformação econômica, a classe trabalhadora estava em
luta, querendo reagir à implementação do regime capitalista. Os
tecelões e artesãos aproximaram-se por meio dos costumes, das
tradições e dos valores que tinham em comum e reagiram coletivamente
contra o trabalho assalariado.
Para Thompson, é discutível a idéia de que foram os
operários que formaram o verdadeiro núcleo do qual o movimento
trabalhista retirou suas idéias, organização e liderança. Para ele,
em muitas cidades inglesas, isso foi formado por sapateiros,
tecelões, seleiros, livreiros, impressores, pedreiros e pequenos
comerciantes. "No princípio da década de 1830, os tecelões manuais
do algodão superavam todos os homens e mulheres empregados nas
fiações e tecelagens industriais de algodão, lã e seda somados"
(THOMPSON, 1987b: 15).
Entre 1780 e 1832 já haveria a formação da classe
operária, por conta da consciência de uma identidade de interesses
entre esses diferentes grupos de trabalhadores e por haver uma
crescente organização política e industrial (sociedades de auxílio
mútuo, movimentos religiosos e educativos, organizações políticas,
periódicos). "O fazer-se da classe operária é um fato tanto da
história política e cultural quanto da econômica. Ela não foi gerada
espontaneamente pelo sistema fabril" (THOMPSON, 1987b: 17).
A imprensa operária vinha amadurecendo o movimento
cartista. Os "não-franqueados", jornais semanários que não pagavam o
imposto estipulado na legislação sobre as taxas de franquia das
publicações, traziam notícias sobre as lutas e debates sobre a
teoria sindical e socialista. "O exame desse período ultrapassa os
limites deste estudo, levando-nos a uma época em que a classe
operária não se encontrava mais em seu fazer-se, já estando feita
(em sua forma cartista)" (THOMPSON, 1987c: 323).
A lógica capitalista e o comportamento tradicional
dos artesãos encontravam-se em conflito, que era verificado na
resistência a novos padrões de consumo, a uma disciplina do tempo, à
inovação técnica e à racionalização do trabalho. Esses trabalhadores
construíram-se como classe no processo em que sentiram uma
identidade de interesses entre si e contra os dirigentes: "A classe
acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns
(herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus
interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem
(e geralmente se opõem) dos seus" (THOMPSON, 1987a: 10).
As formas de luta encontradas nesse conflito se deram
através, por exemplo, dos movimentos do luddismo e do cartismo. Foi
através desses movimentos que os artesãos reagiram à implementação
do industrialismo. Por trás desses movimentos havia uma ação que
refletia os valores de uma coletividade. Esse tipo de reação já era
uma luta de classes.
Dessa forma, a consciência da identidade de
interesses entre os trabalhadores das diferentes profissões somente
existia de forma fragmentária na Inglaterra de 1780, mas em 1832 já
podia ser sentida em todo o país, revelando assim, segundo o autor,
a formação da classe operária inglesa.
Diferente de Thompson, para Eric J. Hobsbawm, em "O
Fazer-se da classe operária, 1870-1914", é possível delimitar
historicamente a época em que as classes trabalhadoras
transformaram-se na classe operária como sendo de 1870 a 1914.
Veremos sob quais circunstâncias, segundo esse autor, as classes
trabalhadoras passaram de substantivo plural para singular nessa
época.
Thompson entende a formação de uma classe operária no
período anterior ao cartismo e durante este movimento, porque ele
não está preocupado com a situação madura da classe operária, nem
com a forma como ela é percebida pelas outras classes. Segundo ele,
a classe acontece quando os trabalhadores se agregam para lutar
contra o estabelecimento de uma prática de trabalho inovadora, o
trabalho assalariado. Como Hobsbawm está preocupado não somente com
a forma como a classe operária se vê, mas também com a forma como
ela é vista pelos demais atores sociais, para ele "a classe
trabalhadora não estará "feita" até muito depois do final do livro
de Thompson" (HOBSBAWM, 1987: 275).
Segundo Hobsbawm, as classes estão sempre mudando,
mas é possível delinear a emergência da classe operária enquanto
grupo social durante certo período. A percepção de uma classe
operária única, singular, foi possível por uma série de fatores: o
uso de boné chato pelos proletários britânicos, o ambiente físico no
qual viviam, o estilo de vida e de lazer que apresentavam, e a
consciência de classe expressa na afiliação a sindicatos de
proletários e na identificação com um partido de classe, o
Trabalhista. Dessa forma, é necessário levar em conta as condições
de vida, mas também as práticas políticas.
Para uma compreensão da formação da classe operária é
necessário entender as maneiras como a expansão de uma nova economia
industrial afetou o proletariado. Em primeiro lugar, a classe
operária aumentou muito em tamanho absoluto e em concentração. Em
segundo lugar, a composição ocupacional das classes trabalhadoras
mudou substantivamente, aumentando o número de ferroviários e de
mineiros. Mudou também a sua composição etária e por sexo, com a
diminuição do emprego de crianças em idade escolar e a introdução
modesta, porém inovadora, das mulheres em indústrias fabris que não
as do ramo têxtil.
