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RESENHA:
Alípio
Freire. Estação Paraíso. São Paulo: Expressão Popular, 2007,
128p.
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Poesia e Utopia
por Antonio Ozaí da Silva
Conheci o Alipio nos corredores e salas do Sindicato
dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo (SP), nos primeiros anos
da década de 1980. Ele trabalhava como jornalista e eu era um jovem
descobrindo o mundo da política. Nossos contatos foram esporádicos,
ditados pelas atividades sindicais cotidianas. Não obstante, foi
marcante. Nossos caminhos tomaram diferentes direções, mas não o
esqueci. Em minha mente ficou a imagem de um companheiro
bem-humorado e solicito, mas também circunspecto e de poucas
palavras. Seu jeito de ser, algo misterioso e com uma certa aura,
atiçava a minha curiosidade e admiração. Eu sabia que ele era da
geração que enfrentou a sanha assassina dos ditadores; e eu era
apenas um jovem cuja experiência sindical e política se resumia a
fazer greve, pichar muros e colar cartazes, participar de reuniões
etc. Atividades que tinha o seu risco, pois, mesmo que em tempos de
“abertura política”, ainda estávamos sob a ditadura militar. Porém,
não podiam ser comparadas à militância dos companheiros e
companheiras que semearam a utopia socialista e os tempos de
liberdade, ainda que “burguesa”, com a vida e o sangue vertido nas
ruas e prisões. Naquele tempo, homens como Alipio eram para mim
seres quase que mitológicos, envoltos em mistérios e dignos de
admiração.
Agora, vejo a imagem do Alipio em seu livro
Estação Paraíso e descubro que também é poeta. Não sabia que
tinha essa qualidade. O tempo passa e envelhecemos, mas a sua
fisionomia ainda mantém os traços marcantes que ficaram em minha
memória. Leio suas palavras e sinto que elas têm o vigor dos que
persistem, apesar do passar do tempo e das mudanças políticas. As
idéias teimam em não envelhecer. A utopia se renova nos poemas que
expressam uma experiência de vida singular, numa perspectiva dos que
sabem da necessidade de resgatar a memória histórica e fazer a
crítica ao passado e presente, condições essenciais para evitar a
repetição da tragédia e construir o futuro.
O passar dos anos contribui para o desencantamento. O
mito desfaz-se diante do conhecimento da história. Descobrimos,
então, que aqueles “deuses” eram seres humanos de carne e osso que
partilhavam das nossas fragilidades humanas. Mas isto não diminui a
admiração, apenas a coloca em novo patamar. Afinal, foram homens e
mulheres que ousaram agir, ainda que em condições extremamente
desfavoráveis. Cometeram erros, é verdade; mas romperam os diques do
conformismo e atreveram-se a pensar e agir, acalentados pelo sonho
da liberdade e a utopia de um Brasil diferente. Merecem o respeito
das novas gerações. Os jovens de hoje precisam saber que a
democracia, ainda que limitada e “burguesa”, não foi uma dádiva dos
ditadores. O simples direito de poder votar é uma conquista regada
pelo sangue dos que ousaram lutar!
Os poemas do Alipio expressam uma época em que a
morte rondava os que, como Lola, anunciavam um novo tempo. Mas ele
nos fala do nosso tempo, do presente. Os ditadores assassinaram
jovens corpos cheios de vida e sonhos, com a vã esperança de, assim,
aniquilar as idéias. Fracassaram. As idéias sobreviveram nos corpos
marcados pela tortura e almas atormentadas pelas lembranças do
sofrimento da carne; sobreviveram no resgate da memória dos que se
foram; e foram revivificadas nos que vieram depois, os quais, ainda
que não soubessem e percorressem outros caminhos, estavam imbuídos
dos mesmos ideais.
A ditadura passou, a utopia permaneceu. Nos novos
tempos das liberdades democráticas, a utopia foi instrumentalizada,
incorporada e negada. Mercantilizada, tornou-se moeda de troca para
a ocupação de postos no aparato do poder estatal. Hoje, os
assassinos da utopia se metamorfoseiam em democratas e guardiões da
ordem social; pragmáticos, não ousam ir além da política segura que
lhes assegurem os lugares conquistados; seus discursos vazios de
conteúdo conservam as condições de injustiça e desigualdade. Os
assassinos da utopia do nosso tempo não precisam lançar mão de meios
bárbaros, embora possam recorrer ao argumento do “estado de direito”
para perseguir os que insistem em anunciar a aurora.
A utopia permanece como uma necessidade. É
reconfortante vê-la renovada nas palavras do poeta:
O bicho homem constrói sua casas
suas máquinas, sua vidas
em perfeita harmonia entre si
e com a natureza
Reconciliados.
As crianças de todas as raças
são coradas e sadias
todos s adultos seus pais e mães
e o saber e a inteligência
são repartidos igualmente
como o pão e o vinho
o leite e o mel (p. 43-45).
O poeta se mantém fiel às idéias pelas quais lutou. É
um modo de honrar a memória de Lola e de tantos outros que pereceram
nos porões da ditadura militar. Seus poemas prenunciam a aurora que
virá:
Aurora
eu te diviso
ainda tímida
inexperiente
das luzes
que vais acender
dos bens
que repartirás
com todos os homens
– Prenunciou o poeta gauche
em seu sentimento do mundo
Antes
muito antes
do nascer
Aurora (p. 73).
A aurora anuncia o novo mundo, a utopia realizável. E
a cada amanhecer do novo dia, ela se impõe como uma certeza a ser
construída pelos homens e mulheres do presente e do futuro. Por
outras “Lolas”, outros “Alipios” e poetas cujas palavras se
transformam em ação. Estação Paraíso fala à alma dos que
sentem o mundo e a necessidade de transformá-lo. As palavras do
poeta denunciam a barbárie e nos comprometem com a luta por sua
superação:
Eles assassinaram a Aurora
Restou ao dia amanhecer
solitário
em ruptura
radical
Havemos de amanhecer
O mundo se tingirá
E o sangue que escorrer será doce
de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces
Aurora (p. 85).
Sim. Porque apesar dos assassinos, no passado e
presente, a Aurora se anuncia em cada alvorecer. Como frisa o poeta:
Apesar de todas as nossas misérias...
Eppur se muove! (p. 107).
Os poemas de Alipio Freire precisam ser lidos e
relidos. Situados no tempo através do texto introdutório escrito
pelo próprio autor, seus leitores compreenderão a essência do seu
significado. Mas do que compreender, é preciso senti-los. E não há
como se manter insensível diante da veemência das palavras impressas
no papel. A propósito, a edição de Estação Paraíso tem
excelente qualidade. O mérito é da Editora Expressão Popular e
evidencia a possibilidade de um projeto editorial que publique com
qualidade e preço baixo, favorecendo o acesso aos bens culturais. O
autor doou os direitos autorais à editora. Até porque seu livro é
concebido como “um objeto poético”. Para Alipio, “transformá-lo em
mercadoria é uma contingência fugaz do nosso tempo, como fugaz é o
capitalismo” (p. 15). A escolha da Editora Expressão Popular é
coerente com o ideário político do autor.
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