Religião e Política:
Memória e História da Renovação Carismática Católica em Maringá
(PR) – Parte final
por Antonio Ozaí da Silva
[parte
I e
II]
para Auxiliadora Maria da
Silva
A
liderança da RCC em Maringá, e no Paraná, empreendeu todos os
esforços possíveis para tornar possível a existência do PSN. A
idéia era formar um partido que melhor se adaptasse à uma
política fundamentada na Doutrina Social da Igreja. Não se pode
afirmar que o PSN era o partido da Renovação Carismática, mas é
fato que alguns dos seus principais líderes se envolveram com o
projeto de formar e consolidar o partido.
Neste intermédio, entre a eleição de Emerson
Nerone e a formação do PSN/PHS, a RCC Maringá apoiou a
candidatura de Shinji Gohara à Câmara Municipal. Eleito em 1996
pelo PHS, Shinji Gohara incorporou à sua assessoria Valter Viana
e Ierecê
Jussara Correia Gilberto (fundadora do PSN, compôs
a sua primeira direção executiva e é Coordenadora Nacional do
Ministério Universidades Renovadas). Na avaliação de Ierecê:
“Esta experiência foi muito rica. Rica e
dolorosa. Nós tínhamos um sonho de criar algo novo através da
política, mas a gente percebe que a geração de hoje já está
contaminada pela maneira como se vive a política. Ela foi
dolorosa porque muitas coisas experimentou de pessoas que a
gente imagina que pensasse diferente, que tivesse uma visão
diferente. Mas quando você vê que, na verdade, vivem o seu mundo
pessoal, são egoístas e exatamente igual a todas os outros. Somo
exatamente a mesma matéria de todos os que estão no mundo. O
Shinji em alguns momentos dizia que tinha vontade de desistir,
porque é muito difícil. Eu dizia, nós não podemos desistir. E eu
estou aqui, com você, porque acredito que esta mudança é real,
ela pode acontecer. Só que não é pra minha geração, a sua, nem
dos nossos filhos. Mas é pros nossos netos, pros nossos
bisnetos. Demora algumas gerações pra essa coisa mudar. Acredito
nisso até hoje. É por isso que trabalho com o Ministério
Universidades Renovadas.” (entrevista, 21.02.07).
Eis um aspecto interessante da RCC em Maringá.
Alguns dos vocacionados à política, inicialmente eram
filiados ao Partido dos Trabalhadores, legenda sabidamente
preferencial dos cristãos vinculados à Teologia da Libertação.
Talvez isto sugira que as diferenças entre os carismáticos e a
Teologia da Libertação, do ponto de vista da política, não eram,
afinal, tão intensas. Talvez indique maior flexibilidade
política do PT maringaense, capaz de incorporar setores
moderados e até mesmo considerados conservadores pelos críticos
à esquerda. O fato é que o PT em Maringá incorporou, sem grandes
traumas, lideranças carismáticas que na perspectiva interna da
igreja eram considerados “alienados”, “rezadores”, “intimistas”
etc.
É preciso também considerar o caráter de massas do PT, capaz de
integrar diferentes forças políticas e que, por outro lado, os
cristãos vinculados à Teologia da Libertação também eram vistos
pejorativamente como “papa-hóstias”, “reformistas” e outros
epítetos que a esquerda petista de viés trotskista e marxista
lhes lançavam à face. Mas, vejamos o que pensam sobre isto os
diretamente envolvidos:
“O primeiro partido que eu me filiei foi o PT. Me
filiei por causa de duas pessoas. Um amigo que me fez enxergar
um PT diferente e por causa do falecido José Cláudio, que tinha
um jeito diferente de ser político, de agira politicamente. Aí
eu passei a acreditar que o PT seria um partido diferente
daquele que vinha sendo, só estimulava greves e não sei o que e
tal, aquele radicalismo nos seus posicionamentos como oposição.
E não era isso que o povo queria, mas o PT de Maringá era
diferente” (José do Nascimento Neto. Entrevista ao autor,
14.02.07).
“Dentro do PT eu sofri imensamente exatamente
pelos irmãos de fé. Os outros grupos, o PT é formado por muitos
grupos internamente, quem conhece o PT sabe do que estou
falando, os outros grupos, não se importavam com isso. Muitos
deles até eram ateus, mas tinha grande abertura e facilidade
para a gente poder trabalhar, sonhar com um país, um país mais
democrático, um país a partir dos conselhos sociais, a partir
das organizações sociais. Mas aqueles que vinham da igreja
continuavam nos achando como inimigos, sempre com o embate
interno, desgastante. Eu até atribuo a minha primeira derrota
política, quando fui candidato a deputado federal e fiquei como
segundo suplente, terceiro suplente, a situação de não ter
recebido o apoio da igreja, em especial dos membros que vinham
da experiência da Teologia da Libertação” (Sidnei Telles.
Entrevista ao autor, 15.02.07).
“Participar do PT foi para mim
uma experiência fantástica. Aliás, não me arrependo em nenhum
momento de ter sido petista. Foi uma das boas fases da minha
vida enquanto pessoa na política. O Partido dos Trabalhadores
marcou a minha vida. Isso foi um ponto muito positivo pra mim.
Acontece que, ao participar da Igreja e da Renovação, ao pedir
votos para o Nerone ou alguém da igreja, você encontrava algumas
barreiras. É verdade que o PT defende, por exemplo, o aborto, ou
por questões de alguns membros, a união civil dos homossexuais.
