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JARBAS DAMETTO
Psicólogo, Mestrando em Educação da
Universidade de Passo Fundo. Bolsista CAPES
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Essa coisa que se faz em sala de aula:
notas sobre o mal-estar na prática docente
por Jarbas Dametto
Recentemente, em um painel acerca do mal-estar
docente realizado na Segunda Semana Acadêmica de Pedagogia da
Universidade de Passo Fundo, campi Palmeira das Missões, no
interior do Rio Grande do Sul, referi-me à prática pedagógica,
sinceramente sem dar-me conta, como “essa coisa que vocês fazem em
sala de aula”. Tal lapso foi a mim indicado posteriormente, aos
risos, por um colega de mesa, professor, que achou um tanto
inconveniente, ou ao menos estranha, a minha expressão, já que se
tratava de uma platéia de graduandos em pedagogia, licenciaturas, e
professores em atuação. Numa fala ou escrita meticulosa, certamente
não usaria estes termos, mas como se sabe, o discurso muitas vezes
“ganha vida própria”, e diz muito mais do que queríamos no momento
dizer, talvez, diga “a verdade”.
Seguindo uma velha receita psicanalítica, resolvi
explorar o lapso, escarafunchar nesta incômoda frase, a fim de pôr à
luz o que nela há de possivelmente verdadeiro, o que ali precisava
ser dito. Pois bem, que seria uma “coisa”? Em si, a palavra não tem
nada de mal, mas é comum que a utilizemos para indicar algo que não
está claro à nossa percepção, que não tem nome, que tem formas
estranhas. Posso intuir que foi este o sentido que fez rir o outro
painelista. Incidentalmente, emergiu um dizer chistoso, um gracejo
involuntário, que em suas entrelinhas afirma: a prática pedagógica é
amorfa, carente de identidade, irreconhecível senão por seu
contexto, reconhecemo-la por se dar na Escola, na sala de aula.
Tendo em vista que a temática sobre a qual versava a
apresentação era o sofrimento físico e psíquico que emana da prática
cotidiana do professor, percebe-se que a tal “coisa” pode ser o
ponto crucial do debate. Como se faz, e o que se faz em sala de aula
que provoca sofrimento e, por vezes, adoecimento? Seriam esses
fenômenos, problemas meramente individuais, ou há algo na prática em
si, se é que podemos assim nos referir, que provoca o mal-estar?
Busquemos, pois, respostas em outras fontes, para além de um
inconsciente falastrão.
S. Freud (1856-1939), um dos maiores nomes da
psicologia moderna, certo momento, afirmou que haviam três trabalhos
impossíveis de serem realizados: psicanalisar, governar e educar.
Assim o afirmou, dentre outros motivos,
devido à resistência engendrada pelos indivíduos sobre os quais, ou
com os quais, se dão essas ações. No caso específico da educação,
pode-se dizer que as pessoas não se educam de imediato, em uma única
experiência, ou sem lutar algum tempo contra as forças que querem as
educar e guiar seus destinos. De tal modo, fica clara a
parcialidade, a incompletude de toda educação, jamais será obtido o
resultado completo que se esperava, talvez por isso haja uma média a
ser alcançada pelo aluno, e não o conhecimento de pleno dos temas
tratados.
Nada disso é novidade para a prática docente, mas,
tal qual o governante e o psicanalista, caberá ao professor suportar
e manejar a ferida narcísica que isso acarreta: “não atingi meu
objetivo, meu trabalho, ao menos em partes, fracassou”, e assim
sempre será. Educar é um trabalho de Sísifo, que luta constantemente
com uma força maior, que não é a “incapacidade de aprender”, mas a
própria resistência ao aprendizado. Resistência esta, que se
potencializa frente a disparidades entre a vida e os interesses do
educando, e as propostas pedagógica da Escola. Tendo em vista a
predeterminação do conteúdo das disciplinas em nível
macro-geográfico, este problema ganha proporções alarmantes, em
grande medida, pode-se afirmar que há mais resistência que interesse
em relação à educação formal. Como aponta Sanches (2002),
[...] o aprender não é diferente
de outras atividades humanas: quando algo vem de encontro a uma
necessidade ou a um desejo, torna-se prazeroso. Caso contrário,
pode ser vivido como uma invasão, como algo que não me pertence
e do qual não me aproprio; quando o ato de aprender torna-se um
gesto de sujeição, que faço porque tenho que me submeter a
alguém, há pouco espaço para o prazer. (p.17).
Este confronto entre o interesse do aluno e da
Escola, que é mediado pelo professor, portador de seus próprios
desejos e objetivos, que podem divergir dos outros dois, faz da
prática de ensino um campo aberto ao surgimento do mal-estar, que
pode se materializar em afrontas diretas entre os envolvidos, ou em
um sofrimento velado, onde os não-ditos se traduzem em sintomas.
Afirma-se que, como em qualquer área profissional, na docência, a
qualificação do trabalhador supostamente contribuiria a uma melhor
execução desta conflituosa atividade, mas, sabe-se que qualificação
é esta, que habilidades são necessárias? E mais, o que seria uma
docência bem executada? Sabe o professor por onde ir e aonde chegar?
