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REGINALDO BENEDITO DIAS
Professor do
Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá;
Doutor em História e Sociedade pela UNESP
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A história que poderia ter sido:
Herbert de Souza interpreta a experiência da Ação Popular
por Reginaldo Benedito Dias
O presente trabalho tem o objetivo de analisar como a
história da Ação Popular, organização de esquerda das décadas de
1960 e 1970, foi narrada nas memórias do sociólogo Herbert de Souza,
que foi seu primeiro coordenador nacional. Para efeito da análise,
foram selecionados cinco depoimentos expressivos (SOUZA: 1976, 1991,
1996a, 1996b; GONTIJO: 1989). Editados no formato de entrevistas ou
em narrativas contínuas, esses depoimentos devem ser compreendidos
como manifestações do universo da memória.
Para investigar a interface da memória com a
história, devem ser observadas duas coordenadas. A primeira é o
entrelaçamento das memórias individuais com a experiência coletiva.
A segunda é que a memória é afetiva, seletiva e recria o passado a
partir de demandas relevantes à inserção do personagem no presente (HALBWACHS,
1990). Dada a natureza do registro, as memórias de Herbert de Souza,
mais do que o simples resgate de fatos da história da AP, procedem a
uma interpretação peculiar sobre sua experiência.
Da origem da AP ao golpe militar
A narrativa de Herbert de Souza, considerados os seus
diversos depoimentos, reconstrói a origem da AP a partir da
politização da militância das organizações leigas da Igreja
Católica, notadamente da JEC e da JUC,
experiência que viveu diretamente. Embora a AP tenha atraído
militantes de outras origens, seja de diferentes vertentes
religiosas,
seja de formação independente, esse pode ser considerado o tronco
principal no processo de sua formação. Esses ramos
de atuação especializada da Ação Católica do Brasil tinham,
originalmente, um perfil conservador e o objetivo de cristianizar o
seu meio. Todavia, na segunda metade da década de 1950,
experimentaram uma guinada política. Passaram a participar
mais intensamente da movimentação e da política estudantil e se
envolveram nos debates sobre os problemas estruturais do país.
Progressivamente, a JUC engajou-se nas lutas pela reforma
universitária e pela mudança das estruturas na sociedade brasileira.
Outro vetor que influenciou a JUC pode ser encontrado nas próprias
estruturas da Igreja Católica, sob os auspícios do progressista
pontificado de João XXIII.
Entre 1958 e 1962, conforme Herbert
de Souza (1976), viveu-se a transição que culminou na formação da
AP. Seus depoimentos revelam o impacto
da visão renovada do cristianismo para sua geração de militantes:
“Cultivávamos uma religiosidade muito politizada no sentido de uma
sociedade justa, como uma visão anticapitalista e socialista, e a
comunhão entendida como comunidade, enfim, muita coisa que não se
comparava com a tradição predominante” (GONTIJO, 1989, p. 57). Dito
de outra forma, “ao invés de a religião ser transformada num
elemento de impotência e castração das possibilidades tanto dos
homens quanto das mulheres, na JUC e na JEC ela se transformava num
elemento de impulso” (SOUZA, 1976, p. 71).
Mas a práxis da JUC, por flertar com
o marxismo e adotar alianças com a esquerda comunista, ultrapassava
os limites tolerados pela hierarquia da Igreja Católica. Por isso, a
Igreja censurou a aproximação, teórica e prática, com o marxismo e
com agrupamentos nele inspirados (CNBB,
1961, p. 947). O impasse gerou uma ruptura:
“não devíamos explicações a ninguém: nossa única obrigação, em
relação à Igreja e à Ação Católica, era flexível, negociada. Quando
a Igreja tentou mexer com a nossa independência, saímos da Ação
Católica” (SOUZA, 1996b, p. 18).
A esse impasse somavam-se as limitações de atuação
política de uma organização que aglutinava por confissão religiosa.
Estabeleceu-se, então, o objetivo de criação de uma organização
política laica, não-eclesial, que desempenhasse, de maneira
autônoma, uma função exclusivamente política. Em 1962, ocorreram
várias reuniões e, no início de 1963, realizou-se o I Congresso da
AP, que formalizou sua fundação.