Não vamos entrar no mérito, mas nas dificuldades que tínhamos em
estar na Renovação com esses pontos de interrogação. Havia
resistência. Paralelamente a isso, havia o Movimento
Solidarista Brasileiro, que é um movimento que pensa num
outro sistema para o Brasil. Contrapõe ao neoliberalismo e a
esse sistema que está aí. Esse movimento, eu, o Nerone, Sidnei e
outras pessoas, não só no Paraná, mas no Brasil inteiro. Homens
e mulheres de diferentes partidos: do PT, do PC do B, do PFL, do
PMDB. Tinha gente de todos os partidos. Se estamos num movimento
grande no Brasil, por que não formar um partido político? Foi
daí que nasceu o sonho de criar um partido político. E aí saímos
pegando assinatura para formar este partido político, mesmo
estando no PT. No Paraná, diferente de outros estados, por
sermos todos da Renovação, foi a forma mais rápida e fácil para
pegar assinaturas e fazer o partido político. O Nerone tinha o
mandato de deputado, foi colocado a estrutura do seu gabinete,
através do seu Israel Pinheiro, pra coordenar este trabalho no
Estado do Paraná, e a gente ficou responsável por Maringá e
região. Eu e outras pessoas, como o Osvaldo Reginato, para pegar
essas assinaturas e formar o PSN. Ao conseguir as assinaturas,
nós demos entrada em nível nacional e formou-se o PSN. Eu, o
Nerone e outros companheiros deixamos o PT e fomos para o PSN.
Mas, por falta de estrutura e de organização partidária alguns
membros ainda ficaram noutro partido. Foi o caso do ex-vereador
Shinji Gohara que permaneceu no PSDB. Eu por exemplo estava no
PSN, mas ajudei a eleger o Shinji Gohara a vereador em Maringá
pelo PSDB. Depois ele mudou para o PSN, também nessa construção
partidária. A minha experiência passa partidariamente por estes
dois partidos políticos: PT e PSN (Valter Viana. Entrevista ao
autor, 23.02.07).
Valter Viana se tornou assessor do vereador
Shinji Gohara e, no último mandato deste, afastou-se da
assessoria e das funções que desempenhava na RCC Maringá (era
membro da Equipe de Serviço e Coordenador da Secretaria de Fé e
Política) para candidatar-se a vereador nas eleições de 2000.
Foi eleito com 1.112 votos, sendo o último eleito dos 21
vereadores que compunham o poder legislativo municipal. Ele foi
eleito pelo Partido Humanista da Solidariedade (ex-PSN),
coligação PPS / PHS / PMN / PCB / PC do B / PSB, cujo candidato
a prefeito foi Ulisses de Jesus Maia Kotsifas (PPS) e Osvaldo
Reginato (PHS) a vice-prefeito.
Contra as expectativas gerais, foi eleito o petista José Cláudio
Pereira Neto. Valter Viana apoiou o petista no segundo turno e,
quando este assumiu a prefeitura, passou a fazer parte da sua
base aliada. No segundo ano de mandato, ele foi convidado a
ocupar o cargo de líder de governo na Câmara Municipal de
Maringá. A proximidade com o PT se manteria durante o mandato do
governo petista.
Podemos observar pelos depoimentos, e o que foi
exposto até aqui, que membros destacados da Renovação
Carismática Católica de Maringá se envolveram ativamente com a
militância política partidária, em consonância com as
orientações, princípios e projeto político do Ministério Fé e
Política, analisados anteriormente. E este envolvimento
político não se dá apenas entre os mais destacados, ou seja, os
que se candidatam e aparecem para o público externo à RCC e à
Igreja Católica. Uma campanha política eleitoral, ainda que
restrita ao município, ou, ainda, a organização de um partido e
a disputa de cargos estaduais (representação na Assembléia
legislativa e/ou no Congresso Nacional), tudo isso envolve
dezenas de pessoas irmanadas num projeto que também se vincula à
fé, à espiritualidade.
Enquanto os carismáticos dão os primeiros passos
na direção de incorporar a política à fé, como complementares e
não antagônicos, há maior unificação de forças em torno dos
objetivos políticos –– por exemplo, eleger um dos seus membros à
câmara municipal, à deputado federal e/ou estadual. Não obstante
a desconfiança e resistência interna. Contudo, na medida em que
essas ações passam a apresentar resultados, a nova realidade
instituída tende a influenciar as relações internas e a própria
Renovação Carismática em seu conjunto. Por exemplo, já não é
mais possível ignorar o mundo da política e os males que este
encerra. A relação da RCC com os mandatários, e vice-versa,
também exige maior atenção.
A realidade é que o crescimento da RCC e da
participação dos seus líderes na política causaram impactos
talvez imprevistos. Tudo indica que não se concretizou a
tendência observada por Miranda (1998) de unificação de atuação
política dos leigos carismáticos no PSN/PHS. Ela analisa a
política cearense e seria o caso de pesquisar em termos
nacionais (o que foge ao escopo deste trabalho). Porém, pelo
menos a partir da realidade política maringaense que envolve a
atuação dos líderes da RCC, é possível afirmar que a unidade dos
carismáticos se mantém apenas no discurso unânime da necessidade
do comprometimento cristão com a política, isto é, da vinculação
fé e política. As divergências se dão em relação às opções
partidárias e ideológicas e, em especial, quanto à prática
política.
Assim, temos em Maringá a divisão dos líderes em
partidos e posições opostas em relação ao poder municipal.
Valter Viana, ex-PT e vereador pelo PHS, é oposição ao prefeito
Silvio Barros II, eleito pelo PP em coligação com o PDT / PRTB /
PSDB. Do outro lado, Sidnei de Oliveira Telles Filho, ex-PSDB,
ex-PT, ex-PSN/PHS, ex-PSDB novamente e, atualmente, no PPS,
apóia o prefeito e compôs o seu secretariado. Não foi por acaso
que, na última eleição, em 2006, ambos concorreram a deputado
federal por partidos e coligações diferentes. São trajetórias e
histórias de vida diferenciadas, mas que expressam bem os
impasses da RCC diante da pluralidade de opções políticas dos
seus membros. Portanto, surge a necessidade de buscar o
equilíbrio entre a militância partidária e a Renovação
Carismática, de forma que, por exemplo, as divergências
políticas entre os seus líderes não interfiram e/ou causem
constrangimentos internos.