Em terceiro lugar, houve a integração nacional e o
crescente papel do Estado tanto nessa integração quanto na
concentração cada vez maior da economia nacional e de seus setores.
Em quarto lugar, houve a ampliação do direito de voto. Para
Hobsbawm, esses quatro fatores são importantes, porque sem eles é
difícil entender como aquele agregado de microcosmos que formava o
mundo do trabalho britânico pôde se transformar num fenômeno
nacional.
Foi durante o período de 1870 a 1914 que o boné chato
tornou-se característico do proletário britânico. Dessa forma, os
trabalhadores ingleses adotaram o uso de um símbolo que
imediatamente os identificava como membros de um grupo e expressava
uma identidade comum. O seu uso permitia tanto que os trabalhadores
se percebessem como classe, quanto que fossem reconhecidos assim
pelos grupos não operários e pelo Estado.
A década de 1880 é um marco para a formação da classe
operária, porque a partir dela há transformações substanciais nas
suas condições materiais de vida. Uma referência dessa classe passa
a ser a lanchonete de peixe e fritas, o que demonstra certa
padronização de gosto dos operários. Há também uma transformação do
seu padrão de lazer e de férias e a ascensão do futebol como esporte
para proletários.
Após 1870, houve o surgimento da habitação
regulamentada, produzindo muito do ambiente de vida da classe
trabalhadora. Passaram a existir ruas, distritos e até mesmo
subúrbios destinados à classe operária. Também houve o surgimento,
na década de 1880, do transporte público de massa a baixo preço.
Configurou-se, então, uma segregação residencial.
A expansão do direito ao voto abriu a possibilidade
de que alguns operários fossem para o Parlamento, podendo falar
diretamente em favor dos interesses dos trabalhadores. Cada vez
mais, as massas de operários britânicos consideravam o voto
Trabalhista, em representantes da classe operária, como conseqüência
automática de serem trabalhadores.
Com a possibilidade de existirem operários no
Parlamento, seus pares passaram a não só poderem reivindicar ações
mais imediatas, como a jornada legal de oito horas, salário mínimo
garantido e melhor segurança física no trabalho, mas terem a
oportunidade de fazer parte das decisões da Inglaterra de uma forma
mais ampla, do pensamento sobre o projeto de país.
Dessa forma, Hobsbawm deixa claro que entre 1880 e
1914 a soma de todos esses fatores citados é uma percepção crescente
de uma classe operária única com consciência de classe. Embora ainda
houvesse algumas diferenças internas, a classe operária estava
aglutinada através de um destino comum. Fazia cada vez menos sentido
falar em "classe dos mineiros" ou em "classe dos ferroviários",
porque o que estava formada era a classe operária inglesa.
II – Considerações finais
Thompson e Hobsbawm divergiram teoricamente a
respeito de como e quando as classes trabalhadoras passaram de
substantivo plural para singular. O interessante é que a análise de
um não desqualifica necessariamente a do outro, uma vez que eles se
basearam em pressupostos teóricos distintos.
A chave para compreender a diferença entre esses dois
autores está no fato de eles terem preocupações um tanto distintas.
Enquanto Thompson parece estar preocupado com a visão interna à
classe, de uma consciência de interesses em comum que faça com que
os trabalhadores se percebam como um grupo; Hobsbawm parece ter duas
preocupações, tanto com a visão interna à classe, quanto com a visão
de outros grupos, a visão externa. Na sua lógica, a classe operária
não se define só por si mesma, mas pelo fato, por exemplo, do Estado
a perceber como classe.
Para Thompson, a união dos trabalhadores ingleses
entre 1780 e 1832, quando passaram a sentir uma identidade de
interesses entre si e contra seus dirigentes, já revela o surgimento
da classe operária, que luta e protesta através, por exemplo, do
luddismo e do cartismo. Hobsbawm acredita que, em certo sentido,
Thompson acertou ao datar o surgimento da classe trabalhadora na
sociedade britânica do início do século XIX, mas, segundo ele, é
entre 1870 e 1914 que a classe operária emerge enquanto grupo
social, uma vez que somente nessa época ela se reconhece e é
reconhecida como um coletivo institucional.
Dessa forma, através da comparação da interpretação
desses dois autores é possível compreender melhor como a classe
operária foi formada. Seja através da reação de artesãos que se
constroem como atores políticos reagindo contra a imposição do
trabalho assalariado, seja através de manifestações
institucionalizadas de um partido político que tem possibilidade de
colocar operários no Parlamento.
Referências Bibliográficas:
HOBSBAWM, Eric J. "O Fazer-se da
Classe Operária, 1870-1914". In: Mundos do Trabalho. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1987.
THOMPSON, Edward P. A Formação da
Classe Operária Inglesa, "A árvore da liberdade", vol. I, Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1987a.
__________. A Formação da Classe
Operária Inglesa, "A maldição de Adão", vol. II, Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1987b.
__________. A Formação da Classe
Operária Inglesa, "A força dos trabalhadores", vol. III, Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1987c.
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