REGINALDO BENEDITO DIAS

Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá; Doutor em História e Sociedade pela UNESP

   

A história que poderia ter sido:

Herbert de Souza interpreta a experiência da Ação Popular[1]

por Reginaldo Benedito Dias[2]

 

Pose ao lado do retrato feito com sementes por Siron Franco. Foto de Oscar Cabral - Abril ImagensPreâmbulo

O presente trabalho tem o objetivo de analisar como a história da Ação Popular, organização de esquerda das décadas de 1960 e 1970, foi narrada nas memórias do sociólogo Herbert de Souza, que foi seu primeiro coordenador nacional. Para efeito da análise, foram selecionados cinco depoimentos expressivos (SOUZA: 1976, 1991, 1996a, 1996b; GONTIJO: 1989). Editados no formato de entrevistas ou em narrativas contínuas, esses depoimentos devem ser compreendidos como manifestações do universo da memória.

Para investigar a interface da memória com a história, devem ser observadas duas coordenadas. A primeira é o entrelaçamento das memórias individuais com a experiência coletiva. A segunda é que a memória é afetiva, seletiva e recria o passado a partir de demandas relevantes à inserção do personagem no presente (HALBWACHS, 1990). Dada a natureza do registro, as memórias de Herbert de Souza, mais do que o simples resgate de fatos da história da AP, procedem a uma interpretação peculiar sobre sua experiência.  

Da origem da AP ao golpe militar

A narrativa de Herbert de Souza, considerados os seus diversos depoimentos, reconstrói a origem da AP a partir da politização da militância das organizações leigas da Igreja Católica, notadamente da JEC e da JUC[3], experiência que viveu diretamente.  Embora a AP tenha atraído militantes de outras origens, seja de diferentes vertentes religiosas,[4] seja de formação independente, esse pode ser considerado o tronco principal no processo de sua formação. Esses ramos de atuação especializada da Ação Católica do Brasil tinham, originalmente, um perfil conservador e o objetivo de cristianizar o seu meio. Todavia, na segunda metade da década de 1950, experimentaram uma guinada política. Passaram a participar mais intensamente da movimentação e da política estudantil e se envolveram nos debates sobre os problemas estruturais do país. Progressivamente, a JUC engajou-se nas lutas pela reforma universitária e pela mudança das estruturas na sociedade brasileira. Outro vetor que influenciou a JUC pode ser encontrado nas próprias estruturas da Igreja Católica, sob os auspícios do progressista pontificado de João XXIII.

Entre 1958 e 1962, conforme Herbert de Souza (1976), viveu-se a transição que culminou na formação da AP. Seus depoimentos revelam o impacto da visão renovada do cristianismo para sua geração de militantes: “Cultivávamos uma religiosidade muito politizada no sentido de uma sociedade justa, como uma visão anticapitalista e socialista, e a comunhão entendida como comunidade, enfim, muita coisa que não se comparava com a tradição predominante” (GONTIJO, 1989, p. 57). Dito de outra forma, “ao invés de a religião ser transformada num elemento de impotência e castração das possibilidades tanto dos homens quanto das mulheres, na JUC e na JEC ela se transformava num elemento de impulso” (SOUZA, 1976, p. 71).

Mas a práxis da JUC, por flertar com o marxismo e adotar alianças com a esquerda comunista, ultrapassava os limites tolerados pela hierarquia da Igreja Católica. Por isso, a Igreja censurou a aproximação, teórica e prática, com o marxismo e com agrupamentos nele inspirados (CNBB, 1961, p. 947). O impasse gerou uma ruptura: “não devíamos explicações a ninguém: nossa única obrigação, em relação à Igreja e à Ação Católica, era flexível, negociada. Quando a Igreja tentou mexer com a nossa independência, saímos da Ação Católica” (SOUZA, 1996b, p. 18). A esse impasse somavam-se as limitações de atuação política de uma organização que aglutinava por confissão religiosa. Estabeleceu-se, então, o objetivo de criação de uma organização política laica, não-eclesial, que desempenhasse, de maneira autônoma, uma função exclusivamente política. Em 1962, ocorreram várias reuniões e, no início de 1963, realizou-se o I Congresso da AP, que formalizou sua fundação.