Esta realidade leva a Renovação Católica
Carismática em Maringá a adotar um documento interno, com o
objetivo de estabelecer parâmetros comuns.
As diretrizes visam eliminar “o risco de abuso e
instrumentalização (uso indevido) da RCC”. Entre outras
determinações, indica-se que: “Não se promova campanha eleitoral
no Grupo de Oração e nos eventos destinados à dimensão do
anúncio (querigma), sob pretexto algum”; “Os materiais
destinados à divulgação de eventos e à evangelização em geral
não deverão conter nomes ou símbolos que caracterizem campanha
eleitoral”; “Não se proceda no Grupo de Oração e nos locais de
encontro da RCC, a colagem de cartazes, colocação de banners e
outros meios de divulgação eleitoral”. Afirma-se também que os
candidatos devem se licenciar de funções que desempenhem na
Renovação e pede-se que seja evitada a concorrência por votos em
relação aos grupos de oração. Contudo, defende-se o engajamento
político, desde que de acordo com as diretrizes.
A RCC, do âmbito nacional ao local, procura
garantir a unidade interna através de orientações e
procedimentos que propiciem a convivência e a não interferência
dos interesses políticos na dinâmica dos grupos de oração e em
sua estruturação. O Ministério Fé e Política também
desempenha esse papel. Porém, não é tão simples harmonizar e
manter parâmetros. Para além do discurso religioso, permanece a
situação de tensão. Os depoimentos transcritos a seguir nos
permitem visualizar estes dilemas. Comecemos pela fala do José
do Nascimento Neto:
“Oficialmente, a RCC de Maringá não apoiou nenhum
candidato. Foi interessante a estratégia, mesmo porque se ela
apóia um pode ficar contra outro e nunca sabe como as pessoas
vão reagir a isso. Como tinha vários candidatos ligados à RCC,
não só aqui na região, mas em outras regiões do estado, em
partidos diferentes, optou-se por não apoiar nenhum
oficialmente. A RCC não podia abraçar uma causa. Mesmo porque se
ela começa a abraçar muito uma causa política, ela fica pelo
menos três quatro meses sem fazer o seu papel. O papel dela não
é esse, de política. Ela pode motivar, pode ter conscientização
política. Mas o movimento em si não pode ficar vestindo essa
camisa política. Esse é o nosso candidato, aquele é o nosso
candidato. Tanto o Valter Viana, quanto Sidnei Teles fizeram as
suas campanhas. Tinham os seus apoios dentro dos grupos de
oração? Tinham. Mas eram contatos entre eles e as pessoas dos
grupos. A RCC orienta que não haja aproveitamento de encontros,
dentro das reuniões, pra não ir um candidato com camiseta ou
mesmo pregar, por melhor pregador que seja, porque ele está em
campanha política. Antes da campanha, beleza. Mas até a campanha
ele não pode. É orientado que ele não faça isso, que os grupos
não recebam. Inclusive nós temos orientações para época de
campanha política, como os coordenadores de grupos e os
candidatos devem proceder. Então a gente procura pautar por
isso. Sabe porque, começou a ficar muita ligação. Neguinho fala,
‘é o partido da RCC’. Não é o partido da RCC, porque não é só
gente da RCC que faz parte deste partido, principalmente do PHS.
Não, a RCC não tem um partido” (Entrevista ao autor, 14.02.07).
Nestes termos, pode parecer que o problema
político se restringe à rivalidade Valter Viana versus
Sidnei Telles. Como ambos foram candidatos a deputado federal no
mesmo ano eleitoral e por partidos diferentes, a dicotomia
parece lógica. Mas, seria reducionismo apresentar os fatos desta
maneira. Os membros da RCC chamados à política apresentam
diversidade mais abrangente no tocante às suas opções
política-partidárias. O próprio Nascimento, Coordenador do
Ministério de Comunicação Social da RCC Maringá, informa que nas
eleições de 2004 haviam militantes vinculados ao PT e PV, além
do PHS, e que foram candidatos a vereadores. Diante disso, a RCC
promoveu um debate entre os diversos candidatos. Há quem duvide
da eficácia de eventos como esse e pensem que, na prática,
terminam por reforçar um candidato específico, dependendo de
como a discussão é estruturada.
Vejamos, agora, a análise do professor Antonio Carlos Lugnani:
“Na eleição passada de prefeito, tínhamos
seis/sete pessoas que eram candidatas a vereador. Um era
candidato a vereador em Marialva, outro em Sarandi, dois ou três
em Maringá, outro em Paissandu, outro não sei aonde. Então
reunimos, conversamos claramente, expomos. A Renovação não apóia
um ou outro candidato. Nós estabelecemos claramente: o caminho
tem que ser esse, ter visão ética. A pessoa pode dizer ‘eu sou
da R’. A gente observa muito nêgo que entra no grupo de oração
poucos dias antes, entendeu? ‘Sou do grupo tal’ e põe lá no
santinho ‘pertenço ao, tem um grupo meu grande e tal’. Olha a
história, se ele tem um começo, meio, dentro da Renovação. e aí
nós apoiamos. Pode contar com o nosso apoio. Ele não pode fazer
campanha dentro do grupo de oração, enquanto candidato não pode
nem entrar no grupo de oração pra pregar. Mesmo que ele seja
pregador. Ao final do grupo de oração, os candidatos podem
chegar na porta e fazer a panfletagem, aquela coisa toda. Se ele
quiser conversar contigo, ele convoca uma reunião. Vão os
líderes que querem. Mas nós não envolvemos a Renovação como
movimento. Ao contrário dos pastores [evangélicos] que chamam
‘olha, vocês vão votar no fulano, sicrano’. Nós, não”
(Entrevista ao autor, 15.02.07).
