Ascensão e Queda do Império Universitário Brasileiro
por Rudá Ricci
Com
a criação da USP, em 1934, nascia um pensamento científico
charmoso e com vocação ao poder político. Inicialmente, pensava
o Brasil e o articulava ao mundo. Não por outro motivo, as
ciências humanas ganharam grande projeção desde então, porque
desvelavam um Brasil submerso. As nações indígenas ganharam os
livros e, mais tarde, as capas da revista Manchete, além dos
documentários chapa-branca de Amaral Neto. A vocação política do
mundo universitário cresceu, atingiu os cargos de elaboração
governamental, gerou referências para a esquerda (como nas
manifestações da Maria Antônia ou a candidatura a senador de
Fernando Henrique Cardoso). Nos anos de chumbo, da USP nasceram
centros de pesquisa independentes, como o CEBRAP, que passaram a
estudar o mundo do trabalho e as reformas democráticas
necessárias, as mudanças na economia nacional. A USP continua o
top da academia nacional, com 42 mil estudantes (terceira
do país em número de alunos, perdendo apenas para duas
universidades particulares). Mas nos anos 90 houve uma
acelerada e radical inversão da realidade universitária. Ao
redor de 80% das vagas universitárias se concentraram em
faculdades particulares, dado o boom de abertura
de universidades privadas no interior do país. Houve avanços: as
vagas noturnas das faculdades particulares interiorizaram o
estudo universitário e abriram oportunidades para mulheres e
trabalhadores.
Mas o crescimento de vagas foi desordenado e
provocou a queda de qualidade. A “Geografia da Educação”,
elaborado pelo Ministério da Educação, revelou que as faculdades
particulares do país possuem o dobro de alunos por sala que as
públicas, menos doutores e um ínfimo número de docentes com
dedicação exclusiva (contrato em tempo integral). Há uma
impressão generalizada que houve muita ingerência política
regional e local na abertura de cursos que nem sempre mantiveram
relação com a vocação de desenvolvimento da sua localidade.
Marilena Chauí, numa apresentação memorável num dos encontros da
ANPED (maior encontro nacional de educação) lamentava a
transformação da universidade brasileira de instituição em
organização. Chauí explicava que uma instituição se volta para a
sociedade e a organização para si mesma, voltada para sua
sobrevivência e crescimento.
Agora, no fechar das cortinas de 2007, ficamos
sabendo que o número de formados em universidades públicas caiu
em 9,5% nos últimos dois anos. O dado surgiu a partir do Censo
da Educação Superior. A perda tem relação direta com a queda de
financiamento público (ou privatização acelerada do
ensino universitário). Trabalho e descontentamento com os cursos
são apontados como outros obstáculos.
O problema é mais grave na medida em que se sabe
que as faculdades do interior brasileiro enfrentam grandes
dificuldades desde 2005. A inadimplência chega à média de 40%
(caso de São Paulo, o Estado mais rico do país). A concorrência
entre pequenas faculdades chega às raias do desespero. O ataque
ao Ensino Médio é cada vez maior e, muitas vezes, obriga uma
faculdade a se conveniar com uma rede de Ensino Médio para
possibilitar a fidelização do futuro universitário. A
situação parece ainda mais crítica na medida em que caem as
matrículas no Ensino Médio (1,5% entre 2004 e 2005 e 1,4% entre
2005 e 2006) e aumenta a procura pela modalidade EJA-Médio
(Educação de Jovens e Adultos - Ensino Médio) em 10% entre 2005
e 2006. O Brasil bate recordes de criação de empregos.
Projeta-se para 2008 a criação de 2,5 milhões de novos empregos,
fomentados pela abertura de vagas na construção civil, rodovias,
hidrelétricas e indústrias. Este é o motor que gera tal aumento
de vagas nos cursos de EJA.
Assim, parece ser a hora de repensarmos toda a
porta de saída do ensino regular e ingresso no mundo do
trabalho. O Brasil possui uma cultura – grande parte
desenvolvida pelo glamour universitário do século XIX e
ampliado com a criação da USP – de valorização do título
universitário para ingresso e evolução no mercado de trabalho.
Mas, a proliferação de vagas nas faculdades particulares
banalizou o ensino acadêmico. É de se questionar, portanto, os
motivos para não transformarmos o Ensino Médio e o EJA em
modalidades próprias e não “ritos de passagem”. No caso do
Ensino Médio regular, trata-se de uma passagem para o mundo
universitário. No caso do EJA, uma certificação para melhores
postos de trabalho, normalmente semi-qualificados. Mas onde
estaria o motivo para não transformar, como ocorre na Europa
(sul da Alemanha, em especial), o Ensino Médio e EJA em
modalidades específicas, de alto padrão de qualidade, para
formação de quadros técnicos totalmente direcionados para a
vocação regional do mercado de trabalho? Tal estratégia poderia
redefinir a dimensão do ensino universitário brasileiro, mais
voltado para a pesquisa acadêmica e/ou pura, diretamente
vinculado à trajetória de investigação e carreira acadêmica.
Não se trata de uma dicotomia exógena, mas de uma
leitura mais precisa da demanda indicada pelos próprios jovens
brasileiros.
Haverá, possivelmente, nos próximos anos, um
movimento de oligopolização do ensino universitário privado do
país. Muitas faculdades serão adquiridas por grupos mais sólidos
ou mais profissionalizados. Em alguns casos, grupos econômicos
mais agressivos e com menor vocação educacional, avançarão o
sinal para fazer um bom negócio a partir da crise cada vez mais
profunda de pequenas instituições acadêmicas. A luta pela
sobrevivência será mais aguda e é necessário redirecioná-la para
que não se torne selvagem. Um Acordo Nacional Estratégico da
Educação Brasileira precisa ser firmado para definir as
identidades de cada segmento do ensino brasileiro, sua vocação e
foco de atuação, assim como os vasos comunicantes entre eles,
através de programas de extensão definidos não como marketing
institucional, mas como projeto de desenvolvimento do país.
Como sugeria Marilena Chauí, é fundamental
recuperarmos o projeto societal das universidades e diminuir seu
aspecto cada vez mais comunitário, internista e mercadológico.
Mas esta necessidade envolve o Ensino Médio e o EJA. Afinal,
qual são seus objetivos? Continuaremos com os velhos rituais de
passagem, que os limita às técnicas de memorização de fatos e
informações a serem descarregados nos exames de seleção à
Universidade ou reproduzidos em atividades repetitivas de postos
de trabalho constantemente ameaçados pelas novas tecnologias ou
subemprego?
Um dia, Florestan Fernandes perguntou-se a
respeito do objetivo do ensino universitário, seu papel social
para o país. O mundo acadêmico se limitou a tal ponto que não
temos mais nenhum acadêmico que se faça a mesma pergunta.