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WILSON
F. CORREIA
Desenvolve pesquisa de doutoramento
em educação na UNICAMP. É mestre em Educação pela UFU. Cursou
especialização em Psicopedagogia pela UFG. Graduou-se em
Filosofia pela UCG. É professor universitário. É autor de
Saber Ensinar. São Paulo: EPU, 2006
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REUNI: vamos continuar calados?
por Wilson Correia

O REUNI é um programa do governo federal brasileiro
que tem como meta o apoio a planos de reestruturação e expansão das
universidades federais. Trata-se de uma proposta que se publica em
plena vigência de políticas restritivas de investimentos no setor
público, o que, à primeira vista, pode parecer um item do debate
travado ao longo dos anos 1990, década de plenos ventos neoliberais.
Mas isso, como foi dito, apenas à primeira vista, uma
vez que aquela pode muito bem ser determinada como “a década que
nunca termina” porque a concepção de Estado gestada ao longo dela
permanece “vivíssima da silva”, sob um governo brasileiro que,
também à primeira vista, é de esquerda, mas que foi concebido ao
longo das últimas décadas do século passado pelo próprio capitalismo
como uma alternativa viável aos modelos que pugnavam pela
transformação do sistema.
Em verdade, a proposta do Estado mínimo não foi um
vento que soprou apenas nos anos 1990. Ele ainda bate em nossa cara.
Pede rearranjos do Estado de modo a que ele se configure como
Estado-empresa ao molde capitalista. Razão pela qual propor a
expansão das universidades federais em época de desinvestimento no
setor público parece-me um paradoxo.
O Decreto Nº. 6.096, de 24 de abril de 2007, que
institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão
das Universidades Federais (REUNI), foi motivado pelo Plano de
Desenvolvimento da Educação (PDE), cujo objetivo é o de duplicar a
oferta de vagas no ensino superior público. Porém, o REUNI está
atrelado ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), o qual
preconiza para a próxima década a limitação da folha de pagamento ao
estabelecer que o gasto com pessoal nas universidades públicas não
poderá crescer além de 1,5%/ano. Mas o REUNI assume como meta
ampliar o acesso e a permanência no ensino superior, nos seguintes
termos:
“§ 1º O Programa tem como meta global a elevação
gradual da taxa de conclusão média dos cursos de graduação
presenciais para noventa por cento e da relação de alunos de
graduação em cursos presenciais por professor para dezoito, ao
final de cinco anos, a contar do início de cada plano” (BRASIL,
2007).
Enquanto alguns pensam que esse propósito será a
saída para a resolução dos problemas de justiça e eqüidade no campo
do ensino superior, outros não vêem com tanto otimismo a meta
proposta pelo REUNI. No primeiro caso podemos citar o professor
Armijos Palácios. Para ele,
“O Reuni, mesmo tendo problemas — que podem
perfeitamente ser contornados — permitiria a criação de novos
cursos justamente naquelas regiões em que mal existem uma ou
duas faculdades, se existem, ou mal conseguem ter um ou dois
cursos nos chamados campi avançados — cursos e faculdades em
vias de consolidação e faltando muita coisa. Professores e
estudantes das universidades federais temos, agora, um
compromisso com o novo Brasil, um Brasil não voltado para o
Sudeste ou o Sul. Um novo Brasil que comece a dar oportunidades
a todos aqueles que moram nos muitos interiores do Brasil e que
não têm a oportunidade de entrar numa universidade de alguma
grande cidade brasileira. Longe de disputas ideológicas e de
radicalismos estéreis, a hora de mudar os rumos da universidade
brasileira, e de dar oportunidade às novas gerações que moram no
interior deste grande país, pode ter chegado” (ARMIJOS PALÁCIOS,
2007).
Sobre o segundo posicionamento, citamos as palavras
do professor Thompson Fernandes Mariz. Segundo ele,
“Nesta hora percebemos que o aparentemente
inquestionável objetivo do REUNI de ampliar o acesso e a
permanência na educação superior se dará pelo muitíssimo
questionável “melhor aproveitamento da estrutura física e de
recursos humanos existentes nas universidades federais”.
Duplicar a oferta de vagas e aumentar, pelo menos em 50%, o
número de concluintes, a partir de um incremento de apenas 20%
das atuais verbas de custeio e pessoal (excluídos os inativos!)
é a indicação sub-reptícia de que a reestruturação proposta pelo
Decreto Nº. 6.096 cobra uma subutilização dos recursos
existentes nas Universidades Federais e aponta somente dois
caminhos para o cumprimento de sua meta global: a aprovação
automática ou a certificação por etapas de formação” (MARIZ,
2007).
