O papel da mulher e a sexualidade em Kirikou e a Feiticeira
por Celuy Roberta
Hundzinski Damasio
O
diálogo cultural africano, travado na obra Kirikou e a
Feiticeira, de Michel Ocelot, pode ser interpretado numa
dimensão mais ampla, no tempo e no espaço, estendendo-se até
nossos dias e a todos os continentes. Nas personagens
principais, podemos observar as conseqüências dos atos
masculinos incutidos nas mulheres. Temos duas visões divergentes
(da mãe de Kirikou e da feiticeira Karabá) que, porém, apontam
para o mesmo objetivo: a afirmação feminina enquanto indivíduo
livre e independente.
Considerando a visão de Michelle Perrot, em sua
obra “Les femmes et les silences de
l’Histoire”,
observamos que a História das mulheres foi sempre contada sob o
ponto de vista do homem. O que se tem de menos influenciada é a
oralidade privada, domínio em que as mulheres sempre puderam
interferir e o fizeram de maneira marcante junto aos filhos e às
crianças em geral.
“A memória das mulheres é verbo. Ela está ligada à oralidade das
sociedades tradicionais que lhes confiavam a missão de
narradoras da comunidade do vilarejo.” (PERROT, 1998, p. 17).
Constataremos isso na mãe de Kirikou, primeira
personagem da qual falaremos. Algumas vezes definida como dócil,
silenciosa e, justamente por isso, fraca é, na verdade, a mulher
que define todo o enredo, a que produz o Herói, não somente por
tê-lo gerado, mas pela maneira como se refere a ele.
Desde o momento do parto, a mãe ordenou que ele
nascesse e se lavasse sozinho, dando mostras de que o Herói,
para sê-lo, precisa ser independente. A própria independência
que ela adquirira, mesmo fazendo parte de uma sociedade com
papéis estritamente bem definidos entre o homem e a mulher. Daí,
podemos extrair, também, que vivendo sozinha e seu marido tendo
sido “roubado” pela feiticeira, ela desenvolveu atitudes ditas
“masculinas”, como a administração de sua tenda, de seu filho,
sem interferências diretamente externas.
Poderíamos dizer que ela não se preocupava com a
opinião alheia. O modo com que pensava e agia demonstrava a
inteligência e a sapiência obtida pela experiência de vida. Era
preciso sobreviver, tornar-se uma Heroína, com todas as
características de uma mulher forte, contrariamente ao que se
observa, por leigos, num primeiro olhar.
Assim, a personagem identifica-se com as mulheres
do dia-a-dia, ditas “comuns”, que cuidam da casa, preparam a
comida, educam os filhos com sabedoria, calma, interiorizando os
acontecimentos para que deles tirem a lição de vida. Sensatas e
decididas. Mulheres abandonadas pelos cônjuges, viúvas, sozinhas
ou, ainda, as “viúvas de maridos vivos”.
Todas que, de uma forma ou de outra, não entregam-se às
adversidades, mas as controlam para que sejam vencedoras.
Até na hora do nascimento de Kirikou, ou do
instante em que pensou que ele morreu, o semblante da mãe era
sereno e firme. Além disso, a primeira pessoa de quem ela falou
para o filho foi de Karabá, a feiticeira, mostrando que não
temia os inimigos e insinuando que ele era o “enviado” para
salvar a aldeia. A idéia geral é que ele tem uma missão, podemos
compará-la à de Jesus,
onde a reação materna não difere muito da de Maria, no intuito
de passar a idéia de que as mães devem, sempre, usar de
sensatez, sabedoria e aceitação, sem esquecer, ainda, a
preciosidade do silêncio.
Kirikou, logo após a vir ao mundo, questionou a
mãe sobre seus familiares, todos homens, não interessou-se pelas
mulheres, já instigando o conflito da obra: os homens que partem
combater a feiticeira, são “comidos” por ela e nunca mais
retornam aos seus lares.
A fortaleza e a capacidade de conduzir da mãe são
inabaláveis, foi ela quem o informou sobre tudo o que acontecia
na aldeia (transmissão da cultura geral pela oralidade) e quem
lhe mostrou os problemas, como a fonte maldita. Ela o levou
consigo, na ocasião da entrega do ouro à feiticeira, e não
interferiu quando ele questionou a “Venerada”, ainda que outras
mulheres os reprovassem. Mesmo no momento em que ela estava
inclinada, por terra, defronte ao poder, demonstrou, por seu
porte e movimentos, um ar superior em sabedoria. Indicou,
também, o caminho que devia ser traçado até e além dos domínios
de Karabá.
