2008
por
Henrique Rattner
Desde
a primeira reunião sobre o meio ambiente e desenvolvimento,
realizada em Estocolmo, Suécia, em 1972, muitas outras a
seguiram: a CNUMAD – Conferência das Nações Unidas sobre
Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro,
em 1992; uma reunião intermitente, também no Rio em 1997 que
coincidiu praticamente com a de Kyoto, Japão e inúmeras
outras reuniões intermitentes até se chegar à de Bali, na
Indonésia, em fins de 2007. Os parcos resultados alcançados
nesses trinta e cinco anos de reuniões das quais
participaram milhares de delegados, jornalistas e
representantes de ONGs – Organizações Não Governamentais
causam desânimo e desespero naqueles que lutam
incansavelmente para salvar o planeta e a humanidade de
desastres ecológicos cada vez mais violentos e freqüentes.
Para Bali, as expectativas eram muito
grandes: acabara de ser publicado o relatório do IPCC –
International Panel on Climate Change, cujo impacto pode ser
comparado ao Relatório ao Clube de Roma, intitulado “Os
Limites de Crescimento” resultado de uma pesquisa realizada
no MIT – Massachussets Institute of Technology, em 1972. O
tema central desta reunião de Bali deveria ser o “efeito
estufa”, o aquecimento global terrestre, claramente
perceptível e divulgado pela comunidade científica. Mas, tal
como na reunião de Kyoto, também nesta, os principais países
poluidores – Estados Unidos e os BRICs – Brasil, Rússia,
Índia e China – recusaram-se terminantemente a assumir suas
responsabilidades para reduzir nos próximos quinze anos
(1997–2012) suas emissões de Co2, NO4,
SO2 e metano, destacando-se por sua arrogância a
delegação norte-americana que, devido a sua recusa numa
reunião internacional que requer unanimidade na votação,
inviabilizou todo o esforço. Neste ano de 2007, a Rússia –
um dos grandes poluidores – aderiu às metas de Kyoto e, no
final do ano, a Austrália sob novo governo trabalhista
declarou sua adesão às metas da Convenção. Permanecem os EUA
– maiores poluidores – consumidores de carvão e de petróleo,
cujo presidente tem rechaçado qualquer medida de redução das
emissões sob a alegação que isto prejudicaria a economia do
país. Também os BRICs continuam a alegar seus direitos de
poluir, até que tenham alcançado o nível de desenvolvimento
dos países “ricos”. Argumento frágil e indefensável no caso
do Brasil, onde a queimada de florestas é responsável por
aproximadamente 20% da emissão de CO2 no mundo.
As propostas de MDL – “mecanismos de desenvolvimento
limpos”, supostamente mais eficazes, por permitir a
transferência de créditos mediante pagamentos aos países que
ainda não poluíram sua cota soam infantis porque não reduzem
o total das emissões. As metas da Agenda 21, proclamadas na
Rio-92 não foram cumpridas, com poucas exceções, e somente
em nível local. As conseqüências dessa atitude negativa e o
descaso com o futuro de nosso planeta têm agravado a
situação das populações mais carentes e desprotegidas, em
Casos de desastres naturais, cada vez mais freqüentes.
Além do aquecimento global terrestre,
verifica-se uma escassez crescente de água potável,
sobretudo nas regiões do agreste, cujas terras, rios e lagos
secaram. Ocorre, também, uma degradação contínua de solos
cultiváveis, por erosão e salinização, conseqüência de
métodos de irrigação irracionais. Rios, lagos e costas
marítimas são degradados pela destruição da mata ciliar, a
invasão de manguezais e o despejo irresponsável de detritos
tóxicos da produção industrial e da mineração. Na própria
agricultura cuja mecanização procede a passos gigantes nas
monoculturas da soja e da cana-de-açúcar. No uso de
agrotóxicos, fertilizantes químicos e pesticidas, a
tendência é de agravamento da situação por que as
substâncias tóxicas são levadas pelas chuvas para o subsolo
e os lençóis freáticos, contaminando assim as reservas do
precioso líquido. A água contaminada, consumida pelo gado e
por seres humanos, causa efeitos patológicos na saúde de
seus consumidores.