Essas posições levam à pergunta: qual é a real
finalidade de uma instituição de ensino superior? Em seus estudos
sobre a questão da universidade, Santos fez alusão às
características que ela adquiriu ao longo do século XX, a saber: uma
que é acomodava no âmbito do idealismo, outra que surge como
expressão de uma visão mais pragmática, e, por fim, a concepção que
a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)
propõe.
A primeira concepção ganhou uma formulação digna de
nota no pensamento do filósofo Karl Jaspers, publicadas
provavelmente em 1965. Para ele, a universidade deveria assumir uma
função tridimensional, a saber:
“... porque a verdade só é acessível a quem a
procura sistematicamente, a investigação é o primeiro objectivo
da universidade; porque o âmbito da verdade é muito maior que o
da ciência, a universidade deve ser um centro de cultura,
disponível para a educação do homem no seu todo; finalmente,
porque a verdade deve ser transmitida, a universidade ensina e
mesmo o ensino das aptidões profissionais deve ser orientado
para a formação integral” (JASPERS apud SANTOS, 1995:
188).
Desse modo, a universidade se justificaria por ser a
produtora da verdade, a guardiã da cultura e a formadora do homem
integral, sendo a profissionalização um momento dessa educação
global.
A segunda tese sobre a universidade veio a público em
meados do século XX. Trata-se da concepção do filósofo espanhol
Ortega y Gasset. Para ele a universidade tem a função de praticar as
atividades que se dividem em quatro perspectivas, sendo as de
“transmissão da cultura; ensino das profissões; investigação
científica e educação dos novos homens de ciência” (ORTEGA Y GASSET
apud SANTOS, 1995: 188).
O terceiro modo de compreender os objetivos da
universidade veio se formando desde os anos de 1960. Trata-se
daquela tese expressa no relatório da OCDE, de 1987. Este documento
atribui uma dezena de funções à universidade, compreendendo a
educação geral e pós-secundária, a pesquisa, a preparação de
mão-de-obra qualificada, oferecer educação e treinamentos altamente
especializados, encaminhar mecanismos de seleção para empregos de
alto nível por meio de credenciamento, fazer a mobilidade social dos
filhos da classe trabalhadora, prestar serviços à comunidade e à
região onde se vê inserida, oferecer modelos de políticas públicas
nacionais, além de possibilitar a preparação para o desempenho de
papéis de liderança social.
Em decorrência dessas múltiplas atribuições, e
assoberbada de problemas causados pelos interesses contrários que a
polivalência acarreta ao atravessá-la, a universidade vive uma crise
de hegemonia, legitimidade e institucional. Nas
palavras do autor:
“A universidade sofre uma crise de hegemonia na
medida em que a sua incapacidade para desempenhar cabalmente
funções contraditórias leva os grupos sociais mais atingidos
pelo seu défice funcional ou o Estado em nome deles a procurar
meios alternativos de atingir os seus objetivos. (...) A
universidade sofre uma crise de legitimidade na medida em que se
torna socialmente visível a falência dos objectivos colectivos
assumidos. (...) A universidade sofre uma crise institucional na
medida em que a sua especificidade organizativa é posta em causa
e se lhe pretende impor modelos organizativos vigentes noutras
instituições tidas por mais eficientes” (SANTOS, 1995: 190).
Nesse sentido, ao que indica Santos, a universidade
entra em crise pari passu ao desencadear do processo de
multiplicação de seus fins, não sendo possível constatar razões que
lhe sejam suficientes à sua construção identitária.
Chauí (1999) fala da universidade operacional. Esse
tipo de universidade é fruto da modernização e racionalização do
Estado. O pressuposto ideológico dessa proposição é o que expressa o
entendimento de que o mercado é o portador da racionalidade
necessária ao bem-estar da República, o qual deve ocorrer sob o
signo da “flexibilização”.
“Na linguagem do Ministério da Educação,
‘flexibilizar’ significa: 1) eliminar o regime único de
trabalho, o concurso público e a dedicação exclusiva,
substituindo-os por ‘contratos flexíveis’, isto é, temporários e
precários; 2) simplificar os processos de compras (as
licitações), a gestão financeira e a prestação de contas
(sobretudo para proteção das chamadas ‘outras fontes de
financiamento’, que não pretendem se ver publicamente expostas e
controladas); 3) adaptar os currículos de graduação e
pós-graduação às necessidades profissionais das diferentes
regiões do país, isto é, às demandas das empresas locais (aliás,
é sistemática nos textos da reforma referentes aos serviços a
identificação entre ‘social’ e ‘empresarial’); 4) separar
docência e pesquisa, deixando a primeira na universidade e
deslocando a segunda para centros autônomos” (CHAUÍ, 1999: 6).