Promoveu-se
a passagem de uma visão religiosa a uma perspectiva política. A AP
começou a sair, segundo as palavras de Herbert de Souza (1976), da
gestalt cristã e a entrar em uma visão de mundo influenciada
pelo marxismo. Em relação à origem da AP, seus depoimentos fornecem
uma interpretação que está intimamente vinculada à análise das fases
seguintes. A conversão procedeu-se com o sentimento, herdado do
cristianismo e transposto à nova identificação, de que “temos uma
missão, somos uma geração com uma missão salvadora”. Em outras
palavras, “passamos à política com a mesma mística que havíamos
vivido na religião, a mesma perspectiva de compromisso, a mesma
pureza, responsabilidade, auto-renúncia” (SOUZA, 1976, p. 71).
O horizonte filosófico, ideológico e
político da AP foi sintetizado no Documento base, aprovado em
seu congresso de fundação. Ensejando um diálogo entre o pensamento
cristão progressista, o existencialismo e o marxismo, o Documento
base criticava o “socialismo real”, acusando a gestação de novas
formas de alienação em sua experiência. Advogava a existência de
caminhos plurais ao socialismo e se definia, sem rigor conceitual e
estratégico, pela necessidade da revolução socialista. A AP
preconizava, então, “uma ideologia própria” e o socialismo como
humanismo.
Embora seus depoimentos não detalhem
o conteúdo do Documento base, Herbert de Souza salienta o
pluralismo de perspectivas e o caráter
aberto como era incorporado o marxismo, sugerindo um contraste com a
rigidez do período posterior:
O documento base não fazia uma profissão de fé
ideológica, marxista. Usava o marxismo mas não tinha aquela
coisa que veio depois, quando você tinha que afirmar que era
marxista, como um primeiro passo, depois ter que provar que era
marxista e depois que só nós éramos marxistas (SOUZA, 1991, p.
35).
Entre as organizações de esquerda fundadas no início
da década de 1960, em oposição ou como alternativa ao PCB, a Ação
Popular foi a que obteve maior audiência de massas (GORENDER, 1987).
Herbert de Souza aponta fatores que colaboraram para a ascensão da
Ação Popular como força política. Um deles era a representatividade
social do catolicismo. Outro fator era a linguagem: “O PC
esforçava-se sempre por se auto-afirmar como PC. Mas isso afastava a
massa, que estava impregnada de pregação anticomunista. Nós dizíamos
o que o PC queria dizer, mas sem usar nenhum slogan” (SOUZA, 1976,
p. 75).
Ressalta o impacto da renovação política ensejada
pela AP: “como não tínhamos o peso de uma tradição (...), tínhamos
mais flexibilidade diante da realidade social. Essa flexibilidade,
esse sentido de iniciativa, essa abertura e sensibilidade para o
movimento real, e mais esse problema de linguagem vão-nos
diferenciar” (SOUZA, 1976, p. 76). Em resumo: “A nossa proposta
podia ser utópica, inviável ou ingênua, mas era sem dúvida a mais
bonita, empolgante e radical. Tanto que ganhamos o movimento
estudantil” (GONTIJO, 1989, p. 61).
O golpe militar e seu significado
A ascensão da AP foi interrompida pelo golpe militar
de 1964, como de resto aconteceu com os movimentos políticos que
marcaram a conjuntura dos primeiros anos daquela década. Impôs-se a
amarga tarefa de entender as razões do insucesso político e seu
significado. A partir de então, a AP seguiria o caminho que
culminaria em sua adesão ao marxismo-leninismo. Em seus depoimentos,
Herbert de Souza consolidou uma análise sobre o significado do golpe
de 1964 que segue uma linha oposta ao caminho percorrido pela Ação
Popular. Por um lado, sua narrativa contém uma identificação com os
processos então interrompidos e, por outro, faz críticas
retrospectivas às opções que viriam a ser feitas no interior de sua
organização.
O sentido de fratura, promovido pela ruptura
institucional vivida pelo país, pôde ser percebido imediatamente.
Naquele momento, entretanto, o sentido último dos acontecimentos não
podia ser entendido profundamente. Essa dificuldade não decorria
apenas da complexidade dos fatos. Correspondia ao próprio fazer-se
da organização, cuja flexibilidade combinava-se com grande dose de
voluntarismo. Herbert de Souza observa que
O movimento prevalecia sobre o entendimento.
(...) Para nós da AP era muito difícil entender, na conjuntura
tumultuada do momento, na ação e nas novas chances que se abriam
para fazer política, que você devia parar para fazer uma análise
e ter um entendimento mais profundo do que era aquilo tudo. Isso
só vai ser possível com o movimento reflexivo posterior (SOUZA,
1976, p. 76).
Com a mediação desse movimento reflexivo posterior,
comenta o corte sobre as perspectivas de desenvolvimento nacional:
“Estou convencido de que até (19)63 um processo revolucionário era
possível no Brasil. Possivelmente não o socialismo. Mas uma
democracia mais avançada era possível. E um desenvolvimento
econômico mais nacionalista” (SOUZA, 1976, p. 76). A respeito das
perspectivas da AP, avaliou: “Fomos tragados por uma dinâmica que
nos levava na direção de um partido de massas. Não fosse o golpe de
1964, talvez esse tivesse sido o destino da Ação Popular, com seus
quadros, seus militantes e uma força de sustentação popular” (SOUZA,
1996b, p. 27).
O centro de gravidade da análise de Herbert de Souza
sobre o significado do golpe militar de 1964, verificado no primeiro
depoimento e reiterado nos posteriores, é sua identificação com os
processos interrompidos e com suas possibilidades de
desenvolvimento. Torna-se crítico das redefinições vividas pela
esquerda em geral e pela AP em particular. Por isso, tende a
exaltar, a despeito da imprecisão e de certa dose de ingenuidade, a
inventividade daquele momento, em detrimento das certezas do
marxismo-leninismo que a AP abraçaria na conjuntura posterior.
Nota-se, em suas falas, o uso deliberado do
subjuntivo, como exemplifica a frase “não fosse o golpe de 1964”.
Essa posição não deve ser entendida, porém, como tentativa de volta
ao passado. As reflexões de Herbert de Souza estão a
“detectar (...) as virtualidades não realizadas, a história que
poderia ter ocorrido tivessem sido outras as circunstâncias”,
como escreveu, analisando um tema correlato, Marco Aurélio Garcia (1990,
p. 19).
Não obstante a avaliação construída no movimento
reflexivo posterior, Herbert de Souza viveria as tensões das
sucessivas conversões experimentadas pela AP. Foi com o olhar de
quem tinha vivido essas conversões que comentou criticamente a fase
iniciada com a instauração da ditadura.
A opção pelo maoísmo
Embora os depoimentos investigados não contenham
referências diretas à sua elaboração, a primeira revisão teórica
importante procedida pela AP foi condensada no documento
Resolução política, aprovado em 1965. Preservou-se, na
Resolução política, parte essencial do edifício conceitual do
Documento base, especialmente os aspectos que abordavam o
socialismo como humanismo e as críticas ao socialismo real, mas
efetivou-se uma redefinição da estratégia. A grande mudança foi a
adesão explícita ao objetivo de conquistar o poder pela via
insurrecional, traduzido na formulação da estratégia da Revolução
Socialista da Libertação Nacional, conceito que sofria influência
das revoluções cubana e chinesa.
O processo de redefinição política afunilou-se em
1967, com a convocação do Debate Teórico e Ideológico, que promoveu
um debate organizado sobre o marxismo. Influenciadas pelos
paradigmas das revoluções cubana e chinesa, duas correntes
polarizaram o processo. A “corrente 1”, adepta da linha chinesa e da
compreensão de que o maoísmo constituía a terceira etapa do
marxismo, defendia a revolução nacional democrática, a partir do
pressuposto de que o Brasil era um país semicolonial e semifeudal. A
luta armada deveria ser realizada por intermédio da
guerra popular prolongada, tendo como arena principal o campo.
Compreendia-se que existira um partido de vanguarda no Brasil
e que era necessária a sua reconstrução.
Seguindo práticas da revolução cultural chinesa,
defendia-se, também, a proletarização da militância da AP, que
deveria ser reeducada por intermédio de sua integração na produção.
A "corrente 2" preconizava a revolução imediatamente socialista,
entendendo que a sociedade brasileira era capitalista. Recusava a
idéia de que o maoísmo constituía uma nova etapa do marxismo e
defendia que nunca existira um partido de vanguarda no Brasil e que
era preciso construí-lo. Em 1968, a disputa teve um desenlace
traumático. Com a vitória da “linha chinesa”, promoveu-se a exclusão
dos membros da segunda corrente.
Disputas à parte, a Ação Popular converteu-se, definitivamente, em
uma organização marxista.
As razões da adesão ao maoísmo foram assim descritas
por Herbert de Souza, sem dispensar pitadas de ironia:
Nós viemos de uma tradição cristã. Então tinha
que haver uma fase de transição, com certa solução de
compromisso se estabelecendo. Negar hoje o valor disso dizendo
simplesmente que até então éramos um grupo pequeno-burguês
cristão e que depois viramos marxistas, por volta de 1967, é
pura idiotice. É não entender que nós éramos uma resultante de
um processo com profundas raízes sociais encontradas no Brasil.
(...) Ao chegarmos a adotar o maoísmo como uma religião em
1968-1969, tínhamos uma base pra isso. Por que fomos nós e não
os outros grupos? Nós saímos da Ação Católica e outros não.
Depois de Cristo, deu-se o vazio, mas o maoísmo chegou e o
camarada Mao pegou de novo a bandeira (SOUZA, 1976, p. 72).
Acrescenta:
O maoísmo caiu melhor na minha estrutura de
inspiração cristã. Um católico praticante fervoroso pode virar
um maoísta numa questão de segundos, porque você tem Deus, que é
o Mao, tem o camarada que é o chefe, você tem a revolução que é
inexorável. (...). Tem a Bíblia vermelha, que é pequenininha e
fácil de ler (SOUZA, 1996a, p. 83).
Como já observara na transição entre a “gestalt
cristã” e a AP, Herbert de Souza interpreta a adesão ao maoísmo pela
permanência de atitude religiosa, traduzida, por exemplo, por uma
ética militante análoga. A proletarização da militância, que
preconizava “o trabalhar com o povo”, “viver com e como o povo”, era
um ponto comum. Deve-se ressalvar, porém, que a “corrente 2” da AP,
que rejeitava a metodologia da “proletarização”, também tinha
líderes com passado católico. Em suma, nem todos os que aderiram ao
maoísmo eram cristãos e nem todos os militantes com passado cristão
aderiram ao maoísmo. Não havia, assim, uma relação direta de causa e
efeito entre a opção pelo maoísmo e a origem cristã, mas a
interpretação é instigante, na pois procura identificar que a nova
opção deitava raízes em uma cultura anterior. Não havia uma
descontinuidade absoluta.
A clandestinidade e a proletarização
Um dos momentos mais emblemáticos de sua reflexão diz
respeito à experiência da integração na produção. Seu tom é
dramático. Sua avaliação, veiculada sem variações importantes nos
vários registros disponíveis, é impiedosa:
Começa uma fase terrível e eu, dada a minha
vocação cristã de sofrer no martírio, vou assumir tudo isso,
aceito agora em nome do proletariado. Dizem-me que sou
pequeno-burguês, que nunca deixei de ser. Então, porque sou
pequeno burguês, tenho que passar por um processo de
proletarização, o que significa purgar todas as vestes de
pequeno burguês e tornar-me um operário (SOUZA, 1976, p. 82).
Sua narrativa é repleta de dor e sofrimento. Com
vocabulário oriundo do universo religioso, define as conseqüências
do processo: “A pequena burguesa passa pelo purgatório, muitos caem
no inferno e muitos são aí destruídos” (SOUZA, 1976, p. 87).
Destruídos, no caso, pela loucura: “Chega então toda essa loucura
que engoli, que aceitei, chegando a pensar que nessa época eu fiquei
meio louco. (...) Fiquei louco com os loucos” (SOUZA, 1976, p. 83).
