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ALEXANDER MARTINS VIANNA
Mestre em História Social e Doutorando pelo
PPGHIS-UFRJ
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Idolatria e Concupiscência:
Por uma Leitura Reformada de “Romeu e Julieta”
por Alexander Martins Vianna
“Dedico este artigo à sétima turma
de formandos de História da FEUDUC em 2007 e ao estimado amigo
Sérgio Schermann”
Introdução
A forma romance é uma inovação na
tradição narrativa da prosa que toma corpo na Inglaterra desde
começos do século XVIII. Considerando o magistral trabalho de Ian
Watt sobre o nascimento da forma romance de narrativa, não será
necessário aqui que eu me estenda sobre o quanto que isso se
inscreve no embate literário e filosófico “clássico vs.
anticlássico” desde finais do século XVII e o quanto que, no caso
específico da Inglaterra, deve-se considerar também a importante
influência da progressiva secularização dos exercícios e fórmulas
morais protestantes, que eram exigentes de uma periódica
introspecção espiritual, do auto-exame permanente da consciência e
de uma linguagem simples e vernacular.(WATT, 1990: 68-116) Das
considerações de Ian Watt sobre a forma romance de narrativa,
interessa-me aqui, especificamente, a sua constatação de que houve
uma transformação na concepção literária do corpo feminino, que sai
da condição de ser ativo e ameaçador para aquela de ser passivo,
simultaneamente ameaçado e redentor de um corpo masculino
intrinsecamente concupiscente.(Idem, Ibdem: 121-186)
Desde Samuel Richardson (1689-1761) até o final da
Era Vitoriana, a heroína exemplar dos romances é muito jovem,
inexperiente e de constituição física e mental tão delicada que
desmaia diante de qualquer investida sexual. Tal fragilidade
atestaria um passado delicadamente protegido, doméstico e
descarnalizado, apontando preferencialmente para um futuro similar.
Tratam-se, pois, de mentes e corpos essencialmente passivos que,
antes do casamento – ou da ação de um “agente externo corruptor”
(geralmente da nobreza) –, não sentem nada por seu admirador. Ora,
tal imagem é o oposto de uma Julieta que, embora jovem (quase 14
anos), é arguta, é dissimulada, é virgem (mas não sexualmente
inocente) e demonstra plena ciência dos códigos de galantaria para
resistir-lhes com astúcia. Portanto, o ideal romântico de feminino
está em completa oposição à visão patriarcal e à tradição clássica
do amor na literatura inglesa, assim como em oposição à atitude
inicial do próprio protestantismo, pois todas essas perspectivas
enfatizavam mais a concupiscência das mulheres do que dos
homens.(Idem, Ibdem: 141-186)
Ao introduzir a sua “Clarissa”(1747-1748),
Richardson dizia que aquilo que é genericamente chamado de amor
deveria ser chamado por outro termo, por mais chocante que pudesse
ser: cupidez ou estímulo erótico. No entanto,
diferentemente do que ocorria nos séculos XVI e XVII, a necessidade
em Richardson de condenar o “estímulo erótico” envolvia uma
redefinição das relações entre homem e mulher em que se excluía
desta última a paixão sexual para, deste modo, apresentá-la
idealmente como o pilar de uma opção sensata de casamento, ou seja,
baseado na amizade racional, prudência e afinidade, de modo que
houvesse o triunfo dos laços espirituais sobre os carnais. Como
notara Ian Watt, tal modo de discriminação biológica dos sexos é, na
Inglaterra, uma originalidade romântica, para a qual a castidade
deixou de ser uma virtude entre outras para tornar-se a virtude
suprema de homens e mulheres.(Idem, Ibdem: 137-146) No entanto, se
tal discriminação biológica e tal hierarquia ética entre os sexos na
literatura é uma especificidade romântica, o mesmo não se pode dizer
da exigência subjacente de contenção dos impulsos sexuais.(ELIAS,
2001)
Por isso mesmo, diferentemente do que eu pensava em
2004, dizer que o amor de Julieta e Romeu é um exemplo de
cupidez ou estímulo erótico – i.e., afirmar que a relação
carnal triunfa sobre o laço espiritual – não é suficiente para
desconstruir uma legibilidade romântica sobre a peça, pois o código
romântico, a exemplo de Richardson, também tinha como exigência
moral (mas agora em roupagem completamente laica) a resistência aos
desejos carnais como condição de possibilidade para o êxito social.