Promoveu-se a passagem de uma visão religiosa a uma perspectiva política. A AP começou a sair, segundo as palavras de Herbert de Souza (1976), da gestalt cristã e a entrar em uma visão de mundo influenciada pelo marxismo. Em relação à origem da AP, seus depoimentos fornecem uma interpretação que está intimamente vinculada à análise das fases seguintes. A conversão procedeu-se com o sentimento, herdado do cristianismo e transposto à nova identificação, de que “temos uma missão, somos uma geração com uma missão salvadora”. Em outras palavras, “passamos à política com a mesma mística que havíamos vivido na religião, a mesma perspectiva de compromisso, a mesma pureza, responsabilidade, auto-renúncia” (SOUZA, 1976, p. 71).

O horizonte filosófico, ideológico e político da AP foi sintetizado no Documento base, aprovado em seu congresso de fundação. Ensejando um diálogo entre o pensamento cristão progressista, o existencialismo e o marxismo, o Documento base criticava o “socialismo real”, acusando a gestação de novas formas de alienação em sua experiência. Advogava a existência de caminhos plurais ao socialismo e se definia, sem rigor conceitual e estratégico, pela necessidade da revolução socialista. A AP preconizava, então, “uma ideologia própria” e o socialismo como humanismo.

Embora seus depoimentos não detalhem o conteúdo do Documento base, Herbert de Souza salienta o pluralismo de perspectivas e o caráter aberto como era incorporado o marxismo, sugerindo um contraste com a rigidez do período posterior:

O documento base não fazia uma profissão de fé ideológica, marxista. Usava o marxismo mas não tinha aquela coisa que veio depois, quando você tinha que afirmar que era marxista, como um primeiro passo, depois ter que provar que era marxista e depois que só nós éramos marxistas (SOUZA, 1991, p. 35).

Entre as organizações de esquerda fundadas no início da década de 1960, em oposição ou como alternativa ao PCB, a Ação Popular foi a que obteve maior audiência de massas (GORENDER, 1987). Herbert de Souza aponta fatores que colaboraram para a ascensão da Ação Popular como força política. Um deles era a representatividade social do catolicismo. Outro fator era a linguagem: “O PC esforçava-se sempre por se auto-afirmar como PC. Mas isso afastava a massa, que estava impregnada de pregação anticomunista. Nós dizíamos o que o PC queria dizer, mas sem usar nenhum slogan” (SOUZA, 1976, p. 75).

Ressalta o impacto da renovação política ensejada pela AP: “como não tínhamos o peso de uma tradição (...), tínhamos mais flexibilidade diante da realidade social. Essa flexibilidade, esse sentido de iniciativa, essa abertura e sensibilidade para o movimento real, e mais esse problema de linguagem vão-nos diferenciar” (SOUZA, 1976, p. 76). Em resumo: “A nossa proposta podia ser utópica, inviável ou ingênua, mas era sem dúvida a mais bonita, empolgante e radical. Tanto que ganhamos o movimento estudantil” (GONTIJO, 1989, p. 61).

O golpe militar e seu significado

A ascensão da AP foi interrompida pelo golpe militar de 1964, como de resto aconteceu com os movimentos políticos que marcaram a conjuntura dos primeiros anos daquela década.  Impôs-se a amarga tarefa de entender as razões do insucesso político e seu significado. A partir de então, a AP seguiria o caminho que culminaria em sua adesão ao marxismo-leninismo. Em seus depoimentos, Herbert de Souza consolidou uma análise sobre o significado do golpe de 1964 que segue uma linha oposta ao caminho percorrido pela Ação Popular. Por um lado, sua narrativa contém uma identificação com os processos então interrompidos e, por outro, faz críticas retrospectivas às opções que viriam a ser feitas no interior de sua organização.  

