De Daniel a Zé Dirceu
por
Rudá Ricci
1. Qual a motivação para se acusar um
companheiro?
A entrevista do ex-ministro José Dirceu à revista
Piauí foi como um vendaval no quintal de uma casa. Teve
endereço certo, atingiu apenas os avisados e iniciados, mas
atingiu com força. O grande problema não foi se expor como um
mega-consultor, homem de 15 mil reais por consultoria, ou 150
mil reais mensais. Esta vaidade de se expor é estranha para um
ex-clandestino de esquerda. Revelar que trabalha para o homem
mais rico do mundo também é estranho para um ex-presidente do
maior partido de esquerda do país. Mas são idiossincrasias que
acometem as melhores famílias.
O grande problema é o denuncismo. E, pior, uma
denúncia que recaiu sobre todos dirigentes gaúchos do partido
que ele dirigiu ou sobre a vida privada de uma ex-senadora que
até pouco foi colega de partido. Aí a situação parece mais
grave.
Na entrevista à revista
Piauí, que chegou
às bancas no dia 3 de janeiro, o ex-ministro da Casa Civil, José
Dirceu, declara que a ex-senadora Heloísa Helena (PSOL) votou
contra a cassação de Luiz Estevão "por motivos impublicáveis".
Além do contra-ataque da senadora (que decidiu abrir processo
contra José Dirceu), a direção do PSOL respondeu imediatamente.
A Executiva Nacional deste partido retrucou em nota estampada em
seu site oficial nestes termos:
Sua manifestação contra a presidente nacional do
PSOL, a ex-senadora e professora universitária Heloísa Helena, é
típica dos renegados que abandonam as posições de progressistas
de esquerda, sobre as quais construíram suas vidas políticas,
para se transformarem em lobistas do grande capital, nacional e
internacional, junto a parceiros que ainda consegue manter na
máquina governamental.
A Executiva afirmou, ainda, que não iria
responder no mesmo tom desqualificado da citada entrevista e que
Dirceu merece "cuidados terapêuticos urgentes". E insinua que o
ex-ministro teria alguma relação com a morte de ex-companheiros
da MOLIPO quando ingressaram no Brasil, após exílio em Cuba.
O molho picante recebeu outro ingrediente. Em
determinado momento, José Dirceu, na mesma entrevista, afirma
que a construção da sede do PT, em Porto Alegre, ‘foi feita só
com dinheiro de caixa dois. A construção da sede, de acordo com
Dirceu, foi feita "só com dinheiro de caixa dois", "com mala de
dinheiro". Na ocasião, o governador do Estado era o petista
Olívio Dutra. O ex-ministro contou que "a gente estava com eles,
não os abandonamos em nenhum minuto", em relação às denúncias
feitas na época. Em outra passagem desta entrevista, foi ainda
mais longe, ao comentar a postura de algumas correntes do
partido. Afirmou:
Esse pessoal é assim. Chegava para o Delúbio e
falava: "Delúbio, preciso de 1 milhão". Como é que alguém vai
arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra? Aí, quando
não recebiam o dinheiro, diziam que estavam sendo preteridos
porque eram de uma outra corrente, de uma outra ala, que a
direção era autoritária. O pobre do Delúbio tinha que ir aos
empresários conseguir doações. Aí, estoura o mensalão e esse
pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não
dizem é que a mala era para eles.
A metralhadora giratória atingiu em cheio o PT do
Rio Grande do Sul. Por qual motivo? A sede do PT gaúcho foi,
também, comitê de campanha de Olívio Dutra ao governo do Estado,
em 1998 (a sede foi comprada por 310 mil reais pelo Clube de
Seguros da Cidadania, que cedeu, em regime de comodato, ao PT).
O presidente do Clube de Seguros da Cidadania, Diógenes de
Oliveira, ajudou na captação de recursos para a campanha de
Olívio Dutra e acabou sendo investigado pela CPI da Segurança
Pública, que tinha como objeto a relação do governo estadual com
o jogo do bicho. Diógenes foi acusado, por deputados que eram
membros desta CPI, de ter relações com bicheiros e usar dinheiro
ilegal na compra da sede do PT. A CPI concluiu apontando
indícios de irregularidades contra 45 pessoas, sendo que a
Promotoria denunciou 11, incluindo Diógenes de Oliveira, todos
absolvidos pela Justiça gaúcha.