Nesse sentido, uma tragédia que encena um fim fatal para dois jovens
que não conseguem transcender a relação carnal não seria estranha à
moralidade laica de Richardson.
Ora, isso significa que enfatizar uma moralidade
puramente laica não conferiria uma especificidade histórica de
legibilidade para o amor fatal de Julieta e Romeu. Portanto, para
além de se constatar a discriminação biológica dos sexos e a escala
de virtude específica do romantismo, é importante perceber uma
moralidade específica para a edição de 1599 da peça “Romeu e
Julieta”, uma moralidade que não se representa em termos
estritamente laicos. Afinal, esta edição explora lingüisticamente as
fórmulas retóricas, então recorrentes da crítica protestante, que
afirmavam haver uma dimensão idólatra no amor erótico e uma
dimensão erótica na religião idólatra. Aliás, não devemos
perder de vista que, no contexto do in-quarto de 1599, a
Igreja Anglicana já havia definido oficialmente a idolatria como
“fornicação espiritual”, e que aqueles que nela caíam fatalmente
acabariam na “fornicação carnal”, pois o seu espírito seria incapaz
de distinguir o “signo” da “coisa significada”, o “visível” do
“divino”. Assim, nas linhas que se seguem, pretendo localizar a
crítica moral às manifestações de amor erótico entre Julieta e Romeu
no seio do debate teológico protestante anticatólico de finais do
século XVI e início do século XVII.
Tiranias do Cupido: Afeminamento e
Animalização
Na peça “Romeu e Julieta” (1599), o jogo de
significado entre “amor” e “ódio” é interessante, pois ambos teriam
a mesma natureza da loucura: a cegueira da mente ou perda
do controle de si, que geram um misto de saciedade, inquietação
e sofrimento:
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Ben.
Alas that loue so gentle in his view,
Should be
so tirannous and rough in proofe.
Romeo.
Alas that loue, whose view is muffled still,
Should
without eyes, see pathwaies to his will:
Where shall
we dine? ô me! what fray was here?
Yet tell me
not, for I haue heard it all:
Heres
much to do with hate, but more with loue:
Why then ô
brawling loue, ô louing hate,
O any thing
of nothing first created:
O heauie
lightnesse, serious vanitie,
Mishapen
Chaos of welseeming formes,
Feather of
lead, bright smoke, cold fier, sicke health,
Still
waking sleepe that is not what it is.
This loue
feele I, that feele no loue in this,
Doest thou
not laugh?
Benu. No
Coze, I rather weepe.
Rom.
Good hart at what?
Benu. At
thy good harts oppression.
Romeo.
Why such is loues transgression:
Griefes
of mine owne lie heauie in my breast,
Which thou
wilt propogate to haue it preast,
With more
of thine, this loue that thou hast showne,
Doth ad
more griefe, too too much of mine owne.
Loue
is a smoke made with the fume of sighes,
Being purgd,
a fire sparkling in louers eies,
Being vext,
a sea nourisht with louing teares,
What is it
else? a madnesse, most discreete,
A choking
gall, and a preseruing sweete:
Farewell my
Coze.
(CREEDE &
BURBY, 1599: 10) |
Ben.
Ai de mim! Esse amor, em sua aparência tão gentil,
seria, se posto à
prova, muito tirânico e brutal.
Romeo.
Ai de mim! Que o amor,
cuja visão ainda está vendada,
cego encontre, para seu
desígnio, as estradas!
