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SHERLOMA
STARLET FONSECA
Mestranda em História pela
Universidade Federal de Goiás (UFG). Graduada em História pela
UFG e em Serviço Social pela Universidade Católica de Goiás (UCG)
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Memórias de Paulo Duarte: momentos da escrita e luta
anti-getulista
por
Sherloma Starlet Fonseca
Este
artigo é uma análise de como as circunstâncias históricas
interferiram na escrita de oposição a Getúlio Vargas na obra
memorialista de Paulo Alfeu Junqueira de Monteiro Duarte,
um jornalista que participou ativamente no campo de batalha em 1932.
Como membro do Partido Democrático (PD), foi um dos oradores nas
caravanas revolucionárias a favor de Getúlio Vargas em 1930 e
incentivadores do golpe de outubro do mesmo ano. Contudo, ao
perceber os intuitos varguistas de prorrogar seu governo, que seria
provisório, inseriu-se na luta anti-getulista em defesa da
convocação da constituinte e das eleições. Vencidos na luta armada,
foi enviado com os outros participantes ao exílio na Europa. No
período de expatriação e de volta ao Brasil, Paulo Duarte não deixou
de exercer as atividades jornalísticas e esteve sempre envolvido em
novos e pioneiros projetos: como a fundação da Universidade de São
Paulo e a direção da Revista Anhembi. Seu último grande empenho foi
a edição de seus nove volumes de memórias.
A trajetória de Paulo Duarte não é muito diferente de
outros intelectuais da época. Cursou a Faculdade de Direito em São
Paulo, que era a principal instância no campo da produção ideológica
do país: atuando como intermediária na importação e difusão da
produção intelectual européia e concentrando inúmeras funções
políticas e culturais. Os portadores de diplomas superiores formaram
a elite intelectual da época que, para os liberais paulistas, eram
os responsáveis por formar a consciência nacional e disciplinar a
mentalidade do povo. Essa elite bacharelesca começava a se abrir
para os pertencentes das classes menos abastadas. Paulo Duarte
integra o grupo dos “primos pobres” das oligarquias cujas famílias
encontram-se relativamente afastadas da fração político e
intelectual da classe dirigente.
A posição social que alçaram deve se a formação
educacional e profissional a que se dedicavam.
O emprego no jornal O
Estado de São Paulo possibilitou o contato de Paulo Duarte com a
família Mesquita e Amadeu Amaral, dos quais se tornou amigo íntimo e
admirador. O autor participou, junto com esses, do processo de cisão
do Partido Republicano Paulista (PRP) e da fundação do Partido
Democrático e, como incentivador das determinações do partido, foi
revolucionário em 1930 e 1932.
Eu, na realidade não
nasci revolucionário, fui condenado a ser revolucionário ou,
melhor, um revoltado a existência inteira, diante das fustigadas
que a vida me reservou pelas mãos dos velhacos, dos políticos
primários e desonestos, das hostilidades que se voltam contra os
homens que fazem questão de pensar por conta própria (DUARTE,
1974: 104).
As circunstâncias levaram
Paulo Duarte a fazer parte de uma elite intelectual fora do poder -
que portava planos para alcançá-lo- e de oposição aos que nele se
acomodavam. Foram derrotados na luta armada e enfrentaram a
tentativa de Getúlio Vargas de silenciá-los ao enviá-los para o
exílio. Contudo, os constitucionalistas eram conhecedores da
importância da guerra civil paulista para a história – um
acontecimento singular em que o povo bradou com armas nas mãos em
prol da Constituição e da democracia – e se empenharam, de imediato,
registrar as lembranças do movimento de 1932. Paulo Duarte narra em
suas memórias a satisfação em receber no exílio os papéis pessoais
referentes ao conflito que o auxiliariam na escrita.
Marina e Alicinha chegaram a Lisboa nas vésperas
de minha partida. Trouxeram cartas de casa, trouxeram umas
moedas francesas de ouro, estas chamadas Louis, que eu
guardava para uma emergência qualquer, e me trouxeram uma mala
com os meus apontamentos, alguns livros de consulta e outros
papéis que deveriam ter vindo com Mequinha, e esta, aconselhada
pela prudência de Zarico, não o fez... a venda de algumas dessas
moedas permitiria saldar dívidas de empréstimo. Agora, estou
armado para escrever qualquer coisa sobre 1932. Se o fizer,
chamar-se-á Palmares Pelo Avesso. Os Palmares eram
escravos que lutavam para ser livres; os Palmares pelo avesso
lutam para continuarem escravos (DUARTE, 1974:87).