Qual interesse teria o petista e ex-ministro em
citar a compra da sede do PT como irregular? Uma pista está na
entrevista concedida pelo ministro da Justiça, Tarso Genro.
Segundo Genro, “há um contencioso entre o ex-ministro José
Dirceu e o PT do Rio Grande do Sul”.
Nas entrelinhas, a observação do Ministro da
Justiça sugere que José Dirceu teria como intenção ferir o PT
gaúcho. E o fez pela imprensa e não através dos fóruns e espaços
partidários. José Dirceu retratou-se ou corrigiu a entrevista
logo depois. Em nota publicada em seu site pessoal, o
ex-ministro afirma
Duas distorções preocuparam-me particularmente:
uma, o trecho em que falo da compra da sede do PT gaúcho, que a
grande imprensa interpretou como uma denúncia minha sobre
irregularidades nessa operação; a outra, a parte em que me são
atribuídas considerações sobre Fábio Luiz da Silva – para alguns
jornais, “Lulinha” – filho do presidente Lula, quando na verdade
eu falava sobre o jornalista Luís Costa Pinto, este sim, também
conhecido como “Lula”, em Brasília. Na nota divulgada, nas
entrevistas concedidas e, através de minha assessoria, deixei
claro aos companheiros e à imprensa que não fiz acusação sobre a
compra da sede do PT gaúcho. O que fiz foi lembrar denúncias
feitas à época pela oposição, apuradas pela Justiça e por uma
CPI que não encontraram nada de irregular e absolveram o PT e os
companheiros do Rio Grande do Sul. Tratei do assunto com a
jornalista num momento em que recordei que eu e a direção
nacional do PT mantivemos toda a solidariedade aos companheiros
do Sul enquanto durou o processo e que, em nenhum momento, os
pré-julgamos, até em respeito ao direito à presunção da
inocência. E que a recíproca não ocorreu – quando acusado, não
recebi o mesmo tratamento de alguns dirigentes do PT gaúcho.
O final da nota deixa claro o rancor. Mas
obviamente que não se trata de apenas rancor, mas de luta
política interna, tendo a imprensa como instrumento de pressão.
Alberto Dines (em 07/01, Observatório da
Imprensa) destaca a importância desta entrevista, para que
não reste dúvida de que não se trata de uma situação banal ou
corriqueira do jornalismo:
A entrevista-perfil assinada pela repórter
Daniela Pinheiro é modelar: pode ser lida como uma peça
devastadora contra o ex-chefe da Casa Civil ou como retrato de
uma personalidade fascinante. Há nela dinamite suficiente para
derrubar meia dúzia de figurões do PT e do governo, mas há
também um rico material sobre a perigosa tangência entre o
público e o privado, o mundo de negócios e a administração
pública, tanto na esfera nacional como internacional.
Não por outro motivo, a entrevista, de 11
páginas, começa relatando como Zé Dirceu enfrenta a ira de
muitos eleitores que freqüentam restaurantes de sua preferência.
Logo no início da entrevista, a título de ilustração, a
jornalista relata:
… [enquanto Dirceu almoçava na] churrascaria
Prazeres da Carne… um homem loiro e jovem se aproximou e pôs a
mão no seu ombro. Talvez porque imaginasse se tratar de um
conhecido, o ex-ministro sorriu quando o homem se inclinou, como
que para cochichar no seu ouvido. Com o rosto quase colado ao de
Dirceu, no entanto, o desconhecido gritou: “Seu safado, safado,
SA-FA-DO!”. …
A entrevista, sem dúvida, foi uma peça histórica
do jornalismo brasileiro. Foi uma entrevista estudada, pensada,
por Zé Dirceu, que um dia foi conhecido como Daniel.