Onde vamos jantar? Ai de mim,
que guerra houve aqui?!
Nada me contes, pois já sei de
tudo...
Aqui muito se ocupa com o
ódio, mas muito mais com o amor...
Por que, então, oh, amor
rixoso?!... Oh, ódio amoroso!
Oh, tudo criado originalmente
do nada!...
Oh, pesada leveza, gravosa
vaidade,
caos disforme de belas
formas!...
Oh, pluma de chumbo, luminosa
neblina,
fogo friorento, saúde
doentia!...
Sono de durável vigília, que
não é o que é!...
Tal amor eu sinto, mas não
sinto nenhum amor nisto.
Tu não ris?...
Benv.
Não primo, pelo contrário, eu choro...
Rom.
De que, bondoso coração?
Benv.
Da opressão de teu bondoso coração...
Romeu.
Pois tal é a transgressão do amor...
Meus próprios pesares repousam
pesadamente em meu peito,
os quais multiplicarás ao
acrescentar os teus...
Este amor que tu demonstraste
adicionou muito mais
sofrimento ao meu...
O amor é uma neblina feita com
o vapor das vistas;
se purgado, é um fogo
faiscante nos olhos dos amantes;
se aborrecido, é um mar com
lágrimas amorosas nutrido.
O que mais?...Uma loucura
muito discreta,
um fel que sufoca e um mel que
preserva...
Adeus, meu primo!... |
Aqui, Romeu claramente manifesta que sente as
tiranias do cupido (“This
loue feele I”), não gosta delas (“that
feele no loue in this”),
mas não é senhor de si para evitá-las. Ao longo da peça, o Cupido
caprichosamente daria as rédeas do destino de Romeu a uma
jovem inacessível e celibatária (Rosalina) para, depois, em sua
inconstância, oferecê-las a uma jovem acessível e concupiscente
(Julieta). Assim, Romeu é afeminado pelo cupido, pois o seu abalo
emocional tragicomicamente inverte a relação de domínio entre homem
e mulher. Não por acaso, Romeu pergunta a Benvoglio: “Doest
thou not laugh?”. Mas Benvoglio
considera lastimável rir do que deve, na verdade, lamentar: “No
Coze, I rather weepe”. Portanto, nas
várias vezes em que Romeu fala de “amor”, não se trata de algo
espiritualizado, mas da alusão às travessuras de Eros/Cupido, que
pode ser metaforizado como um pequeno arqueiro alado – e, algumas
vezes, vendado. Ora, se é uma criaturinha alada e armada, não é,
portanto, fácil de ser controlada.
Considerando os efeitos potencialmente
animalizantes e afeminantes de Eros, que é um tropo
clássico corriqueiro nos tratados morais, políticos e religiosos dos
séculos XVI e XVII, podemos entender porque a admoestação de Frei
Lourenço contra os abalos emocionais de Romeu ocorre nos seguintes
termos:
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Fri.
Hold thy desperate hand:
Art thou a
man? thy forme cries out thou art:
Thy teares
are womanish, thy wild acts deuote []
The
vnreasonable furie of a beast.
Vnseemely
woman in a seeming man,
And
ilbeseeming beast in seeming both,
Thou hast
amaz'd me. By my holy order,
I thought
thy disposition better temperd.
(CREEDE &
BURBY, 1599: 57) |
Frei.
Detém a tua desesperada mão!...
És um homem?!... Tua forma
apregoa que és!...
Tuas lágrimas são de mulher,
teus atos selvagens denotam
a fúria insensata de uma
fera!...
Mulher deformada em forma de
homem,
e mal formada fera em forma de
homem e mulher!