Perguntei ao professor Lugnani se o fato da
liderança “x” apoiar este ou aquele candidato não influencia e
induz o voto das bases da RCC, ou seja, os grupos de oração. Eis
a argumentação dele:
“O geral, o máximo que a gente pode fazer, é esse
trabalho que é feito. Agora, a minha esposa por exemplo era
coordenadora diocesana. Então quem que a Jose está apoiando? É
delicado. Mas ela evita, por exemplo, de assumir em público. Se
têm dois ou três candidatos que é de Maringá, enquanto
coordenadora ela não fala se está apoiando ‘B’. Enquanto pessoa,
ela tem a sua preferência. É complicadíssimo este processo”
(idem).
Comentando a experiência eleitoral recente,
Sidnei Telles admite que foi um processo complicado:
“Demonstrou as nossas dificuldades de se ter um
projeto único. A Renovação, na minha opinião, deveria ter um
projeto corporativo, mas ela não tem. Ela se coloca como igreja
que forma o seu povo e a sua liderança, e oferece para a
sociedade. Ela oferece todos os seus quadros. Isso nos divide em
termos eleitorais, mas nos diferencia também em termos de
formação. Eu sou uma liderança da RCC histórica, presente no
Brasil todo e de uma formação de centro-esquerda. O Viana é uma
pessoa da Renovação que se tornou político e continuou
participando da Renovação. Temos uma trajetória histórica
distinta. E por não haver uma ação corporativa, as candidaturas
surgem e os grupos vão se acomodando ao redor das pessoas com
que eles vão sentido a confiança e a confiabilidade no tipo de
projeto que cada um representa. (...) A Renovação, por não ter
um processo ideológico, ficou mais aberta a várias experiências,
da esquerda a mais à direita. Pra se ter uma idéia, Minas Gerais
tem dois deputados federais da RCC, um do PT e um de oposição ao
PT. Tem dois candidatos a deputado estadual, um do PT e outro de
oposição. A Renovação abriga isso e consegue lutar por várias
coisas comuns e manter também a práxis de cada um a partir da
visão do seu partido. Na Renovação esse é um processo que em
alguns lugares está mais amadurecido. Acabei de exemplificar
Minas Gerais. Agora, há outros estados onde isso é mais lento. O
Paraná é um estado conservador, por natureza conservador. Então
é um estado que leva mais tempo pra ir recebendo as mudanças que
precisa” (Entrevista, 15.02.07).
Indaguei o vereador Valter Viana sobre a
repercussão da sua experiência política na RCC. Sua resposta
também nos ajuda a compreender os dilemas da Renovação quando se
trata das difíceis relações entre fé e política na prática:
“Não só na Renovação, mas também
na Igreja. Todo mundo é unânime na questão da participação
nossa. Mas, quando você sai para uma campanha política, você vai
encontrar muitas barreiras. Encontrar pessoas na Renovação que
concorda com o mandato, com a forma de se fazer o mandato, com a
forma de trabalho. Mas tem pessoas também que não concordam. Que
mesmo tendo a visão de que o cristão, membro da Renovação, tem
que participar do processo político, ele considera que, por
exemplo, não devemos pedir votos no grupo de oração, que não
devemos nos identificar enquanto cristão e membro da Renovação.
Você encontra pessoas com essa visão. E você encontra outros que
pensa o contrário, que temos que pedir votos na Renovação e na
Igreja. Como não é um processo do dia pra noite, desde 1992 que
estamos neste processo político, há também o desgaste. Você não
cria inimigos religiosos e nem inimigos pessoais. Mas você
encontra inimigos políticos, que não está no mesmo partido que o
seu, que são candidatos a vereador e concorrentes. Então, você
vai conseguindo ganhar respeito, mas também desgaste. Pessoas
que não concordam com o meu voto aqui na Câmara; que não
concordaram, por exemplo, que eu fosse líder do prefeito, porque
não gostavam do PT; outras pessoas que não concordam por eu ser
oposição ao Silvio Barros. É uma questão muito complicada. (...)
Eu não queria estar no lugar do Coordenador Diocesano, nem do
Coordenador Estadual e nem do Coordenador Nacional da Renovação.
É uma situação muito complicada. Porque no mesmo momento em que
eles têm que incentivar a participação política dos seus
membros, eles têm que administrar os conflitos internos entre
pessoas da Renovação que são de diferentes partidos, que não
pensam iguais politicamente, que pensam diferentes. Têm pessoas
da Renovação que pensam de uma forma neoliberal. Eu, por
exemplo, me considero de esquerda, meu partido é um partido de
esquerda. Tem gente que não aceita isso. Os coordenadores têm
que administrar esses conflitos. Uma situação muito difícil para
todos eles, os quais têm a responsabilidade de administrar a
Renovação diante do clero e da Igreja, e diante da
responsabilidade que Deus deu a eles, que é cuidar primeiramente
da obra de evangelização da Renovação. E eles têm que
administrar os conflitos internos, que, por erros nosso não
conseguimos nos entender politicamente, partidariamente,
ideologicamente. É uma situação muito difícil. Só aqui em
Maringá, por exemplo, nós temos membros do PPS, do PHS, do PT,
do PSB... São partidos que na hora eleitoral têm os seus
interesses eleitorais e as pessoas têm todo o direito de se
candidatarem. Assim, como eu tenho esse direito, outro também
tem. Então, eu não queria estar no papel dos coordenadores, que
têm que administrar estes conflitos e resguardar a obra de
evangelização, para que esta não seja atingida por causa do
processo político” (Entrevista ao autor, 23.02.07).
