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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Minhas previsões imprevidentes para 2008 (com mil perdões pelo
ligeiro atraso...)
por
Paulo Roberto de Almeida
Todo final de ano, a exemplo de tantos outros
astrólogos, videntes, predicadores do futuro e outros planejadores
de políticas públicas, tento formular minhas previsões para o ano
que se abre, antecipando desenvolvimentos, especulando sobre
acontecimentos fortuitos ou processos mais complexos, enfim,
chutando bastante, como de resto toda essa tropa de futurólogos
também faz. A peculiaridade de minhas previsões, como sabem todos os
meus seis leitores, é que elas não se dirigem ao que pretendo ver
realizado no curso do ano, ou àquilo que é “seguro de ocorrer”, mas
justamente sobre o que não há risco de acontecer, do contrário eu
não teria novidades a apresentar ao distinto público leitor.
Todas essas previsões fajutas, farsantes ou
simplesmente gozadoras que se abatem sobre nós, todo final de ano,
são destinadas a “chover no molhado”: haverá um escândalo político
que abalará o governo – déjà vu mais requentado este –;
infelizmente, um grande artista de enorme importância cultural (ator
ou atriz de telenovela) falecerá tragicamente; a natureza se vingará
de nossos ataques insensatos, arrastando casas e engolindo
pessoas... Eu só queria que me dissessem como isso está “previsto”
no movimento dos astros (que ainda têm de cuidar de vários outros
países, planetas, galáxias, etc...). Mais, passons.
Minhas previsões têm isto de diferente que elas não
“são” para acontecer, mas estão voltadas, ao contrário das previsões
“normais”, para o que não vai ocorrer, para aqueles eventos ou
processos que têm pouca (ou nenhuma) chance de serem efetivados.
Minha vitória é tanto mais completa quando nenhuma delas se realiza,
o que, convenhamos, é muito difícil nos assuntos humanos, pois os
homens continuam imprevisíveis, sempre fazendo o que não devem, e,
por vezes, até o que devem. Claro, eu não formulo quimeras
fantásticas ou eventos impossíveis, pois isso seria fraudar as
regras do jogo. Se é para não acontecer, as previsões têm de
ser, justamente, factíveis, isto é, pertencer ao domínio dos
acontecimentos ordinários, sendo portanto plausíveis e até mesmo
possíveis e passíveis de acontecer.
Tendo falhado em formular minhas previsões para 2008
ainda em dezembro de 2007 (mas eu estava ocupado em compor um
trabalho sobre os 200 anos da abertura dos portos, ocorrida em
janeiro de 1808, algo previsível, desde que a família real deixou
Lisboa, em novembro de 1807), gostaria de retomar este saudável
hábito, não sem antes prestar contas pelas últimas previsões
realizadas, mais de um ano atrás. Nada melhor, aliás, do que
relembrar minha promessa final, feita em trabalho escrito em
dezembro de 2006, mas publicado no mês de janeiro seguinte. Eu
terminava assim a edição anterior:
“Como parece que o homem
brasileiro não desiste nunca, sendo antes de tudo um forte, é
possível que cheguemos ao final de 2007 com algumas das apostas
total ou parcialmente realizadas, com o que terei de aposentar minha
(pouco) promissora carreira de astrólogo do impossível, dando cabo à
minha série de previsões imprevidentes. A sorte está lançada: a
conferir em doze meses, aproximadamente. Vale!”
E quais eram, exatamente, as minhas “previsões” para
o ano de 2007? Apresento-as aqui, resumidamente, remetendo ao texto
em questão para sua leitura completa (Revista
Espaço Acadêmico, nº 68,
janeiro de 2007).
1. O Brasil vai crescer pelo menos 5% a partir de
2007, com queda sensível no desemprego;
2. As contas fiscais caminharão para o equilíbrio,
com tendência ao superávit nominal;
3. O Congresso vai conhecer um ano inédito de alta
produtividade e baixos gastos correntes;
4. O dólar vai se valorizar e a paridade do real
satisfará aos exportadores e agricultores;
5. O déficit da Previdência caminha para o
desaparecimento, com um amplo choque de gestão;
6. A infra-estrutura brasileira é totalmente
renovada, com base em investimentos privados;
7. A integração regional avança decisivamente, com a
adesão de Cuba, Bolívia e Equador;
8. O governo demonstra alto grau de coesão política e
substancial eficiência administrativa;
9. O ensino público dá salto de qualidade e as
universidades não fazem greve por salários;
10. O MST reconhece que o agronegócio e a
biotecnologia são benéficos ao Brasil.
De todas essas previsões, a única que poderia dizer
que “errei” de verdade – isto é, acertei (mas isso faz parte das
regras do jogo, como antecipado) – foi a primeira, sobre o
crescimento econômico do Brasil, e nisso parece que fui derrotado em
meu pessimismo. Segundo estimativas ainda não confirmadas do IBGE, o
Brasil parece ter crescido ligeiramente acima de 5% em 2007, com
pequena queda no desemprego, também, o que sem dúvida merece
comemoração. Em minha “defesa”, poderia argumentar que ganhamos isso
de graça da economia mundial, sem fazer muito esforço, a não ser
evitando o que de pior poderia acontecer com nós mesmos, em termos
de inflação ou fuga de capitais (mas, por esse fato, a turma
desenvolvimentista tem de agradecer ao Dr. Meirelles, pois foi ele o
herói da estabilidade e da reeleição do presidente). Alguns ficarão
se contorcendo de raiva quanto a isso, mas não há nada a ser feito:
contra fatos, não há argumentos!
