Resenha:
V. I. LÊNIN. O Imperialismo,
Fase Superior do Capitalismo. Brasília: Nova Palavra, 2007
(200p.)
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Atualidade de Lênin
por Antonio Ozaí da Silva
Algumas obras sobrevivem ao tempo. “O
Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, de Lênin é uma
delas. Escrita de janeiro a junho de 1916, quando a Rússia se
encontrava sob o governo tzarista, o autor precisou driblar a
censura política:
“Por isso, não só me vi forçado a limitar-me
estritamente a uma análise teórica, sobretudo econômica,
como também tive de formular as indispensáveis e pouco
numerosas observações políticas com a maior prudência,
servindo-me de alusões na língua de Esopo – linguagem
alegórica que o tzarismo constrangia todos os
revolucionários a utilizar sempre que pegavam na pena para
escrever uma obra “legal” (prefácio, p.09).
Mesmo sob condições adversas, o autor oferece aos
leitores um “ensaio popular” esclarecedor e instigante. Lênin
apresenta um quadro analítico sobre a economia capitalista
mundial à época, analisando as origens e desenvolvimento do
monopólio, do capital financeiro, do novo colonialismo e a
necessidade de partilhar o mundo, em suma, as origens e
características do capitalismo na fase imperialista. Ele expõe a
essência da natureza da guerra mundial de 1914-1918: uma guerra
imperialista.
Sob o risco da redundância, é preciso ter claro
que o objetivo de uma obra como esta é, fundamentalmente,
político. Lênin foi um intelectual prático e sua obra é, também,
fator de intervenção política. Com esta, almeja contribuir com
os comunistas, em especial, dos países avançados. Ele considera
“que é possível – e necessário – aproveitar mesmo os pequenos
vestígios de legalidade que ainda lhes restam (...) para
demonstrar toda a falsidade das concepções social-pacifistas e
das esperanças numa democracia mundial” (Prefácio às edições
francesa e alemã, p. 11). Seu alvo é a II Internacional, que
se rendeu ao reformismo e ao nacionalismo, e, especialmente, o
kautskismo,
“essa corrente ideológica internacional que
em todos os países do mundo é representada pelos “teóricos
mais eminentes”, chefes da 2ª Internacional (Otto Bauer e
cia. na Áustria, Ramsay MacDonald e outros na Inglaterra,
Albert Thomas na França etc. etc.) e um número infinito de
socialistas, de reformistas, de pacifistas, de democratas
burgueses e de clérigos” (p. 14).
Para Lênin, Kautsky e companhia representam a
falência da II Internacional, sua decomposição e putrefação, e a
“renúncia completa dos fundamentos revolucionários do marxismo”
(p. 15).
A obra centra-se na análise econômica:
“Nas páginas que se seguem, procuraremos
expor sumariamente, da forma mais simples possível, os laços
e as relações recíprocas existentes entre as
particularidades econômicas fundamentais do imperialismo.
Não nos deteremos, por mais que mereça, no aspecto
não-econômico do problema” (p. 20).
Não obstante, como afirmado acima, cumpre
objetivos políticos.
O autor, devido às condições precárias nas quais
teve que escrever, se vale, essencialmente, de fontes
“burguesas”.
Contudo, utilizou o livro Imperialismus do inglês J. A.
Hobson, publicado em 1902, considerado “a obra inglesa mais
importante sobre o imperialismo” (p. 09). Lênin usou e abusou de
dados, estatísticas e declarações, considerados “irrefutáveis”,
produzidos pela “ciência burguesa” (p. 11). Ele se apropria
destas fontes para argumentar criticamente.
O livro estrutura-se em dez partes. Na primeira,
Lênin analisa como se deu a concentração da produção e a
formação dos monopólios. “O enorme incremento da indústria e o
processo notavelmente rápido de concentração da produção em
empresas cada vez maiores constituem uma das particularidades
mais características do capitalismo”, afirma (p. 21). Este
processo gerou o monopólio, “a última palavra da “fase mais
recente de desenvolvimento do capitalismo” (p. 36). Para
compreender plenamente a formação deste, é preciso analisar os
bancos e o novo papel que este passa a cumprir nesta fase. Este
é o tema da segunda parte.
O capital financeiro passa a predominar e
forma-se a oligarquia financeira. Esta é uma característica
importante que assinala a superação do velho capitalismo
competitivo da fase pré-monopolista. A predominância do capital
financeiro tem como fundamento a crescente exportação de capital
e a criação de uma rede internacional de dependências. Estes
temas são analisados nas partes III e IV.
A exportação de capital ocorre porque passa a
haver excedente de capital nos países avançados. Lênin ironiza
os que pensam que este capital poderia ser utilizado para
melhorar as condições de vida das massas, em vez de ampliar os
lucros. Então, diz ele, “o capitalismo deixaria de ser
capitalismo, pois o desenvolvimento desigual e a subalimentação
das massas são as condições e as premissas básicas inevitáveis,
deste modo de produção” (p. 74). O excedente de capital nos
países avançados e a necessidade de exportá-los fizeram com que
estes passassem a disputar o mundo, partilhando-o. Neste
processo, formam-se os cartéis, trustes etc., que expandem as
suas respectivas áreas de influências. Lênin analisa-o nas
partes V e VI.