Em uma situação de clandestinidade, a utilização de
“nomes frios” torna-se prática obrigatória. No contexto vivido pela
AP, tal prática adquiria outros contornos. Mais do que outros nomes,
a reeducação na produção levava a que fossem assumidos outros papéis
e atribuições: “no início da AP, se você era um professor você
trabalhava com os professores, se você era um padre trabalhava com
os padres, se era um jornalista trabalhava com jornal. Agora todo
mundo, menos alguns dirigentes, teria que ser transformado em
operário ou camponês” (SOUZA, 1976, p. 87). Por isso, o sociólogo,
metamorfoseado em operário, lamenta que não tenha produzido nada em
termos teóricos, de pesquisa e de elaboração. Insistindo no uso da
linguagem psiquiátrica, acrescenta: “É o capítulo da esquizofrenia,
da paranóia. (...) Creio que foi o resultado de uma perda de pé na
realidade” (SOUZA, 1976, p. 87).
Na maior parte dos depoimentos de Herbert de Souza,
conduzidos com amarga ironia de seu olhar retrospectivo, nem sempre
ficam explícitas as razões que o moviam na época. De fato, o tom
crítico de suas falas suscita a indagação de por que se submeteu a
tal experiência. Em uma de suas últimas entrevistas, Herbert de
Souza foi frontalmente indagado a respeito desse tema. Sua resposta
foi direta: “Há algumas coisas. A primeira delas é que eu estava
tranqüilo em relação à minha posição, porque eu era maoísta, não
tinha dúvidas (grifos meus), e achava que esses caras estavam,
no fundo, fazendo sacanagem” (SOUZA, 1996a, p. 88). Com mais
clareza, adiciona: “Eu fui maoísta mesmo. Durante um período eu fui
maoísta mesmo, eu fui possuído pelo maoísmo como os outros foram. E
só assim você consegue agüentar aquela vida” (SOUZA, 1996a, p. 90).
Em outra intervenção, ele explica: “O sentimento de culpa que me
perseguia, misturado a conceitos como sentido da missão, engajamento
cultural e ideológico, e, sobretudo, o desejo secreto de me
identificar totalmente com os operários ou os camponeses levaram-me
a aceitar o desafio” (SOUZA, 1996b, p. 41).
A teoria e o dogma
A despeito de o marxismo supostamente estar calçado
em uma visão científica da realidade, o quotidiano da organização,
segundo a narrativa de Herbert de Souza, revelava uma sacralização
da teoria e um alheamento da realidade: “A partir de certo momento,
a realidade política desapareceu do nosso campo de visão” (SOUZA,
1996b, p. 46). Nos termos colocados por seus depoimentos, a teoria
marxista era um instrumento inquisitorial de disputa de poder:
As análises deixavam de ser políticas. Elas só
serviam para classificar as pessoas à direita ou à esquerda.
Citar Lênin, por exemplo, não servia para discutir a realidade
brasileira, mas para detectar um desvio. A literatura marxista
se tornou uma reserva teórica da nova Inquisição (SOUZA, 1996b,
p. 46).
Foi com essa ambientação que se atualizou o debate a
respeito do partido de vanguarda e da revolução brasileira.
Não obstante a definição pela linha
maoísta em 1968, as disputas teóricas não adormeceram no interior da
AP. A própria influência do maoísmo assumiu feições bastante
complexas. Setores da AP romperam com a noção de que era necessário
construir um partido inteiramente novo e caminharam para o
reconhecimento de que o PC do B era o partido histórico do
proletariado brasileiro. A base da aproximação, entretanto, era um
programa razoavelmente identificado com a estratégia maoísta para a
revolução, de perfil nacional-democrático e com o centro de
gravidade no campo. Naquele período, embora rejeitasse a idéia da
nova fase do marxismo, o PC do B identificava-se com a linha
chinesa. Por seu turno, aqueles que permaneceram defendendo a
construção de um partido da nova etapa do marxismo, o maoísmo,
romperam com a compreensão de que o Brasil era um país semifeudal e
que a revolução deveria vir do campo, passando a defender a
revolução imediatamente socialista.