2. Daniel, para os íntimos
Exilado no México e, logo depois, em Cuba, José
Dirceu, ou Daniel, não teve grande acolhida por Fidel. Daniel
desejava ingressar no treinamento militar. Contudo, Agostinho
Fiordelísio, que era o responsável pela ALN, organização
guerrilheira da qual Daniel fazia parte (dissidência do PCB),
revelou que havia restrições por parte dos dirigentes à sua
figura, desde os tempos de presidente da União Estadual dos
Estudantes (UEE-SP). A relação da ALN com o serviço secreto
cubano já era antiga. Desde 1969 a Direção Nacional da ALN
passou a ser exercida por Joaquim Câmara Ferreira, o “Toledo”. E
a partir daí, os cubanos passaram a se aproximar desta
organização, influenciando na indicação de Washington Adalberto
Mastrocinque Martins para ser o representante da ALN em Cuba.
Finalmente, foi inscrito no treinamento militar
em Pinar del Rio. Raúl Castro, pouco depois, passou a apadrinhar
José Dirceu. Apesar das restrições dos dirigentes da ALN, Daniel
foi se credenciando junto aos cubanos para viabilizar a entrada
dos militantes brasileiros no seu país de origem.
Há relatos de grande surpresa, por parte dos
dirigentes brasileiros em Cuba, em relação a esta mudança de
status de Daniel. Manoel Piñeiro Losada, “Barbarroja”, do
Departamento América (DA) e do Serviço Secreto cubano, trabalhou
para consolidar a aproximação de vários militantes do “Grupo dos
28” para seu domínio político. Segundo Carlos Eugênio Paz,
ex-comandante militar da Ação Libertadora Nacional:
Em Havana, o José Dirceu fez a política do
serviço secreto cubano. Quando perceberam que não poderiam tomar
a ALN, os cubanos articularam a formação de outra organização, o
Movimento de Libertação Popular, o MOLIPO. O José Dirceu não era
o chefe dessa organização, mas era uma das pessoas que a
apoiavam.
O fato é que a ALN não se enquadrava nas
intenções de Raúl Castro, sofreu um racha e gerou o MOLIPO
(Movimento de Libertação Popular), em 1971. O MOLIPO também
ficou conhecido como Grupo da Ilha, Grupo Primavera ou Grupo dos
28.
Todo planejamento de reingresso no Brasil,
elaborado por Daniel (em seis meses), foi muito criticado por
muitos outros militantes de esquerda. Afirmava-se que não havia
nenhum dado da realidade brasileira, dados ainda mais difíceis
de serem obtidos a partir de Havana.
O retorno foi o esperado. Do total de militantes
do MOLIPO, 18 morreram. Itobi Alves Corrêa se radicou em Paris;
Vinícius Caldevilla permaneceu em Cuba; Luiz Araújo não concluiu
a viagem de retorno e desembarcou em Argel; Ana Corbisier se
refugiou num convento de freiras na Bahia, pouco depois de
voltar ao Brasil. Mas Daniel retorna ao Brasil em abril de 1971
(no Rio de Janeiro) para, logo depois, regressar à Cuba. Muitos
militantes de esquerda (incluindo os presos naquele momento)
percebiam que haveria um massacre aos militantes do MOLIPO que
reingressariam no Brasil, via Chile.