Outro problema que inspira grande preocupação
é representado pelo crescimento explosivo das áreas urbanas,
particularmente, das metrópoles, grandes consumidores de
água e de energia. Algumas metrópoles alcançaram níveis de
população que desafiam a administração racional, com
problemas praticamente insolúveis. A demanda por mais
energia leva à instalação de termoelétricas, grandes
produtoras de CO2 e do efeito–estufa. A água,
contaminada pelas invasões de áreas de mananciais por
milhões de favelados, exige investimentos cada vez mais
elevados para assegurar um grau de pureza aceitável para
consumo humano. Em muitos municípios, há falta de saneamento
básico, o que leva a população a usar água contaminada para
lavar-se e para cozinhar. Os efeitos são sentidos na área de
saúde, que deve atender inúmeros casos de diarréia, hepatite
e outras infecções causadas por parasitas, sobretudo na
população infantil.
Além do problema de falta de infra-estrutura
nas áreas periféricas das metrópoles, há uma imensa falta de
moradias decentes, com o conseqüente adensamento da
população marginalizada em favelas, onde o atendimento
adequado por serviços públicos é praticamente ausente. Esse
quadro reflete a gritante desigualdade na distribuição de
riquezas e de renda. Uma minoria detém a maior parcela de
recursos materiais e simbólicos, vive na opulência e no
desperdício, enquanto a imensa maioria da população carece
do mínimo necessário para uma existência digna, com
qualidade de vida aceitável.
Infere se, portanto, que o conceito de
sustentabilidade não pode ser restringido ao “esverdeamento”,
ao ecologicamente “correto” e, tampouco, ao economicamente
“viável” (para quem?). Há uma dimensão social e ética que
deve ser priorizada, assegurando os direitos humanos e
justiça para todos.
Essa visão da sustentabilidade ultrapassa a
dimensão temporal do presente e reclama urgentemente
mudanças em prol de um futuro mais eqüitável. Cabe a cada um
de nós levantar a pergunta e responder: Que tipo de
sociedade queremos para nós e para nossos filhos? As elites
vivem se queixando de altos impostos, reclamam com os gastos
sociais do governo e querem “enxugar” o Estado. Quase todos
sonegam impostos, praticam o sub e superfaturamento, mandam
divisas para paraísos fiscais que empobrecem o país. Nos
países europeus, onde prevalece (ainda) o Estado de bem
estar, a alíquota de impostos chega a 45%, enquanto aqui no
Brasil não passa de 27,5%. Lá, o Estado obtém os meios para
uma política social decente, inclusive para os imigrantes.
As elites louvam-se na democracia, conquista dos movimentos
operários e sociais após a queda da ditadura. Mas, nossa
democracia é apenas formal e o sistema eleitoral veda o
acesso das classes baixas ao poder, com exceção das
oligarquias partidárias e sindicais cooptadas, que têm
acesso à informação e aos direitos de cidadania.
Os economistas falam da necessidade de maior
eficiência dos recursos humanos e de produtividade, mas
silenciam sobre o problema de distribuição de renda e da
deterioração dos recursos humanos, submetidos a um regime de
trabalho desumano. Não se calculam as perdas com a falta de
racionalização do sistema produtivo – os desperdícios de
água, de energia, de tempo necessário para o transporte e,
portanto, o desgaste sofrido pela força de trabalho
submetida a um ritmo e cadência desumanos. Em outras
palavras, os custos de produção causados pela organização
irracional do espaço urbano e do sistema de transporte são “externalizados”,
transformados em custos sociais. Caberia ao Estado zelar
pela “internalização” dos custos sociais e das deseconomias
das metrópoles, penalizando seus responsáveis. Entretanto, a
estrutura do sistema político não toca nos privilégios da
elite, enquanto ignora as necessidades da população
desamparada. Enquanto não houver uma democracia verdadeira e
participativa, a resolução dos conflitos se arrastará por
anos, por causa de um sistema judiciário moroso,
ineficiente, quando não, corrupto.
Então, como sustar as queimadas na Amazônia
quando o poder executivo, legislativo e judiciário está nas
mãos das oligarquias e das elites hereditárias?