Assombrado me deixas. Por
minha Santa Ordem,
pensei que tua disposição
fosse melhor temperada. |
Como é capaz de infringir intensos danos, desvios,
inversões, deformações e sofrimentos, o fogo do amor erótico
é o antípoda moral do amor conjugal, que nunca é representado
através da imagem do cupido nos emblemas morais dos séculos XVI e
XVII.(RIPA, 1709: 16) Como pudemos notar no primeiro trecho citado,
Romeu recorre à metáfora emblemática do cupido vendado, o que
representa a idéia de que o “amor/Eros é cego”, ou seja, não segue
regras – mas sim seus próprios caprichos – quando provoca a
atração (erotização) e a cegueira da mente entre
os seres mais diversos, tal como uma Capuleto e um Montéquio.
Além disso, a engenhosa exploração de oximórons no
discurso de Romeu não deixa dúvidas de que “amor”(erótico) e
“ódio”(guerreiro) não são princípios opositivos na teleologia da
peça. Talvez melhor seria dizer que o furor amoroso de Julieta e
Romeu é o outro lado da mesma moeda em que se faceia o furor
belicoso entre Capuletos e Montéquios. Esta moeda seria justamente a
idolatria de mente e coração, ou seja, a devoção ou culto
desmedido a seres mortais, que pode ser tanto a pessoas e coisas
– o que deriva da concupiscência e da cobiça e pode desdobrar-se em
sofrimento, inquietação, morte ou avareza –, quanto a si mesmo
– o que deriva da vaidade e desdobra-se em soberba, insolência,
faina vã desmedida pela glória exterior e assassinato. Por isso, eu
tendo a ver a convergência metafórica dos furores bélico e amoroso
no primeiro discurso de Romeu como um emblema moral que, ao longo da
peça, serve para expor o problema da “juventude desregrada” –
implicando-o com os perigos da “idolatria de mente e coração”
– para as formas existentes de autoridade política e social.
Teatro e Iconoclastia de Mente e Coração
O teatro foi objeto de crítica dos protestantes mais
radicais na Inglaterra dos séculos XVI e XVII. Para responder a
isso, foi desenvolvido um tipo de teatralidade nos períodos
elizabetano e jacobita que se assentava completamente nas
expectativas protestantes de reforma da mente, olhos e coração.
Assim, para fazer frente às demandas morais e teológicas dos
reformadores ingleses, não surpreende que surgisse o hábito de
configurar peças com discursos metateatrais que tinham como alvo de
crítica não apenas as imagens eclesiásticas, mas quaisquer outros
equivalentes de idolatria, tal como o fato de alguém assentar a sua
inteira felicidade numa pessoa (amor erótico ou
afeição excessiva por um ente mortal, o que é recorrentemente
tratado como uma forma de loucura), num objeto (provas
oculares de virtude ou santidade, relíquias, hóstia,
vinho de missa, engenhos mágicos em geral etc) ou num
pensamento (soberba intelectual, glória guerreira,
jactâncias em geral etc).(DIEHL, 1997: 74-165) Deste modo,
tal como ocorria nos púlpitos, essas modalidades de ídolo
eram elevadas em palco para serem dissecadas,
desmistificadas, problematizadas, destituídas de todo o seu
encantamento ou simplesmente destruídas, de forma a desvelar todo o
seu perigo e erros fatais para a consciência do “leitor/audiência”.(CROCKETT,
1995)
As teorias renascentistas da arte costumavam repetir
o tropo de que o retrato de uma bela mulher serviria como sinédoque
para a beleza da pintura em si mesma. Não sem sentido, os
polemicistas protestantes (moderados ou não) demonstravam a sua
hostilidade à retórica imagética do belo na arte através de sua
feminilização retórica. Assim, evocando passagens da bíblia que
chamavam as imagens em geral de “prostitutas” (i.e., mulheres cuja
beleza não é natural, mas resultado da arte/artifício, pois se
pintam, se ornamentam e se adornam para seduzir os olhos carnais),
os reformadores protestantes incitavam a iconoclastia (externa e
interna) através de apelos retóricos ginofóbicos.(DIEHL, 1997:
159-170)
Deste modo, entre os seus vários esforços de romper
com as práticas devocionais católicas, chama a atenção o fato de os
reformadores protestantes associarem retoricamente o “olhar
devocional católico” ao “olhar erótico” e, deste modo, ligarem
metaforicamente a sedução das imagens sacras católicas aos truques e
enganos do corpo sensual feminino, pois a sua beleza, por fazer
emergir o desejo carnal e fixar o olhar no visível, seria
perigosamente sedutora, fazendo o homem perder-se de si mesmo e de
Deus. Na peça “Romeu e Julieta”, tal associação conceitual
fica particularmente evidenciada, por exemplo, no modo como Romeu se
deixa seduzir e na forma como metaforiza a imagem de Julieta durante
o baile de máscara dos Capuletos:
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Ro.
What Ladies that which doth enrich the hand
Of yonder
Knight?
Ser. I
know not sir.
Ro.
O she doth teach the torches to burn bright:
It seemes
she hangs vpon the cheeke of night:
As a rich
Iewel in an Ethiops eare,
Bewtie
too rich for vse, for earth too deare:
So showes a
snowie Doue trooping with Crowes,
As yonder
Lady ore her fellowes showes:
The measure
done, Ile watch her place of stand,
And
touching hers, make blessed my rude hand.
Did my hart
loue till now, forsweare it sight,
For I nere
saw true bewtie till this night.
[...]
Ro.
If I prophane with my vnworthiest hand,
This holy
shrine, the gentle sin is this,
My lips two
blushing Pylgrims did readie stand,
To smoothe
that rough touch with a tender kis.
Iu.
Good Pilgrim you do wrõg your hãd too much
Which
mannerly deuocion showes in this,
For saints
haue hands, that Pilgrims hands do tuch,
And palme
to palme is holy Palmers kis.
Ro.
Haue not Saints lips and holy Palmers too?
Iuli. I
Pilgrim, lips that they must vse in praire.
Rom. O
then deare Saint, let lips do what hands do,
They pray
(grant thou) least faith turne to dispaire.
Iu.
Saints do not moue, thogh grant for praiers sake.
Ro.
Then moue not while my praiers effect I take,
Thus from
my lips, by thine my sin is purgd.
Iu.
Thç haue my lips the sin that they haue tooke.
Ro.
Sin from my lips, ô trespas sweetly vrgd:
[Outra
página]
Giue
me my sin againe.
Iuli.
Youe kisse bith booke.
(CREEDE &
BURBY, 1599: 22-24) |
Ro.
Que Dama é aquela que enriquece a mão
de altivo Cavalheiro?
Ser.
Não sei, senhor.
Ro.
Oh, ela ensina as tochas a brilhar!...
Na face da noite, suspensa
parece estar,
como uma jóia rica em um
orelha etíope...
Beleza assaz rica para ser
usada
e, para a Terra, assaz cara.
Como altiva Dama acima das
outras se mostra,
assim é uma nívea Pomba
reunida a Corvos...
Com a devida distância,
vigiarei seu pedestal
e, tocando-o, tornarei minha
rude mão abençoada...
Meu coração amou até agora?
Jurai que não, olhos,
pois nunca vi beleza
verdadeira até esta noite...
[...]
Ro.
Se eu profano com minha mão tão indigna
este sagrado santuário, o
gentil pecado é este,
meus lábios, dois Peregrinos
ruborizados, prontos
a suavizar esse toque rude com
um beijo delicado.
Ju.
Bom Peregrino, assaz ofendeis vossa mão,
que demonstra nisso cortês
devoção,
pois santas possuem mãos que
as mãos dos Peregrinos tocam
e, palma com palma, é o beijo
dos santos Peregrinos...
Ro.
Não têm lábios as Santas e também os santos Peregrinos?
Juli.
Sim, Peregrino, lábios que devem ser usados em preces.
Rom.