Se uma das características marcantes da Teologia
da Libertação era a opção preferencial pelo PT, tornando-se
quase uma exigência que o cristão politicamente engajado
participasse ou, no mínimo, simpatizasse com este partido, a RCC
mostrou-se mais pluripartidária em sua trajetória. Um dos
aspectos que explica esta característica é a não premência da
questão política internamente à mesma. De certa forma, e por
muito tempo, a opção política das lideranças carismáticas foi
muito mais uma questão de fórum íntimo, de escolha individual.
As afinidades ficavam por conta do discurso ético fundado na
moral religiosa e na Doutrina Social da Igreja. Dessa forma,
prioriza-se o indivíduo em relação às estruturas partidárias. A
idéia subjacente a esta prática é que as exigências éticas dizem
respeito aos indivíduos, independente se eles se filiam a este
ou àquele partido. O que importa é o comportamento e a coerência
cristã.
Porém, essa mesma diversidade também se revelou
problemática. Ao contrário do que imaginam os espíritos
bem-intencionados, a política tem uma dinâmica própria, o
campo político tem uma autonomia relativa e impõe opções
concretas que nem sempre se harmonizam com a moral religiosa. Os
interesses políticos divergentes entre lideranças podem
influenciar a dinâmica do campo religioso, na medida em que este
não está isolado e encontra-se em inter-relação com os campos da
sociedade. Em termos simples, isto significa que a RCC não está
imune às dissensões entre seus líderes manifestadas na política.
Como agir diante desta realidade? Os depoimentos acima mostram
que este é um tema delicado e complicado.
Por outro lado, a dimensão política não se
restringe à política-partidária. Em certo sentido, e até mesmo
pelas características religiosas, a práxis política dos
carismáticos também incorpora a dimensão da promoção humana. Em
Maringá, por exemplo, a RCC mantém projetos de atendimento aos
idosos (Centro de Convivência João Paulo II) e às famílias
carentes.
Com efeito, uma das críticas aos carismáticos, estendida à
Igreja em geral, diz respeito à caridade religiosa. Esta seria
paliativa e assistencialista. Não há condições de se estender
sobre este tema. Porém, para além da questão de atender às
necessidades prementes dos que sofrem por falta de recursos e
amparo do próprio Estado, ações para a promoção humana, quer as
consideramos positivas e/ou negativas, também têm significado
político. E, para a Renovação Carismática, o significado é
integral, o que inclui o aspecto espiritual.
Também devemos considerar que a dimensão
política, para além da política partidária, mas também
relacionada a esta, inclui posicionamentos sobre os temas gerais
presentes na sociedade brasileira (como por exemplo, a polêmica
sobre o aborto, eutanásia, bioética, homossexualismo, família,
casamento, anticoncepcional etc.). Neste campo, a posição da RCC
é a mesma da Igreja Católica, em especial considerando-se o
pontificado do atual papa.
A influência política da RCC também se faz
presente nas Universidades (vide o Projeto Universidades
Renovadas), no meio empresarial e através da ocupação de
posições de destaque nas organizações civis. Isto é
significativo porque os carismáticos, ao contrário dos católicos
em geral, buscam a coerência entre os princípios religiosos que
regem suas vidas e as experiências cotidianas que vivenciam nos
locais de trabalho, estudos, entidades etc. Ao buscar a
coerência entre comportamento social, compromisso político e a
espiritualidade, os carismáticos tendem a influenciar moral,
política e socialmente os espaços nos quais se fazem presentes.
Pode-se afirmar que sua religiosidade se traduz numa pedagogia
de vida, que busca o equilíbrio entre fé e política. Buscam a
santidade, ainda que pecadores, perseguem o exemplo de Jesus e
acreditam na possibilidade de transformar o indivíduo, e através
dele as estruturas sociais, pela conversão e mensagem moral
religiosa. E, ao agirem no mundo, informados e formados por tais
concepções, concedem à religiosidade que professam um profundo
sentido político.
Considerações conclusivas
A concepção política da Renovação Carismática
Católica que sobressai das entrevistas, documentos e textos
publicados sob sua chancela, não constitui novidade. A RCC
compartilha da visão de que a política tem como objetivo a
promoção do bem comum. Note-se que esta concepção está presente
nos textos oficiais da Igreja Católica.
Mas o que é o “bem comum”? Conhecemos a resposta
da RCC. Mas será que ela dá conta da complexidade que envolve a
esfera da ação política. A sociedade é cindida em grupos e
classes sociais com interesses divergentes, contraditórios e
antagônicos. A característica principal da nossa sociedade é a
competição pautada no individualismo. Será possível harmonizar
demandas tão díspares? Na verdade, é a desarmonia, os conflitos,
as diferença e as desigualdades sociais que tornam a política
necessária. São diversos interesses econômicos, sociais etc., em
permanente colisão. A política é um recurso, uma tentativa de
garantir a ordem e impedir a desagregação da sociedade enredada,
como diria o filosofo inglês Thomas Hobbes, na guerra de
todos contra todos.
A concepção de que a política é a busca
permanente pelo bem comum, pela justiça, o bom governo etc.,
remonta à tradição aristotélica, à filosofia política de Platão
e ao pensamento cristão medieval. Trata-se de uma concepção
política que indica o ideal, a utopia (no caso da RCC, a
“civilização do amor”, o “Reino de Deus”). Também não deixa de
ter caráter republicano. Com efeito, res publica
significa “coisa pública”. A república põe em relevo a
comunidade, o público, o bem comum e afirma a predominância
destes em relação aos interesses particulares. O Estado
consubstancia o bem comum, a coisa pública; é a sua expressão.
Era assim que os romanos concebiam a política à época do
Império.