Há uma confusão, talvez propositada, entre
economia de mercado e democracia. A nossa democracia
representativa não cria obstáculos à concentração das
terras, indústrias e finanças cujo poder se impõe e sobrepõe
ao dos representantes eleitos. Como se elegem repetidamente,
elegem seus filhos e parentes, criam verdadeiros clãs ou
dinastias que tomam conta do Congresso, arranjam empregos
sem concurso para seus familiares e detém os meios para
beneficiarem-se dos contratos com as grandes empreiteiras.
Sua política, na melhor das hipóteses, concede esmolas de um
assistencialismo descarado, aproveitadas para construir suas
carreiras políticas e eleitorais. Um verdadeiro Estado de
bem estar como prevalece nos países escandinavos, dispõe de
recursos pela tributação das grandes fortunas para manter os
sistemas de habitação, saúde, educação, transporte público e
segurança que constituem a base para a formação da
consciência e de cidadania.
Utopia, diriam os porta-vozes das elites.
Convém lembrar as palavras de Victor Hugo: “a utopia de hoje
é a imagem do futuro”.
Voltando ao nosso tema central: seria
possível evitar o risco imenso que representa o aquecimento
global terrestre? Não podemos esperar a próxima reunião
mundial que já foi convocada pelo presidente Bush, a ser
realizada no Havaí, EUA. O crescimento econômico de que
tanto se vangloriam os governos é “perverso”,
considerando-se seus impactos ambientais. A indústria
automobilística brasileira encerrou o ano 2007 com uma
produção de três milhões de veículos, contribuindo para o
aumento do PIB de forma significativa. Mas, analisando seus
efeitos “para frente” e “para trás”, verificamos um aumento
da demanda de aço, vidro, plástico e alumínio, todos grandes
consumidores de energia que exigem mais carvão e petróleo ou
gás para as termoelétricas, cujas emanações poluem a
atmosfera e contribuem para o “efeito estufa”. Por outro
lado, o sucesso da indústria automobilística significa que,
diariamente, mais de 700 carros estão sendo emplacados e
lançados nas ruas da cidade, que não comporta mais essa
sobrecarga, haja vista os congestionamentos diários do
transito, por dezenas de quilômetros. O gasto excessivo com
combustível cujos gases são inalados pelas pessoas causam
inúmeras doenças respiratórias, sobretudo em crianças e
idosos e levam a um aumento significativo de gastos em
internação hospitalar e de pagamentos de serviços médicos
profissionais. Os gases emanados dos veículos danificam
prédios e edifícios de moradia, as roupas que vestimos,
enfim, tudo, aumentando os “custos sociais” desse tipo de
crescimento.
Efeitos destrutivos verificam-se com a
expansão da agricultura notadamente com a plantação da soja
e da cana-de-açúcar, para a produção de etileno. Além de
invadir áreas de reservas florestais e de proteção de
mananciais, os agrotóxicos atingem os lençóis freáticos e os
aqüíferos que constituem uma reserva preciosa do líquido
cada vez mais escasso no planeta. Com o advento do álcool à
base da cana-de-açúcar e da expansão da soja, vastas áreas
são queimadas anualmente para dar lugar à produção de
“commodities” exportáveis ou a formação de pastos para a
criação de gado. O avanço desse “progresso” na agricultura
destrói biomas insubstituíveis, tais como o agreste, a
catinga e, sobretudo, a floresta amazônica. Ademais,
expulsam as populações indígenas de seu habitat natural e
invadem também as propriedades de pequenos agricultores.
Os estudos e as advertências dos cientistas
do IPCC – Painel Internacional sobre as Mudanças Climáticas,
o aumento da temperatura terrestre e seus efeitos dramáticos
– o derretimento do gelo das calotas polares, a elevação do
nível dos mares e as conseqüentes inundações de inúmeras
cidades situadas nas regiões costeiras não encontram ouvidos
atentos entre os representantes dos governos. Infelizmente,
nos países pobres, os primeiros a serem atingidos pelas
calamidades naturais, as instituições públicas e a
consciência popular não alcançam o grau de compreensão dos
desastres imanentes e carecem de poder de cidadania
organizada para cobrar dos governos atitudes mais
preventivas, seguindo o “princípio da precaução” quanto aos
efeitos do aquecimento global terrestre.
O que fazer? E quem vai fazer? Para evitar as
tragédias anunciadas. O poder das grandes corporações,
aliadas à tecnocracia e os militares seria insuperável?