Vamos à busca de algumas perspectivas para essas
questões, sendo uma possível fonte, o memorável pedagogo brasileiro,
Paulo Freire, em seu último, e um dos mais lidos livros (talvez por
ser um dos menores) Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a
prática educativa. Logo ao abrir o referido livro, chama a
atenção as vinte sete repetições de “Ensinar exige”, que compõe os
subtítulos dos capítulos da obra, listados no índice. Tal relação de
exigências propõe a docência como algo complexo, que necessita de
uma sagaz leitura da realidade e de muita preparação, o que de fato
é verídico, e bom seria se todo educador observasse essas premências
em sua prática diária e em sua formação. No entanto, alguns dos
critérios apontados fazem pensar se, efetivamente, é possível
ensinar adequadamente. Vejamos alguns desses pontos críticos da
observação de Freire (2002).
Boa parte das considerações do autor nos remetem a
habilidades que podem ser adquiridas através da preparação, de
leituras, de reflexões, de debates, etc.. No entanto, outras
questões propõem qualidades que fogem ao domínio da formação
acadêmica e profissional, entrando em elementos íntimos do sujeito,
senão constitutivos de sua personalidade. Como exemplos, podemos
considerar: “Ensinar exige alegria e esperança” (...) “Ensinar exige
curiosidade” (...) “Ensinar exige bom senso”, dentre outras
observações (FREIRE, 2002. p.8).
Embora Freire (2002) argumente muito bem cada um dos
pontos, eles não deixam de transparecer algo de vocacional, que
escapa a possibilidade de qualquer um que queira assim agir, ou
essas qualidades possuir. Quanto ao bom senso, por exemplo, vale
lembrar o apontamento cartesiano, certamente ainda válido, que
afirma que “O bom senso é, das coisas do mundo, a mais bem dividida,
pois cada qual julga estar tão bem dotado dele, que mesmo os mais
difíceis de contentar-se em outras coisas não costumam desejar tê-lo
mais do que já tem.” (DESCARTES, 2000, p.21). Conseguiria alguém,
pelo bem da Educação, reconhecer a precariedade de seu bom senso, e
teria o interesse em ampliar os seus limites? Se sim, através de que
método o faria? Serviria o “método científico” a uma prática tão
complexa? Ou então, como alguém faria para se tornar “alegre e
curioso” a fim de desempenhar com melhor desenvoltura seu papel de
educador? Tendo em vista tais questões, é provável que tenhamos que
nos contentar com uma educação “pela metade”.
Os apontamentos de Freire (2002), prenhes de
esperança e indignação, apontam a Educação como um exercício da
utopia. Prática utópica porque luta contra resistências,
principalmente a dos supostamente beneficiados pelo processo,
embebidos que estão em limitações introjetadas ideologicamente;
porque é uma luta contra adversidades políticas e econômicas; porque
é uma caminhada contínua em busca de um ideal que extrapola os
limites da boa atuação profissional e do adequado aprendizado dos
alunos. Trata-se de uma prática de libertação que se faz em
conjunto, e como tal, extremamente árdua e conflituosa.
A educação formal se mostra utópica por esse e
vários outros motivos, porém, não podemos assim considerá-la se nos
apegarmos ao sentido estrito do termo, utopia como não-lugar, pois o
lugar é o pouco que resta como referencial, como algo que dá
identidade a esta ambígua prática revivida diariamente. Tudo o que
se pode dizer com certeza é que se trata de, via de regra, “uma
coisa que se faz em sala de aula”, cujas formas e métodos não
escapam a intersubjetividade e aos embates culturais presentes neste
espaço.
Um passo para o adequado enfrentamento deste
mal-estar sentido na Escola poderia ser assumi-lo enquanto inerente
a esta experiência educacional institucionalizada, e não como um
subproduto ou uma anomalia desta. Da mesma forma que, como aponta
Birman (2000) coube admitir que o mal-estar permeia a atualidade e
pertence ao rol dos males incuráveis da civilização, os quais podem,
na melhor das hipóteses, serem administrados. O preparo para esta
diversidade amorfa e belicosa reservada ao trabalho docente passa,
não pela aquisição de técnicas didáticas, embora sejam elas
necessárias, mas pelo desenvolvimento de uma estrutura sólida (não
rígida), capaz de sobreviver aos impactos das frustrações e de gerir
micro-politicamente as resistências emergentes no cotidiano. Os
psicanalistas costumam chamar um preparo semelhante a este como
formação, um processo para praticamente a vida inteira, que
inclui estudo, supervisão e análise. No círculo docente, tem se
falado muito em formação continuada – o adjetivo nos dá
mostras de que um dia se pensou que a formação docente poderia
estar, em algum momento, definitivamente concluída, mas a realidade
insiste em provar o contrário.
Referências Bibliográficas:
BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade:
A psicanálise e as novas formas de subjetivação. 2. ed. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
__________. Subjetividade,
contemporaneidade e educação, In: CANDAU, V. (Org)
Cultura, linguagem e subjetividade no ensinar e aprender. 2. ed.
Rio de Janeiro: DP&A, 2002. p.11-28.
DESCARTES, R. Discurso do método.
São Paulo: Martin Claret, 2000.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da
Autonomia: saberes necessários a prática educativa. 21.ed. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
SANCHES, Renate M. Psicanálise e
Educação: questões do cotidiano. São Paulo: Escuta, 2002.
Psicólogo, Mestrando em Educação da Universidade de Passo
Fundo. Bolsista CAPES.
Sobre as demais leituras possíveis acerca desta
“impossibilidade” observada por Freud, ver BIRMAN, 2002.
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