Os mais vulneráveis entre nós
por Eva Paulino
Bueno
Quem
não se comove com a visão de um filhotinho, correndo e
fazendo coisas engraçadinhas? Quem resiste a um cachorrinho
rolando pelo assoalho ou um gatinho brincando com uma bola
de lã? Poucas pessoas podem dizer que não gostam de animal
nenhum e que não se divertem vendo os pequeninos brincando
juntos. E se diz, cuidado com esta pessoa: seguramente ele/a
tem alguma coisa fundamentalmente errada.
Mas o problema é
que estes filhotinhos adoráveis crescem. E reproduzem. E
reproduzem. E terminamos com uma explosão populacional. Os
animais que fazem parte da cadeia alimentar não constituem
problema, já que são abatidos e comidos. Mas, se estamos
falando de animais que vivem em contato conosco, mas que não
são comidos, vemos que foram domesticados e não sabem
defender-se, ou, quando abandonados, somente conseguem
defender-se formando grupos — equivalentes a gangues nas
cidades — e acabam tornando-se um problema para a sociedade
humana. São um perigo público. Qualquer pessoa que já foi
perseguida ou atacada por cães de rua, ou qualquer um que já
foi arranhado por um gato desconhecido, sabe do que estamos
falando. Mas a culpa é dos animais?
Vamos tomar o
exemplo dos cachorros. Basta que duas famílias
irresponsáveis abandonem um cão e uma cadela nas ruas, para
que eles se multipliquem em pouco tempo, se deixados aos
seus próprios recursos. Logo, estarão correndo pelas ruas,
revirando latas de lixo, atacando outros cães, afugentando
crianças e adultos, sujando o espaço público. Isto, sem
contar os problemas ainda mais sérios quando um destes
cachorros fica hidrófobo, e acaba contaminando os demais. É
um perigo para a saúde pública e não podem ser
menosprezados. A solução, na maioria das cidades — no Brasil
e em muitos outros países do mundo — é caçar estes
cachorros, levá-los para um lugar em que serão mortos, às
vezes de maneiras incrivelmente cruéis.
Eu me lembro de uma imagem muito triste em
uma cidade costeira do sul do Brasil, há alguns anos, quando
visitei no mês de julho: as ruas desertas de gente estavam
literalmente tomadas por cachorros. Eram dálmatas, pastores,
poodles, vira-latas. Todos correndo juntos, brigando por
migalhas. Se podia ver que alguns deles tinham sido
cachorros de luxo, mas agora tinham feridas horríveis. Todos
estavam magros, imundos, esfomeados. Dava pena ver. Uma
amiga minha, que mora naquela cidade, disse que todas as
férias de verão, muitas famílias que alugam casa na praia
trazem seus cachorros e quando voltam pras suas casas os
abandonam na cidade. O problema fica sendo dos outros,
enquanto os covardes donos, depois de terem desfrutado do
prazer da companhia dos filhotinhos, os enxotam de suas
vidas e os esquecem.
Outro grupo é o
dos gatos abandonados. Embora eles não tenham a tendência de
formar os mesmos bandos que os cachorros, eles também acabam
se multiplicando em progressão geométrica, e causando vários
problemas. A solução, também para eles, tem sido cruel,
indiscriminada, bárbara: a morte paga com o dinheiro do
contribuinte, porque as cidades não sabem mais o que fazer
com os felinos, senão destruí-los.
Como resolver
estes problemas? Primeiro, temos que reconhecer que estes
animais que domesticamos, e que trouxemos para dentro da
sociedade humana, são nossa responsabilidade. Os gatos,
logicamente sabem caçar ratos e pássaros, e poderiam
sobreviver por sua própria conta por maior tempo. Mas eles
são animais cuja natureza foi modificada para que eles
pudessem ser companheiros dos seres humanos, e suas doenças
podem afetar os outros gatos e as pessoas. Os cães estão
ainda em pior situação, porque o instinto da caça foi quase
que completamente tirado deles através do cruzamento
seletivo, que visa principalmente realçar certas
características estéticas. O que um chihuahua ou um
schnauzer poderiam caçar?
Logicamente,
existem outros animais domesticados, mas dentro todos eles,
os cães e os gatos são as maiores vítimas, e sofrem a maior
parte das conseqüências das ações dos seres humanos. Repito:
temos uma obrigação para com estes animais, e não devemos
simplesmente abandoná-los à própria sorte, ou exterminá-los
como temos feito. Eles têm uma posição dentro da comunidade,
e necessitamos desenvolver soluções a aplicá-las com
responsabilidade.
Alguns
exemplos positivos
Às vezes acontece
que algumas soluções são resultado de um esforço deliberado
de um grupo. Outras vezes, as soluções se desenvolvem
organicamente, a partir de uma necessidade percebida e da
atuação de várias pessoas. O grupo que eu melhor conheço que
cuida de animais abandonados se desenvolveu da segunda
forma. Minha universidade, assim como muitíssimas (senão
todas) as instituições universitárias daqui dos Estados
Unidos, atraía “colônias” de gatos abandonados. O campus
fica dentro de uma área parcialmente residencial
relativamente pobre. Alguns animais fugiam de seus donos e
vinham para o campus, onde a presença de comida
atraía ratos e outros pequenos roedores, e a existência de
um sistema automático de irrigação dos jardins garantiam
água e comida em abundância. Apesar de eles terem tomado
conta da questão dos ratos, a presença de tantos gatos sem
dono ficou sendo considerada um problema, e a universidade
tinha a política de apanhar os gatos em arapucas e levá-los
ao centro municipal onde os que não eram adotados, mas
eliminados.