Palmares pelo avesso é
um relato do cotidiano da guerra. Por ter sido escrito pouco tempo
depois, apresenta as impressões do autor praticamente contemporâneas
aos acontecimentos no campo de batalha. A publicação do livro só foi
possível em 1947, quando finda o primeiro governo de Vargas.
Conforme o autor (1947: 8), nesse ano: “Não é o editor quem o
ressuscita, agora. São os fatos. Hoje mais do que nunca o livro
vive, por que os palmares pelo avesso estão vivos na confusão
reinantes”. Esse é o primeiro momento de escrita e publicação dos
livros memorialistas de Paulo Duarte sobre 1932. A existência de
governos ditatoriais nas décadas seguintes (de 1964 a 1984) é
identificada como o segundo momento, pois reforçou o empenho de
divulgação da memória constitucionalista, mesmo que ainda
subalterna, devido à atualidade dos seus ideais de respeito à
Constituição e às eleições e contra os rumos discricionários que
tomaram esses governos.
Para Paulo Duarte, não pairava qualquer dúvida sobre
o significado de suas contribuições para a política e para a
história do país. A consciência de que não era um anônimo na
sociedade é certamente um fator de influência na decisão de Paulo
Duarte de escrever suas memórias mesmo em um contexto em que era
pouco lido.
Os nove anos de exílio e a censura do Estado Novo adiaram a
divulgação de sua obra até o fim da ditadura, mas não impediram a
escrita silenciosa do autor, que só esperava o momento certo para
fazer-se comunicar com o leitor. A escrita é o meio pelo qual esses
intelectuais excluídos do poder encontraram para tentar continuar a
luta, redefinir suas posições no jogo político e assegurar um lugar
na história.
O costume de possuir um arquivo pessoal permite
identificar em Paulo Duarte um projeto de memória em que os
documentos - como cartas recebidas e enviadas, fotos e artigos - são
o material que compõe o seu trabalho e legitimam sua escrita. Esses
papéis são expressões da identidade do autor, que no trabalho de
triagem de sua documentação pessoal tem a oportunidade de ordenar a
narrativa e assim, ele reconstrói sua história, construindo um
sentido a própria vida e uma imagem de si.
Paulo Duarte projeta se como uma pessoa qualificada a
falar sobre os acontecimentos da década de 1930. Escreve não apenas
como testemunha ocular, mas como participante de importantes
episódios da história nacional. O envolvimento do autor nos fatos
faz com que, ao tentar narrá-los, ele ordene e dê sentido aos
acontecimentos e também à própria vida. Consequentemente, essa
narração acaba assumindo as marcas de sua subjetividade.
Esse comprometimento da
narrativa com a visão subjetiva do autor não se trata de um atestado
de veracidade ou inverdade do que é narrado. O leitor entra em
contato com a sinceridade do autor expressa na narrativa que tem por
referências os registros de sua memória. Preservar as bases
materiais para resgatar a memória individual se tornou uma prática
cultural dos sujeitos modernos e é um dos elementos constitutivos da
própria identidade. O mesmo princípio se aplica ao nível do
coletivo, em que os lugares de memórias, as comemorações e os
monumentos se tornam tão relevantes a identidade do grupo. Há entre
memória e o sentimento de identidade
uma ligação subjetiva. Nesse sentido, a identidade que é entendida
como a imagem que o sujeito constrói e apresenta aos outros, é
formada ao longo da vida em função do que lhe é consentido pela
memória e pelo convívio social. A identidade, tal como a memória,
não são essências da pessoa ou do grupo; são processos em
construção, em negociação (POLLAK, 1992).
A compreensão desse processo torna-se importante para
esse trabalho quando admite se que Paulo Duarte, ao escreve sobre
sua experiência, procura formular sua identidade dentro do grupo.
Nesse sentido, através do relato do autor é possível ter contato com
as dificuldades de construção da identidade e da memória também do
seu grupo de convívio. As memórias e as identidades coletivas são
valores disputados em conflitos sociais e intergrupais. “O caráter
conflitivo se torna evidente na memória de organizações
constituídas, tais como as famílias políticas e ideológicas” (POLLAK,
1992: 205). Esse é o caso dos constitucionalistas de 1932.