As mulheres do vilarejo não tinham mais esperança
e mostravam-se rendidas,
somente a mãe de Kirikou não se deixava levar, no entanto,
sugeriu isso em silêncio, revelando-se tão grande e imponente
quanto a “Poderosa”.
Observamos, claramente, no decorrer da obra, o
sentido sexual translúcido nas ações. Antes de partirem para
entregarem as riquezas, o bebê pede à mãe para ir junto, ao que
ela responde: “–Você já é como os homens: quer ver Karabá, a
feiticeira.” Demonstrando ser algo, estritamente, normal.
Anteriormente, ele fora ao encontro de seu tio, com a intenção
de ajudá-lo. A mãe, evidenciando que isso já estava traçado
(porque ele é um homem) e querendo fazer valer o livre arbítrio,
não o impediu.
Não obstante, quando o pequeno encontrou o tio,
último homem da aldeia, que caminhava para encontrar-se com
Karabá, escutou a afirmação de que o que iria acontecer não era
algo para as crianças. É possível interpretarmos esse
acontecimento como o ato sexual, que é o que se pode entender
nas entrelinhas de todo o texto. Kirikou mostrou ter
compreendido isso quando, face ao monstro da fonte, pensou em
pedir ajuda ao tio, mas reconsiderou sua idéia, afirmando que
ele não podia passar pela “porta estreita” para entrar na gruta,
porque ele era grande, isso devia ser feito por alguém que é
pequeno. Evidentemente, só uma criança livre de desejos poderia
vencer o mal.
É num momento de repouso do menino que a mãe
instigou uma reflexão sobre a maldade e o poder, fazendo com que
o filho conhecesse a idéia estrutural e política da sociedade e
da humanidade, em que, normalmente, o mais poderoso oprime
fazendo com que os outros sofram.
Diante deste contexto, era preciso um coração
puro, uma criança, para não ceder aos encantos de tal dama.
A mãe acreditou na capacidade de Kirikou, em sua astúcia, pois,
além de tudo, ela o fizera assim e sabia que a união de um
coração imaculado e da sabedoria dos anciãos (no caso, seu avô)
podia fazer “milagres”. Foi, justamente, o portador de tal
sabedoria que veio desmistificar a personagem de Karabá,
possivelmente, porque ele havia ultrapassado a idade onde os
desejos carnais falam mais forte, podendo, desta forma, ver as
coisas de maneira clara, tais quais elas são. Mesmo quando
afirmou que ela era malvada, houve uma explicação para o fato.
Outro tipo de mulher, apresentado na obra, é a
que se diz esperta, mas não se mostra muito inteligente. Essa
personagem aparece sempre dando opiniões incabíveis, maus
conselhos, reclamando, ou tentando enganar, como no caso da
recolhida do ouro. Entretanto, foi ela quem anunciou a boa nova
de que a água voltou, confirmando a característica de quem fala
muito: nem sempre fala coisas sábias ou aproveitáveis, mas está,
constantemente, bem informado para poder passar adiante.
Tal personagem apresentou-se no primeiro lugar da
fila, no momento de entregar o ouro para a feiticeira,
contrariamente à mãe do Herói, posicionada em último lugar. Essa
imagem simboliza a humildade, vista como fonte de sabedoria,
contra a falsidade de quem está enganando mas não quer ser
desvelada. “Assim, pois, os últimos serão primeiros e os
primeiros serão últimos.” (Bíblia Sagrada, Mat. 20, 16).
Finalmente, o terceiro tipo de mulher, é Karabá.
Qualificada, nas falas, como esplêndida, venerada e honrada,
porém, mostrando-se autoritária, ditadora e malvada. Quanto ao
físico, era bonita e vaidosa, cheia de ornamentos. Exatamente as
características atribuídas às prostitutas, que devem estar
sempre belas; são descritas, pelos amantes, como esplêndidas e
honradas, mas pela sociedade em geral (ou mesmo por eles, quando
encontram-se em público), são tachadas de malvadas por
“roubarem” os homens das mulheres, e de “autoritárias” porque
fazem deles “o quem bem querem”.
Temida, robotiza os homens, fazendo deles objetos
que obedecem. Kirikou podia afrontá-la, pois sabia que, sendo
pequeno, seria capaz de entrar onde nenhuma outra pessoa
poderia. Ademais, ele não a temia estando ciente de que quanto
mais o povo tinha medo, mais ela tornava-se poderosa. Não se
pode dizer que ele é uma criança, mas que se fez assim para
cumprir seu desígnio. Como prova, temos sua transformação no
final da história.
