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IURI ANDRÉAS REBLIN
Teólogo brasileiro,
mestre em teologia pela Escola Superior de Teologia (EST) de São
Leopoldo (RS). Pesquisa a teologia que está além das fronteiras
institucionais e que se manifesta em outros planos de expressão,
como o cinema, os quadrinhos, os romances de folhetim e as
telenovelas e nas relações interpessoais que acontecem na
cotidianidade da vida humana.
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Resenha:
GRESH,
Lois; WEINBERG, Robert. A ciência dos Super-heróis.
Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, 232p.
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Entre o possível e o impossível: a
ciência dos Super-heróis
por Iuri Andréas Reblin
Um livro cuja pretensão
seja dirigir um olhar sério, embora bem-humorado, à ciência que
permeia as narrativas e as origens dos super-heróis não deixa de
ser, no mínimo, curioso. E não é para menos. A Ciência dos
Super-heróis convida o leitor e a leitora a fazer um tour
pelo conhecimento científico de diversas áreas – astronomia, física,
biologia – disponibilizado até o momento e traduzido numa linguagem
que dispensa os jargões e toda a grafia técnica do campo científico.
Ele parte de uma premissa típica das histórias em quadrinhos: “o que
aconteceria se...”. O que aconteceria se os super-heróis existissem
tal como sua origem é relatada? Como eles se relacionariam com as
leis da física e o conhecimento biológico do qual o ser humano
dispõe? Afinal, de que maneira é possível conciliar o conhecimento
científico com as informações contidas nas histórias dos
super-heróis e elaboradas criativamente pelos seus idealizadores?
Estas perguntas perseguiram os autores de A Ciência dos
Super-heróis e o resultado disso é um texto instigador e
agradável de se ler.
Lois e Robert iniciam sua
fantástica jornada aos segredos científicos dos super-heróis
esclarecendo dois elementos importantes para o leitor ou a leitora
que os acompanhará nessa viagem. Em primeiro lugar, eles lembram que
os super-heróis são um produto próprio da literatura estadunidense,
resultado de condições históricas específicas: a falta de
entretenimento numa época de grande crise econômica; o sucesso das
pulps (revistas baratas de ficção) e da publicação
encadernada das tiras em quadrinhos dominicais e a persistência de
dois editores Donnenfeld e Liebowitz em criar gibis totalmente
novos. Em segundo lugar, Lois e Robert lembram o princípio
cosmológico ao abordar a ciência dos super-heróis. O princípio
cosmológico expressa que as leis da física são válidas em todo o
universo.
As primeiras questões
sobre as quais Lois e Robert se debruçam são acerca do Superman: a
vida em outros planetas é possível? Poderiam os poderes do Superman
surgir por causa da diferença da gravidade entre os planetas Terra e
Krypton, ou ainda por causa da diferença de sóis? Com base na
discussão em torno da Equação de Drake e do Princípio da
Mediocridade, Lois e Robert chegam à conclusão de que é muito
difícil (embora não impossível) haver vida em outros planetas de
forma semelhante ou superior como há na Terra. Já em relação à
origem dos poderes do Superman, ao passo que a diferença do
brilho solar não influencia em nada o corpo de alguém, a diferença
em relação à gravidade (supondo que o Superman tenha a força de 1000
seres humanos) tornaria Krypton impossível de existir. (ele
teria 3000 vezes a massa do sol).
Os dois capítulos que se
seguem fornecem juntos um equilíbrio entre o impossível e o possível
na ciência respectivamente. A idéia de que Bruce Banner
pudesse se transformar em um monstro-herói mediante o contato com
radiação gama e de que O Quarteto Fantástico pudesse adquirir
superpoderes ao entrar em contato com radiação cósmica não deixa de
ser technobabble, i.e., uma linguagem que utiliza palavras
familiares para fazer uma teoria surreal soar verossímil. Qualquer
tipo de radiação em alta intensidade de exposição resulta em morte.
Já todos os apetrechos utilizados por Batman em 1960 são
viáveis e alguns até já existem no séc. XXI.
Já o capítulo sobre
Aquaman e Namor, o príncipe submarino, evocam questões
como: teriam os seres humanos vivido em ambiente aquático ou
semi-aquático como sugere a Teoria do Macaco Aquático (TMA)
apresentada por Alister Hardy? Atlântida realmente existiu? Quais
são os problemas de se respirar debaixo d’água? Embora haja
pesquisas desenvolvendo líquido respirador, os problemas com a
pressão e a (ou o esforço para a) absorção de oxigênio dissolvido em
água tornam a vida humana marinha impossível.
Após a incursão pelo reino
marino, Lois e Robert visitam o mundo dos aracnídeos e examinam a
plausibilidade dos poderes do Homem-Aranha. Segundo os
autores, o maior problema do Homem-Aranha é a sua inexatidão.
Apenas dois dos cinco poderes que Peter Parker adquiriu ao
ser mordido por uma aranha radioativa possuem alguma relação com as
aranhas: a capacidade de aderir em superfícies lisas de algumas
aranhas e o sentido de aranha. Peter seria na verdade um
pseudo-homem-aranha.