Segundo Carlos Eugênio, em seu livro “Nas Trilhas
da ALN” (Bertrand Brasil, 1997):
A interferência deles (cubanos) já nos custou
caro demais; a volta dos companheiros do MLP sem nossa
autorização foi um desastre. 18 mortos e mais tantos presos... e
tudo por uma rasteira política de infiltração, querendo
influenciar nosso movimento de dentro, para adequar nossa
política às necessidades deles” (página 78). (...) Entendo que
os militantes nossos, afastados da realidade brasileira e
querendo voltar para lutar, questionem a Coordenação Nacional,
fundem uma corrente ou saiam da Organização, mas os cubanos não
tinham o direito de autorizar a saída deles do país sem nos
comunicar, quando havia meios para isso. Cederam os esquemas,
promoveram a volta e ajudaram a convencer os combatentes que
tinham dúvidas. Chegaram a São Paulo procurando militantes
queimados, usando esquemas já abandonados por falta de
segurança, aparelhos que não mais existiam, despreparados e
desinformados dos avanços da repressão (página 79). O que me
revolta é que caíram como moscas e hoje ninguém assume suas
responsabilidades (idem). (...) eles tentam influenciar na
escolha de nossos comandantes, fortalecem uns companheiros em
detrimento de outros; isolam alguns para criar uma situação de
dependência psicológica que facilite a aproximação; influenciam
o recrutamento; alimentam melhor os que aderem à sua linha e
fornecem informações da Organização; concedem status que vão
desde a localização e qualidade da moradia à presença em
palanques nos atos oficiais; não respeitam nossas questões
políticas e desconsideram nosso direito à autodeterminação
(páginas 180/181). (...) Fabiano (Carlos Marighela) negociou com
os cubanos de igual para igual, mas Diogo (Joaquim Câmara
Ferreira) concedeu demais. Sentiu-se enfraquecido pelas quedas
em São Paulo que culminaram com a morte do nosso líder e
permitiu algumas ingerências nas escolhas de quadros para a
volta e os postos que ocupariam na Organização (página 181).
(...) No Brasil, recebemos com espanto a volta de um comandante
indicado pelos cubanos e aceito por Diogo. O episódio não chegou
a ter maiores conseqüências, pois o comandante desertou no
caminho e foi morar na Europa (referência ao “comandante Raul”,
Washington Adalberto Mastrocinque Martins, atual funcionário da
prefeitura de São Paulo) (página 181).
Em novembro de 1971, dois militantes do MOLIPO
morrem em São Paulo. Em dezembro do mesmo ano, outro militante é
assassinado no Rio de Janeiro. No início de janeiro de 1972,
nova queda, num estacionamento do bairro de Santa Cecília (SP).
No final deste mês, o setor estudantil da organização estava
desarticulado. No mês seguinte, muitos militantes da frente de
massas são presos. No final de fevereiro caíram mais três outros
militantes, assassinados no Tatuapé, São Paulo. Na metade deste
mês, no que hoje é o Estado de Tocantins, cai mais um
guerrilheiro do Grupo dos 28.
Esta é a história que a frase cifrada publicada
no site oficial do PSOL que responde às acusações que José
Dirceu fez à Heloísa Helena se refere. A nota diz:
O PSOL não vai responder no mesmo tom
desqualificado da citada entrevista. Não vai reativar suspeitas
sobre o comportamento do "guerrilheiro" que nunca fez guerrilha,
e que se notabilizou por ter sido o único membro de sua
organização, entre todos os que retornaram da clandestinidade, a
sobreviver à repressão da ditadura que nos assolou durante duas
décadas.
Em 1972, um documento, escrito por Ricardo
Zaratini e Rolanto Frati, começa a circular entre militantes da
esquerda brasileira. O documento recebeu o título de “Por uma
autocrítica necessária”. Segundo Franklin Martins (hoje, no
governo Lula):
Soube de Zarattini pela primeira vez, em setembro
de 1969, quando Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, propôs a
inclusão de seu nome na lista dos 15 presos políticos que seriam
libertados em troca do embaixador americano Charles Burke
Elbrick, capturado numa ação conjunta da Ação Libertadora
Nacional e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que se
propunham a derrubar a ditadura através da luta armada. Na
reunião, Toledo, um tarimbado militante comunista com quase
quatro décadas de lutas nas costas, representava a ALN; eu,
então com 21 anos, falava pelo MR-8. Meses mais tarde, conheci-o
pessoalmente na ilha. Encontrei-o numa ampla e ensolarada casa
em Marianao, bairro de Havana onde antes da Revolução moravam
muitos dos endinheirados do país. Abandonada pelos antigos
proprietários, que haviam fugido para Miami, a mansão servia
então de morada e base para cerca de duas dúzias de militantes
da ALN que aguardavam o início do treinamento de guerrilha.