Em outras palavras, a justificativa para a existência
da universidade operacional assenta-se no fato de ela ser concebida
e gerida segundo a racionalidade do mercado, em conformidade com as
regras do capitalismo. Nessa perspectiva, segundo a autora, a
universidade perde o status de “instituição” e se consolida
como “organização social”, cuja instrumentalidade a coloca na
condição de atuar para alcançar fins particulares, voltada para si
mesma, ao contrário do que ocorreria se permanecesse como
instituição social. Mas isso ela deixa de ser assim caracterizada ao
perder sua natureza de instituição e ao ganhar a condição de
organismo, uma vez que a “organização pertence à ordem biológica da
plasticidade do comportamento adaptativo”, noção que põe em risco a
autonomia universitária.
“Ora, desde o seu surgimento (no século XIII
europeu), a universidade sempre foi uma instituição social, isto
é, uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento
público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio
de diferenciação que lhe confere autonomia perante outras
instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras,
normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a
ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na
conquista da idéia de autonomia do saber diante da religião e do
Estado, portanto na idéia de um reconhecimento guiado por sua
própria lógica, por necessidades imanentes a ela, tanto do ponto
de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão”
(CHAUÍ, 1999: 7).
A universidade laica, socialmente referenciada, de
qualidade, mantida por meio de impostos pagos pelo cidadão só é
possível com base na autonomia. Essa condição para que a
universidade cumpra seu papel surgiu na Europa, na época em que a
Igreja e o Estado, em comum união, mantinham o monopólio da produção
e transmissão do conhecimento. Não atender às vontades dessas
instituições significava confusão. Às vezes, morte. Foi o célebre
caso de Giordano Bruno. Por causa disso Galileu quase morreu, tendo
de fazer de conta que renegava às próprias idéias, afim de que os
homens da Igreja-Estado poupassem sua vida (MORENO, 2004).
E se é certo que hoje não corremos mais o risco de
ver algum intelectual perecer na fogueira, aí está a universidade
operacional para esvaziar a substância daquilo que entendemos por
autonomia universitária, passando a valer uma concepção heterônoma,
com base em regras que sequer brotam do mundo da cultura, mas dos
diversos mercados que têm interesses diversos voltados para as
atividades universitárias.
“A heteronomia da universidade autônoma é visível
a olho nu: o aumento insano de horas/aula, a diminuição do tempo
para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de
publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de
comissões e relatórios etc. Virada para o próprio umbigo, mas
sem saber onde este se encontra, a universidade operacional
opera e por isso mesmo não age. Não surpreende, então, que esse
operar co-opere para sua contínua desmoralização pública e
degradação interna” (CHAUÍ, 1999: 8).
Como chegamos a esse estado? Segundo a autora,
podemos identificar na história três tipos de universidades: a
clássica, a funcional, e esta que ela discute, a operacional.
Enquanto a clássica estava comprometida com o conhecimento, a
funcional passou a existir em razão das demandas do mercado de
trabalho, voltada para a preparação da mão-de-obra necessária à
manutenção da produtividade do sistema capitalista. Já a
universidade operacional, na verdade uma organização social, além de
se adaptar ao mercado, centra-se em si mesma, constituindo-se em uma
estrutura de gestão e arbitragem de contratos.
Desse modo, a universidade operacional está do lado
oposto daquilo que assegura a constituição brasileira sobre a
autonomia universitária, além de suas três frentes de atividades:
ensino, pesquisa e extensão. Dessa última, nem se ouve falar. A
pesquisa é outra atividade pouco valorizada, quase nula, no âmbito
dessa organização social. Resta, muitas vezes aligeirado, o campo do
ensino, mas longe dos processos educativos associados à aquisição de
um estilo existencial (SAVATER, 2000).
Desse modo, o sentido dessa caracterização feita por
Chauí, preocupada com a instrumentalização da universidade, aponta
para a visão que se aproxima daquilo que Santos descreveu como crise
da universidade, premida entre uma sociedade de direitos e uma
sociedade de mercado, entre a proposta de pesquisa, o ensino e a
extensão voltados para a garantia de processos de humanização e
outra, cujo escopo maior é o de atender ao mercado.