Neste momento histórico, parece haver um recuo diante as
pressões de contingentes crescentes da população, sobretudo
da classe média e uma parte dos empresários aliados aos
movimentos sociais. Mas, os governos formados por um tripé
de forças – as grandes corporações de negócios, as elites
tradicionais da aristocracia rural, os dirigentes cooptados
dos sindicatos e dos fundos de investimentos, baseados nas
contribuições acumuladas dos trabalhadores, preferem
distribuir migalhas sob forma de um assistencialismo
populista, enquanto resistem a reformas agrária, tributária,
urbana e trabalhista que teriam como efeito a redistribuição
das riquezas. O centro do poder parece inamovível e a
periferia – centenas de milhões de deserdados continuam
condenados à marginalização, a carência das necessidades
básicas e a repressão truculenta pelas forças da “ordem”, a
polícia militar e civil. Não se pode esperar dessas forças
boa vontade e disposição para induzir uma política de
mudanças.
As grandes teorias – o socialismo, o
neoliberalismo e os movimentos libertários impulsionados
pelas massas parecem incapazes de mobilizar e organizar a
população que dá sinais de apatia e de desânimo com a luta
política, resultando em alta percentagem de abstenção nas
eleições. Contudo, não há motivos para o desânimo ou
desespero da situação política. O Instituto de Pesquisas de
Santa Fé no Novo México que reúne, há duas décadas,
cientistas de diversas áreas de conhecimento para tentar
responder questões cruciais sobre a origem da vida, da terra
e do cosmos, levantou uma hipótese promissora a partir dos
conceitos de complexidade e de caos que caracterizam o
estado atual da natureza e da sociedade humana. Segundo essa
hipótese, testada nas áreas de biologia, astronomia e de
computação avançada, a aplicação do conceito de caos à
sociedade humana e o caos reinante em sua organização
política e social é caracterizada por conflitos étnicos,
religiosos, tribais que se estendem a um vasto espaço
geográfico, desde as pequenas ilhas – Estados no Oceano
Pacífico, passando pelo Mianmar, Tailândia, Paquistão, todo
o Oriente Médio – Iraque, Afeganistão, Israel e os
palestinos até o norte da África. Onde, a partir da década
dos oitenta houve uma relativa pacificação com o fim de
guerras civis no Moçambique, Angola, Quênia e Uganda, embora
despontasse um conflito sangrento no Sudão, particularmente
na região de Darfur, com dezenas de milhares de vítimas e
mais de dois milhões de refugiados. As tropas das Nações
Unidas, da NATO e dos próprios EUA, com todo seu poderio
militar têm se mostrado incapazes de impor a paz e uma
relativa estabilidade nessas regiões. São nessas situações
de caos, de desestruturação social que surgiriam, nas bordas
do sistema, novas formas de estruturação da vida organizada.
A formação de cooperativas de produção e comércio, de
economia solidária e outras formas de atuação coletiva são
capazes de enfrentar e superar a desordem reinante. Mais
ainda, a organização coletiva permite também a formação de
mais variadas formas de expressão cultural, movidas por
valores como solidariedade, justiça e respeito dos direitos
humanos. Pensamos na ANTEAG – Associação Nacional de
Trabalhadores em Empresas de Auto-Gestão e as cooperativas
de agricultura familiar, nas quais jovens e adolescentes
conseguem romper os grilhões da marginalidade através da
formação de grupos de danças, de canto de orquestras, de
teatro e outras. Trata-se, em geral, de iniciativas
privadas, de pessoas que procuram e encontram um sentido
para suas vidas no resgate de jovens da pobreza e da
exclusão social. E, até o poder público local é obrigado a
colaborar com as diversas iniciativas de associação de
moradores, estendo a cooperação aos municípios vizinhos,
criando consórcios de administração de micro-bacias,
disposição e tratamento de lixo, purificação da água, enfim,
um esforço coletivo para assegurar a qualidade de vida de
suas populações. Quem sabe, essa pressão “por baixo” consiga
mover e obrigar o poder central, o Estado, a enfrentar de
forma séria e responsável as questões sobre o futuro de
nossa sociedade.
Lembrando Oswald de Andrade: “em cada utopia
não há somente um sonho; há também um protesto contra a
situação existente”.