Ficamos amigos, mas logo nos separamos. Fomos enviados para
acampamentos diferentes e, concluído o treinamento, tomamos
rumos diferentes. Voltaríamos a nos encontrar – em termos
políticos, não físicos – cerca de dois anos mais tarde, em 1972.
Junto com outros companheiros da ALN, Zarattini chegou à
conclusão de que a luta armada estava derrotada. Era necessário
recuar e organizar a resistência nos sindicatos, nos bairros,
nas escolas, nas entidades, nos clubes etc., acumulando forças
para um novo momento. Na ALN, a proposta de correção de rumos
não foi aceita, o que levou Zarattini e outros companheiros a
deixarem a organização revolucionária fundada por Carlos
Marighella. No MR-8, por estreita margem, ela obteve o apoio da
maioria.
Esta história ainda terá novos capítulos, sem
dúvida. Mas um deles, parece ter se iniciado com a entrevista de
José Dirceu à revista Piauí.
3. De Daniel a Zé Dirceu
O que teria de comum entre Daniel e Zé Dirceu?
Seriam dois personagens absolutamente afastados
pelo tempo? Mas que tempo implacável seria este que transforma
um guerrilheiro em consultor do homem mais rico do mundo?
Na mesma entrevista publicada na revista Piauí, o
ex-ministro informa que é consultor de Carlos Slim (o homem mais
rico do mundo), que controla a América Móvil, presente na
Argentina, Chile, Colômbia, EUA, República Dominicana. Em abril
de 2007, esta empresa, controladora da Claro, afirmou apostar no
Brasil para marcar sua supremacia na região. Afirmou, ainda, que
buscava adquirir ativos brasileiros da Telecom Itália e superar
a Telefônica para se tornar a maior operadora do Brasil, a
principal economia da região. A agência de classificação de
risco Moody's calculou que a transação poderia custar cerca de
5,3 bilhões de dólares no total: 3,5 bilhões de dólares para a
AT&T e 1,8 bilhão de dólares para a América Móvil. Juntas, TIM
Participações, segunda maior operadora do Brasil, e Claro dariam
à América Móvil participação de cerca de 49 por cento no mercado
brasileiro de telefonia móvel e operações maiores que as da
Telefônica, atual líder por meio da joint-venture que
divide com a Portugal Telecom, a Vivo. O que levaria Zé Dirceu a
dar a entrevista à revista Piauí, estando numa situação
tão confortável? Dependendo da resposta, surge outra pergunta: o
que o ex-presidente nacional do PT está fazendo aí?
Uma pista encontra-se na Edição 283 da revista
Carta Capital. A revista noticia que
Em 1998, ano da privatização do sistema Telebrás,
o empresário mexicano Carlos Slim Helú não deu a menor bola para
o leilão. Seu grupo, o Telmex, ficou de fora do processo e
preferiu consolidar suas operações em outras praças, como México
e Estados Unidos. Cinco anos se passaram e o dono da maior
fortuna da América Latina anda animado com o mercado brasileiro.
O avanço do grupo mexicano ganhou impulso no segundo semestre do
ano passado, a partir da compra da Tess, operadora de telefonia
celular com atuação no interior de São Paulo. Mas a Anatel e o
Ministério das Comunicações não demonstraram, até o momento,
nenhum tipo de objeção imediata à venda. A reação do consórcio
das teles fixas foi rápido. Segundo Eunício Oliveira, ministro
das Comunicações, caso a Telmex venha a recorrer a recursos
estatais para usar na Embratel, o governo pode exigir uma
participação na Star One por meio de golden share (uma parcela
estratégica do negócio que incluiria, entre outras coisas, a
possibilidade de veto a decisões sobre a empresa). Oliveira
disse que a proposta já teria sido discutida com José Dirceu, da
Casa Civil e com o secretário de Comunicação do governo, Luiz
Gushiken."
