Energia e Poder Nuclear
por Henrique Rattner
Em julho de 2007, a maior usina nuclear do
mundo, construída perto de uma falha tectônica, foi
danificada por um terremoto que atingiu o Japão. O ocidente
além de evocar os acidentes dramáticos ocorridos há mais de
duas décadas em Three Miles Island nos Estados Unidos (1979)
e Chernobyl (1986) na ex-União Soviética, alarmou a opinião
pública mundial para os riscos existentes em outras áreas do
mundo.
Cinqüenta e cinco reatores estão em
funcionamento no Japão e outros estão sendo programados para
atender a demanda crescente por energia. “O que fazer?” é a
questão candente que se coloca para o governo japonês.
Fechar as usinas que fornecem 35% da energia consumida no
país terá conseqüências catastróficas para a economia. Mas,
o caso da usina nuclear de Kashiwazaki-Kariwa não é o
primeiro que coloca em dúvida a credibilidade das agências
governamentais responsáveis pela avaliação permanente dos
riscos devido aos movimentos tectônicos – terremotos e
maremotos, nas diversas regiões do mundo.
No Brasil,
dois reatores construídos em Angra dos Reis, a meio caminho
entre as duas maiores concentrações populacionais do país,
ocorre um problema semelhante: ambos estão localizados numa
área de falha geológica, já conhecida pelos índios que
originalmente habitavam naquela região, denominando-a
“Itaorna” ou “pedra podre”. Mesmo assim, crescem pressões
políticas para completar a construção de Angra III no mesmo
local, inviabilizada por uma estreita estrada de evacuação
da população, em caso de acidente e escapamento de material
radiativo.
Além dos estragos na usina japonesa, que
ficará fechada por tempo indeterminado, foram derrubados 400
barris de lixo atômico, alguns deles vazando seu conteúdo
tóxico e contaminando as águas utilizadas para a
refrigeração das instalações.
Após o acidente na usina japonesa ressurgiu a
polêmica sobre a construção de novos reatores em vários
países, inclusive aqueles que se comprometeram a desativar
os reatores em uso (Suécia, Alemanha) nos próximos anos.
O debate entre tecnocratas e empresas oculta
as questões mais graves associadas à difusão de reatores
nucleares pelo mundo. Hoje, estima-se que estejam em
funcionamento aproximadamente 450 usinas, a maior parte dos
quais nos Estados Unidos e na França.
O clamor crescente sobre o “efeito estufa”
devido à queima de carvão e petróleo (cujo custo é de quase
US$ 100.00 barril) deu alento às propostas de uso de energia
nuclear como fonte alternativa, que seria mais “racional” e
barata, a curto prazo. Os riscos dessa energia alternativa
são minimizados ou ignorados, embora ameacem a própria
existência da humanidade, em longo prazo.
Pequenos desastres nucleares, com vazamentos
de radioatividade são bastante freqüentes em várias regiões
do mundo. Mais sério, todavia, é o problema dos resíduos ou
do lixo nuclear para os quais ainda não foi encontrada uma
solução segura e satisfatória.
Hoje, esses resíduos são enterrados ou
jogados no fundo do mar, acomodados em barris de concreto e
chumbo, que não eliminam, mas apenas adiam o vazamento da
radioatividade para as gerações futuras.
Por isso, nas sociedades em que prevalecem a
responsabilidade dos governantes e o controle da sociedade
civil, foi decidido desativar os reatores existentes e
estabelecer uma moratória para a construção de novas usinas,
enquanto não forem encontradas respostas satisfatórias para
a disposição segura dos resíduos.
Ademais, na análise custo/benefício da
energia nuclear é imprescindível a inclusão dos custos de
desativação dos reatores, após 40-50 anos de vida útil.
Depois deste tempo, as instalações e os equipamentos são
radioativos em alto grau e, para isolá-los do meio ambiente
é necessário encobrir, literalmente, toda a usina por
espessos muros de concreto e chumbo a fim de impedir/adiar
vazamentos e contaminação da população. O custo dessa
operação é estimado em até 50% da instalação original.
Para sair do dilema, aponta-se a necessidade
de pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento de
energias alternativas particularmente em biocombustíveis com
base em plantas, que não exigem muitos insumos,
fertilizantes e energia na colheita. Segundo pesquisas
recentes, algumas culturas necessitam adubos que podem
causar a emissão de gases-estufa, capaz de neutralizar ou
superar a absorção de CO2 pelas plantas.
A maioria de fertilizantes utilizados
atualmente libera óxido nitroso (N2O). Portanto,
impõe-se certa cautela no discurso dos economistas e
tecnocratas que apontam o biocombustível como uma panacéia
mundial, no combate ao efeito-estufa. A substituição de
gasolina por álcool à base de cana-de-açúcar pode diminuir
as emissões em até 50%, à condição que a área plantada não
implique em derrubada e queimada das florestas. O aumento do
plantio de cana-de-açúcar e de milho para produzir mais
biocombustível pode levar, também, ao agravamento da fome e
falta de alimentos básicos, como já acontece em várias
regiões, como no México.
Voltando aos reatores nucleares, dos quais,
aproximadamente, 450 estão em funcionamento no mundo, eles
suprem 15% da demanda mundial de energia. A demanda por
novos reatores cresce em vários países enquanto planos de
construção estão sendo apresentados em países como Turquia,
Egito, Irã, África do Sul e outros na Europa Oriental, que
querem diminuir sua dependência do fornecimento de gás da
Rússia.
O combustível fóssil torna-se cada vez mais
caro e seu abastecimento menos seguro, enquanto o
combustível para reatores – o urânio – encontra-se em
abundância, em países politicamente estáveis, como o Canadá
e Austrália. Considerando-se a demanda atual estimada em 370
GW (gigawatts), as projeções para 2030 a elevam para 570 GW.
Sem impor taxas pesadas ao uso do carvão mineral
(violentamente recusadas pelos Estados Unidos, a China e a
Rússia) a indústria de reatores nucleares se expandirá ainda
mais rapidamente.
Os críticos e os ambientalistas apontam para
o elevado custo e a demora na construção de um reator.
Medidas regulatórias e exigências de EIA/RIMA, além da
resistência da população à localização dos reatores em áreas
próximas aos núcleos urbanos (lembrem-se de Zellendorf na
proximidade de Viena) colocam exigências cada vez mais
rigorosas e custos para serviços de segurança e de operação,
inclusive de armazenamento dos resíduos radioativos.
Nos anos 50, o futuro da energia nuclear foi
encarado com otimismo, com as promessas de seus
protagonistas de reduzir, gradualmente, os custos
operacionais. Curiosamente, a corrida atrás da construção
nuclear coincidiu com a expansão e conscientização dos
movimentos sociais e ambientalistas, reforçados em seus
argumentos pelos acidentes de Three Miles Island (1979) e de
Chernobyl (1986). Neste, o núcleo do reator explodiu e
disseminou enormes quantidades de radioatividade até nos
países nórdicos. Pior ainda, apesar da dificuldade de acesso
à informação, soube-se de milhares de pessoas afetadas
seriamente. Na França, Alemanha e os países escandinavos, os
reatores parecem funcionar sem maiores problemas, por
enquanto, e a Finlândia está construindo o maior reator do
mundo, com 1650 MW, embora com dois anos de atraso,
referente ao cronograma.
Mesmo que os novos reatores fossem mais
seguros, como alegam seus construtores e os tecnocratas do
governo, ainda assim geram lixo atômico. Por enquanto está
sendo armazenado em recintos especiais nas próprias
instalações (solução precária), conforme demonstrado pelo
acidente recente no Japão.
Promete-se removê-lo (quando?) para lugares
mais seguros (onde?). Contudo, nenhum país tem encontrado
uma solução para descartar e neutralizar os resíduos
altamente tóxicos. Em alguns países (França, Estados Unidos)
o lixo é re-processado por um procedimento que produz
plutônio que pode ser transformado em novo combustível. Mas,
o plutônio pode ser também utilizado para a fabricação de
bombas atômicas, armazenadas em pequenas quantidades e
negociadas no mercado, caindo nas mãos de “terroristas”, o
que tem impedido os Estados Unidos de re-processar o lixo,
desde 1977. Mesmo guardado em centros de segurança máxima,
ainda carecem de tecnologia para sua produção em escala
comercial.
Em resumo, a construção de novos reatores
dependerá de vários fatores, destacando-se a administração
do lixo, a questão da segurança quanto a acidentes; o
elevado custo da construção e da desativação e, por último,
mas não menos importante: alega-se que a redução do
aquecimento global terrestre, que parece, por enquanto, uma
hipótese remota e demorada. Outro acidente do tipo Chernobyl
ou um ataque terrorista irão enterrar definitivamente as
esperanças de uma solução mais limpa e segura do problema de
energia nuclear.
Tratamos, até agora, do uso pacífico da
energia nuclear, mas como traçar a linha divisora entre fins
pacíficos e bélicos? O presidente iraniano, Mahmoud
Amedinejad, promete que as plantas de enriquecimento de
urânio em construção servirão exclusivamente para fins de
geração de energia, embora o Irã possua as maiores reservas
em petróleo. O próximo passo será certamente o
enriquecimento de urânio até alcançar o grau necessário para
a fabricação de armas nucleares. Mas, como negar ao Irã o
“direito” de possuir armas nucleares quando EUA e Rússia têm
aproximadamente 5000 ogivas armazenadas, cada. Inglaterra e
França guardam 500 ogivas cada e os “retardatários”, Índia e
Paquistão construíram nos últimos anos aproximadamente 50
bombas, quantia semelhante estimada para Israel.
As bombas atómicas em poder
dos EUA e da Rússia, resquícios da guerra fria, armazenadas
em silos especiais estão se tornando obsoletas. Pelo tratado
de não proliferação de armas nucleares são proibidos testes
reais com novos artefatos. Por outro lado, testes virtuais
realizados por supercomputadores têm um custo extremamente
elevado. Tendo uma ogiva comum uma idade útil de trinta
anos, coloca-se a questão de como desenvolver novas bombas
nucleares sem testá-las, tal como fizeram os franceses há
duas décadas. Cientistas encarregados pelo departamento de
defesa norte-americano trabalham com modelos virtuais, cujo
processamento de dados exige um tempo enorme de computação.
Os modelos virtuais anteriores exigiam seis semanas de
simulação por uma série de supercomputadores, por envolver a
manipulação de elementos químicos raros, tais como plutônio,
deuterônio e hélio para produzir uma reação em cadeia. O
desafio técnico,financeiro e humano para construir ogivas
que desencadeiam processos de fissão e fusão nucleares
virtuais são tremendos. Mas, cientistas e militares que
trabalham na indústria de armamentos ficam empolgados com a
possibilidade de testar, mesmo virtualmente, o novo modelo,
abstraindo do custo e das ameaças à vida no planeta dos
novos artefatos.
Como superar essa irracionalidade que leva a
humanidade à beira de destruição total, embora a cada dia
surjam novos países “candidatos” a ingressar no clube seleto
ávidos a apropriarem-se dessa tecnologia?
Conforme divulgado pela mídia, houve recentemente
uma visita do ministro da defesa, Nelson Jobim, ao
estaleiro da marinha em Iperoig, São Paulo. Diante o
casco do submarino, em construção há mais de um
quarto de século, o ministro Jobim teria declarado
que o Brasil necessita de um submarino nuclear, para
maior segurança de 8000 km de costa marítima...