
LEANDRO
KONDER
Filósofo
marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da
Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro
Nota do editor:
Os
textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna
da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo
é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e
publicados em "Intelectuais brasileiros &
marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991).
O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA.
Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.
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Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982)
por Leandro Konder
Em
1935 – há cinqüenta e cinco anos – saiu publicado na revista
Espelho um ensaio intitulado “Corpo e alma do Brasil”. No ano
seguinte, reelaborado e desenvolvido, o trabalho apareceu em livro.
E o livro, já com o título Raízes do Brasil, rapidamente se
tornou um clássico na literatura dedicada à nossa reflexão sobre nós
mesmos.
O autor da façanha era um paulista, nascido na cidade
de São Paulo em 11 de julho de 1902: chamava-se Sérgio Buarque de
Holanda.
Quando começaram a surgir as primeiras composições de
Chico Buarque de Holanda, algumas pessoas bem informadas apontavam
para o moço e diziam: “É o filho do Sérgio Buarque de Holanda”.
Depois da Banda, de Olé-olá e de tantos outros
sucessos, o Chico ficou famoso e o velho Sérgio passou a ser
caracterizado como “o pai do Chico”.
Por mais genial que seja o nosso bravo compositor,
entretanto, ele sabe, melhor do que ninguém, que sua fama jamais
ofuscará a glória de seu pai. Sérgio Buarque de Holanda era um
grande admirador do filho Chico e não se incomodava nem um pouco com
a merecida atenção que o público dedicava ao autor de Roda viva.
Sérgio podia se alegrar, com toda a tranqüilidade, pois tinha
consciência de que, pela importância de sua obra, pela força dos
ensaios que escrevera, seu lugar na admiração dos brasileiros estava
assegurado
* * *
Sérgio Buarque de Holanda era uma personalidade
marcante. Na juventude, foi devorador de livros. Quando o conheceu,
no Rio de Janeiro, para onde ele tinha vindo em 1921, Manuel
Bandeira se espantou com a solidez da sua erudição. Perguntou-se
como era possível que Machado de Assis no século XIX e Sérgio no
século XX tivessem chegado a ter, no Brasil, uma formação cultural
tão séria. Para o poeta pernambucano, Sérgio corria o risco de se
perder no intelectualismo, de soçobrar no cerebralismo. Mais tarde,
porém, Manuel Bandeira constatou: “Sérgio não soçobrou. Curou-se do
cerebralismo, caindo na farra.”
Em companhia de Manuel Bandeira, de Gilberto Freyre e
de Prudente de Moraes, neto, mas também eventualmente, em companhia
de Donga e Pixinguinha, Sérgio freqüentou os botequins cariocas e
tomou pileques memoráveis.
Na revista Estética, que ajudou a fundar,
apoiou energeticamente o movimento modernista dos anos vinte.
Empenhou-se na luta pela renovação da nossa expressão literária,
contra a empostação retórica e o espírito acadêmico. Percebia,
contudo, que nem tudo no ímpeto inovador era bom. Distanciou-se, por
exemplo, do futurismo, no qual pressentia alguns traços
fascistizantes.
Desenvolveu intensa atividade jornalística. Uma
equipe coordenada por Francisco de Assis Barbosa (a quem a cultura
brasileira tanto deve!) reuniu e publicou, recentemente, os artigos
do jovem Sérgio no livro Raízes de Sérgio Buarque de Holanda
(Editora Rocco). O volume nos dá uma idéia do esforço do jornalista
para combinar a agilidade da informação com o rigor da compreensão
das questões que abordava.
Sérgio se desdobrava. Colaborou com O Jornal,
com Rio-Jornal, com o Jornal do Brasil, com A Idéia
Ilustrada e outras publicações. Durante algum tempo, traduziu
telegramas na agência Havas e na United Press. Em 1927, foi para
Cachoeiro de Itapemerim, no Espírito Santo, para dirigir um jornal
local.
Politicamente, sempre foi um homem de esquerda.
Interessou-se pelo comunismo, chegou a procurar o principal
intelectual do Partido Comunista naquele tempo, Octávio Brandão,
porém ficou muito mal impressionado com o sectarismo do combativo
farmacêutico.