José Dirceu, como ministro, já negociava acordos
com Slim. É o que já havia constatado, inclusive, Humberto
Medina, em matéria da Folha de S. Paulo de 19/03/04. A
matéria informava:
O governo tentará obter participação na Embratel,
para controlar a transmissão de informações militares via
satélite, por meio do BNDES. ‘Se nós tivermos a possibilidade do
controle, a segurança [na transmissão das informações militares]
aumenta’, disse o ministro Eunício Oliveira (Comunicações). ‘Não
é uma imposição do governo, é uma negociação.’ O ministro negou
que vá haver ‘reestatização’ da empresa. Ou seja, descartou a
possibilidade de a Star One, empresa da Embratel que opera os
satélites, ser vendida para a Telebrás, estatal em fase de
liquidação desde a privatização das telecomunicações, em 1998.
Ontem, representantes da Telmex, empresa mexicana que anunciou a
compra da Embratel por US$ 360 milhões, e das concessionárias de
telefonia fixa, ainda interessadas na operadora, procuraram o
ministro. Todos afirmaram que estão dispostos a negociar para
que o governo tenha participação na Star One. Antes de receber
os representantes das empresas, o ministro já havia dito que o
governo só conseguiria ter uma ‘golden share’ (ação especial que
dá direito de voto e veto em assuntos específicos da empresa) na
Star One se, no processo de venda da Embratel, houvesse
participação do BNDES. O banco faria um empréstimo e teria a
‘golden share’ em contrapartida. Oliveira recebeu Fernando
Xavier, presidente da Telefônica, Otávio Azevedo, presidente do
conselho de administração da Telemar, e Arthur Carvalho, do
banco Opportunity (representando a Brasil Telecom), pela manhã.
À tarde, ele recebeu a embaixadora do México, Cecília Soto, e o
diretor-geral da Telmex, Jaime Chico Pardo, e o presidente da
Claro, Carlos Henrique Moreira. A Telmex é dona da Claro,
operadora de telefonia celular. Após a reunião, Pardo disse que
a Telmex tem interesse em investir a longo prazo no Brasil. Os
militares consideram estratégico o controle das informações que
são transmitidas por meio dos satélites da Embratel - na faixa
que é chamada de banda ‘x’. Os satélites da Embratel são
alugados pelo governo para a transmissão das informações, que
são criptografadas (codificadas). Ontem, Oliveira disse que irá
tratar da retomada do controle sobre as transmissões via
satélite da Embratel com os ministros José Dirceu (Casa Civil),
Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) e José Viegas (Defesa).
Uma mega-empresa de telefonia, até onde as
notícias da grande imprensa indicam, foi atraída para o país
pelas mãos dos ministros do governo Lula, tendo como destaque o
futuro consultor da mesma, José Dirceu.
Parece estranho. Algo não se encaixa. Primeiro,
por que um mega-consultor se aventura a dar uma entrevista tão
polêmica, atacando dirigentes da esquerda e de seu partido?
Vaidade é algo certo, mas é pouco para um militante de esquerda
tão experiente e ex-ministro. Segundo, não parece ser uma
relação óbvia um dirigente do maior partido de esquerda do país,
que procura se manter como ideólogo de esquerda, vender serviços
para um mega-capitalista. Qual a relação entre fatos tão
díspares? Tony Blair, recentemente, aceitou ser consultor do
banco americano JPMorgan, com remuneração de 1 milhão de dólares
anuais. A esquerda européia ficou perplexa. O jornal Le Monde
Diplomatique se perguntou “Que aconteceu com Blair? Como o
jovem político inteligente, bonitão, eloqüente e acessível de
dez anos atrás caiu em tamanha desgraça? Como as mesmas pessoas
que beberam champanhe para comemorar sua vitória, em 1997, já
separaram novas garrafas para celebrar sua partida, em 2007?
Muitos tinham suas dúvidas, é claro, mas o tamanho da queda
dificilmente seria previsível nos primeiros anos. O encantador
Blair foi bem recebido por toda parte como a vassoura tão
esperada para varrer a memória da longa e conflituosa era de
Margaret Thatcher.”
O caso Zé Dirceu, que um dia foi Daniel, é um
emblema para a trajetória da esquerda no Brasil (ou parte da
esquerda). Não é um caso pessoal, mas um emblema.