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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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O que
Portugal nos legou?
Um
balanço de 1808-1822 e as perspectivas do presente
por Paulo Roberto de Almeida
1. Uma introdução em retrospectiva
Aproximando-se as comemorações pelos 200 anos da
vinda da família real portuguesa para o Brasil, em janeiro de 2008,
caberia talvez fazer uma espécie de balanço em torno do que isto
representou para o Brasil e sobre o quê, em decorrência desse fato,
mudou na vida da jovem nação, então em fase de constituição,
independentemente de continuar, durante alguns anos mais, a estar
formalmente subordinada a Portugal (tendo passado a Reino Unido,
isto é, a um estatuto quase pleno de autonomia, em 1816).
Uma maneira de fazê-lo seria a de proceder a uma
espécie de confronto entre o “então” e o “agora”, ou seja, examinar
a situação econômica do Brasil, tal como ela se apresentava em 1808,
acompanhar as mudanças ocorridas a partir daí, até a independência
ser consolidada, grosso modo em 1825, e verificar, então, o que se
fizemos desde aquela época, ou seja, nos últimos 200 anos. É o que
tentarei fazer no presente texto, mas confesso que uma grande
pergunta me assalta a mente. Ela poderia ser formulada da seguinte
forma:
Por que o Brasil, desde o início do século XIX até
este início de século XXI, falhou em realizar as promessas de
desenvolvimento contidas na primeira e na segunda revoluções
industriais, ocorridas ao longo do século XIX e no decorrer do
século XX, como fizeram muitos outros países, e por que ele falha,
ainda e sempre, em acompanhar as tendências mais dinâmicas do século
XXI?
Em outros termos, e vista a mesma pergunta por outro
ângulo: o quê, exatamente, nos separa de 1808-1822 em termos de
realizações e conquistas? Ou ainda: será que somos, 200 anos depois,
tão diferentes assim, do que éramos na conjuntura do estabelecimento
da família real portuguesa entre nós?
Estabelecida a hipótese de trabalho, os objetivos do
presente ensaio de revisão histórica poderiam ser assim
estabelecidos: quais eram as condições de partida do Brasil, no
contexto colonial português e europeu?; qual era o peso do Estado,
que sempre constituiu, então e agora, nossa característica
fundamental em termos de organização política e social?; como era e
como está, agora, o ambiente de negócios, provavelmente pavoroso e
piorando?; como andamos de empreguismo estatal e de
irresponsabilidade fiscal?; será que essa mania de construir
palácios para o setor público, como já então se via, é nova?; como
defendemos nossos recursos naturais, econômicos, humanos e
institucionais?; quais eram e quais são as nossas deficiências
essenciais nesse campo?; por que as políticas adotadas por nossas
elites conseguem ser tão equivocadas nos planos macro e no micro?;
qual foi o nosso desempenho econômico em perspectiva comparada com
outros países?; como caminharam os outros?
Enfim, esta tentativa de balanço visa, simplesmente,
analisar de onde viemos e onde estamos atualmente. Acredito,
pessoalmente, que fizemos grandes progressos nestes 200 anos, mas
esses avanços podem, ainda assim, ser considerados insuficientes, em
vista de tudo o que poderíamos ou deveríamos ter feito, e em face
dos enormes desafios que ainda temos que enfrentar para podermos
apresentar-nos ao mundo, 200 anos depois, como uma nação
desenvolvida, o que ainda não somos. Mas, desejo desde já deixar
constância de um fato, que pode ser considerado como uma mera
opinião, mas ela vem sustentada em uma infinidade de “provas
materiais”:
Não, não creio que os portugueses – o povo ou a
família real – sejam culpados pelo que somos ainda hoje, ou seja, um
país industrialmente desenvolvido, mas socialmente iníquo,
economicamente avançado, mas socialmente atrasado, cientificamente
realizado, mas tecnologicamente mal dotado. Não se devem aos
portugueses nossos comportamentos atávicos e nossos fracassos de
modernização. Eles não podem responder pelo que fizemos desde 1822.
Nós mesmos somos responsáveis pelo muito que conseguimos fazer neste
período, em termos de construção da nação, assim como devemos ser
considerados culpados pelo quadro lamentável no plano social ou
educacional que ainda contemplamos hoje.