A identidade constitucionalista apresenta suas
multiplicidades e incoerências. A luta paulista uniu facções de
classes com interesses diferentes e até mesmo inimigos políticos. A
iniciativa varguista de nomear “interventores” militares para o
Estado de São Paulo que não tinham vínculos com os dois partidos
locais – o PRP e o PD- estimulou a unificação desses. A criação da
Frente Única Paulista (FUP) passou a representar um perigo de
restabelecimento do predomínio paulista, com graves conseqüências
para a política nacional, se considerado todos os desentendimentos
acumulados entre os dois partidos e entre esses com o governo
central. Os ressentimentos dos democratas que apoiaram o golpe de
1930 e foram alijados do poder, os colocou de alguma forma à defesa
da oligarquia cafeeira perrepista e acabou protelando a tomada de
consciência dos intelectuais “democráticos” quanto à possibilidade
de sobrevivência política do mesmo. O próprio Paulo Duarte se
afastou do Partido Democrático antes mesmo de sua extinção em 1934:
Eu me afastara não de
uma possibilidade de uma conspiração, nem de luta (a prova
estava nos artigos de A Platéia, que o Estado
transcrevia), mas do Partido Democrático, devido aos seus erros
e traições que, com Sampaio Vidal e Sergio Milliet, eu sofrera
da parte de alguns chefes do partido que passaram a disputar
comandos e candidaturas, coisa que sempre me repugnou,
pois o comando a gente é naturalmente
levado a ele e em candidatura não se impõe o próprio nome,
aceita-se as indicações dos companheiros. Outro motivo da minha
decisão era a aproximação com o PRP que me repugnava (DUARTE,
1974:75).
A identidade de um grupo com tantos contrastes e
pontos de divergências foi construída em relação a um elemento
unificador exterior ao grupo. A construção da identidade depende de
uma relação na qual a alteridade deve colocar-se como componente, a
figura do outro é estabelecida a partir do eu que
exclui. O outro eleito é escolhido para ser rejeitado em detrimento
da imagem de si que é enobrecida e construída em oposição a esse
outro: que é, no caso, o varguismo.
Os liberais paulistas se opunham ao intervencionismo
do governo provisório, demandavam seu fim e a volta a renovação
constitucional. Apesar das diferenças internas, os
constitucionalistas eram representantes de uma mesma tradição
política. No conflito de 1932, os paulistas entraram em confronto
com Vargas ao defenderem veementemente o regionalismo, a autonomia
dos Estados, os governos civis e o liberalismo. O grupo que se
estabeleceu no poder pós-1930 preparava as bases de uma estrutura
política que se consolidaria em 1937, caracterizada pela política de
submissão dos interesses regionais as decisões do poder central;
pelo nacionalismo, voltando o país para o desenvolvimento da
indústria e expandindo sua economia no mercado mundial. Getúlio
Vargas inaugurou uma estrutura política no Brasil que permaneceu até
a década de 1980, em que se erigem os gestores - consagrando o
caráter tecnicista da administração governista, a nova configuração
da elite política e do papel do Estado intervencionista e que
transcenderia o particularismo das classes.
Os conflitos da década de 1930 estão inseridos num
contexto de transição da forma de organização política. A elite
paulista manejava a preservação da identidade constitucionalista
colocando-a a serviço da sustentação de interesses daqueles que se
sentiram acuados com a derrota de 1932 e com o conseqüente avanço do
poder central. Revidaram contra a ameaça da concorrência movida
contra eles pelos detentores das novas competências para o trabalho
político e intelectual.
Entre outras formas de atuação política reconhece se
a escrita memorialista. Essa que é, também, a maneira de colocar em
prática o projeto de memória dos intelectuais paulistas, que começou
a ser elaborado e executado no exílio. O afastamento geográfico e
temporal dos acontecimentos proporcionou um momento de olhar sobre o
passado e de busca por explicações da derrota. Esse é mais que um
estado físico; é um estado mental de reflexões. Talvez seja esse o
primeiro “momento biográfico”
para esses intelectuais que buscaram na escrita propor ordenamento e
sentido para os acontecimentos. É quando Paulo Duarte produz
Palmares pelo Avesso, um documentário da batalha.