Se considerarmos o fundo sexual da temática,
podemos afirmar que ela não gostava das crianças porque sabia
que seu poder sobre elas era limitado; da mesma forma, detestava
as mulheres, pois julgavam-na atrapalhando suas relações com os
homens. Desprezava os seres masculinos, por lhe terem “feito
mal”: temos, aí, a idéia implícita de que fora violentada. Os
homens “fincaram-lhe um espinho” que a fazia sofrer imensamente,
ao ponto dela não ter coragem de pedir para alguém arrancá-lo.
Dificuldade comparável às que os seres humanos têm para tocar
nas feridas emocionais.
O avô explicou que ela não era uma feiticeira,
mas alguém que tem uma reação provocada por uma ação. Essa
reação não era boa porque a ação também não fora. A partir do
momento em que ela se livrou do sofrimento, pôde voltar a ter
bons sentimentos, uma mulher livre, sem problemas com o sexo
oposto.
Para que isso acontecesse, temos um ponto
importante a considerar: a cólera de Karabá diante do roubo das
jóias implicou na decisão de primeiro recuperá-las, para depois
preocupar-se com Kirikou. Esse ato deu forças à futilidade, à
vaidade e à avareza, sentimentos que a emboscaram.
Ao livrar-se do mal, ela gritou, com tal
intensidade que se fez escutar na aldeia. Esse grito representa
o de todas que foram, de um jeito ou de outro, oprimidas pelos
homens, violentadas, que carregaram, durante anos, um espinho
nas costas, revoltando-se, às vezes, mas sem ter a coragem de
dar o verdadeiro grito de liberdade. Aquele que veio romper o
silêncio das mulheres e transformar a opressão, o ódio, em amor.
Elucidando a vitória, ainda que depois de muita angústia.
Foi, nesse momento, que Karabá encarnou a
verdadeira feiticeira, ela não tinha poderes sobrenaturais,
todavia, o feitiço era o amor e, através dele, por um beijo,
transformou Kirikou em um homem. Antes, contudo, ela resistiu,
dizendo que sendo ou não feiticeira, não seria empregada de
ninguém. O apaixonado contestou dizendo que não faria dela uma
empregada, e ela retruca falando que todos os homens dizem isso
antes de casar. O menino a convenceu de que era diferente dos
outros homens e cresceu, indicando, nada mais, nada menos, que
perdeu sua virgindade e que, pelo amor, pôde curá-la da dor,
ensinando-lhe como é uma relação sadia entre sexos opostos. Como
recompensa ou, simplesmente, conseqüência deste amor que fez as
flores desabrocharem, ela “cuidou” dele, ornando-o, e ele a
apresentou aos seus.
O último conflito foi a aceitação na comunidade,
da mesma forma que é difícil para uma prostituta, ou qualquer
mulher que fuja dos padrões estabelecidos pela sociedade, ser
aceita. As pessoas não reconheceram o filho da aldeia e a mãe
retomou seu papel vindo identificá-lo. A decisão do final feliz
foi dela. As outras mulheres demonstraram sua revolta tentando
matar Karabá e, somente, pararam quando viram os homens se
aproximando. Elas recuperaram o que estava perdido. Os “filhos
pródigos” voltaram para casa favorecendo o retorno da paz.
Concluiremos dizendo que as mulheres tiveram um
papel fundamental durante toda a obra e, sobretudo, no início e
no final da narração, fazendo com que as ações fossem,
sutilmente, propiciadas por elas. Mãe e feiticeira foram o
segmento uma da outra, completaram-se. Kirikou foi, meramente, o
laço entre as duas e foi isso que o transformou em Herói. Ele
libertou todos os outros homens porque “conquistou” para si,
Karabá.
Referências:
Bíblia Sagrada.
Ed. Ave-Maria, 131ª Edição, São Paulo, 1999.
HUNDZINSKI DAMASIO, Celuy Roberta.
“Identidade, Igualdade, Diferença – o olhar da história” In:
Revista Espaço Acadêmico, n° 79, dezembro de 2007.
HUNDZINSKI DAMASIO, Celuy Roberta.
“Mulheres Fazendo a História” In: Revista Espaço
Acadêmico, n° 58, março de 2006.
OCELOT, Michel. Kiriku e a
Feiticeira, Ed. Paulinas Multimídia. Cultifilmes
França/Bélgica, São Paulo, 2002
PERROT, Michelle. Les femmes ou
les silences de l’histoire, Paris, Flammarion, 1998.
Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée