VERA LUCIA DA SILVA

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá (PLE/UEM)

 

JULIANA DA SILVEIRA

Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá (PLE/UEM)

 

Resenha:

COURTINE, Jean-Jacques. Metamorfoses do discurso político: as derivas da fala pública. Tradução Nilton Milanez, Carlos Piovezan Filho. São Carlos: Claraluz, 2006.

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O discurso político contemporâneo

por Vera Lucia da Silva* & Juliana da Silveira**

 

A obra subdivide-se em três partes e o autor, ancorado na teoria da Análise do Discurso de linha francesa (AD), promove uma discussão sobre o discurso político contemporâneo na atual conjuntura societária midiatizada.

Na apresentação, Gregolin afirma que o discurso político contemporâneo exige novas práticas adequáveis ao aparato áudio-visual de informação. Por isso, o discurso político não pode ser dissociado da produção e recepção das imagens reguladas pelas novas práticas midiáticas que leva o analista do discurso político a buscar novos procedimentos para compreender as transformações ocorridas no campo discursivo da comunicação política.

A primeira parte refere-se à história e a crítica da AD, intitulada O professor e o militante, o autor retrata que a AD, por ser uma prática da leitura dos textos políticos, emergiu no interior da lingüística francesa a partir de 1968, motivada pelos acontecimentos de maio de 68. Momento histórico que estudantes e operários parisienses se manifestaram contra a política vigente e marcou a constituição de novos valores – liberdade individual e sexual, expressão pessoal que refuta as hierarquias, as tutelas e as tradições – questionadores das autoridades familiares, patronais, sindicais e políticas.

Período marcado também por novas sensibilidades linguageiras – fala breve, pessoal e efêmera – que romperam com as formas canônicas de posição pública, ou seja, aquela dos falares longos, truncados e de difícil assimilação.

Os estudos da AD surgiram com objetos empíricos extraídos do discurso pedagógico, científico e de historiadores centrados na revolução francesa. Porém, o seu maior objeto analítico foi o discurso político francês dos partidos da esquerda francesa.

No plano teórico, a AD relaciona procedimentos de análise lingüística e conceitos históricos emprestados do marxismo, na perspectiva da articulação entre língua, discurso e ideologia (via althusseriana) ou na sociologizante (diferenças entre grupos sociais – via sociolingüística).

No item eclipses de memória, o autor afirma que houve alteração na conjuntura política: despolitização do corpo social, desideologização de certos partidos políticos em nome da modernização, declínio do militantismo e da sindicalização concreta e realista, a esquerda no poder descobre o pragmatismo político, o silêncio dos intelectuais, o individualismo. Para o autor, houve, nos últimos anos, uma transformação profunda na representação do político e cabe compreender o que está em jogo nessa nova conjuntura.

A AD configurada nos anos 60 sob uma sociedade impregnada pelo estruturalismo, epistemologia da descontinuidade, política marxista das ciências humanas e também pela psicanálise, se estabeleceu como lugar privilegiado do encontro entre a lingüística e a história. Assim, a análise do discurso político sofre mutações que dependem das condições de produção do momento histórico-social vigente. Ele exemplifica essa idéia com as diferenças analíticas em relação à comunicação política produzida em um comício que reúne multidões em torno de um orador ou para os programas televisivos, as quais cada uma assiste do seu domicílio. Como o discurso político passou a ser dominado pelas mídias e por isso o verbal e o não-verbal estão imbricados, não é possível dissociar o corpo do gesto

 A segunda parte refere-se à língua de madeira, intitulada linguagem, discurso político e ideologia.  Para o autor, a AD e o termo discurso, passou a ser a usado de modo sistemático na lingüística moderna, a partir de 1960, embora antes, já havia a preocupação em formular suas regras, descrever suas configurações e avaliar seus efeitos, especialmente da análise do discurso político na França.