Se atentarmos então para a lógica que preside o trato
da educação na atualidade, vamos perceber que está sendo criado o
confronto entre direito versus mercadoria. Caso que O REUNI
ilustra, à medida que prevê um tipo de expansão sem investimentos.
Desse modo, mais uma vez, a teoria do Estado mínimo prevalece.
Nesse caso, é de se considerar que os propósitos do
REUNI até podem ser viáveis. Porém, se não houver um
redirecionamento no uso dos recursos públicos para bancar as
atividades de expansão que ele assume, corremos o risco de ver o
REUNI cair na conta daqueles projetos que, ainda que bem pensados e
intencionados, nada puderam alcançar porque, paralelo a eles, o
Estado se fez indiferente aos direitos sociais.
Talvez o papel da universidade em uma época como a
que vivemos seja exatamente a de fazer com que aprofundemos nossa
percepção da história vivida cotidianamente. Nesse sentido, é
bastante sintomático o fato de que, quase simultaneamente à
divulgação na mídia de pesquisas indicando a diminuição de formandos
nas universidades federais, a nós é apresentado o REUNI.
Mas, será esse projeto uma reação ao abandono dos
cursos pelos universitários das federais? Será ele mais um paliativo
para desviar nossa atenção em vez de discutir nosso ethos
constituinte, o qual configura nossa sociedade brasileira como
desigual, autoritária, excludente e alinhada aos imperativos da
atual fase do sistema capitalista? O REUNI é apenas o PROUNI das
universidades federais (e, por analogia, das públicas em geral?).
Essas perguntas não nos parecem fora de lugar. Estão
onde devem estar: ali onde a exigência entre uma sociedade de
direitos e uma sociedade de mercados pode fazer a diferença na
história que estamos a fazer, bem como sobre o legado que deixaremos
para aqueles que, depois de nós, também terão de se virar por um
lugar ao sol no âmbito da educação formal. Tomara que a brutal
desigualdade social que nos golpeia diariamente não seja a única
herança que temos a lhes deixar.
Sobre isso, a situação no âmbito de certos setores da
academia e nos da cultura parece dramática. Não terá o silêncio
tomado o lugar de nossas preocupações e abafado nossa voz,
fazendo-nos alheios à tarefa de contribuir para a formação crítica
da opinião pública nacional?
Tendo a responder afirmativamente essa questão, pois,
enquanto tínhamos um projeto de esquerda para o Brasil, bebemos nele
e dele fizemos nossa fonte de material para criticar o projeto do
capital. Tão logo essa pretensa esquerda chegou ao poder, a sensação
foi a de que ficamos como o menino que perdeu o doce, e, em lugar de
reagirmos e denunciarmos a farsa, não, caímos no estracismo
voluntário e cômodo em troca de benesses mitigadas do sistema (aí
estão as GED da vida para mostrar isso).
Onde foi parar o debate e as ações e as práticas
questionadoras dos modelos societários tirânicos alimentados pelo
capitalismo? Cadê a mobilização em prol de outro sistema no qual o
capital, o mercado e as empresas não falem mais alto que o Estado e
a sociedade civil? Em que a mercadoria não valha mais que os
direitos sociais? Em que a cidadania não se identifique com o ato de
consumir?
Quem dera que agora, com o REUNI, não nos calássemos
mais uma vez!
Referências Bibliográficas
ARMIJOS
PALÁCIOS, G. Reuni: a hora dos deserdados. Jornal Opção
On-Line, de 07 a 13 de outubro de 2007. Disponível em <http://www.jornalopcao.com.br/>.
Acesso em: 07.10.2007.
CHAUÍ, M. A universidade
operacional. Revista Adunicamp – desafios da universidade
pública. Associação de Docentes da Unicamp, ano 01, n. 01, jun.
1999, p. 06-09.
MARIZ,
T. F. REUNI: para onde caminha a universidade? Associação
Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior
(Andifes). Disponível em: <http://www.andifes.org.br/news.php#5716>.
Acesso: 06.10.2007
MORENO, A. de R. A autonomia
universitária e o movimento docente. Revista Adunicamp –
reforma ou demolição? Campinas: Associação de Docentes da Unicamp,
ano 06, n. 02, set. 2004, p. 16-21.
SANTOS, B. de S. Pela mão de Alice:
O social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1995.
SAVATER,
F. O valor de Educar. Trad. M. Stahel. São
Paulo: Martins Fontes, 2000.
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