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ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do Mestrado em Educação
nas Ciências da UNIJUÍ - RS e da Johannes-Kepler-Universität de
Linz (Áustria). Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela
Universidade de Osnabrück – Alemanha
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O escândalo da liberação
de transgênicos no Brasil
por Antônio Inácio
Andrioli
Após
a irresponsável liberação da soja
e do algodão
transgênicos
no Brasil e a omissão
por
parte do governo
Lula, agora
é o caso do
milho
que ocupa o
centro
do debate. Uma
primeira
liberação por
parte da CTNBio (Comissão
Técnica Nacional
de Biossegurança) ocorreu em
16 de maio de 2007. Já
no dia 28/06/2007 a
juíza
federal de Curitiba, Pepita Durski Tramontini Mazini, suspendeu a liberação, determinando que
a CTNBio só
poderia
liberar esse milho após a elaboração de normas
de coexistência com
variedades
orgânicas e convencionais e a definição dos termos
do monitoramento. A decisão
ocorreu em resposta à ação civil pública apresentada pela
Terra de Direitos,
Idec (Instituto
Brasileiro
de Defesa do
Consumidor), ASPTA (Assessoria
e Serviços
a Projetos
em
Agricultura Alternativa)
e Anpa (Associação
Nacional
dos Pequenos
Agricultores). A suspensão
foi interrompida no dia 10 de janeiro
de 2008 pela
desembargadora federal, Maria Lúcia Luz
Leiria, do Tribunal
Regional
Federal da 4ª
Região, em
Porto Alegre, acolhendo
recurso da União
e restabelecendo a autorização da CTNBio. Para concluir, o governo brasileiro convocou
o Conselho Nacional
de Biossegurança (composto
por
ministros), que
no dia 12/02/2008 se
posicionou (por 7 votos a 4)
contrariamente aos recursos
apresentados pelo Ibama e
pela
Anvisa, mantendo a decisão
da CTNBio a favor da
liberação
de 2 variedades de milho transgênico: o MON 810, da Monsanto, e o Liberty Link, da Bayer. O que,
afinal, está por
detrás dessa discussão
toda?
A liberação de transgênicos
no Brasil é inconstitucional,
pois
não foram apresentados estudos de impacto
ambiental como prevê a Constituição Federal
em vigor,
em seu Artigo 225,
não há regras
para a liberação;
ela ocorre
através
de uma comissão
que
não é competente
na área de biossegurança, não tem representatividade da
sociedade
civil e é constituída por cientistas que, em sua maioria,
estão diretamente
interessados em pesquisas de
transgenia com financiamento
das multinacionais. Além
de ser um escândalo político
ter uma comissão
com mais
poder do que
os ministros e o
parlamento, a liberação
de transgênicos
fere, no mínimo, 3
princípios
do Direito Ambiental: da precaução, da sustentabilidade e da responsabilidade por
danos. O caso
do milho é o
mais
grave, pois
se trata de uma
planta
com polinização
aberta
e cruzada, na
qual
a contaminação de lavouras
impede qualquer possibilidade de coexistência entre cultivos transgênicos
e convencionais.
Esse
milho, cuja
liberação para
cultivo foi
aprovada,
não contém nenhuma
vantagem
para quem o
consome, pelo
contrário, trata-se de um
milho
de pior
qualidade,
pois contém em
todas as suas
células
uma toxina produzida por uma bactéria
que nela foi introduzida
para
combater determinados
insetos e outro
milho com
resistência a um
herbicida, que
pode ser aplicado
sobre
a planta,
com
maior índice
de resíduos. Os
efeitos
dessa toxina (produzida o tempo todo por uma planta)
e dos resíduos de
herbicida
sobre a saúde
e o meio
ambiente
são altamente
preocupantes e, mais uma vez, está sendo aprovado
o que é
contrário
aos interesses da
maioria
da população
brasileira.