No período de expatriação, pode se registrar dois
tipos de escrita mais recorrentes entre os exilados: a epistolar e a
jornalística. Os jornalistas exerceram no exílio as atividades de
correspondentes e as cartas eram o principal meio de comunicação
entre eles e com os que permaneceram no Brasil. Esse material, que
Paulo Duarte empenhou se em arquivar, não permaneceu parado e morto.
Foi ressuscitado pelo autor em uma fase peculiarmente importante em
sua vida: no momento em que ela se aproximava do fim e em que, mais
uma vez, ele se opunha a um governo discricionário no país.
Sim, eu sentia necessidade de apresentar minhas
razões de depor ter vivido e isso antes de vencer o prazo fatal
que termina com a morte, que sempre, ronda perto daquele que, há
muito, deixaram para trás o decênio dos “enta”. Faço-o de alma
alegre, pensando no esplendor de uma vida coerente que não cedeu
diante do sacrifício.
[...] Muitos não se deram conta de que todos os
meus cometidos, certos ou não, aconteceram em torno sempre da
pregação ou da defesa de uma idéia [...]. Ofereço-as aos homens
esclarecidos desta terra, principalmente aos jovens cujo
convívio sempre amei e sempre defendi dos chacais da
brutalidade. Ofereço-a a esta terra que, com conseqüências,
chegou a tratar-me com mais aspereza do que as terras do exílio
que conheci. Terra que amo, que não me compreendeu. E o faço sem
ressentimentos, porque quem raciocina e sente, sublima-se
sempre. Ou será que eu quem não a tenha compreendido? (DUARTE,
1974:9-10).
As Memórias de Paulo Duarte começaram a ser
escritas em 1965 e só publicadas entre 1974 e 1980. A opção por
escrever e publicar suas memórias, inserido nesse momento histórico,
revela muito sobre a vontade do autor: demonstra a intenção de depor
perante a história, de deixar um registro para o presente e o futuro
de sua versão sobre tudo o que vivera na década de 1930.
Nas décadas de 1960 e 70, reforçava-se a versão que
mitificava a imagem de Vargas e instituía 1930 como um divisor de
águas. A dedicação a essa obra nesse contexto demonstra que há em
sua escrita um projeto de memória a fim de contrapor a versão
hegemônica. Conforme Paulo Duarte (1974:2):
É preciso não esquecer, entretanto, o valor como
contribuição cultural das memórias autênticas, sem intuitos
exibicionistas [...].
A verdadeira história não é contada pelos
documentos oficiais, mas pela correspondência e os diários
deixados por grandes figuras, testemunhas exatas de
acontecimentos ou nomes notáveis na política e na literatura.
O ataque a Vargas é constante na obra de Paulo
Duarte. A história oficial consagra a imagem
de Getúlio Vargas, como se ele fosse a própria personificação da
revolução de outubro, do golpe que a consolida e dos avanços dela
decorrentes. Duarte, em suas memórias
procurara desmistificar a imagem postiça
de Vargas como líder revolucionário. Em oposição à versão
tradicional da história, Vargas é apresentado como a
despersonificação da revolução de 1930.
Eu, todas as campanhas
revolucionárias do Brasil me viram nas linhas de frente. Todos
os períodos mais violentos encontraram-me ou na ação ou na
cadeia das velhas oligarquias. Um dia vencemos. Mas os
oportunistas vieram na retaguarda das tropas vitoriosas.
Encontraram o político recém-caído envolvido na sua capa feita
de retalhos de todas as torpetudes de uma mentalidade também
carcomida. Puseram o político num navio e o exilaram.
Mas ficaram com a
capa! Esta é que devia ter sido atirada ao mar. O político podia
ficar. Ou se regeneraria ou acabaria de apodrecer em qualquer
canto, inofensivamente (DUARTE, 1947:296).
Segundo Paulo Duarte (1975:30), o movimento de “1932
foi feito não contra 30, mas para repor 1930 em seus princípios
violados e conspurcados por Getúlio e pelos tenentes”.
A memória constitucionalista, mesmo subalternizada,
sempre reivindicou um espaço na história. Esse é um caso único na
história do Brasil de um movimento revolucionário em que as
comemorações e o culto aos heróis são realizados pelo grupo dos
vencidos, por isso, a preservação da memória dos acontecimentos de
1932 ficou restrita a São Paulo. As explicações para tal
peculiaridade não devem ser buscadas apenas no fator da derrota
militar. Ao analisar essas questões deve se atentar para as
contribuições de Pollak (1992) de que a história é um espaço de
disputa de memórias. Em todo caso, a história que se constrói tem a
ótica dos “vencedores”, que com o poder de persuasão e repressão
detêm os recursos de apagar as lembranças e reescrever a trajetória
dos fatos acontecidos.