Em se tratando de discurso político, o analista deve observar três noções para compreender o processo discursivo: o corpus, o enunciado e o sujeito político que está assujeitado a um todo de muitas condições de produção e recepção de seu enunciado em uma determinada conjuntura política.  Assim, os partidos políticos são diferenciados pela língua, ou seja, pelo discurso que os fazem serem reconhecidos e os indivíduos a eles aderidos.

O autor faz menção à língua de madeira como o uso de formas longas, fixas e redundantes no discurso político. No momento contemporâneo, a política está se desenvolvendo com formas curtas, fórmulas e diálogos que faz do discurso político algo com mais fluidez e um imediatismo que requisita o instante mais do que a memória. O discurso político passa por um processo transformacional na enunciação, com um discurso curto, descontínuo e ininterrupto. Neste caso, o sujeito re-emerge de modo individual, em detrimento do apagamento da máquina política.

O autor dá prosseguimento a essa idéia com a afirmação de que a política de texto foi profanada e adquiriu novas práticas com formas inovadoras de diálogos, entrevistas, holofotes televisivos e videoclipes políticos. Estes dois últimos itens revelam que a política não pode ser dissociada da produção e recepção de imagens, assim como, o discurso do homem político também não pode se separar de sua imagem. Dessa forma, as análises precisam se adequar a novas práticas e considerar, além dos elementos lingüísticos, a colagem de imagens.           

Segundo o autor, a memória é um fator condicional de existência do partido que precisa se inscrever em uma genealogia e relembrar uma filiação capaz de sustentar uma legitimidade. Na política, a memória é um poder em que os partidos se organizam para assegurar seu futuro pela evocação de seu passado, pois é nela que se concretiza a possibilidade de expressão e o direito à fala.

O autor, no item sobre a recitação e o comentário afirma que a fala política se caracteriza como um conjunto de rituais não-verbais que compõem os elementos essenciais da representação política: o discurso, os gestos, os reguladores de comportamento, a previsão das circunstâncias e a organização de um mise en scène (teatro).  A pós-modernidade provocou mudanças na forma de representação política com as inovações midiáticas, fazendo com que o discurso funcione sob as regras das formas breves, longe das grandes narrativas políticas e monólogos intermináveis e com o objetivo maior de seduzir a explicar, de capturar a convencer.

Na terceira parte sobre a história e a crítica da AD, intitulada mutações das discursividades políticas: o exemplo americano, no item a personalização da esfera pública, o autor afirma que as formas discursivas de comunicação política sofreram mutações, durante o século XIX, nos Estados Unidos. A fala pública passa por transformações e a tradição retórica americana cede lugar a outro estilo linguageiro, aquele planejado para atender às exigências políticas e comerciais voltadas para uma sociedade de massa.

O autor, ao deixar de lado o aspecto da linguagem, para considerar o olhar e o espetáculo, considera a televisão como um mecanismo que aumentou a capacidade de visibilidade corporal do homem público e o crescimento da psicologização da esfera política. Ao afirmar que, enquanto a imprensa escrita entrou em processo de declínio, a televisão aumentou seu poder, gerando grande competitividade entre as grandes redes e os canais a cabo, privilegiando os anúncios espetaculares e submeteram as informações à lógica do proveito e alimentaram o cinismo dos jornalistas.

Sobre este aspecto, o autor afirma que dada à rapidez de divulgação das informações, as reflexões sobre as temáticas apresentadas tornaram-se superficiais, além das limitações e fontes duvidosas. Assim sendo, a divulgação dos escândalos políticos tornou-se um eco com poder sem precedentes quando comparados às folhas de papel do século passado.

Este livro traz conceitos importantes para os pesquisadores do discurso político pós-moderno que, em conjunto com a teoria da AD, proporciona uma visão conceitual e crítica no/do novo modo de fazer política em uma conjuntura social dominada pelos meios de comunicação de massa.

 


* Mestre pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá (PLE/UEM)

** Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá (PLE/UEM)

   

 

 

 

  

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