Na sétima parte, ele sintetiza e faz um balanço
sobre o que expôs até então:
“O imperialismo surgiu como desenvolvimento e
desdobramento direto das características fundamentais do
capitalismo em geral. Mas o capitalismo só se transformou em
imperialismo capitalista quando chegou a um determinado
grau, muito elevado, do seu desenvolvimento, quando algumas
das características fundamentais do capitalismo começaram a
transformar-se na sua antítese (...). O que há de
fundamental neste processo, do ponto de vista econômico, é a
substituição da livre concorrência capitalista pelos
monopólios capitalista. A livre concorrência é a
característica fundamental do capitalismo e da produção
mercantil em geral. O monopólio é precisamente o contrário
da livre concorrência” (p. 103).
Ele conclui esta parte com uma questão
fundamental:
“... sob o capitalismo, que outro meio
poderia haver, a não ser a guerra, para remediar, de um
lado, a desigualdade entre o desenvolvimento das forças
produtivas e a acumulação de capital e, de outro, a partilha
das colônias e das zonas de influência do capital
financeiro?” (p. 115).
A guerra imperialista é a resposta, a
conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em sua fase
superior, dos monopólios e domínio do capital financeiro. Lênin
reafirma a crítica política ao kautskismo e aos oportunistas de
toda espécie. Ele detecta uma tendência importante na fase do
monopólio: o parasitismo (Lênin considera que, neste ponto, o
não-marxista Hobson tem uma análise mais avançada que o marxista
austríaco Rudolf Hilferding, autor de O Capital Financeiro,
publicado em 1910).
Por outro lado, o capitalismo imperialista tende
a cooptar setores da classe operária, a qual passa por um
processo de aburguesamento. “A ideologia imperialista penetra
até mesmo no seio da classe operária, que não está separada das
outras classes por uma muralha da China”, diz Lênin (p. 129). O
imperialismo fortalece o reformismo e é um dos fatores que
explicam a falência da II Internacional. É preciso, portanto,
fazer a crítica do imperialismo, isto é, analisar “a atitude das
diferentes classes da sociedade perante a política imperialista,
de acordo com a sua ideologia geral” (id.). Lênin concentra-se
na crítica a Kautsky, cujas idéias expressam o “espírito
reacionário, reformista burguês” (p. 134). Estas questões são
analisadas nas partes VIII e IX.
Na última parte, Lênin trata do lugar do
imperialismo na história, assinalando os seus traços essenciais.
Para ele, a luta contra o imperialismo soará como “uma frase oca
e falsa se não for indissoluvelmente ligada à luta contra o
oportunismo”, ou seja, Kautsky e os “social-imperialistas”.
Porém, sua mensagem soa otimista: “De tudo que dissemos sobre a
natureza econômica do imperialismo deduz-se que se deve
qualificá-lo de capitalismo de transição ou, mais propriamente,
de capitalismo agonizante” (pp. 148-149).
Esta edição reproduz o “Manifesto do Congresso
de Basiléia da Internacional Socialista” (1912), que
aprovou, por unanimidade, a política revolucionária de negação e
enfrentamento da guerra imperialista iminente. Contém, ainda, a
biografia do autor, escrita por Trotsky e o posfácio “Notas
sobre a atualidade de “O Imperialismo, Fase Superior do
Capitalismo”, assinado por Markus Sokol (economista, da
direção nacional do PT e da corrente O Trabalho, e
integrante do Conselho Geral da IV Internacional). A publicação
do livro, como indicado na apresentação, foi “uma decisão
política, que dá toda dimensão à criação da Nova Palavra
Editora” (p. 07). Como também foi uma “decisão política”,
aliás, legítima, incluir na mesma um posfácio que, como o título
indica, procura comprovar a atualidade da obra de Lênin e
polemiza com outros setores do trotskismo, mais precisamente com
Ernest Mandel e Michael Löwy (Secretariado Unificado), e o
“revisionismo direitista do grupo inglês “Militant”, de Ted
Grand (pp. 187-190). Foi uma “decisão política”... O leitor que
avalie se deve entrar no mérito da polêmica ou se ater à parte
principal da edição, a obra de Lênin.
“O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”
situa-se num contexto de luta política nas hostes do marxismo,
numa fase em que a polêmica não se restringe aos conceitos e
teorias, mas opõe uns aos outros de forma irreconciliável. Lênin
agrupará em torno da sua liderança, impulsionada pela vitória da
Revolução Russa, a ala revolucionária contra os que teriam
renegado o marxismo.
As circunstâncias mudaram, mas a polêmica
ressuscita e se reincorpora em outros corpos e mentes que atuam
em organizações e partidos que se reivindicam do legado
marxista. Isto me parece normal, na medida em que as
contradições da sociedade capitalista renovam e tornam
necessário a crítica, no sentido da sua superação. Como no
passado, hoje também há os que imaginam transformar o
capitalismo através de reformas graduais e pacíficas; e há os
revolucionários. Por outro lado, é compreensível a disputa pelo
legado simbólico da tradição marxista. No entanto, no contexto
atual, uma obra deste gênero abre-se à novas leituras e novos
leitores, libertos dos maniqueísmos ou mesmo do culto ao líder.
“O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” serve
tanto aos objetivos da disputa política entre os marxismos
e destes em relação às correntes liberais e conservadoras,
quanto à formação intelectual e política de leitores não
necessariamente convertidos a qualquer “ismo”.
Em tempos de pretensa globalização e de guerras
patrocinadas pelo Imperiu, Lênin permanece atual. Vale a
pena ler a sua obra!