Enquanto idéia que nutre as utopias, a concepção
da política como busca do bem comum é belíssima. Não deixa de
ser sensibilizante a idéia de que dedicamos nossa vida ao bem
comum, para que todos tenham vida e possam viver dignamente. Mas
a realidade é cruel e o que ela nos mostra é o antagonismo entre
os diversos interesses. A universalização produzida pelo Estado
é uma tentativa de ocultar o real. Já no século XVI, Maquiavel
observava que a política é sobretudo a arte de conquistar,
dominar e manter o poder político. E o poder político, nos
ensina Norberto Bobbio, outro filósofo italiano, se caracteriza
pela coerção, pelo uso legitimado da violência:
“O que caracteriza o poder
político é a exclusividade do uso da força em relação à
totalidade dos grupos que atuam num determinado contexto social,
exclusividade que é o resultado de um processo que se desenvolve
em toda sociedade organizada, no sentido da monopolização da
posse e uso dos meios com que se pode exercer a coação física”
(BOBBIO, 1992: 956).
A visão ingênua sobre a política desconsidera que
esta pressupõe não apenas meios persuasivos, mas também meios
violentos. Na verdade, o Estado, e por conseguinte, a política,
tem como fundamento a violência, a força, a capacidade de
coerção física. A idéia do bem comum não contradiz esta lógica,
antes a legitima. Como nota Bobbio, as definições teleológicas
sobre a política são prescritivas, isto é, referem-se a como
deveria ser o bom governo, o bem comum, e a
justiça. Não é uma concepção realista, isto é, expressão do
real. Bobbio considera que os fins, os objetivos da política,
são definidos de acordo com os interesses dos grupos e classes
dominantes. “Os fins da política são tantos quanto as metas que
um grupo organizado se propõe, de acordo com o tempo e as
circunstâncias”, afirma. Ele questiona a noção de bem comum, um
conceito de “extrema generalidade, pela qual pode significar
tudo ou nada”. O bem comum, “se quisermos atribuir um
significado plausível, ele nada poderá designar senão aquele bem
que todos os membros de um partilham e que não é mais do que a
convivência ordenada, numa palavra, a ordem” (Id: 957-958).
Enquanto a política se fizer necessária, seus
fins serão tantos quanto os objetivos que os grupos econômicos e
políticos se coloquem. E isso, de acordo com a época histórica e
as circunstâncias nas quais os sujeitos políticos
representativos destes interesses atuam. A política não tem fins
estáticos e perpetuamente definidos.
Nessa concepção, o bem comum cumpre função
retórica e meio ideológico de que se servem tanto os idealistas
quanto os grupos econômica e politicamente dominantes na
sociedade. Estes, permanentemente, procuram nos fazer acreditar
que seus interesses particulares são universais e que também nos
dizem respeito. Vivenciamos isto através da ilusão do Estado
enquanto guardião dos interesses comuns, como se este fosse
neutro no jogo político entre as classes e grupos sociais. É o
mito do Estado. Se na religião o vinho e o pão se
transubstanciam no sangue e carne de Jesus Cristo e constitui o
mistério da fé; na política, o Estado se transubstancia em
universal que expressa o bem comum, fazendo com que nos
identifiquemos e nos submetamos. A representação política é
parte deste processo pelo qual nos reconhecemos no Estado,
enquanto indivíduos com direitos políticos, mas em permanente
conflito de interesses exclusivistas e individualistas. Porém,
todos temos o status de cidadãos. Eis o mistério da
política.
Ao afirmar a concepção do bem comum na
perspectiva cristã, a RCC também resgata o fundamento moral da
política. A política é vista como extensão da ação
evangelizadora, ou seja, a ação política é concebida de maneira
religiosa. Trata-se de um retorno à concepção medievalista sobre
a política, na medida em que se amalgama política e religião e
desconsidera as esferas próprias e relativamente autônomas de
cada uma delas. O resultado é a vinculação da política à moral
religiosa, transformando esta numa espécie de missão
evangelizadora, cujo objetivo é santificar o mundo. Os
vocacionados à política são concebidos como os “escolhidos do
Senhor” e, dessa forma, imaginam-se executores do plano divino
na ordem política e meros instrumentos da Sua vontade.
O problema é que também há a vontade humana, os
interesses específicos dos que atuam na política. O político
carismático, como qualquer outro que fundamente a sua ação em
valores religiosos, acaba por se colocar na posição de
intérprete dos desígnios divinos e a justificar as suas ações e
interesses a partir da identificação com estes.
Porém, isto não é tão simples e fácil. Uma coisa
é o discurso, outra a prática. Não se analisa um indivíduo pelo
que ele fala de si próprio e das suas crenças, mas por suas
ações. Este indivíduo pode, até mesmo, acreditar que o
pronunciado é a pura expressão da verdade. Não obstante, devemos
reconhecer que se trata de um indivíduo concreto que age na
realidade material e num campo específico, o campo da política.
Esta tem uma dinâmica própria, relativamente autônoma, que se
subtrai à moral religiosa.
A política é, e espero não ser redundante, uma
atividade humana. Os carismáticos engajados na política estão
submetidos aos mesmos riscos e pecados dos demais. Seus valores
e crença religiosa não são garantia de imunidade e pureza no
ambiente em que se movem. Eles não estão livres de “cair em
tentação” e se verem envolvidos na lama à qual se referiu o Pe.
Zezinho. Em outras palavras, não estão isentos de se seduzirem
pelos meios do poder. Não há qualquer garantia de que também não
se vejam enlameados em denúncias de corrupção e do uso ilícito
do cargo público. E ainda que resistam a todas as tentações,
terão que, na disputa política, usar meios que podem contradizer
a moral que defendem.