Os
milhos
transgênicos liberados não produzem mais
que o milho
convencional. Trata-se, como se sabe, de um
milho resistente a
determinados
insetos e a um
herbicida. O
efeito
dessa tecnologia, a
longo
prazo, já
foi constatado: a exposição dos
insetos
a altas
dosagens
de um
mesmo
produto (nesse
caso, à toxina
produzida pela
bactéria Bacillus thuringiensis,
em concentrações que
variam enormemente e mesmo sem que os insetos
estejam operando como pragas), conduz à resistência
de parte desses
insetos
ao produto, os
quais
se reproduzem. Essa tendência,
constatada pela
Biologia
há muito
tempo
e em
todos
os países
onde
esse milho
foi cultivado, demonstra que, em poucos anos, a única característica desejada nessa planta
é eliminada. Da mesma
forma, a longo
prazo, os inços se tornam resistentes a
um único herbicida
aplicado. Sobram, então, os prejuízos: menor
produtividade, necessidade de aplicação adicional
de agrotóxicos e
enormes
riscos à saúde
e ao meio
ambiente.
Em termos
de competitividade internacional,
os países que
cultivam milho
transgênico
perderam espaço no
mercado,
pois os consumidores
recusam esse
tipo
de produto. Os
custos
de produção a
longo
prazo são
maiores e, ao
contrário
de outras tecnologias, ao
ser
liberado no meio
ambiente,
seus efeitos
são irreversíveis,
pois se alterou
características
da reprodução dessa
planta
sobre as quais
a ciência
não
tem controle.
No caso da soja,
chegam finalmente ao mercado os primeiros
produtos rotulados
como
transgênicos,
cinco
anos após a entrada em vigor do Decreto
Presidencial 4.680, de abril
de 2003, que exige a informação
ao consumidor de
produtos
que contenham
mais
de 1% de transgenia. Os defensores
dos transgênicos, por
sua vez,
continuam afirmando que a
rotulagem (o triângulo amarelo
com a letra
“T” escrita
em
preto) não
seria um
alerta, tendo em
vista
que há mais
de 15 anos
milhões
de pessoas estariam
consumindo alimentos transgênicos
sem um
único registro
de dano à
saúde
humana. Segundo
eles, os
transgênicos
seriam tão
ou
mais seguros
quanto os
alimentos
convencionais.
Os estudos utilizados para fundamentar esse tipo de afirmação, entretanto,
são altamente
questionáveis do ponto
de vista
científico. Vamos nos
ater
a um
exemplo
para explicar melhor isso: nos EUA foram realizados vários
estudos
comparativos
entre soja
transgênica e
soja
não-transgênica, com resultados indicando que
não haveria nenhuma
reação
diferente nas
cobaias
testadas. Além
de não terem sido realizados testes de médio
e longo
prazo, as quantidades
usadas terem variado muito
e a metodologia usada
ter
pouca validade
científica, a
soja
transgênica usada na alimentação das cobaias
não havia sido pulverizada com glifosato, o que
é uma situação
irreal,
pois não há sentido em cultivar essa soja,
resistente a herbicida, sem a utilização do
glifosato. As experiências
realizadas com cobaias
alimentadas com
soja
transgênica cultivada em condições normais (que
contêm até 33 mg de
resíduos
de glifosato por
Kg) chegam a
outros
resultados: a
ocorrência
de alterações na estrutura do fígado e do sangue,
causada por
produtos
metabólicos
desconhecidos
em função
de efeitos posicionais do gene resistente a herbicida,
como também
em função
de efeitos
conhecidos
de resíduos de
superdoses
de herbicidas e
seus
derivados. Efeitos reprodutivos são
um outro
aspecto alarmante
a ser considerado.
Ratos cobaias, que
tiveram contato
com
o Roundup, apresentaram os seguintes sintomas: a) maior
parcela de
espermatozóides
anômalos, b) menor
produção
diária de
espermatozóides
e c) alterações no desenvolvimento
do tecido testicular.
O exemplo mostra como os estudos
usados para afirmar que a soja transgênica seria segura
são manipulados, muitas vezes com o aval de renomados cientistas
e institutos de
pesquisa
a serviço das
multinacionais.