O sentido de fratura, promovido pela ruptura institucional vivida pelo país, pôde ser percebido imediatamente. Naquele momento, entretanto, o sentido último dos acontecimentos não podia ser entendido profundamente. Essa dificuldade não decorria apenas da complexidade dos fatos. Correspondia ao próprio fazer-se da organização, cuja flexibilidade combinava-se com grande dose de voluntarismo. Herbert de Souza observa que

O movimento prevalecia sobre o entendimento. (...) Para nós da AP era muito difícil entender, na conjuntura tumultuada do momento, na ação e nas novas chances que se abriam para fazer política, que você devia parar para fazer uma análise e ter um entendimento mais profundo do que era aquilo tudo. Isso só vai ser possível com o movimento reflexivo posterior (SOUZA, 1976, p. 76).

Com a mediação desse movimento reflexivo posterior, comenta o corte sobre as perspectivas de desenvolvimento nacional: “Estou convencido de que até (19)63 um processo revolucionário era possível no Brasil. Possivelmente não o socialismo. Mas uma democracia mais avançada era possível. E um desenvolvimento econômico mais nacionalista” (SOUZA, 1976, p. 76). A respeito das perspectivas da AP, avaliou: “Fomos tragados por uma dinâmica que nos levava na direção de um partido de massas. Não fosse o golpe de 1964, talvez esse tivesse sido o destino da Ação Popular, com seus quadros, seus militantes e uma força de sustentação popular” (SOUZA, 1996b, p. 27).

O centro de gravidade da análise de Herbert de Souza sobre o significado do golpe militar de 1964, verificado no primeiro depoimento e reiterado nos posteriores, é sua identificação com os processos interrompidos e com suas possibilidades de desenvolvimento. Torna-se crítico das redefinições vividas pela esquerda em geral e pela AP em particular. Por isso, tende a exaltar, a despeito da imprecisão e de certa dose de ingenuidade, a inventividade daquele momento, em detrimento das certezas do marxismo-leninismo que a AP abraçaria na conjuntura posterior. 

Nota-se, em suas falas, o uso deliberado do subjuntivo, como exemplifica a frase “não fosse o golpe de 1964”. Essa posição não deve ser entendida, porém, como tentativa de volta ao passado. As reflexões de Herbert de Souza estão a “detectar (...) as virtualidades não realizadas, a história que poderia ter ocorrido tivessem sido outras as circunstâncias”, como escreveu, analisando um tema correlato, Marco Aurélio Garcia (1990, p. 19).

Não obstante a avaliação construída no movimento reflexivo posterior, Herbert de Souza viveria as tensões das sucessivas conversões experimentadas pela AP. Foi com o olhar de quem tinha vivido essas conversões que comentou criticamente a fase iniciada com a instauração da ditadura.

A opção pelo maoísmo

Embora os depoimentos investigados não contenham referências diretas à sua elaboração, a primeira revisão teórica importante procedida pela AP foi condensada no documento Resolução política, aprovado em 1965. Preservou-se, na Resolução política, parte essencial do edifício conceitual do Documento base, especialmente os aspectos que abordavam o socialismo como humanismo e as críticas ao socialismo real, mas efetivou-se uma redefinição da estratégia. A grande mudança foi a adesão explícita ao objetivo de conquistar o poder pela via insurrecional, traduzido na formulação da estratégia da Revolução Socialista da Libertação Nacional, conceito que sofria influência das revoluções cubana e chinesa.

O processo de redefinição política afunilou-se em 1967, com a convocação do Debate Teórico e Ideológico, que promoveu um debate organizado sobre o marxismo. Influenciadas pelos paradigmas das revoluções cubana e chinesa, duas correntes polarizaram o processo. A “corrente 1”, adepta da linha chinesa e da compreensão de que o maoísmo constituía a terceira etapa do marxismo, defendia a revolução nacional democrática, a partir do pressuposto de que o Brasil era um país semicolonial e semifeudal. A luta armada deveria ser realizada por intermédio da guerra popular prolongada, tendo como arena principal o campo. Compreendia-se que existira um partido de vanguarda no Brasil e que era necessária a sua reconstrução. Seguindo práticas da revolução cultural chinesa, defendia-se, também, a proletarização da militância da AP, que deveria ser reeducada por intermédio de sua integração na  produção. A "corrente 2" preconizava a revolução imediatamente socialista, entendendo que a sociedade brasileira era capitalista. Recusava a idéia de que o maoísmo constituía uma nova etapa do marxismo e defendia que nunca existira um partido de vanguarda no Brasil e que era preciso construí-lo. Em 1968, a disputa teve um desenlace traumático. Com a vitória da “linha chinesa”, promoveu-se a exclusão dos membros da segunda corrente.[5] Disputas à parte, a Ação Popular converteu-se, definitivamente, em uma organização marxista.

As razões da adesão ao maoísmo foram assim descritas por Herbert de Souza, sem dispensar pitadas de ironia:

Nós viemos de uma tradição cristã. Então tinha que haver uma fase de transição, com certa solução de compromisso se estabelecendo. Negar hoje o valor disso dizendo simplesmente que até então éramos um grupo pequeno-burguês cristão e que depois viramos marxistas, por volta de 1967, é pura idiotice. É não entender que nós éramos uma resultante de um processo com profundas raízes sociais encontradas no Brasil. (...) Ao chegarmos a adotar o maoísmo como uma religião em 1968-1969, tínhamos uma base pra isso. Por que fomos nós e não os outros grupos? Nós saímos da Ação Católica e outros não. Depois de Cristo, deu-se o vazio, mas o maoísmo chegou e o camarada Mao pegou de novo a bandeira (SOUZA, 1976, p. 72).

Acrescenta:

O maoísmo caiu melhor na minha estrutura de inspiração cristã. Um católico praticante fervoroso pode virar um maoísta numa questão de segundos, porque você tem Deus, que é o Mao, tem o camarada que é o chefe, você tem a revolução que é inexorável. (...). Tem a Bíblia vermelha, que é pequenininha e fácil de ler (SOUZA, 1996a, p. 83).

Como já observara na transição entre a “gestalt cristã” e a AP, Herbert de Souza interpreta a adesão ao maoísmo pela permanência de atitude religiosa, traduzida, por exemplo, por uma ética militante análoga. A proletarização da militância, que preconizava “o trabalhar com o povo”, “viver com e como o povo”, era um ponto comum. Deve-se ressalvar, porém, que a “corrente 2” da AP, que rejeitava a metodologia da “proletarização”, também tinha líderes com passado católico. Em suma, nem todos os que aderiram ao maoísmo eram cristãos e nem todos os militantes com passado cristão aderiram ao maoísmo. Não havia, assim, uma relação direta de causa e efeito entre a opção pelo maoísmo e a  origem cristã, mas a interpretação é  instigante, na pois procura identificar que a nova opção deitava raízes em uma cultura anterior. Não havia uma descontinuidade absoluta.

A clandestinidade e a proletarização

Um dos momentos mais emblemáticos de sua reflexão diz respeito à experiência da integração na produção. Seu tom é dramático. Sua avaliação, veiculada sem variações importantes nos vários registros disponíveis, é impiedosa:

Começa uma fase terrível e eu, dada a minha vocação cristã de sofrer no martírio, vou assumir tudo isso, aceito agora em nome do proletariado. Dizem-me que sou pequeno-burguês, que nunca deixei de ser. Então, porque sou pequeno burguês, tenho que passar por um processo de proletarização, o que significa purgar todas as vestes de pequeno burguês e tornar-me um operário (SOUZA, 1976, p. 82).

Sua narrativa é repleta de dor e sofrimento. Com vocabulário oriundo do universo religioso, define as conseqüências do processo: “A pequena burguesa passa pelo purgatório, muitos caem no inferno e muitos são aí destruídos” (SOUZA, 1976, p. 87). Destruídos, no caso, pela loucura: “Chega então toda essa loucura que engoli, que aceitei, chegando a pensar que nessa época eu fiquei meio louco. (...) Fiquei louco com os loucos” (SOUZA, 1976, p. 83).