O discurso do bem comum na perspectiva da RCC
também é universalista, mas vincula-se à religiosidade. É um
discurso que submete a política à religião. Esta aparece aos
olhos do carismático como parte da obra de Deus, e ele é apenas
o instrumento para realizá-la, isto é, a implantar o “reino de
Deus” na terra. Na prática, porém, o carismático que atua na
política precisa responder a questões e dilemas que estão
diretamente vinculados ao âmbito terreno. E, enquanto tal, ele
se vê enredado pelos riscos inerentes à atuação política. Daí,
por exemplo, é possível compreender as divergências política
entre as lideranças carismáticas e, também, as frustrações com a
política. A política, bem claro, não é necessariamente o campo
do vício, da imoralidade, da corrupção, enfim, da lama. Mas
seria ingenuidade acreditar que todos os homens e mulheres são
bons. Se fossemos anjos, não precisaríamos atuar politicamente.
A vinculação que a RCC promove entre política e
moral religiosa incuba o risco da teocracia. Em primeiro lugar,
porque é uma concepção maniqueísta, pois concebe o mundo
enquanto dualidade bem/mal. O discurso carismático da
santificação, como se o indivíduo fosse o “escolhido” para
realizar a obra sagrada, estabelece uma distinção perigosa, na
medida em que os eleitos são os que se elegem, ou seja, os que
se consideram servos do Senhor, intérpretes e instrumentos da
sua obra. Se atuam “em nome de Deus” e são legitimados por esta
vinculação, são o “Partido de Deus”, ainda que estejam dispersos
em vários partidos dos homens e mulheres. E se o “Reino de Deus”
inclui apenas os escolhidos e os convertidos, serão excluídos os
que são identificados com o “mal”. Projetos de salvação da
humanidade, na perspectiva teocrática, historicamente se
revelaram inquisitoriais e conservadores.
Segundo, ainda que se tenha a cabeça no céu, não
se pode evitar que os pés toquem o chão. A política é própria
dos seres humanos, já existia antes mesmo do monoteísmo judaico
e cristão. Somos seres frágeis, passíveis de cometer erros – que
na perspectiva religiosa são concebidos como “pecados”. A
moralização da política, no sentido religioso, tende a submeter
a todos a uma determinada concepção moral-religiosa. Quanto mais
a religião avança sobre a esfera da política mais esta se torna
sua prisioneira. A religião pretende domar a política,
moralizá-la. Ela usa de meios próprios para impor as suas
concepções e interesses, como se fossem naturais, sagradas e
pertinentes à sociedade em geral. E na medida em que tais
valores trazidos para a política são considerados sagrados, a
tradução do projeto de Deus, estamos a um passo da intolerância
religiosa potencializada pela política teocrática.
A perspectiva política carismática centra-se no
indivíduo. É este que consegue – ou não – a salvação; é este que
é chamado a realizar a obra de Deus na terra, etc. O discurso
subjacente é o de que não importam os meios utilizados, ou seja,
é indiferente se o político carismático está no partido A, B ou
C. O que importa é que ele se mantenha fiel aos princípios
cristãos. Dessa forma, é o partido e os meios políticos que se
adaptam ao indivíduo. Não é preciso ser muito perspicaz para
perceber que o discurso religioso também pode legitimar
interesses individuais, particularistas e mesmo carreiristas. O
discurso religioso pode ocultar práticas políticas não
necessariamente conseqüentes. Por outro lado, o individualismo
fundado na moral religiosa faz tábua rasa das ideologias
políticas. Anulam-se as diferenças entre direita, esquerda. Na
verdade, estas passam a nem existir, já que o que importa é o
projeto cristão. O político carismático pode, portanto, se
sentir completamente à vontade na oposição ou situação.
Os dilemas da RCC são os da Igreja em geral, na
medida em que partilham a mesma concepção filosófica sobre a
política enquanto a promoção do bem comum e uma certa
naturalização da moral, que se pretende universal e natural. Sua
prática política também segue a instituição católica nos temas
que polemizam a sociedade atual: a questão do aborto, eutanásia,
homossexualismo, família etc.
É de se perguntar, ainda, as relações entre os
mandatários de cargos políticos e a RCC não se tornam ainda mais
complexas, na medida em que a interdependência produz o risco
mútuo da instrumentalização, do mandatário em relação à ela e
desta no tocante ao uso do mandato como meio de realização dos
seus interesses. A Renovação Carismática também não está isenta
de contribuir para a reprodução de práticas políticas
historicamente presentes na cultura nacional, como o
clientelismo, paternalismo e a instrumentalização política da
caridade. Como evitar que seus líderes não se misturem na lama
da politicagem? Como garantir que a santidade da espiritualidade
não se contamine com o pecado do campo político? Em certos
momentos, a impressão que se tem é que o político carismático é
candidato à santificação e não a cargos eletivos em instituições
que teimam em freqüentar as páginas policiais.
Concluímos, então, que a prática política da RCC
se orienta pela moral religiosa e uma espiritualidade que inclui
o risco de afastar o fiel do mundo, restrito à relação direta
com o sagrado, ainda que o discurso da liderança também enfatize
a necessidade do compromisso político e social. A busca do
sagrado na perspectiva do carismático pode representar
simplesmente a resolução de problemas imediatos e de caráter
psíquico individualizados. Assim, embora o discurso contra a
estrutura social injusta apareça com ênfase, as características
que definem a identidade espiritual da Renovação Carismática
indicam dificuldades para incluir na pauta a política. Esta
entra pela porta da moral, e no binômio fé e política, muitas
vezes parece que é a primeira que prevalece. A concepção
moralista da política embute o risco da frustração, na medida em
que a política é o campo próprio do profano.