Para que se
possa ter
qualquer
estudo
comparativo
na população é
fundamental
a rotulagem para
que
se tenha um
público
de controle (que
efetivamente consumiu e que não
consumiu). Isso
era
impossível até
agora em
países como
os EUA, porque os
mesmos
defensores dos
transgênicos,
que alegam a segurança
desses produtos,
são
contrários à
exigência
de rotulagem. O que
já
se sabe, entretanto, é a probabilidade maior
de resíduos na
soja
transgênica, tendo
em
vista que
a resistência ao glifosato permite que o herbicida
seja aplicado sobre a planta, durante
sua fase de desenvolvimento vegetativo. Ao
contrário
do que a
indústria
química afirma, o
princípio
ativo glifosato é
um
produto
recentemente
classificado como
“altamente
tóxico”
pela Organização
Mundial da Saúde e
pela
Agência de
Proteção
Ambiental dos Estados Unidos, em função dos seus
efeitos
cancerígenos,
ação mutagênica, contaminação de alimentos e persistência
do produto no
solo
e em
cultivos. O herbicida, em sua formulação comercial (Roundup), é
composto de glifosato, sal de isopropilamina, polioxietileno-amina e
água. Em testes pelo mundo inteiro foram constatados danos
na saúde de
mamíferos,
que indicam tanto
para efeitos colaterais do agente
ativo quanto
para efeitos
dos demais
componentes
do Roundup e sua
combinação
com outras
substâncias
no solo e
em
organismos vivos.
O Roundup contém até 15% da substância POEA (Polioxietileno-amina),
responsável
pelo efeito
surfatante, isto é, a redução
da tensão superficial
para que o agente do herbicida
possa melhor
penetrar
no tecido da
planta. O efeito
dessa substância
aditiva, é
responsável
pela destruição
das funções do
fígado
e dos rins,
em
animais.
Como
cerca de 80% da soja se destinam à ração
animal e a
legislação
da União Européia abriu
mão
da respectiva rotulagem
para
carnes, ovos
e leite, uma
análise
dos efeitos de
resíduos
de glifosato na soja sobre o organismo
de suínos,
vacas
e aves seria de
grande
importância,
especialmente
com relação
aos interesses dos
consumidores
de tais
produtos.
Os transgênicos são
uma tecnologia de
risco
sem benefícios
à maioria da
população,
com enormes
efeitos
destrutivos
sobre o meio
ambiente.
Especialmente
no caso do
milho
transgênico, além
dos perigos
já
constatados (alergias, resistências a antibióticos,
destruição da
biodiversidade, etc) há um
enorme
risco envolvendo a
saúde: foi constatado que
cobaias
em contato
com a toxina
produzida pelo Bacillus thuringiensis
apresentaram sintomas
de imunodeficiência. Esse alerta é extremamente alarmante
e confirmaria os interesses
das multinacionais que
pressionam sua
liberação,
pois essas também
são indústrias
de medicamentos. A
liberação
do cultivo desse
milho
foi realizada de maneira forçada a partir dos interesses de poucas
multinacionais, interessadas na
cobrança de royalties (taxas sobre o uso dessa tecnologia
apropriada em
forma de patente).
Essas multinacionais
financiam institutos de pesquisa,
cientistas,
políticos
e a própria
imprensa. Os agricultores
são
enganados pelos
mesmos
argumentos propagados na
época
da introdução de
agrotóxicos
na agricultura e tendem a
ser
eliminados do processo
produtivo,
em função
dos crescentes
custos
de produção. Isso
tem sido amplamente
verificado, mas ignorado tanto
por organizações
dos grandes
como
dos pequenos
produtores
rurais. É
especialmente
lastimável que
muitas organizações e partidos políticos
contrários a essa
tecnologia
tenham se silenciado ou mesmo modificado sua
posição e que
a sociedade civil
brasileira (diferente
de muitos
outros
países) esteja
tão
passiva diante
de um
escândalo
político de
tamanha
envergadura.
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