Oh, cara Santa, deixa então os lábios fazerem
o que fazem as mãos. Eles
rezam, garanto-te,
por temerem que a fé se torne
desespero.
Ju.
Santas não se movem, embora às preces acedam...
Ro.
Então, não te movas, enquanto colho das minhas o efeito.
Assim, através de teus lábios,
o pecado dos meus é purgado.
Ju.
Então, meus lábios contêm o pecado que colheram...
Ro.
Pecado de meus lábios?...Oh, dano docemente desejado!
Dá-me de volta o meu
pecado!...
Juli.
Beijais conforme a etiqueta... |
Podemos notar aqui que a bela dama desejada por Romeu
está adornada para figurar-se adequadamente num baile de
máscaras. Ora, é neste ambiente de ornamentos verbais e visuais,
de regras galantes de etiqueta e de máscaras sociais que Romeu
metaforiza Julieta como um objeto de arte, como um artifício que
excede a natureza terrena, como uma santa ou santuário, e metaforiza
a si mesmo como um peregrino devoto. Ou seja, é num contexto cênico
de mascaramento, encantamento erótico e de jogo de sedução que Romeu
recorre às mesmas imagens conceituais da arte e da idolatria que
caracterizam a crítica protestante quando alerta contra os “perigos
e falsidades” da “carnalização idólatra” do culto católico.
Em vários outros momentos ao longo da peça, a
manifestação do amor erótico entre Julieta e Romeu recorre às mesmas
metáforas de devoção idólatra e, particularmente Julieta, quando
afirma “Youe kisse bith booke”, manifesta
uma consciência dos riscos de se fiar nos olhos carnais,
principalmente num mundo de formalidades corteses ou galantarias
teatrais repletas de estrangeirismos lingüísticos – i.e., os
correspondentes lingüísticos das “imagens estranhas e prostitutas”
no tropismo iconoclasta protestante.(DIEHL, 1997: 32-39; 70-120) De
qualquer forma, uma vez que Julieta e Romeu são provocados por suas
respectivas belezas carnais, eles somente podem pensar um no outro
com uma luxúria definida metaforicamente como devoção:
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Ro.
Lady, by yonder blessed Moone I vow,
That tips
with siluer all these frute tree tops.
Iu.
O swear not by the moone th'inconstant moone,
That
monethly changes in her circle orbe,
[Outra
página]
Least that
thy loue proue likewise variable.
Ro.
What shall I sweare by?
Iu.
Do not sweare at all:
Or if thou
wilt, sweare by thy gracious selfe,
Which is
the god of my Idolatrie,
And Ile
beleeue thee.
(CREEDE &
BURBY, 1599: 29-30) |
Ro.
Senhora, eu prometo, pela Lua altiva e abençoada
que desponta prateada por
entre as copas
de todas estas árvores
frutíferas...
Ju.
Oh, não jures pela lua – a inconstante lua –
que todo mês muda de forma em
sua trajetória no céu,
pois temo que teu amor seja
igualmente infiel!...
Ro.
Pelo que deveria eu jurar?
Ju.
Não jures por nada, ou se quiseres,
jura por teu graciosos ser,
que é o deus de minha
Idolatria,
e acreditarei em ti... |
Portanto, como podemos notar, a retórica do desejo
em Julieta e Romeu manifesta-se através de uma linguagem
religiosa de devoção idólatra. Deste modo, a peça representa não
a visão romântica do nascimento de um “amor espiritual”, mas sim a
cadeia analógica que a crítica protestante define como própria da
“carnalidade” dos ritos católicos: idolatriaàpossuir fisicamente o
divinoàfornicação.(DIEHL, 1998: 400) Além disso, não podemos
esquecer que, pouco antes, o “deus de...idolatria” de Julieta
aceitou jogar fora o seu “nome”, ou seja, tornou-se, por amor
a Julieta, um “nada” social:
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Iuli. O
Romeo, Romeo, wherefore art thou Romeo?