Em relação a Maringá, a história da RCC reproduz
um padrão no que diz respeito às relações e resistências da
hierarquia eclesial. Mesmo assim, ela conquistou o seu espaço,
influiu e influi sobre a diocese, no cotidiano das paróquias e
nas relações de poder presentes na instituição. Por outro lado,
também influencia sobre os rumos da cidade, na medida em que
seus membros se fazem presentes, em especial sua liderança, em
posições importantes no poder público, universidade e entidades
da sociedade civil.
E, no entanto, parece-nos que sua história foi
negligenciada. Ao tomarmos a Renovação Carismática Católica de
Maringá como objeto de pesquisa, desejamos não apenas
compreender a sua trajetória e presença na sociedade
maringaense, mas também humildemente contribuir para o registro
da sua história. Por isso, optamos por enfatizar a voz dos
diretamente envolvidos.
A exposição se concentrou nos depoimentos das
lideranças e documentos oficiais. Os próprios entrevistados
reconhecem que, no tocante à relação fé e política, há um
descompasso. O nível de consciência demonstrado pelos líderes
carismáticos quanto ao compromisso dos leigos cristãos em
relação à política, não é necessariamente o mesmo nos grupos de
oração. A nosso ver, este é um tema merecedor de pesquisa e
aprofundamento. Porém, ainda que a dinâmica da reflexão sobre as
relações fé e política, e mesmo o envolvimento na militância
política, não sejam na mesma intensidade, é importante ter
acesso ao pensamento das lideranças e, em especial, como
concebem a política. Afinal, são eles os dos formadores da RCC e
da opinião externa a esta.
Ainda sobre os depoimentos, em alguns casos há
ênfase na relação conflituosa entre a RCC e a Teologia da
Libertação. É necessário relativizar, pois há o risco de
superdimensionar a presença e força política desta última na
Igreja e sociedade local. Também é preciso aprofundar a pesquisa
sobre esta relação e a atuação da Teologia da Libertação na
Igreja e política maringaenses. De qualquer forma, o que
sobressai quanto à Renovação Carismática é o conflito com a
hierarquia eclesiástica.
Não há neutralidade axiologia e, portanto, a
perspectiva da minha análise é determinada pela minha história
de vida e pelas posturas teóricas e políticas que assumo. No
entanto, procurei manter o distanciamento necessário para que o
desenvolvimento do trabalho. Não foi um exercício fácil.
Contudo, a adoção de uma postura intelectual fundada na
tolerância e que recuse o maniqueísmo simplista contribuiu. Não
pretendi agradar a gregos, troianos ou baianos, mas simplesmente
entender a RCC e, em especial, sua trajetória em Maringá. Uma
forma de avaliar um trabalho acadêmico é observar se este
acrescentou e o que acrescentou ao aprendizado do seu autor.
Dessa perspectiva, minha avaliação é positiva. Aprendi muito!
A leitura da bibliografia sobre a RCC (e desta),
bem como as entrevistas etc., confirmaram que mesmo um movimento
religioso com posturas conservadoras, também pode apresentar
aspectos críticos. A concepção moral religiosa sobre a política
também pode ser questionadora, por exemplo, do neoliberalismo e
da injustiça e, neste sentido, também tem potencialidade
positiva.
A afirmação de que a religião é uma forma
particular de ideologia não significa que ela cumpre apenas uma
função conservadora. A famosa frase de Karl Marx de que ‘a
religião é o ópio do povo’, repetida por marxistas e
não-marxistas, muitas vezes sem a necessária reflexão e
contextualização, diz apenas parte da verdade.
Se restringir à mesma, como uma espécie de sentença definitiva,
é reducionismo; como também o é quando se restringe o fenômeno
religioso a mero reflexo da base econômica. A religião, na
medida em que ela coincide e se nutre do senso comum e da
naturalização das relações e fenômenos sociais, cumpre uma
função conservadora.
Porém, da mesma forma que a realidade social é um
complexo contraditório, a religião também expressa essa
diversidade. Assim, ela também pode cumprir um papel de
questionamento e crítica da estrutura social. Como nota Portelli
(1984: 31), em seu estudo sobre Gramsci e a religião, “A
ideologia religiosa como concepção do mundo das classes
subalternas, pode desempenhar – e no passado desempenhou – um
papel progressivo fornecendo a estes grupos sociais uma base
ideológica para uma ação prática positiva”. Um exemplo é a
Teologia da Libertação. Mesmo a Renovação Carismática Católica
de Maringá pode desempenhar um papel político crítico. Não
obstante, em geral e predominantemente, a religião conserva e
legitima a ordem social vigente. Em sua análise sobre o campo
religioso, Bourdieu conclui que:
“A Igreja contribui para a
manutenção da ordem política, ou melhor, para o reforço
simbólico das divisões desta ordem, pela consecução da sua
função específica, qual seja a de contribuir para a manutenção
da ordem simbólica: (I) pela imposição e inculcação dos esquemas
de percepção, pensamento e ação objetivamente conferidos às
estruturas políticas e, por esta razão, tendentes a conferira
tais estruturas a legitimação suprema que é a “naturalização”,
capaz de instaurar e restaurar o consenso acerca da ordem do
mundo mediante a imposição e a inculcação de pensamentos comuns,
bem como pela afirmação ou reafirmação solene de tal consenso
por ocasião da festa ou da cerimônia religiosa, que constitui a
ação simbólica dos símbolos religiosos com vistas a reforça sua
eficácia simbólica reforçando a crença coletiva em sua eficácia;
(II) ao lançar mão da autoridade propriamente religiosa de que
dispõe a fim de combater, no terreno propriamente simbólico, as
tentativas proféticas ou heréticas de subversão da ordem
simbólica” (1974: 70).
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Lugnani – 15.02.07
Ierecê Jussara
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José do Nascimento
Neto – 14.02.07
Padre Pedro Jorge
Delgado Bento – 29.03.07.
Sidnei de Oliveira
Telles Filho – 15.02.07
Valter Viana –
23.02.07