Em uma situação de clandestinidade, a utilização de “nomes frios” torna-se prática obrigatória. No contexto vivido pela AP, tal prática adquiria outros contornos. Mais do que outros nomes, a reeducação na produção levava a que fossem assumidos outros papéis e atribuições: “no início da AP, se você era um professor você trabalhava com os professores, se você era um padre trabalhava com os padres, se era um jornalista trabalhava com jornal. Agora todo mundo, menos alguns dirigentes, teria que ser transformado em operário ou camponês” (SOUZA, 1976, p. 87). Por isso, o sociólogo, metamorfoseado em operário, lamenta que não tenha produzido nada em termos teóricos, de pesquisa e de elaboração. Insistindo no uso da linguagem psiquiátrica, acrescenta: “É o capítulo da esquizofrenia, da paranóia. (...) Creio que foi o resultado de uma perda de pé na realidade” (SOUZA, 1976, p. 87).

Na maior parte dos depoimentos de Herbert de Souza, conduzidos com amarga ironia de seu olhar retrospectivo, nem sempre ficam explícitas as razões que o moviam na época. De fato, o tom crítico de suas falas suscita a indagação de por que se submeteu a tal experiência. Em uma de suas últimas entrevistas, Herbert de Souza foi frontalmente indagado a respeito desse tema. Sua resposta foi direta: “Há algumas coisas. A primeira delas é que eu estava tranqüilo em relação à minha posição, porque eu era maoísta, não tinha dúvidas (grifos meus), e achava que esses caras estavam, no fundo, fazendo sacanagem” (SOUZA, 1996a, p. 88). Com mais clareza, adiciona: “Eu fui maoísta mesmo. Durante um período eu fui maoísta mesmo, eu fui possuído pelo maoísmo como os outros foram. E só assim você consegue agüentar aquela vida” (SOUZA, 1996a, p. 90). Em outra intervenção, ele explica: “O sentimento de culpa que me perseguia, misturado a conceitos como sentido da missão, engajamento cultural e ideológico, e, sobretudo, o desejo secreto de me identificar totalmente com os operários ou os camponeses levaram-me a aceitar o desafio” (SOUZA, 1996b, p. 41).

A teoria e o dogma

A despeito de o marxismo supostamente estar calçado em uma visão científica da realidade, o quotidiano da organização, segundo a narrativa de Herbert de Souza, revelava uma sacralização da teoria e um alheamento da realidade: “A partir de certo momento, a realidade política desapareceu do nosso campo de visão” (SOUZA, 1996b, p. 46). Nos termos colocados por seus depoimentos, a teoria marxista era um instrumento inquisitorial de disputa de poder:

As análises deixavam de ser políticas. Elas só serviam para classificar as pessoas à direita ou à esquerda. Citar Lênin, por exemplo, não servia para discutir a realidade brasileira, mas para detectar um desvio. A literatura marxista se tornou uma reserva teórica da nova Inquisição (SOUZA, 1996b, p. 46).

Foi com essa ambientação que se atualizou o debate a respeito do partido de vanguarda e da revolução brasileira. Não obstante a definição pela linha maoísta em 1968, as disputas teóricas não adormeceram no interior da AP. A própria influência do maoísmo assumiu feições bastante complexas. Setores da AP romperam com a noção de que era necessário construir um partido inteiramente novo e caminharam para o reconhecimento de que o PC do B era o partido histórico do proletariado brasileiro. A base da aproximação, entretanto, era um programa razoavelmente identificado com a estratégia maoísta para a revolução, de perfil nacional-democrático e com o centro de gravidade no campo. Naquele período, embora rejeitasse a idéia da nova fase do marxismo, o PC do B identificava-se com a linha chinesa. Por seu turno, aqueles que permaneceram defendendo a construção de um partido da nova etapa do marxismo, o maoísmo, romperam com a compreensão de que o Brasil era um país semifeudal e que a revolução deveria vir do campo, passando a defender a revolução imediatamente socialista.

