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WALTER
PRAXEDES
Docente
na Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências
Sociais; Doutor em
Educação pela USP e co-autor de O Mercosul e a sociedade
global (São Paulo, Ática, 1998) e Dom Hélder Câmara:
Entre o poder e a profecia, publicada no Brasil pela Editora
Ática (1997) e na Itália pela Editrice Queriniana (1999)
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Ao ler os romances de José Saramago
por Walter Praxedes
Numa
época em que o acesso à leitura se generaliza em muitas sociedades,
as obras impressas mais difundidas acabam sendo aquelas relacionadas
com as atividades técnicas e instrumentais ou, quando muito,
destinadas a suprir as necessidades psicológicas e afetivas mais
imediatas do leitor-consumidor.
Para retirar o leitor da sua vida singularizada em um
mundo cada vez mais restrito é que José Saramago tenta realizar uma
ação comunicativa com o seu público, recorrendo a inúmeros
procedimentos estilísticos, como exemplificam o exercício freqüente
da metalinguagem e a recuperação da oralidade na narrativa escrita,
numa tentativa de superar a distância estética existente entre autor
e leitor.
Com a intenção de provocar o distanciamento de cada
um de nós em relação ao nosso contexto habitual, Saramago reelabora
e constrói alegorias que estilhaçam as representações harmônicas
sobre a realidade, pois, no seu entendimento, "...assim está o mundo
feito, que tem a verdade muitas vezes de disfarçar-se de mentira
para chegar aos seus fins" (Ensaio sobre a cegueira, p. 126).
Os valores na literatura
Concebidos como uma modalidade de sistema simbólico
de comunicação intersubjetiva, os romances envolvem "...um
comunicante, no caso o artista, um comunicado, ou seja, a obra; um
comunicando, que é o público a que se dirige; graças a isso
define-se o quarto elemento do processo, isto é, o seu efeito".
(MELLO E SOUZA, 2000: 20). Este último, no momento de elaboração da
obra, só pode ser virtual, uma intenção do autor, consciente ou não.
Mas
o escritor José Saramago já manifestou algumas ressalvas quanto à
possibilidade de que a literatura possa contribuir para a
transformação nos valores e na ética:
"...Mantenhamo-nos discretamente nos
domínios do axiológico e do ético..., e reconheçamos, por muito
que tal verificação possa castigar a nossa confiança, que as
obras dos grandes criadores do passado, de Homero a Cervantes,
de Dante a Shakespeare, de Camões a Dostoieviski, apesar da
excelência do pensamento e fortuna de beleza que diversamente
nos propuseram, não parecem ter originado, em sentido pleno,
nenhuma efectiva transformação social, mesmo quando tiveram uma
forte e às vezes dramática influência em comportamentos
individuais e geração... A literatura, mesmo quando, por motivos
religiosos ou políticos, se dedicou a uma pregação de bons
conselhos ou a uma engenharia de novas almas, não só não
contribuiu, como tal, para uma modificação positiva e duradoura
das sociedades, como provocou, algumas vezes, insanáveis
sentimentos de frustração individual e coletiva, resultantes de
um balanço negativo entre as teorias e as práticas, entre o dito
e o feito, entre uma letra que proclamava um espírito e um
espírito que deixou de reconhecer-se na letra" (SARAMAGO, 1999:
113-114).
Em
um texto elaborado em data anterior, na condição de narrador do
romance História do Cerco de Lisboa (1989), Saramago afirma,
no entanto, que a literatura pode ter influência sobre os valores
dos leitores através das palavras do protagonista do romance,
Raimundo Silva, que em uma conversa com o autor do livro que
revisava, "...argumentou que os revisores têm visto muito de
literatura e vida, entendendo-se que o que da vida não souberam ou
não quiseram ir aprender a literatura mais ou menos se encarregou de
ensinar-lhes", de onde o narrador conclui que talvez o próprio
"...Raimundo Silva tenha ido buscar aos livros que reviu alguns
traços impressivos que, passando o tempo, teriam acabado por formar
nele, com o que nele era de natureza, esse todo coerente e
contraditório a que costumamos chamar de caráter" (História do
cerco de Lisboa, pág. 160).