Parte do que vou aqui dizer – pelo menos a conjuntura
histórica do “processo da independência”, como diria o historiador
Manoel de Oliveira Lima – encontra-se descrito com maior grau de
detalhe na minha contribuição, “A formação econômica brasileira a
caminho da autonomia política: uma análise estrutural e conjuntural
do período pré-independência”, que constitui um dos capítulos da
coletânea coordenada por Rubens Ricupero e Luiz Valente de Oliveira,
sobre Os 200 anos da Abertura dos Portos (São Paulo: Editora
Senac-SP, 2008).
2. O que Portugal nos legou, exatamente?
Uma breve relação do que Portugal implantou na terra
“braziliense” – como diria José Hipólito da Costa, o grande cronista
independente da conjuntura que estamos analisando –, desde o período
colonial até a independência, poderia ser resumida na seguinte
lista:
1. A língua portuguesa, obviamente;
2. Um povo aberto à miscigenação racial;
3. Instituições estatais exacerbadas e muito
centralizadas;
4. Uma diplomacia bastante competente e alerta
aos “negócios” do mundo;
5. Comportamentos rentistas, patrimonialistas e
extrativistas em economia;
6. Um judiciário antiquado, desde a origem, e
provavelmente corrupto, também;
7. Uma religiosidade pervasiva, mas bastante
maleável e integradora, finalmente;
8. Uma introversão nos comportamentos e a
desconfiança do que é estrangeiro.
Não pretendo desenvolver cada um desses pontos de
maneira sistemática, tanto porque alguns deles dispensam maiores
comentários, como o fato da língua portuguesa, por exemplo. A
despeito de não ser ela uma das línguas científicas, de comércio ou
de cultura universal, em virtude da baixa qualificação original de
Portugal nessas áreas, graças ao espírito aventureiro e desbravador
dos líderes do pequeno Estado europeu, ela se espalhou por três ou
quatro continentes, o que hoje permite constituir uma comunidade de
povos lusófonos que pode servir para ampliar os horizontes culturais
e econômicos desse substrato lingüístico. Da mesma forma, a
maleabilidade religiosa e, sobretudo, a racial são dois traços
importantes da nossa nacionalidade, sendo que o segundo é
distintivamente português, embora o primeiro seja mais controverso,
em vista da carolice e do tradicionalismo religiosos de Portugal.
Mas, o confronto com tantos povos e tradições culturais e religiosas
distintas permitiu um sincretismo religioso bastante rico que, ainda
que não existente na metrópole, passou a se desenvolver nas colônias
desde cedo. Quanto à mistura racial, ela constitui um dos traços
mais importantes da nossa formação étnica e, ainda que alguns
estejam, hoje, tentando substituí-la por uma cultura do apartheid
racial – sob a forma de programas de ação dita “afirmativa” e de
valorização da negritude, que nada mais constituem do que um
programa de construção da separação racial e, portanto, do racismo
–, ela deve ser valorizada pelo que representa de legado a ser
projetado no futuro, na certeza de que certamente conseguirá superar
os proponentes atuais do racismo e da separação racial.
Não necessito, por outro lado, deter-me em demasia na
competência diplomática, que constitui, sim, um excelente legado
português, uma vez que as boas heranças devem ser mantidas e
desenvolvidas. Uma atitude auto-congratulatória constitui, porém, a
mais segura receita de estagnação e retrocesso, pois que o excesso
de confiança nas próprias virtudes induz a erros de julgamento e a
uma predisposição para a não-mudança.
Pretendo-me deter em alguns aspectos desse legado
português e verificar em que medida fomos capazes de vencer as
dificuldades do momento inicial – feito de construção da nação
praticamente a partir do zero – e desenvolver nossa capacidade de
vencer novos desafios ao longo do tempo, construindo, ou não, uma
nação inclusiva e próspera.
3. O que falava do Brasil um globalizador
esclarecido do século XVIII?
Comecemos por uma citação de uma mente avançada do
Iluminismo, ou seja, um observador contemporâneo do império colonial
ultramarino português:
“O Brasil converter-se-á num dos mais formosos
estabelecimentos do globo (nada para isso lhe falta) quando o
tiverem libertado dessa multidão de impostos, desse cardume de
recebedores que o humilham e oprimem; quando inúmeros monopólios
não mais encadearem sua atividade; quando o preço das
mercadorias que lhe trazem não mais for duplicado pelas taxas
que andam sobrecarregadas; quando os seus produtos não pagarem
mais direitos ou não os pagarem mais avultados que os dos seus
concorrentes; quando as suas comunicações com as outras
possessões nacionais se virem desembaraçadas dos entraves que as
restringem...”
O
autor desta passagem, absolutamente pertinente para os nossos dias,
é o francês Guillaume-Thomas Raynal, mais conhecido como Abade
Raynal (1713-1796), na Histoire philosophique et politique des
établissements et du commerce des européens dans les deux Indes
(publicada em Amsterdã, a partir de 1770, para o primeiro dos seis
volumes da obra); a tradução deste trecho para o português foi feita
pelo diplomata e historiador Manuel de Oliveira Lima, no D. João
VI no Brasil (3a. ed.; Rio de Janeiro: Topbooks,
1996, p. 58-59).
Incrível, de fato, a atualidade dos argumentos transcritos acima, de
uma das cabeças mais lúcidas do século XVIII francês, um pouco
obscurecido, é verdade, pelos enciclopedistas Diderot e D’Alembert,
com os quais, porém, ele pode ser comparado com grande vantagem.
Anti-escravista em plena era do mais intenso tráfico africano (ele
vinha de uma família de mercadores que enriqueceu no comércio de
escravos), pensador iluminista, profundo conhecedor das coisas do
mundo, mesmo sem ter viajado fora da Europa, o abade Raynal poderia
ser descrito, em linguagem moderna, como um “globalizador
esclarecido”, categoria à qual eu mesmo me orgulharia de pertencer,
se existisse entre nós um tal clube filosófico.
Com
efeito, a sua provocadora Histoire philosophique et politique des
établissemens & du commerce des européens dans les deux Indes
pode ser classificada como o primeiro “tratado da globalização” dos
tempos modernos. Os franceses, sempre suscetíveis nessas coisas de
anglofonia, talvez preferissem chamá-la de premier traité de la
mondialisation. [Nota: Os leitores interessados em ler na
íntegra esta obra, obviamente na
linguagem original de 1770, em
francês, podem descarregá-la, da
base de dados “Frantext”, do Institut National de la
Langue Française,
na
coleção Galica da Bibliothèque Nationale de France,
a partir deste link:
http://visualiseur.bnf.fr/Visualiseur?Destination=Gallica&O=NUMM-89431.]
Raynal começava sua obra proclamando a mudança radical que tinha
sido a passagem do cabo da Boa-Esperança: “uma revolução começou
então no comércio, na potência das nações, nos costumes, na
indústria e no governo dos povos. Foi nesse momento que os homens
dos lugares mais distantes se fizeram necessários: os produtos dos
climas equatoriais são consumidos nos climas vizinhos do pólo; a
indústria do norte é transportada ao sul; os tecidos do Oriente
vestem o Ocidente e, em todas as partes, os homens intercambiam suas
opiniões, suas leis, seus hábitos, seus remédios, suas enfermidades,
suas virtudes e seus vícios” (Nota: minha tradução, a partir do
arquivo acima citado). Continuava, um pouco mais adiante, o abade
Raynal: “Como essas descobertas influenciaram a situação dos povos?
Por que, enfim, as nações mais florescentes não são exatamente
aquelas com as quais a natureza foi mais pródiga?”
Ele
começa, então, a explorar essas questões, partindo do pressuposto da
unificação comercial do mundo sob a hegemonia do se poderia chamar,
hoje em dia, de capitalismo global. Sua análise é absolutamente
atual, podendo-se dizer que seus argumentos se referem exatamente à
globalização
contemporânea.
De fato, as nações mais prósperas não são aquelas mais bem dotadas
de recursos naturais – embora esse fator seja importante, como no
caso dos Estados Unidos – e sim aquelas que desenvolveram seus
recursos humanos. Não fosse assim, o Japão seria um conjunto de
ilhas de desenvolvimento médio, ao passo que os gigantes do
petróleo, como Nigéria, Irã e Venezuela, seriam países
avançadíssimos nos campos social e tecnológico. Esta advertência
inicial serve apenas para moderar o entusiasmo daqueles que
acreditam que o Brasil é um gigante destinado, pela própria
natureza, a ser uma das grandes potências mundiais, apenas por deter
imensos recursos naturais. Nada é garantido, como já ensinava o
abade Raynal em 1770...
Sua
leitura nos relembra, também, no que se refere a cada um dos
pontos
levantados por Raynal, em 1770, é que continuamos a ser extorquidos
por uma multidão de impostos, por um cardume de recebedores, nossas
mercadorias carregam o peso de muitas taxas e ainda enfrentam
protecionismo duplo, aqui e lá fora. Duzentos depois da chegada da
família real e da abertura dos portos, o que temos, é exatamente
aquilo que descrevia o Abade Raynal.
4. Comecemos, justamente, pelos impostos: o que
havia em 1808, o que temos hoje?
O que existia, no momento da chegada da família real?
Esta era a coleção de impostos, taxas e contribuições em vigor em
1808:
(A) Tributos de incidência local: selos, foros de
patentes, taxas do sal;
(B) Tributos de incidência geral: subsídio real
sobre carnes e couros, taxa suntuária sobre lojas e armazéns;
taxa sobre engenhos; sisa de 10% sobre os imóveis; meia sisa
sobre os escravos urbanos;
(C) Impostos sobre o comércio exterior, nos dois
sentidos (a principal fonte de receita, aliás).
Em 1821, quando D. João VI parte de volta a Portugal,
a estrutura tributária do Reino Unido, compreendia, além de muitas
outras taxas gerais (selos, foros de patentes, direitos de
chancelaria, taxas de correio, sobre sal, sesmarias, ancoragens
etc., ou impostos locais cobrados de particulares), os seguintes
direitos e impostos:
1º) subsídio real ou nacional (carne verde,
couros crus ou curtidos, aguardente de cana e lãs grosseiras);
2º) subsídio literário (para custeio dos
mestres-escola, percebido sobre cada rês abatida, sobre
aguardente destilada e sobre carne seca);
3º) imposto em benefício do Banco do Brasil
(12$800 sobre cada negociante, livreiro, boticário, loja de
jóias e artigos de cobre, tabaco);
4º) taxa suntuária (também para o Banco, sobre
cada carruagem de quatro e de duas rodas, navios de três
mastros, lojas de mercadorias e armazéns, 5% da compra de
navios);
5º) taxa sobre engenhos de açúcar e destilações
(variável por província);
6º) décima predial urbana (casas ou quaisquer
imóveis);
7º) sisa (imposto de 10% sobre o valor da venda
de imóveis urbanos);
8º) meia sisa (imposto de 5% sobre a renda de
cada escravo que fosse negro ladino, isto é, que já soubesse um
ofício);
9º) novos direitos (taxa de 10% sobre os
vencimentos dos funcionários da Fazenda e da Justiça)... et
encore...
E agora, em matéria de impostos, taxas e
contribuições, o que temos hoje? Existem, hoje, 76 tributos
federais, 12 estaduais, 15 municipais, além de 5 outros “latentes”,
isto é, que podem vir a ser implementados (entre eles o das “grandes
fortunas”), num total de 109 impostos, taxas e contribuições, sem
contar pedágios e cobranças por serviços específicos. Este é o
quadro de terror tributário, sem considerar a burocracia do sistema
declaratório, que consome dias e dias e de vários contabilistas,
apenas para cumprir as obrigações e provar ao Estado que somos
honestos e cumpridores dos nossos deveres de contribuintes
(tosquiados). De fato, segundo as informações de consultorias
especializadas, numa lista de 178 países, Brasil é aquele em que o
empresário mais perde tempo nessa atividade: são 2.600 horas só para
pagar impostos. O Brasil é campeão na quantidade de horas gastas
para que uma empresa pague todos os impostos e tributos. De acordo
com análise da PriceWaterhouseCoopers, com base nos dados reunidos
pelo Banco Mundial, são necessárias 2.600 horas (352 dias) para que
uma empresa cumpra todas as obrigações fiscais, o que deixa o Brasil
em último lugar entre 178 países.
5. E o ambiente de negócios, como ele tem se
desenvolvido?
Ao chegar à Bahia, em janeiro de 1808, D. João,
príncipe regente, não apenas decreta a abertura dos portos
(absolutamente necessária), mas também aprovou os estatutos da
primeira companhia de seguros, a “Comércio Marítimo”; mandou abrir
uma fábrica de vidro e uma fábrica de pólvora; autorizou o
governador da Bahia a estabelecer a cultura e a moagem de trigo;
mandou abrir estradas, sim estradas (de fato, pouco mais que
picadas...).
O que surpreende no modelo ibérico de administração,
preservado em grande medida até os nossos dias, é que tudo tenha de
ser autorizado ou ordenado pelo príncipe, mediante um decreto, um
alvará régio, um instrumento qualquer da autoridade política. O que,
por outro lado, faz a eficiência do modelo anglo-saxão de
organização social e econômica, é que tudo o que não estiver
expressamente proibido em alguma lei aprovada por um parlamento ou
conselho, está ipso facto autorizado e aberto à iniciativa
privada, exatamente o contrário do que ocorria no mundo português e
ainda ocorre entre nós.
De fato, a julgar pelo PAC, o Programa de Aceleração
do Crescimento, continuamos cingidos pela autoridade política,
circunscritos ao que ela possa determinar, autorizar, permitir, se
dignar a nos deixar trabalhar. A mania que temos de tornar toda e
qualquer atividade dependente das boas graças da administração é
propriamente irracional, sobretudo quando sabemos que o processo
burocrático de autorizações e permissões está eivado de descaminhos
corruptores.
Em outra vertente, mas no mesmo terreno, pode-se
examinar como evoluiu o “ambiente de negócios”. Ao chegar ao Rio de
Janeiro, em março de 1808, D. João, por alvará de 1º de abril,
revogou o alvará de D. Maria I, de 1785, que tinha proibido todas as
indústrias de tecidos no Brasil, exceto as de pano grosso, para os
sacos e escravos. Vinhos, azeites, tecidos e todos os demais
produtos úteis tinham, até então, de ser comprados de Portugal, a
despeito do fato de possuir a colônia plenas condições de
fabricá-los quase todos. Agora, os principais problemas que se
colocam aos candidatos a empreendedores é o número absurdo de
requisitos legais, exigências burocráticas e autorizações variadas
para quem decide iniciar um negócio. Basta consultar o Doing
Business anual do Banco Mundial para constatar que o Brasil
continua a figurar nos últimos lugares do ambiente de negócios.
No plano da indústria, o que ocorria, duzentos anos
atrás? Entre 1810 e 1811, novas medidas buscaram estimular a
indústria local: isenção de direitos sobre fios e tecidos de
algodão, seda ou lã, fabricados no Brasil; foram criados arsenais e
fundições, no Rio de Janeiro, uma indústria de lapidação de
diamantes e um laboratório químico. Eram empresas estatais, com a
eficiência que se conhece nesse tipo de empreendimento. E o que
temos hoje, como pregação industrial? O presidente de um dos
principais órgãos de planejamento estatal, o IPEA, acredita que
novamente enfrentamos a mesma “dependência” da grande empresa
agro-exportadora à base de cana-de-açúcar, como existia no século
XVI. E o que ele propõe para reduzir a suposta “nova dependência”?
Segundo ele, “o Brasil precisa constituir
uma empresa pública de agroenergia” e operar uma “centralização do
comércio da energia renovável no país” (Márcio
Pochmann, presidente do IPEA: “Antídoto ao novo dependentismo”,
Valor Econômico, 01.11.2007). Trata-se, certamente, da
receita mais segura para inviabilizar completamente uma indústria
pujante do etanol e do biodiesel no Brasil, só se justificando como
uma forma de cobrar um “pedágio” dos verdadeiros criadores de
riqueza no Brasil, que são os empreendedores privados.
6. Como evoluímos em termos de respeito aos
direitos de propriedade e ao patrimônio?
Como ensinam os economistas da escola
institucionalista (Douglass North e outros), o respeito aos direitos
de propriedade e aos contratos – duas das mais importantes
instituições da vida econômica – estão entre os elementos mais
relevantes do progresso econômico. Nesse terreno, o legado da
instalação da família real no Brasil não é dos mais edificantes.
Quando a comitiva que acompanhava o príncipe regente
chegou ao Rio de Janeiro, um grave problema habitacional colocou-se:
onde acomodar tantos nobres? Criou-se, então, um sistema das
“aposentadorias”: as casas mais apresentáveis e espaçosas eram
requisitadas em nome do Príncipe, e os locais escolhidos eram logo
pintados com as iniciais “PR”, de Príncipe Regente. Mas, o povo
carioca logo as interpretou à sua maneira, dizendo que
representavam, na verdade, um “Ponha-se na Rua”. Hipólito da Costa
escreveu em seu Correio Braziliense que o sistema das
aposentadorias era um “regulamento medieval”, um “ataque direto ao
sagrado direito de propriedade”, que “poderia tornar o novo governo
no Brasil odioso para o seu povo”. Nem tão medieval assim, uma vez
que ele continua existindo em nossos dias.
O que temos hoje, em matéria de desapropriações
forçadas, é um fenômeno diferente, mas não menos preocupante em
termos de legalidade e respeito aos direitos de propriedade: são
contingentes organizados (em número relativamente desconhecido) de
“sem-terra” e de “sem-teto” profissionais que, alimentados por
cestas básicas fornecidas pelo próprio Estado e arregimentados de
forma quase militar por organizações igualmente sustentadas pelo
dinheiro estatal, se dedicam a invadir propriedades rurais e urbanas
em nome da “justiça social”. Eles o fazem invocando “direitos”, que
sempre são os seus direitos particulares, não os direitos da
coletividade. De fato, a Constituição brasileira de 1988 contém 76
vezes a palavra “direito”, muito poucas vezes a palavra “obrigação”,
raríssimas vezes a palavra produtividade e quase nenhuma o conceito
de eficiência.
Mas, talvez esses ataques ao direito da propriedade,
e aos cofres públicos – pois é deles que sairão os recursos para
garantir tantos direitos a terras e moradias – não sejam os mais
lesivos ao erário público. Passados duzentos anos de desapropriações
estatais para acomodar os poderosos do momento, o que temos hoje em
matéria de “acomodação” dos nobres servidores do Estado? A
transcrição de uma matéria da Folha de
São Paulo,
de 22.10.2007, nos informa que: “Judiciário vai gastar R$ 1,2 bi
para construir três tribunais”. Subtítulos esclarecedores:
“Procuradoria investiga suspeita de desperdício de dinheiro e
superfaturamento”; “Presidente do Tribunal Regional Federal de
Brasília terá um gabinete 4 vezes maior que o de Lula”.
Vale a pena transcrever
alguns pontos da matéria: “O Judiciário vai gastar R$ 1,2 bilhão na
construção de três suntuosas sedes de tribunais com suspeitas de
desperdício de dinheiro público, direcionamento de licitações e
superfaturamento. Os custos estimados pelos tribunais poderão
aumentar até o final das obras. O Tribunal Regional Federal da 1ª
Região, em Brasília, decide nesta semana quem tocará uma obra de R$
489,8 milhões com área total de construção maior do que a do
Superior Tribunal de Justiça. Nas novas instalações, o presidente do
tribunal e seus assessores ocuparão um gabinete quatro vezes maior
do que o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Ministério
Público Federal pediu a suspensão das obras e a anulação da
licitação para a construção da nova sede do Tribunal Superior
Eleitoral, estimada em R$ 336,7 milhões.”
7. Como evoluímos em matéria de empregos públicos?
A fuga da família real não se restringiu, como se
sabe, a meia dúzia de ministros e algumas dezenas de funcionários do
Estado. Foram alguns milhares de “dependentes” do Estado que
precisavam ser agraciados com os favores da corte. Apenas a título
de comparação mencione-se que em 1800, ao transferir a capital da
Filadélfia para Washington, o presidente John Adams trouxe consigo
cerca de 1.000 funcionários governamentais. Com D. João, vieram
entre 10 e 15 mil funcionários portugueses, segundo as crônicas
históricas.
Era preciso dar emprego para toda essa gente. Na
verdade, muitos deles não trabalhavam, consoante seu estatuto de
“nobres” (aos quais não se permitia o exercício de alguma atividade
“manual”. Em Portugal, para sermos precisos, não eram muitos os
nobres, mas o coração generoso de D. João se encarregaria de criar
muitos mais, ao aqui chegar, pela prática de enobrecer aqueles que
tinham cedido suas casas, contribuído financeiramente para a
manutenção da corte, participado na constituição do Banco do Brasil
e outros favores mais.
Como esclarece um historiador: “Os indivíduos
enobrecidos, agraciados com hábitos ou comendas, entendiam não lhes
quadrar mais comerciar, sim viver das suas rendas, ou melhor ainda,
dos empregos do Estado. Avolumar-se-ia desta forma o número dos
funcionários públicos, com o rancor dos burocratas do reino, que
tinham acompanhado a família real ou chegavam seduzidos por essas
colocações em que as fraudes multiplicavam os ganhos lícitos, muito
pouco remunerados” (Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, p.
57). E não eram poucos, os candidatos a um emprego público: além da
família real, 276 fidalgos e dignitários régios recebiam verba anual
de custeio e representação, paga em moedas de ouro e prata,
retiradas do erário real; havia ainda 2000 funcionário reais, 700
padres, 500 advogados, 200 praticantes da medicina, entre 4 e 5 mil
militares, todos vivendo em torno da Coroa. Um dos padres recebia
250 mil réis (14 mil reais de hoje), só para confessar a rainha
(Fonte: Luiz Felipe Alencastro, “Vida privada e ordem privada no
império” in História da Vida Privada no Brasil, vol. 2, p.
12).
Hoje, o que temos, exatamente, em matéria de
sanguessugas do Estado? As prebendas estatais, deve-se reconhecer,
se democratizaram: o número de funcionários públicos tem
experimentado uma curva ascendente no atual governo, que criou ou
recriou dezenas de estatais (a última sendo um TV estatal), expandiu
cargos de confiança devidamente aparelhados pelo partido no poder, e
se esforça para convencer a população que para melhorar o serviço
público é preciso contratar mais gente.
8. Como foi o nosso desenvolvimento econômico
comparado com outros países?
Como se situava o Brasil no confronto econômico com
outros países? Éramos pobres, mas os demais países não eram muito
mais ricos do que nós. No início do século XIX, a divergência
econômica entre os países ainda não tinha alcançado os patamares que
ela ostentaria um século depois. Segundo os dados comparativos
coletados em bases homogêneas pelo economista-historiador Angus
Madison, a distância entre o Brasil e países como México ou Japão
não era significativa, assim como era relativamente pequeno o
diferencial de renda em relação à maior parte dos países, com
exceção dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, então a economia mais
avançada em termos de renda em função do seu pioneirismo na
revolução industrial, sendo o país americano o seu êmulo direto
nesse processo. A tabela seguinte dá uma idéia dos valores em
dólares constantes (atualizados para 1990, segundo os cálculos de
Angus Madison) e sua proporção em relação ao Brasil:
|
PIB per capita e
comparações entre os países, 1820 |
|
Países |
PIB per capita |
Brasil = 100 |
|
Brasil |
670 |
100 |
|
México |
759 |
113 |
|
Japão |
669 |
99 |
|
França |
1.230 |
183 |
|
Estados Unidos |
1.257 |
232 |
|
Grã-Bretanha |
1.707 |
254 |
Como foi a nossa evolução
desde então? A mesma tabela pode ser
construída com valores mais atuais:
|
PIB per capita e
comparações entre os países, 1998 |
|
Países |
PIB per capita |
Brasil = 100 |
|
Brasil |
5.459 |
100 |
|
México |
6.655 |
122 |
|
Japão |
20.084 |
368 |
|
França |
19.558 |
358 |
|
Estados Unidos |
27.831 |
500 |
|
Grã-Bretanha |
18.714 |
342 |
A distância só fez aumentar, evidenciando o nosso
baixo dinamismo econômico no longo período decorrido desde então.
Aqui, os mesmos resultados em visão diacrônica:
|
Evolução histórica do
PIB per capita, 1820-1998 (1820 = 100) |
|
Países |
1900 |
1998 |
|
Brasil |
105 |
814 |
|
México |
152 |
876 |
|
Japão |
161 |
3.002 |
|
França |
233 |
1.590 |
|
Estados Unidos |
318 |
2.174 |
|
Grã-Bretanha |
261 |
1.096 |
Muito desse baixo dinamismo econômico pode ser
explicado por nossa pequena abertura internacional. Uma comparação
de nosso coeficiente de abertura externa revela a reduzida
participação do comércio exterior na formação do PIB, quando é pelas
transações externas que se realizam as incorporações de capitais e
tecnologias modernizadoras. No período recente, em particular, nosso
crescimento tem sido pífio em relação à média mundial e, sobretudo,
em relação aos emergentes dinâmicos da Ásia oriental. Considere-se,
por exemplo, o PIB per capita da Coréia do Sul que, em 1960,
representava 50% do valor do PIB per capita do Brasil. Atualmente, o
país asiático nos superou por uma razão de três. Na média, o
crescimento dos países emergentes nos últimos dez anos tem sido três
vezes superior ao do Brasil, que cresce mais ou menos a metade do
PIB mundial. Nesse ritmo, nossa renda per capita vai dobrar apenas
em três gerações (75 anos), ao passo que a da China dobra a cada 17
anos.
9. E o que a nossa Constituição tem a ver com tudo
isso?
Bem, aqui já não estamos falando de nenhum legado
português, e sim de problemas e deficiências “made in Brazil”. O
fato é que, desde a promulgação da Constituição de 1988, a carga
fiscal promovida pelo Estado predador aumentou inapelavelmente a
cada ano, passando de um quarto do PIB a mais de um terço (e
crescendo continuamente). Em comparação mundial, nos situamos
atualmente no nível dos países da OCDE – que dispõem de uma renda
per capita seis vezes superior à nossa –, o que representa cerca de
dez pontos percentuais acima da média dos paises emergente e vinte
pontos acima dos mais dinâmicos.