Em 1971, houve uma etapa importante
dessa disputa, por ocasião da III Reunião Ampliada da Direção
Nacional, que aprovou o Programa básico. Foram, então,
incorporados aspectos das posições que polarizavam as polêmicas em
curso, mas as definições últimas foram remetidas à realização do II
Congresso da AP. A partir desse momento, a AP passou a denominar-se
Ação Popular Marxista Leninista – APML. A luta interna se acirrou e
o corolário desse processo foi a incorporação da maioria dos seus
militantes ao PC do B, no início de 1973. Outro setor reorganizou a
AP, que teve existência até o início da década de 1980 e contribuiu
para a fundação do PT (DIAS, 2004).
Em 1971, Herbert de Souza exilou-se no Chile, de onde
acompanhou o desfecho da disputa interna. Suas vinculações eram
mantidas, então, com o setor que recusava a incorporação ao PC do B.
A respeito do livro em que Haroldo Lima e Aldo Arantes contam a
história da AP
pelo prisma dos que aderiram ao PC do B (LIMA & ARANTES, 1984),
afirma: “não li, nem lerei” (SOUZA, 1991, p. 38).
O exílio no Chile: a mediação decisiva
Seu esboço de autocrítica se aprofundou,
decisivamente, na experiência do exílio. Não bastasse outro motivo,
o exílio ocorreu no Chile de Allende, que Herbert de Souza (1976, p.
95) considerava “o país de maior politização e mobilização política
da América Latina”. A experiência do Chile passa a ser o centro de
gravidade para a formulação de suas idéias políticas e sobre a
experiência que tivera na Ação Popular: “Começa o contraponto que me
permite voltar ao meu passado, a 64, terminar meu processo de
revisão e autocrítica do que tinha vivido. Quer dizer, finalmente
concluí, a Ação Popular acabou” (SOUZA, 1976, p. 95).
A ruptura não foi imediata. Nos primeiros tempos,
Herbert de Souza ainda manteve vínculo com a AP. Foi em 1972,
conforme sua narrativa, que rompeu com sua “criação”, com sua
“criança”. Essa ruptura consagrou seu retorno “à normalidade”, “à
realidade”, a “si próprio”: “O Chile (...) me permitiu completar a
crítica à Ação Popular e colocar um fim naquela relação
esquizofrênica com o mundo” (SOUZA, 1996b, p. 53).
No Chile, Herbert de Souza elabora a repercussão do
fim da clandestinidade e do uso de nomes frios, que dilaceravam sua
personalidade:
A transformação mais importante que ocorre para
mim no Chile é que depois de ser no Brasil José, Pedro, Joaquim,
Gilson, uma série de pessoas nessa vida clandestina, eu tenho
que no Chile voltar a ser eu e, para trabalhar e sobreviver,
tenho que voltar a ser sociólogo. Era como se, em princípios de
72, tivesse que retomar o que eu tinha sido em 62, 10 anos
atrás. E fazer exatamente o contrário do que tinha feito até
então. (...) Eu tenho uma história, eu sou um profissional, sou
um sociólogo (SOUZA, 1976, p.96- 97).
O exílio do Chile também serve para a promoção da
ruptura com atitudes, explícitas ou implícitas, de religiosidade.
Não se trata aqui, esclareça-se, de ruptura com o cristianismo, que
já tinha ocorrido, mas com a reprodução da atitude religiosa nas
opções marxistas que ocorreram dentro da AP.
Como se viu, interpretava a conversão ao marxismo em geral e ao
maoísmo em particular como a substituição de uma religião pela
outra. É o que se
verifica neste balanço:
No que diz respeito ao meu engajamento na
esquerda, evoluí de uma visão estreita e autoritária em seus
métodos, muito dogmática, em direção a uma outra visão da
política, afastando-me da esquerda clássica. A questão da
democracia se tornou, cada vez mais, a preocupação central.
Matizei e tornei relativo o papel dos partidos. Reforcei a
importância da ética como fator de construção da política. (...)
Estou convencido de que descentralização e democracia devem
andar juntas. Tudo o que vai no sentido da centralização é
autoritário (SOUZA, 1996b, p. 122).
Desde o exílio no Chile, o conceito-chave que passa a
desenvolver é o de democracia. Em entrevistas da década de 1990,
salienta o caráter emancipador da democracia, que seria
“absolutamente incompatível com o capitalismo. Uma sociedade
democrática deve necessariamente superar o capitalismo e inventar
novas relações no plano econômico, político e social” (SOUZA, 1991,
p. 40).
A desilusão com a militância nos partidos se manteve
até o fim da vida de Herbert de Souza. Na primeira entrevista, o
país ainda não havia passado pela “abertura política” e pela
reestruturação partidária. No início da década de 1990, indagado
sobre sua relação com a origem do PT, o principal partido de
esquerda criado nas lutas democráticas, afirmou:
Um partido de quadros para mim é um negócio
perigoso. Não me inspira confiança. Por outro lado, eu acho que
ele é o fenômeno mais importante que aconteceu no Brasil nas
últimas décadas. Eu torço para que o PT dê certo. Dada a minha
história, eu não tenho condições de entrar e lutar para que ele
dê certo. Eu diria, como aquelas pessoas que já sofreram uma
desilusão, “eu não agüento a segunda” (SOUZA, 1991, p. 40).
Em resumo, após seu retorno do exílio, destituído da
pretensão de conquistar o poder de Estado, Herbert de Souza
privilegiou a atuação política na arena da sociedade civil.
Considerações finais
Um aspecto central da interpretação que Herbert de
Souza elabora a respeito da história da AP é atribuir um fio de
continuidade nas rupturas ideológicas promovidas, visto que
identifica, na motivação dos militantes, permanente atitude
religiosa, malgrado o ateísmo declarado.
Não obstante apontar essa continuidade de atitude,
Herbert de Souza interpreta a história pelo prisma das alternativas
históricas abortadas em 1964, cujas conseqüências teriam sido
danosas. Por um lado, abortou-se a hipótese de a AP tornar-se um
partido de massas; por outro, a hipótese de o país viver um período
de democracia de massas, com reformas estruturais e ampla
participação popular. Teria existido, para o país e para a AP, um
retrocesso. É com essa perspectiva que analisa, sem poupar as tintas
da melancolia e da amargura, a conjuntura posterior, em que a AP
converteu-se ao marxismo-leninismo e aderiu ao objetivo de promover
a luta armada.
A mediação decisiva para sua percepção de mundo
ocorreu no exílio do Chile. Seus vários depoimentos, coletados após
essa experiência, não apresentam variações significativas de
interpretação a respeito da história da AP. São constantes as
críticas ao vanguardismo e ao voluntarismo da fase posterior a 1964
e a identificação com a experiência anterior ao golpe. De qualquer
modo, na elaboração de sua memória, não há um hiato entre a fase
inicial da AP e o período do exílio. O dilaceramento vivido no
período de clandestinidade é importante para o amadurecimento de sua
interpretação.
No que se refere ao período posterior ao exílio do
Chile, constata-se um contínuo afastamento da esquerda clássica e um
aprofundamento da questão democrática, considerado seu sentido
emancipador. A política é entendida em seu sentido aberto, de
construção permanente. Por isso, pode-se dizer que identificação de
Herbert de Souza com a AP das origens não se relaciona propriamente
com o ideário que a movia naquela época, mas com a abertura de
formulação de seu projeto.
Herbert de Souza não tinha uma visão nostálgica. Sua
identificação com as alternativas de desenvolvimento históricas
abortadas está associada com as lutas de seu presente. Sua atitude
está relacionada com as opções que vivenciava no momento em que
procedia a essa revisão de seu passado e de suas opções políticas
pretéritas. Na dialética da memória, as opções do presente informam
a leitura sobre o passado e, ao mesmo tempo, se alimentam das
potencialidades das alternativas que não vingaram, da história que
poderia ter sido.
Referências
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GORENDER, J.
Combate nas trevas. São Paulo: Ática, 1987.
HALBWACHS M. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
A
interpretação da história da AP realizada por Herbert de
Souza tem pontos de contato com as demarcações realizadas
pela esquerda católica. Autores ligados ou identificados com
a esquerda católica também são críticos da fase posterior ao
golpe militar e valorizam a fase de origem da AP. A
diferença é que a esquerda católica procura, naquele
período, a semente da Igreja Popular e da Teologia da
Libertação, o que não estava na pauta de Herbert de Souza.
Abordei esse tema na comunicação A Ação Popular na
história do catolicismo, apresentada ao I Encontro
Nacional de História das religiões e das religiosidades
(DIAS, 2007).
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