Levando em conta de que
existe no universo uma patrulha policial como os Lanternas Verdes,
Lois e Robert especulam sobre dois elementos essenciais contidos
nessas narrativas: a fonte do poder cósmico de um Lanterna e
sua vulnerabilidade em relação a cor amarela. A única explicação
plausível acerca do poder do anel energético seria o desenvolvimento
de uma forma de captar a energia de um buraco branco pelos
Guardiões de Oa. Cientes de que o “poder corrompe”, esses teriam
criado uma fraqueza psicológica aos seus escolhidos, visto que o
amarelo está presente na cor verde.
Em seguida, Lois e Robert
ainda abordam os problemas científicos existentes nas narrativas do
Homem-Formiga, Eléktron, Flash e os X-Men.
No entanto, em se tratando de super-heróis, a salva de palmas vai
mesmo para os X-Men, que pegou uma teoria relativamente
simples e misturou com uma dose de fantasia.
Por fim, os dois últimos
capítulos lançam um olhar às histórias de ficção cujo protagonista
não é um super-herói e às histórias criadas por Carl Barks. Em
relação às primeiras, Lois e Robert discutem conceitos como o juízo
final na Terra e a viagem no tempo. Já em relação às segundas,
acontece uma ovação do criador do Pato Donald por misturar
uma dose adequada de ‘ciência verdadeira’ às histórias que ele
conta, remetendo a três exemplos bastante curiosos.
O grande trunfo de A
Ciência dos Super-heróis é abordar o conhecimento científico em
linguagem simples e de um jeito bem-humorado. Mais interessante
ainda é que ele parte do pressuposto de que os super-heróis existem,
elevando a discussão a um novo patamar: explicar os problemas
científicos e lógicos se a história funcionasse como descrita. Em
outras palavras, A Ciência dos Super-heróis leva os
super-heróis a sério e tenta verificar os problemas de lógica e
científicos a partir do fato deles existirem. Há casos, no entanto,
em que isso realmente não é possível e torna-se mesmo necessário
colocar um limite entre os “poderiam” e os “não poderiam”.
É certo que as histórias
dos super-heróis, as suas origens, trazem aspectos inverossímeis em
se tratando de ciência. Mesmo os X-Men, que possuem como pano
de fundo a teoria da evolução de Darwin (e, podem-se incluir aqui
também os avanços recentes do Projeto Genoma Humano, a transgenia,
etc) não deixam de conter elementos fantasiosos como seus
superpoderes. Isso quer dizer que, por mais interessante e curiosa
que seja uma obra como A Ciência dos Super-heróis, há algo
intrínseco e imprescindível nas histórias dos super-heróis que as
ciências naturais e suas ramificações não conseguem abraçar: a
fantasia. E se essa obra não é lida juntamente com outros textos
procedentes das ciências humanas, não é possível ter a visão do todo
nas histórias dos super-heróis, pelo menos se tal leitura intentar
ser mais que um mero passatempo.
Pesquisadores têm
evidenciado o caráter utópico (no sentido atribuído por Mannheim) da
fantasia presente nas narrativas dos super-heróis. Nestas, existem
valores, aspirações e esperanças que se evidenciam mesmo que se
encontrem reprimidos pela articulação da defesa do sistema
(super-heróis defendem a lei e a ordem tal como a sociedade está
estruturada). Há um caráter inconsciente de anseio por libertação do
sistema (VIANA, 2005) ao mesmo tempo em que há um caráter
soteriológico e escatológico sobre o qual o próprio sentido de
heroísmo é moldado (REBLIN, 2005). E são esses elementos que dão às
narrativas dos super-heróis o tempero final.
Em palavras finais, a
ciência nas narrativas dos super-heróis não é importante. Ela é
apenas um elemento estratégico utilizado para justificar as
habilidades especiais dos heróis, por ser reconhecida socialmente
como fonte primária e dominante de conhecimento na sociedade
contemporânea. Talvez, no fundo, a ciência presente nas narrativas
dos super-heróis não passe mesmo de puro technobabble, visto
que o objetivo real dessas narrativas não é ser uma história
extraída da realidade (mesmo que possa conter elementos desta) mas
sim uma história de encantamento, i.e., um mito para ser contado e
recontado, um mito que diga ao ser humano quem ele é, o que ele quer
e para onde ele pode caminhar.
Referências complementares
REBLIN, Iuri
Andréas. “Para o alto e avante!”: mito, religiosidade e necessidade
de transcendência na construção dos super-heróis. Protestantismo
em Revista, São Leopoldo, ano 4, n. 2, mai.-ago. de 2005.
Disponível na Internet:
http://www3.est.edu.br/nepp/revista/007/07iuri.htm
VIANA, Nildo. Heróis e Super-heróis no mundo dos quadrinhos.
Rio de Janeiro: Achiamé, 2005.
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