As circunstâncias

Nos
romances de Saramago realizamos uma leitura literária da História
portuguesa. Em Levantado do chão, Memorial do convento,
O ano da morte de Ricardo Reis, A jangada
de pedra e História do cerco de Lisboa, são evidenciadas
pelo autor as determinações
sociais, políticas, culturais,
religiosas e ideológicas
na formação histórica de Portugal, com o
objetivo de contribuir para um novo olhar
sobre a memória coletiva do povo português, que possibilite, por sua
vez, uma reavaliação da história do país, para
que os portugueses tenham consciência do que
foram, do que são e do que pretendem ser no futuro, refletindo,
assim, criticamente sobre sua identidade como povo.
A
reflexão estética de Saramago atinge
diretamente a associação entre fé, religião, interesses econômicos e
políticos da nobreza na conformação de uma identidade nacional
portuguesa, através da qual o "outro" passa a ser visto
simultaneamente como o inimigo da fé, inimigo do rei, inimigo do
grupo, inimigo do Eu. Por isso a dessacralização dos mitos
fundadores das sociedades ocidentais é um recurso utilizado por
Saramago para propor a emancipação da humanidade em relação àquelas
representações religiosas que tornam o seu destino pré-fixado. Sem
deus e sem uma história legitimada divinamente o homem deverá se
responsabilizar inteiramente pelo mundo que cria.
Ao longo de sua obra Saramago realiza, então, uma
reflexão crítica sobre a constituição histórica da identidade
nacional portuguesa. Para o romancista tudo pode e deve ser
discutido, desde os mitos fundadores das civilizações ocidentais à
"historiografia oficial", que são colocadas em cheque com a proposta
de uma nova leitura do passado, numa tentativa de contrapor às
representações acríticas das instituições dominantes, a sua
representação ficcional, não com o intuito de alterar o passado, mas
de recuperar no passado aqueles elementos que são prenúncios de um
futuro imune à influencia deletéria das estruturas de poder do
Estado e do catolicismo sobre a identidade nacional.
Na sua sede de identidade nacional, uma nacionalidade
ficcionalmente imaginada, é que se realizam os ideais de igualdade
humana do autor, ainda mais porque a globalização tem, de um lado,
solapado os direitos sociais de um contingente imenso de seres
humanos dispersos pelo planeta, e de outro produzido o indivíduo
atomizado que se imagina como um ser independente destinado a se
locupletar através do consumo.
Essa reflexão identitária tem continuidade no romance
O Evangelho segundo Jesus Cristo, no qual Saramago realiza
uma reflexão sobre a religiosidade, os mitos e valores éticos
fundantes das sociedades ocidentais, tornando possível, assim o
redimensionamento de sua importância na história portuguesa e
ocidental, e criticando aqueles aspectos que favoreceram a
intolerância, o desconhecimento, o preconceito, a exploração, a
crueldade e a manipulação dos seres humanos, roubando-lhes a
autonomia de ação e impedindo a convivência solidária.
Personagens
A diversidade da experiência humana se expressa em
inúmeras personagens que povoam a obra e extrapolam suas páginas.
Mas Saramago não concebe a existência de um narrador ou de
personagens autônomas em relação ao autor, antes, identifica-os:
"...um livro é, acima de tudo, a expressão de uma
parcela identificada da humanidade: o seu autor... Tal como o
entendo, o romance é uma
máscara
que esconde e, ao mesmo tempo, revela os traços do
romancista... o autor está
no livro todo, o autor é todo o livro,
mesmo quando o livro
não consiga ser todo o autor... Também eu,
ainda que sendo pouca coisa em comparação,
sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do convento, e em
O evangelho segundo Jesus Cristo não sou apenas
Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também Deus
e Diabo que lá estão. O que o autor vai narrando nos seus livros
é, tão-somente, a sua história pessoal" (SARAMAGO, 1998: 27).
A personagem pode expressar uma discordância em
relação às representações defendidas pelo autor, mas jamais deixa de
ser o autor quem a concebeu. Com suas vivências e sentimentos eles
nos ensinam a morrer sobriamente, como o camponês João Mau-Tempo,
que enquanto viveu nos ensinou a resistir à opressão, como também o
fizeram Ouroana e o soldado Mogueime; nos ensinam a imaginar
diferentemente a História, como Raimundo Silva e Maria Sara.
O amor não pode ser diferente daquele sentimento
entre Blimunda e Baltasar; e a felicidade só pode ser a sensação de
romper os limites do existente, como num vôo na passarola do Padre
Voador. Aprendemos o desprendimento de Lídia no auxílio ao outro e
sua tenacidade para superar a dor diante da perda do irmão; nos
sensibilizamos com a introspecção de um Ricardo Reis espectador do
espetáculo do mundo...