Denie
thy father and refuse thy name:
Or if thou
wilt not, be but sworne my loue,
And ile no
longer be a Capulet.
[...]
Iu.
Tis but thy name that is my enemie:
Thou art
thy selfe, though not a Mountague,
Whats
Mountague? it is nor hand nor foote,
[Outra
página]
Nor arme
nor face, ô be some other name
Belonging
to a man.
Whats
in a name that which we call a rose,
By any
other word would smell as sweete,
So Romeo
would wene he not Romeo cald,[]
Retaine
that deare perfection which he owes,
Without
that tytle, Romeo doffe thy name,
And for thy
name which is no part of thee,
Take all my
selfe.
Ro.
I take thee at thy word:
Call me but
loue, and Ile be new baptizde,
Henceforth
I neuer will be Romeo.
(CREEDE &
BURBY, 1599: 27-28) |
Juli.
Oh, Romeu, Romeu, porque tu és
Romeu?
Renega teu pai e recusa teu
nome
ou, se não puderes, jura
somente por meu amor
e eu não mais serei uma
Capuleto.
[...]
Ju.
Apenas o teu nome é meu inimigo.
Tu és tu mesmo, não um
Montéquio.
O que é Montéquio? Não
é nem mão, nem pé,
nem braço, nem rosto – Oh, sê
qualquer outro nome!–
pertencentes a um homem.
O que há num nome? Isso que
nós chamamos rosa,
por qualquer outra palavra,
cheiraria tão doce.
Então Romeu, não
fosse ele chamado Romeu,
reteria essa cara perfeição,
que ele possui
sem tal título. Romeu,
joga fora teu nome
e, por teu nome – que não é
parte de ti –,
toma todo o meu ser.
Ro.
Tomo-te em tua palavra.
Chama-me somente de amor e
serei novamente batizado.
De agora em diante, jamais
serei Romeu. [Grifos meus] |
No trecho acima citado, Julieta diferencia dois “Selfs”
de Romeu: o Romeu como corporidade social, ou seja, o
primogênito Montéquio, e o Romeu como corporalidade
concupiscente, ou seja, o “deus de...idolatria” de Julieta, que é um
sujeito sem predicativos estamentais. Ora, numa perspectiva moral e
social aristotélica, somente deuses e feras poderiam
viver sem vínculos sociais. Portanto, há na exigência de realização
deste amor erótico um risco evidente de animalização
dos jovens.
Por outro lado, se tomarmos o conjunto dos trechos
citados até agora e focá-los por uma perspectiva estritamente
iconoclasta protestante, poderemos afirmar que a figuração de Romeu
no trecho acima citado torna-o ainda menos simpático para um
“leitor/audiência” elizabetano, pois Romeu tanto deixou-se definir à
“imagem e semelhança” da concupiscência de Julieta quanto também a
definiu nos seus próprios termos de cupidez.
Todavia, nesse conjunto de jogos erótico-idólatras de
linguagem, observamos que o caso de Romeu é ainda mais infamante,
pois deixou-se definir por um ser mortal que lhe é inferior –
afinal, Julieta é uma jovem dama –, o qual ele mesmo havia
elevado à condição de “ídolo de devoção”. Deste modo, Romeu realiza
plenamente o tropo bíblico protestante da idolatria: adora um ser
que é inferior a si. Dessa situação se deduz uma questão para o
“leitor/audiência” elizabetano: tudo isso poderia ser evitado se
ambos vivessem num ambiente menos propício às “idolatrias de
mente e coração” – a fictícia Verona não deixa de ser uma
sinédoque teatral hiperbólica do mundo católico ou de uma
ameaça católica bastante familiar a um inglês de finais do
século XVI – e se tivessem uma orientação religiosa adequada, isto
é, preocupada menos com as aparências mundanas do que com a reforma
efetiva das consciências.