Em 1971, houve uma etapa importante dessa disputa, por ocasião da III Reunião Ampliada da Direção Nacional, que aprovou o Programa básico. Foram, então, incorporados aspectos das posições que polarizavam as polêmicas em curso, mas as definições últimas foram remetidas à realização do II Congresso da AP. A partir desse momento, a AP passou a denominar-se Ação Popular Marxista Leninista – APML. A luta interna se acirrou e o corolário desse processo foi a incorporação da maioria dos  seus militantes ao PC do B, no início de 1973. Outro setor reorganizou a AP, que teve existência até o início da década de 1980 e contribuiu para a fundação do PT (DIAS, 2004).

Em 1971, Herbert de Souza exilou-se no Chile, de onde acompanhou o desfecho da disputa interna. Suas vinculações eram mantidas, então, com o setor que recusava a incorporação ao PC do B. A respeito do livro em que Haroldo Lima e Aldo Arantes contam a história da AP[6] pelo prisma dos que aderiram ao PC do B (LIMA & ARANTES, 1984), afirma: “não li, nem lerei” (SOUZA, 1991, p. 38).

O exílio no Chile: a mediação decisiva

Seu esboço de autocrítica se aprofundou, decisivamente, na experiência do exílio. Não bastasse outro motivo, o exílio ocorreu no Chile de Allende, que Herbert de Souza (1976, p. 95) considerava “o país de maior politização e mobilização política da América Latina”. A experiência do Chile passa a ser o centro de gravidade para a formulação de suas idéias políticas e sobre a experiência que tivera na Ação Popular: “Começa o contraponto que me permite voltar ao meu passado, a 64, terminar meu processo de revisão e autocrítica do que tinha vivido. Quer dizer, finalmente concluí, a Ação Popular acabou” (SOUZA, 1976, p. 95).

A ruptura não foi imediata. Nos primeiros tempos, Herbert de Souza ainda manteve vínculo com a AP. Foi em 1972, conforme sua narrativa, que rompeu com sua “criação”, com sua “criança”. Essa ruptura consagrou seu retorno “à normalidade”, “à realidade”, a “si próprio”: “O Chile (...) me permitiu completar a crítica à Ação Popular e colocar um fim naquela relação esquizofrênica com o mundo” (SOUZA, 1996b, p. 53).

No Chile, Herbert de Souza elabora a repercussão do fim da clandestinidade e do uso de nomes frios, que dilaceravam sua personalidade:

A transformação mais importante que ocorre para mim no Chile é que depois de ser no Brasil José, Pedro, Joaquim, Gilson, uma série de pessoas nessa vida clandestina, eu tenho que no Chile voltar a ser eu e, para trabalhar e sobreviver, tenho que voltar a ser sociólogo. Era como se, em princípios de 72, tivesse que retomar o que eu tinha sido em 62, 10 anos atrás. E fazer exatamente o contrário do que tinha feito até então. (...) Eu tenho uma história, eu sou um profissional, sou um sociólogo (SOUZA, 1976, p.96- 97).

O exílio do Chile também serve para a promoção da ruptura com atitudes, explícitas ou implícitas, de religiosidade. Não se trata aqui, esclareça-se, de ruptura com o cristianismo, que já tinha ocorrido, mas com a reprodução da atitude religiosa nas opções marxistas que ocorreram dentro da AP.[7] Como se viu, interpretava a conversão ao marxismo em geral e ao maoísmo em particular como a substituição de uma religião pela outra. [8] É o que se verifica neste balanço:

No que diz respeito ao meu engajamento na esquerda, evoluí de uma visão estreita e autoritária em seus métodos, muito dogmática, em direção a uma outra visão da política, afastando-me da esquerda clássica. A questão da democracia se tornou, cada vez mais, a preocupação central. Matizei e tornei relativo o papel dos partidos. Reforcei a importância da ética como fator de construção da política. (...) Estou convencido de que descentralização e democracia devem andar juntas. Tudo o que vai no sentido da centralização é autoritário (SOUZA, 1996b, p. 122).