As narrativas criadas por Saramago nos ensinam que há
sofrimento, como o dos cegos isolados no manicômio, mas nos ensinam
também a coragem e a solidariedade da mulher do médico e a união
como alternativa à barbárie. O Sr. José nos ensina a reagir ao
tédio, à rotina e à solidão e a buscar um sentido para vida, que é
também o objetivo do ex-oleiro Cipriano Algor e sua família que
conseguem escapar da sedução das sombras da caverna.
Sociabilidade em crise
À sensibilidade e à generosidade de suas personagens,
Saramago contrapõe um contexto que inviabiliza que seus objetivos
sejam atingidos, ensinando-nos com isso uma lição aprendida pelo
autor em uma sentença marxiana muitas vezes repetida em suas
entrevistas: "Se o homem é formado pelas circunstâncias, é
necessário formar as circunstâncias humanamente".
Por
isso, nos romances Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes
e A caverna, uma trilogia elaborada pelo autor nos
últimos anos do século XX, é tematizada
a
sociabilidade vigente nas sociedades ocidentais contemporâneas
através das alegorias da cegueira que se generaliza, da vida
burocratizada que aprisiona e isola e das sombras que distorcem o
entendimento da realidade nas inumeráveis cavernas do mundo atual.
Nas três obras o autor ensina o leitor a identificar
aquelas tendências anti-humanas presentes na estruturação
capitalista do mundo e nas representações e valores morais dos
indivíduos e classes sociais sobre a mesma, tais como a razão
instrumental que leva à mitificação da ciência, da técnica e das
estruturas de dominação que conformam os horizontes do homem
moderno, incapacitando-o para a percepção da interdependência que
vincula o destino de cada indivíduo ao destino da espécie e ao
destino do Planeta.
Identidade reflexiva
A obra de Saramago se credencia, assim, como uma
reflexão identitária que pode ser interpretada como um projeto de
reapropriação do passado, tendo como meta o futuro da nacionalidade.
As identidades do Eu e nacional podem garantir a integração social e
manter ao mesmo tempo a diversidade cultural entre os indivíduos e
entre as sociedades em meio à homogeneização, à padronização
cultural e econômica da globalização. Uma identidade reflexiva que
pode estar fundada na consciência da dependência do Eu em relação ao
nós, ou em outras palavras, no reconhecimento da interdependência
existente entre ambos, conciliando as identidades do Eu e coletiva
através de uma ética universalista, contraposta aos valores
excludentes que prevalecem no mundo contemporâneo.
Referências
MELLO E SOUZA, Antonio
Candido de, (2000). Literatura e Sociedade. São Paulo, T. A.
Queiroz, Publifolha, pp. 182.
SARAMAGO, José.
Levantado do chão (1996). Rio de Janeiro, São Paulo, Editora
Record, Editora Bertrand Brasil, 366 p. (LC)
______. Memorial do
convento (1997). Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 352 p. (MC)
______.O ano da morte
de Ricardo Reis (1998). São Paulo, Cia. das Letras, 415 p. (AMRR)
______. A jangada
de pedra (1999). Rio de Janeiro, Record, 317 p. (JP)
______.História do
cerco de Lisboa (1998). São Paulo, Cia. das Letras, 348 p. (HCL)
______. O Evangelho
segundo Jesus Cristo (1994). São Paulo, Cia. das Letras, 445 p.
(ESJC)
______. Ensaio
sobre a cegueira (1996). São Paulo: Cia. das Letras, 310 p. (EC)
______. Todos os
nomes (2000). São Paulo: Cia das Letras, 279 p. (TN)
______. A caverna
(2000). São Paulo, Cia. das Letras, 350 p. (C )
______. (1996). "Os
escritores perante o racismo". In: SCHWARCZ, Lília M. e
QUEIROZ, Renato da
Silva. Raça e diversidade. São Paulo, Editora da Universidade
de São Paulo : Estação Ciência : Edusp, pp. 77-81.
______ (1999).
Entrevista a Horácio Costa. In: Cult - Revista Brasileira de
Literatura - Ano 2 - n. 17 p. 16-24).
______ (2000). "A história como ficção, a ficção como
história". In: Revista de Ciências Humanas. Florianópolis,
EDUFSC, n. 27, abril de 2000, pp. 09-17.
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