Em 1929 foi mandado à Alemanha como correspondente do
O Jornal. A correspondência enviada também consta no livro
Raízes de Sérgio Buarque de Holanda (apresentada por Antonio
Candido). Entrevistou Thomas Mann, analisou a evolução da situação
política na Polônia, comentou a repercussão da chamada “revolução de
1930” brasileira na Alemanha e pensou em ir à União Soviética (mas
desistiu por causa do frio: a viagem se faria em pleno inverno).
Em Berlim, Sérgio conheceu Mário Pedrosa e Astrojildo
Pereira, dois marxistas que trilhavam caminhos politicamente
opostos. Astrojildo se subordinava à linha de Stálin e Mário seguia
a linha de Trotsky. Sérgio se afeiçoou a ambos, mas não acompanhou
nenhum dos dois.
Na época, começou a se empenhar, cada vez mais, em
penetrar nas origens das instituições, das mentalidades, das
peculiaridades do Brasil. Os esquemas doutrinários não lhe pareciam
convincentes. E se tornavam mais nocivos quando invocavam princípios
apresentados como “racionais” para alimentar os simplismos e
preconceitos por eles difundidos. De volta da Alemanha, encontrou
seu amigo Manuel Bandeira e lhe declarou: “Quando saí daqui, eu
tinha uma tendência para o comunismo. Hoje estou achando nele o
mesmo excesso racionalista do catolicismo.”
O abandono dos esquematismos pretensamente
“racionalistas” não significava necessariamente uma capitulação
diante do “irracionalismo”; em lugar de recorrer a mitos, Sérgio
tratava de esclarecer o “sentido” da experiência histórica
efetivamente vivida pelos homens durante a “colonização”.
A recusa da “ortodoxia” do “marxismo-leninismo” não o
impedia de assimilar as contribuições originais dos marxistas mais
inquietos e originais, tidos como “revisionistas”. E a desconfiança
em face dos “excessos” do “racionalismo” não o afastava da
dialética.
A historiadora Maria Odila Leite da Silva Dias, que
organizou o volume dedicado a Sérgio Buarque de Holanda na série
“Grandes Cientistas Sociais” (Editora Ática), escreveu, na
introdução ao livro, que Sérgio assimilou idéias provenientes de
História e consciência de classe (de Lukács), de Adorno,
Horkheimer e Walter Benjamin: “A marca do método dialético na obra
de Sérgio Buarque de Holanda condiz com uma admiração reiterada pela
obra de Georg Lukács e com uma afinidade constante, vida afora,
pelas inovações do revisionismo marxista.”
Sérgio precisava de um instrumental conceitual
flexível para entender melhor o Brasil em sua gênese. Em suas
palavras, ele queria entender como ocorreu na vida brasileira “uma
acentuação energética do afetivo, do irracional, do passional, e uma
estagnação, ou antes uma atrofia correspondente das qualidades
ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer,
exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias
de organizar-se politicamente” (Raízes do Brasil).
Aristóteles dizia que o espanto é o começo da
ciência. Pois bem: Sérgio se espantava com o conservadorismo vigente
na sociedade brasileira. Ele se perguntava: “Como esperar
transformações profundas em um país onde eram mantidos os
fundamentos tradicionais da situação que se pretendia ultrapassar?”
(Raízes do Brasil).
É curioso ver como Sérgio enxergou as pistas
presentes em algumas palavras da nossa língua. A palavra “desleixo”,
por exemplo, que era tão sintomaticamente exclusiva do idioma
português como “saudade”. E sobretudo a palavra “traficante” ou a
palavra “tratante”, que em outras designa simplesmente o
comerciante, o homem de negócios, e – aplicada à burguesia
portuguesa (mãe da nossa) – assumiu uma significação claramente
depreciativa.
Sérgio notou que, ao longo da história da sociedade
brasileira, os movimentos reformadores “partiam quase sempre de cima
para baixo”. Como as forças que promoviam as reformas eram marcadas
pelo espírito dos “tratantes” e “traficantes”, empenhados em
preservar seus privilégios acima de tudo, era natural que as
mudanças, afinal, fossem superficiais, inócuas, limitadas.