Por ocupar essa posição distinta e privilegiada, os
getulistas consolidam sua versão dos fatos que considera 1932 um
movimento contra-revolucionário: uma tentativa da elite tradicional
de recuperar o poder perdido após a revolução de 1930. Para reforçar
a propaganda contra os “revoltosos” de 1932, os governistas lançaram
mão de uma poderosa arma ideológica: a acusação de separatismo, que
colocou o resto do país contra os paulistas na época e estigmatizou
a memória do movimento nacionalmente. Foram necessários anos de
pesquisa para refutar essas afirmações, tendo em consideração que
as reivindicações
paulistas não se restringiam ao campo regionalista e que contavam
com o apoio de autoridades políticas e militares de
outros estados,
como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
A partir da década de 1980, as versões getulistas da
história (que foram reforçadas pelos militares de 1964) passaram a
ser revistas. Pesquisadores paulistas como Holien Bezerra, Jeziel de
Paulo e Vavy Pacheco Borges, entre outros, voltaram se para a ampla
quantidade de documentos referentes à revolução constitucionalista.
Em meio a essa massa documental,
encontram-se um
vasto conteúdo de memórias escritas por ex-combatentes que
constituem a maioria das obras referentes a 1932. Esse material só
recentemente passou a receber a atenção dos historiadores como
fontes privilegiadas para análise. A aproximação da História
com a escrita memorialista se desenvolve num momento em que a
historiografia avança nos questionamentos em torno da
interdisciplinaridade e da retomada do interesse pelo político.
A expansão do estudo da história cultural permitiu um
novo olhar para as elites políticas e intelectuais.
A história aproxima-se dos arquivos
pessoais e dos escritos autobiográficos, tomando-os como
fonte para o estudo (entre outros) do político, mas dando
visibilidade aos excluídos da história nacional e em busca da
possibilidade de escapar
das explicações monocausais e lineares calcadas apenas no destino
final.
Ao considerar o momento da escrita, nota-se que a
produção das memórias dinamiza as diversas intenções do autor: de
explicar a derrota, fazer oposição às imagens consagradas de Vargas
e preservar o ideal constitucionalista, sendo possível extrair daí a
identidade do grupo representado. Segundo Parga (1992) é sempre a
ordem simbólica que define as características e atributos das
identidades. Essas são construções discursivas que invocam práticas
significantes pelas quais os sujeitos convocam sentido determinado
por aquilo que querem ser.
A auto-representação do grupo como “revolucionário” e
“constitucionalista” exerceu grande influência ideológica no
imaginário social, mas, além disso, manifestou-se como prática
política efetiva no momento em que esse grupo assumiu a causa do
movimento até as últimas conseqüências: o conflito armado e,
posteriormente, na continuação da luta anti-varguista, nos momentos
de escrita memorialista. Nesse sentido, pode se concluir que a
escrita memorialista é uma prática de construção de si, mas também
de resistência. Assim, Paulo Duarte prepara sua própria defesa
contra as agruras do tempo.
Bibliografia
ALBERTI, Verena. Literatura e autobiografia: a questão do sujeito na
narrativa. In.: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, 4, (7),
66-81. 1991.
DUARTE,
Paulo. Memórias: Raízes Profundas. v. 1, São Paulo, Hucitec,
1974.
_____________. Memórias: Inteligência da Fome. v. 2, São
Paulo, Hucitec, 1975.
_____________. Palmares pelo Avesso. São Paulo: Instituto
Progresso Editorial, 1947.
PARGA, José Sánchez
Producción de identidades e identidades colectivas. In.:
Identidades y Sociedad. Centro de Estudios Latinoamericanos
-CELA-/PUCE, Quito, 1992, 9-41pp.
PIÑA, Carlos. Sobre la
naturaleza del discurso autobiográfico.
In.: Anuário
Antropológico/88. Brasília: Editora UnB, 1991
POLLAK,
Michael. Memória e Identidade Social. In.: Estudos Históricos.
Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 5 (10): 200-212. 1992.
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