Desde o exílio no Chile, o conceito-chave que passa a desenvolver é o de democracia. Em entrevistas da década de 1990, salienta o caráter emancipador da democracia, que seria “absolutamente incompatível com o capitalismo. Uma sociedade democrática deve necessariamente superar o capitalismo e inventar novas relações no plano econômico, político e social” (SOUZA, 1991, p. 40).

A desilusão com a militância nos partidos se manteve até o fim da vida de Herbert de Souza. Na primeira entrevista, o país ainda não havia passado pela “abertura política” e pela reestruturação partidária. No início da década de 1990, indagado sobre sua relação com a origem do PT, o principal partido de esquerda criado nas lutas democráticas, afirmou:

Um partido de quadros para mim é um negócio perigoso. Não me inspira confiança. Por outro lado, eu acho que ele é o fenômeno mais importante que aconteceu no Brasil nas últimas décadas. Eu torço para que o PT dê certo. Dada a minha história, eu não tenho condições de entrar e lutar para que ele dê certo. Eu diria, como aquelas pessoas que já sofreram uma desilusão, “eu não agüento a segunda” (SOUZA, 1991, p. 40).

Em resumo, após seu retorno do exílio, destituído da pretensão de conquistar o poder de Estado, Herbert de Souza privilegiou a atuação política na arena da sociedade civil.

Considerações finais

Um aspecto central da interpretação que Herbert de Souza elabora a respeito da história da AP é atribuir um fio de continuidade nas rupturas ideológicas promovidas, visto que identifica, na motivação dos militantes, permanente atitude religiosa, malgrado o ateísmo declarado.

Não obstante apontar essa continuidade de atitude, Herbert de Souza interpreta a história pelo prisma das alternativas históricas abortadas em 1964, cujas conseqüências teriam sido danosas. Por um lado, abortou-se a hipótese de a AP tornar-se um partido de massas; por outro, a hipótese de o país viver um período de democracia de massas, com reformas estruturais e ampla participação popular. Teria existido, para o país e para a AP, um retrocesso. É com essa perspectiva que analisa, sem poupar as tintas da melancolia e da amargura, a conjuntura posterior, em que a AP converteu-se ao marxismo-leninismo e aderiu ao objetivo de promover a luta armada.

A mediação decisiva para sua percepção de mundo ocorreu no exílio do Chile. Seus vários depoimentos, coletados após essa experiência, não apresentam variações significativas de interpretação a respeito da história da AP. São constantes as críticas ao vanguardismo e ao voluntarismo da fase posterior a 1964 e a identificação com a experiência anterior ao golpe. De qualquer modo, na elaboração de sua memória, não há um hiato entre a fase inicial da AP e o período do exílio. O dilaceramento vivido no período de clandestinidade é importante para o amadurecimento de sua interpretação. 

No que se refere ao período posterior ao exílio do Chile, constata-se um contínuo afastamento da esquerda clássica e um aprofundamento da questão democrática, considerado seu sentido emancipador. A política é entendida em seu sentido aberto, de construção permanente. Por isso, pode-se dizer que identificação de Herbert de Souza com a AP das origens não se relaciona propriamente com o ideário que a movia naquela época, mas com a abertura de formulação de seu projeto.

Herbert de Souza não tinha uma visão nostálgica. Sua identificação com as alternativas de desenvolvimento históricas abortadas está associada com as lutas de seu presente. Sua atitude está relacionada com as opções que vivenciava no momento em que procedia a essa revisão de seu passado e de suas opções políticas pretéritas. Na dialética da memória, as opções do presente informam a leitura sobre o passado e, ao mesmo tempo, se alimentam das potencialidades das alternativas que não vingaram, da história que poderia ter sido.

 

Referências

AÇÃO POPULAR. Documento base, 1963.

AÇÃO POPULAR. Resolução política, 1965.

AÇÃO POPULAR. Resolução sobre o debate teórico e ideológico, 1967.

AÇÃO POPULAR. Programa básico, 1971.