A ideologia dominante – que, como ensinava o velho
Marx, é sempre a ideologia das classes dominantes – explorava essa
pasmaceira, para tentar sempre legitimar um quadro no qual não só as
coisas pareciam eternas como, ainda por cima, nada deveria se
modificar. E mesmo os representantes das forças empenhadas em
transformar a sociedade tendiam a sucumbir diante de um pessimismo
paralisador.
A reação de Sérgio contra esse ponto de vista
conservador, que induzia o observador à passividade, consistiu em
reexaminar de um ângulo energeticamente crítico o panorama de nossa
história, para enxergar as manifestações de movimentos subterrâneos
em áreas culturais nas quais se negava a existência de qualquer
movimento significativo. Especialmente na cultura, na vida cultural
dos brasileiros da época colonial, ele apontou os caminhos pelos
quais fluíam as contradições, por baixo das imagens enganadoras de
uma circulação coagulada.
Na relação dos colonizadores brancos com os índios,
por exemplo, onde a perspectiva conservadora sugeria uma passagem de
mão única, através da doação da cultura do elemento “civilizado” ao
elemento “inculto”, Sérgio promoveu uma reviravolta pioneira. Ele
lembrou que foram os índios que ensinaram ao brancos a habilidade
essencial de que os bandeirantes precisavam nas longas caminhadas
que empreenderam terra adentro: saber andar. Os brancos
andavam pelo mato como estavam acostumados a andar pelas cidades. Os
índios lhe mostraram como deviam caminhar, combinando o movimento e
o ritmo das pernas com o balanço do corpo inteiro; e como deviam
pisar no chão, com toda a sola do pé, para não cansar logo.
Para reconstruir o processo das influências
efetivamente trocadas, Sérgio estudava com sua curiosidade
insaciável, punha uma paixão imensa em suas pesquisas. Uma vez, sua
mulher – Maria Amélia Alvim – surpreendeu-o, de madrugada, quase
desmaiando de exaustão, folheado montanhas de livros, à procura de
uma referência que lhe forneceria a data em que os índios guaicurus
passaram a usar cavalos.
Esse estudo, diga-se de passagem, nunca eliminou da
personalidade de Sérgio o seu lado boêmio e saudavelmente moleque, o
robusto senso de humor, que, no dizer de Manuel Bandeira, o salvou
de “soçobrar no cerebralismo”. Sérgio era terrivelmente “gozador”,
sua irreverência é conhecida. Poderíamos encher páginas e páginas
com o relato de suas brincadeiras. Limito-me aqui a contar um de
seus “casos”: a professora Ismênia de Lima Martins, da Universidade
Federal Fluminense, estava sentada à frente do grande historiador
num almoço cerimonioso, ao qual ambos tinham comparecido a
contragosto; Sérgio dava evidentes demonstrações de que não estava
se sentindo à vontade no meio dos convivas, que eram pessoas graves
e circunspectas; num dado momento, ele passou a pedir à Ismênia, em
voz alta, que contasse anedotas debochadas. “Conta aquela do
pentelho, Ismênia!”
O “moleque”, no entanto, era um incansável
trabalhador. Depois de Raízes do Brasil, vieram numerosos
outros livros, como Cobra de vidro (1944), Monções (1945),
Caminhos e fronteiras (1957), Visão do paraíso (1958) e
O extremo Oeste (publicado postumamente, em 1986, pela
Editora Brasiliense). Além disso, ele coordenou a História geral
da civilização brasileira e para ela escreveu o ensaio “Do
império à república”, constante do segundo tomo do quinto volume.
Uma última observação se impõe: além de escrever e
pilheriar, Sérgio acompanhava atentamente a vida política brasileira
e participava dela, com muita “garra”. Pouco antes de morrer (ele
faleceu no dia 24 de abril de 1982), ele ingressou no Partido dos
Trabalhadores, no momento mesmo de sua fundação. Procurou, com isso,
confirmar uma posição de esquerda, assumida desde a juventude, que
sempre encontrara dificuldades para se concretizar no plano da
filiação político-partidária, em decorrência da cristalização
dogmática das opções oferecidas pelas organizações de esquerda
existentes.
14-4-1990
Filósofo marxista
brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da
Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro.
In: KONDER,
Leandro.
Intelectuais
Brasileiros e Marxismo.
Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 59-64
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