Conclusão: Reformar o “Teatro do Mundo”
Quando observamos a trajetória dramática de Romeu,
percebemos que a teleologia da peça sugere que a destruição do seu
“olhar idólatra” seria uma forma de evitar o potencial afeminante
e animalizante da carnalidade de Julieta. Porém, a sua
juventude (i.e., fraqueza corporal e espiritual) o prende
demasiadamente ao olhar carnal e, por isso, Romeu nunca deixa de ser
devoto dos encantos de Julieta. De certo modo, isso também
expõe um paradoxo inerente à própria crítica protestante da imagem:
a expressão de tanto temor de se deixar seduzir pelos olhos é um
testemunho evidente de que, na realidade, a retórica protestante na
Inglaterra não conseguiu erradicar completamente o prazer, a sedução
e o encantamento mágico que nasciam do “belo visível”, do “artifício
dos ornamentos”.(DIEHL, 1997: 156-159) Daí, compensativamente, tal
como podemos notar em várias peças do cânone shakespeareano, há a
necessidade de sempre figurar a sedução pelos signos visíveis de
forma problemática, ameaçadora ou ambígua para, deste modo, ser um
estímulo à auto-reflexão.(Idem, Ibdem: 58-63)
Ao longo da peça “Romeu e Julieta”, as várias
formas de idolatria de mente e coração são figuradas como um
impedimento tanto para a emergência de uma “fé verdadeira” – que não
depende nem da razão, nem de prova ocular, mas daquele “espaço
infinito” entre appetitus e conscientia em que se
inscreve a graça divina
– quanto para a manutenção de uma vida social pacífica. Não por
acaso, todos os personagens socialmente elevados que morreram ou
foram assassinados abusaram, em alguma medida, dos “ídolos de
coração e mente”. Vejamos:
(1) Teobaldo e Mercutio pecam por “excessiva
jactância”; (2) conde Páris e Romeu pecam por “luto excessivo” a
uma falsa imagem de Julieta morta, mas, diferentemente de Páris,
Romeu vai muito além, pois pretende imolar-se no “túmulo/altar”
de sua “santa”, embora o fizesse de forma não-viril, já
que não derrama o próprio sangue, preferindo o artifício feminil
do veneno; (3) senhora Montéquio peca por “luto excessivo” à
morte simbólica (exílio) de seu muito estimado filho; (4)
Julieta peca por “luto excessivo” a um Romeu suicida, chegando
ao ponto de também imolar-se pelo “deus de sua idolatria”, mas,
diferentemente de Romeu, faz isso de forma viril, pois
derrama o seu próprio sangue utilizando-se de parte da
indumentária (a adaga) de seu “ídolo”; (5) Julieta e Romeu
pecaram pelo “amor erótico” que excessivamente cultivaram como
fundamento último ou único de sua felicidade terrena.
Deste modo, explorando a ironia trágica contida
nisso, a peça oferece ao final a promessa verbal da ereção de
duas estátuas de ouro que aludem problematicamente à passagem
bíblica da devoção ao bezerro de ouro, que é recorrentemente evocada
na crítica protestante contra a “idolatria da Igreja
Católica”.(Idem, Ibdem: 46-63) No entanto, não são apresentadas como
“ídolos de adoração”, mas sim são verbalizadas como
símbolos para a lembrança da história lamentável e
sofrida das paixões idólatras de Julieta, de Romeu e de seus amigos
e parentes. Portanto, como advertência para os personagens no “mundo
do teatro” e no “teatro do mundo”, tal promessa verbal de
monumento fúnebre é uma provocação ou estímulo à auto-reflexão nos
mesmos termos que caracterizavam a retórica iconoclasta dos
reformadores protestantes. Assim, como símbolos visíveis e
verbais para a memória, a exemplo dos tropismos da “Bíblia de
Genebra”, as estátuas serviriam para lembrar a relação
implicativa que há entre idolatria, cupidez e
desordem social.(CALVIN & alii, 1560: 1092-1140)
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