DIAS, Reginaldo B. A história da Ação Popular na perspectiva do PC do B. In Diálogos. Volume 10, n.1, 2006. www.uem.br/~dialogos

DIAS, Reginaldo B. A Ação Popular na história do catolicismo. Comunicação apresentada ao I Encontro Nacional de História das Religiões e das Religiosidades – ANPUH. Identidades Religiosas e História. Universidade Estadual de Maringá, maio de 2007. 

DIAS, Reginaldo B. Sob o signo da revolução brasileira: A experiência da Ação Popular no Paraná (1962-1973). Maringá: Eduem, 2003.

DIAS, Reginaldo B. A cruz, a foice o martelo e a estrela: a tradição e renovação da esquerda na experiência da Ação Popular. Tese (doutorado). Unesp, 2004.

GARCIA, M. A. Reforma e Revolução/reforma ou Revolução: discussão de um paradigma. In Revista Brasileira de História. São Paulo: Anpuh/Marco Zero, vol. 10, n. 20, março/agosto de 1990.

GONTIJO, R. Sem vergonha da utopia. Conversas com Betinho. Petrópolis: Vozes, 1989.

GORENDER, J. Combate nas trevas. São Paulo: Ática, 1987.    

HALBWACHS M. A memória coletiva.  São Paulo: Vértice, 1990. 

LIMA, H. & ARANTES, A. História da Ação Popular: da JUC ao PC do B. São Paulo: Alfa-Omega, 1984.

SOUZA, H. Entrevista. In Teoria e Debate. São Paulo: Partido dos Trabalhadores, 1991. n. 16.

SOUZA, H. et alli. Memórias do exílio. São Paulo: Livramento, 1976. 

SOUZA, H. No fio da navalha. Rio de Janeiro: Revan, 1996a.  

SOUZA, H. Revoluções da minha geração. São Paulo: Moderna, 1996b.


 

[1] Trabalho originalmente apresentado ao XVIII Encontro da ANPUH/SP. Unesp/Assis, 24 a 28 de julho de 2006. 

[2] Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá; Doutor em História e Sociedade pela UNESP. Email: reginaldodias13@gmail.com

[3] Respectivamente, Juventude Estudantil Católica e Juventude Universitária Católica.

[4]Um estudo sobre a experiência da AP no Paraná, por exemplo, apontou uma interface com a Juventude Democrata Cristã (DIAS, 2003). Outra vertente foi a do protestantismo, evidenciada pelo relevo da atuação de Paulo Wright, de formação presbiteriana, no final da década de 1960 e início da seguinte.

[5] Os líderes da “corrente 2” criaram, em 1969, o Partido Revolucionário dos Trabalhadores - PRT.

[6] Em outro artigo, analisei a interpretação realizada por Lima e Arantes (DIAS, 2006). 

[7] Não deixa de ser irônico que Herbert de Souza tenha recebido, por causa de sua fragilidade física e do apelo humanitário da “Ação pela cidadania contra a miséria”, uma espécie de canonização em vida, como exemplifica, entre outras demonstrações, o enredo da escola de samba que o homenageou, que o retratava como um “ser de luz”. Contra suas convicções, aos olhos da mídia e de boa parte da população, tornou-se, na falta de melhor definição, um ”santo laico”. Na comoção da morte de Herbert de Souza, o teólogo Leonardo Boff defendeu publicamente a idéia de que a Igreja Católica o canonizasse, o que seria, segundo suas palavras, “um ato profético”.  

[8]A interpretação da história da AP realizada por Herbert de Souza tem pontos de contato com as demarcações realizadas pela esquerda católica. Autores ligados ou identificados com a esquerda católica também são críticos da fase posterior ao golpe militar e valorizam a fase de origem da AP. A diferença é que a esquerda católica procura, naquele período, a semente da Igreja Popular e da Teologia da Libertação, o que não estava na pauta de Herbert de Souza. Abordei esse tema na comunicação A Ação Popular na história do catolicismo, apresentada ao I Encontro Nacional de História das religiões e das religiosidades (DIAS, 2007).

   

 

 

 

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