Os estudantes
começaram a soltar os gatos que eram pegos nas arapucas.
Alguns escondiam os gatos em seus dormitórios. Outros
alimentavam os gatos do campus. Outros destruíam as
arapucas para impedir que fossem usadas para pegar os
animais. Por fim, em 2003, um grupo de funcionários da
universidade tomou a decisão de escrever um projeto para a
fundação Summerlee e pedir fundos para começar um programa
para cuidar da situação. Assim começou o programa que se
chama “For Paws”, e que se baseia nos princípios de que a
melhor maneira de controlar a população de gatos selvagens é
controlando a população: TNR (Trap-Neuter/Spay-Release—Apreensão-Castração/Retirada
dos ovários-Liberação).
Este programa não
foi invenção deste grupo de 3 ou 4 pessoas de minha
universidade. Ele é conhecido em vários pontos do país, e
defendido por gente que vê a situação dos animais como algo
que tem que ser tratado com compaixão e conhecimento. O
programa consiste na apreensão dos animais, a castração dos
machos, e a retirada dos ovários das fêmeas, tratamento de
possíveis doenças, a vacinação contra a raiva, e a sua
libertação. Estudos foram feitos e indicam que ao evitar-se
que continuem se reproduzindo, os próprios animais se
encarregam de manter seus números de maneira constante,
estabelecendo-se entre eles um sistema social sustentável.
Desde 2003, quando
os voluntários de For Paws começaram a trabalhar em St.
Mary’s, dos gatos recolhidos, todos passaram por exames com
um grupo de veterinários que ou doa seu tempo grátis, ou
trabalha por uma fração do preço. Todos, machos e fêmeas,
foram castrados, vacinados, e
obtiveram um micro-chip que indica de onde são. Deste grupo
aprendido, 37 foram retornados ao campus, enquanto que
outros 43 gatos foram adotados por gente da comunidade. 13
gatos que estavam doentes e sem possibilidade de cura foram
eliminados de maneira compassiva, para evitar maior
sofrimento e a contaminação de outros, e 2 gatos morreram de
causas naturais. A historiadora de For Paws, Nettie Lucio,
diz que pelo menos 20 novos gatos passam pelo programa todos
os anos. Além do trabalho com os gatos, o grupo de For Paws
também trabalha com campanhas para a adoção de cães.
Logicamente, embora as pessoas que trabalham
sejam todas voluntárias, todo este trabalho custa dinheiro.
Os fundos dados pela fundação Summerlee serviram para o
estabelecimento inicial do programa: a compra das arapucas
especiais, a construção dos abrigos em vários pontos do
campus, a compra de comida e remédios, assim como o
pagamento dos tratamentos veterinários. Para manter o
programa, logo de início o grupo de pessoas do campus
— que inclui secretárias, professores, alunos, e
bibliotecárias — começou a fazer campanhas para levantar
fundos. Todos os anos, se faz a venda de camisetas, bolsas e
outros pequenos objetos que levam o símbolo do For Paws (com
o desenho feito pelo artista Brother Cletus), e se aceitam
doações de comida, dinheiro, e tempo.
Logicamente que este grupo não resolveu todos
os problemas de todos os gatos nem da cidade, muito menos do
estado do Texas. Mas, como uma das participantes mais ativas
do grupo, Caroline Byrd, disse outro dia, “como ninguém pode
resolver todos os problemas, nosso grupo quer ter certeza de
que pelo menos estes gatos, nesta instituição,
serão tratados com cuidado, e vão viver uma vida livres de
perseguições e morte desnecessárias.”
De fato. Se cada um de nós fizer um pouco, o
problema deixa de existir, ou se torna mais fácil de
resolver. Existe logo de cara a questão de uma política
humanitária por parte das cidades, que deveriam adotar um
sistema similar ao TNR. Mas a verdadeira solução começa a
nível do indivíduo: Se aqueles donos de cães que vão passar
as férias na praia e “esquecem” seus animais deixarem de
fazer isto, se as pessoas fizerem um esforço para não
maltratar os animais que encontram pelas ruas, já é um
começo. Mas basicamente toda pessoa que pensa em ter um
cachorro ou um gato deve pensar de maneira responsável,
antes mesmo de adquirir o animal: ela/e tem espaço e tempo
para acomodar o animal? Tem dinheiro para arcar com as
vacinas, alimentação, cuidados veterinários? Tem paciência
para passar pelos meses de treinamento?
Adotar dálmatas, ou beagles (por exemplo) só
porque estão na moda, e depois jogá-los fora como roupas
usadas é um ato criminoso. Tentar destruir bandos de cães
abandonados nas ruas é um ato vergonhoso. Aliás, a sociedade
que olha para outro lado quando vê animais sendo maltratados
é a mesma que encontra desculpas para explicar o assassinato
de crianças abandonadas nas ruas.