Digo que não fizemos muito esforço para crescer
porque, com um investimento medíocre, de menos de 17% do PIB, as
possibilidades de atingir 5% de crescimento eram insignificantes, ou
aleatórias – aqui entra o terreno do imponderável –, que neste caso,
foi um impulso excepcional dado pela expansão da economia mundial,
os altos preços de nossas commodities exportadas e uma oferta
imoderada de crédito direto ao consumo (o que poderá redundar em
endividamento excessivo das famílias, mais adiante). Em termos
keynesianos, tivemos a sustentação da demanda agregada, ainda que o
pessoal keynesiano anda reclamando insistentemente, justamente, pela
não aplicação das políticas recomendadas por eles (todos pedem
redução dos juros, reclamando da ortodoxia liberal do Dr. Meirelles,
e todos querem redução do superávit primário, feito para pagar a
dívida pública, o que, no limite, significa deixar uma bela “herança
maldita” para nossos filhos e netos).
Quanto às previsões 2 a 10, acredito ter acertado
redondamente, isto é, nenhuma delas se realizou, o que me deixa com
uma margem de 90% de acertos-errados (não conheço estatísticas de
outros futurólogos, economistas previsionistas e astrólogos sociais,
mas creio ter ganho direito a algum prêmio da categoria). Em
matéria de políticas públicas, acho que estou bem situado, só
perdendo para um responsável que disse que “nem Deus conseguiria
governar o Brasil sem a CPMF” (bem, depois da sua eliminação, ele
tinha prometido não aumentar impostos, mas isso foi em 2007, não
valendo, portanto, para este ano da graça, onde tudo é possível, até
aumentos sem qualquer graça...).
Como eu anunciava no subtítulo das minhas previsões
do ano passado, eu continuava “sempre
otimista quanto à sua impossibilidade”, daí a razão de eu não
ter nenhuma razão para não renová-las inteiramente, sempre confiando
em que minha boa estrela conseguirá confirmar sua impraticabilidade
até mesmo no plano teórico. Para não deixar dúvidas quanto as minhas
certezas, retomo aqui seu enunciado explícito, sempre remetendo ao
trabalho original para seu detalhamento e comentários (e já marcamos
rendez-vous em dezembro de 2008, para conferir):
2. As contas fiscais caminharão para o equilíbrio,
com tendência ao superávit nominal;
3. O Congresso vai conhecer um ano inédito de alta
produtividade e baixos gastos correntes;
4. O dólar vai se valorizar e a paridade do real
satisfará aos exportadores e agricultores;
5. O déficit da Previdência caminha para o
desaparecimento, com um amplo choque de gestão;
6. A infra-estrutura brasileira é totalmente
renovada, com base em investimentos privados;
7. A integração regional avança decisivamente, com a
adesão de Cuba, Bolívia e Equador;
8. O governo demonstra alto grau de coesão política e
substancial eficiência administrativa;
9. O ensino público dá salto de qualidade e as
universidades não fazem greve por salários;
10. O MST reconhece que o agronegócio e a
biotecnologia são benéficos ao Brasil.
Desculpem-me a sensação de déjà vu, mas tenho
precedentes no gênero, como naqueles famosos chutes dos astrólogos
escolados: escândalo político, morte de artista, etc... Para fazer
dez previsões, mais uma vez, e assim ficar com números redondos, eu
deveria acrescentar mais uma previsão imprevisível à minha lista de
2007. Confesso que hesito entre o risível e o patético, mas desde as
câmaras de vereadores até a mais alta tribuna federal, existem
personagens que não nos deixam de surpreender, tal a operosidade de
seus cérebros, tão férteis em idéias malucas, que nem mesmo
astrólogos profissionais ousariam ir tão longe. Vejam, por exemplo,
aquela história dos aquedutos amazônicos: qual vidente, daqueles que
operam normalmente nesse tipo de mercado, seria capaz de tamanha
genialidade inventiva? Como é que eu não tinha pensado nisso antes,
leitor de história que sou, e admirador sincero da grandiosidade
arquitetônica da Roma imperial? Aquedutos amazônicos logo seriam uma
oitava maravilha do mundo, rendendo imensos ganhos turísticos ao
Brasil, tanto mais que eles se converteriam rapidamente em ruínas
legítimas...
Bem, arriscando mais uma vez minha (baixa) reputação,
eu me permitiria, não um, mas dois chutes, à escolha dos leitores,
um situado na esfera local, outro em altos escalões federais. Estou
seguro, por exemplo, que para remediar essas tristes mortes de
motoboys, nossos heróis desconhecidos do fast food delivery
(com a devida licença daquele deputado Policarpo Quaresma), algum
vereador inteligente há de propor que as motos brasileiras venham
doravante equipadas com air-bag (para os passageiros também, nas
cidades que têm serviço de mototaxi). Não importa que as motos sejam
fabricadas em Manaus: se elas não ostentarem esse equipamento
decisivo, não serão mais emplacadas nas boas cidades que encamparem
essa iniciativa pioneira.
Tenho certeza, finalmente, de que algum parlamentar
igualmente inteligente recolherá a brilhante sugestão de um alto
tecnocrata preocupado com o desemprego, e defenderá a adoção da
jornada semanal de trabalho de três dias com um expediente de quatro
horas. Mais ainda, como propôs o mesmo economista, o Brasil deveria
preparar seus cidadãos para começar a trabalhar depois dos 25 anos
de idade. Não é genial? Melhor ainda se isso for feito por medida
provisória, ou alguma “lei habilitante”, como na Venezuela. Seria o
“retorno perfeito” daquele personagem já conhecido nestas paragens.
A conferir em doze meses... |
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