A lista de problemas brasileiros é muito extensa, mas
ela poderia ser resumida da seguinte forma:
1. Constituição detalhista, intrusiva, concedendo
muitos “direitos” e demandando muito poucas obrigações;
2. Estado extenso, também intrusivo, perdulário,
gastador, “burrocrático” e gigantesco;
3. Regulação microeconômica hostil aos negócios e
ao trabalho, dando pouco espaço às relações autoreguladas e
diretamente contratuais;
4. Monopólios em excesso, cartéis e restrições de
mercado, pouca competição e muitas barreiras a novos ofertantes
de bens e serviços;
5. Reduzida abertura externa, seja para comércio,
investimentos ou fluxos de capitais, criando ineficiências,
altos custos e preços, ausência de competição e de inovação;
6. Sistemas legal e judicial atrasados,
permitindo manobras processuais que atrasam a solução das
disputas e aumentam custos de transação.
Uma agenda das reformas absolutamente necessárias
para sustentar um processo sustentado de crescimento econômico, não
detalhada no presente ensaio por razões de espaço, compreenderia
ações nos seguintes campos: político, tributário, educacional,
previdenciário, trabalhista e no da governança pública. A reforma
política, deveria começar pela Constituição (operando uma limpeza em
regra); ela continuaria pela redução das legislaturas nos três
níveis (a representação parlamentar é excessiva, com enormes gastos,
injustificáveis); passaria pela reforma eleitoral ( com a introdução
do sistema distrital misto) e atingiria a estrutura partidária
(diminuindo o “mercado” político que hoje impera no Congresso).
A tributária choca-se com o problema da federação,
mas deveria ser uma reforma completa, macro e micro; ela começaria
por uma simplificação tributária geral e caminharia no sentido da
redução progressiva dos tributos; teria continuidade na abertura
econômica, com redução dos impostos alfandegários, e passaria também
pela liberalização do comércio e dos investimentos estrangeiros;
concederia, por fim, incentivos à inovação (reforço da propriedade
intelectual).
A reforma educacional deveria concentrar-se no ensino
básico, prevendo capacitação de professores, a introdução de um
regime meritocrático de avaliação e de remuneração. Em qualquer
hipótese, se deveria conceder prioridade absoluta de recursos para
os dois primeiros ciclos de ensino, concedendo-se a tão solicitada
autonomia universitária, igualmente em termos de orçamentos. No
plano da seguridade social, impõe-se, antes de mais nada corrigir o
festival de privilégios ainda existentes, ou seja, reduzir os
benefícios abusivos do setor público; depois, seria necessário
ampliar os prazos e as idades mínimas, modular as contribuições em
função de uma relação estrita entre pagamentos e benefícios, com
garantias mínimas, suprimir os regimes especiais e diminuir os
desincentivos derivados dos direitos garantidos.
Quanto à reforma trabalhista (e sindical), o ideal
seria a flexibilização da legislação (mais contratualismo e
negociações diretas entre as partes), a eliminação da Justiça do
Trabalho (por ser, na verdade, uma instância estimuladora de
conflitos, substituindo-se a ela o regime arbitral) e operar de vez
a extinção da Contribuição Sindical, que cria sindicatos de papel.
Finalmente, quanto à governança pública, o que se pretende seria uma
redução radical do governo (que seria mantido sob dieta estrita), a
retomada das privatizações, o reforço das agências reguladoras e o
fim da estabilidade do funcionalismo público.
Existe alguma chance de sucesso num programa desse
tipo? Duvidoso. O Brasil está provavelmente condenado ao baixo
crescimento, à preservação de uma estrutura social iníqua e ao baixo
dinamismo nos processos de inovação e modernização. Esse tipo de
desempenho não é inédito em termos históricos: antes de nós, a
Grã-Bretanha e a Argentina constituíram as duas evidências mais
remarcáveis de uma longa decadência e de empobrecimento contínuo.
Talvez o Brasil seguirá o mesmo caminho pelos próximos 20 anos ou
mais. Não é certo, mas é provável que isso ocorra, em vista da nossa
incapacidade de empreender as reformas que são necessárias para
corrigir as deficiências atuais do nosso sistema (que, repita-se,
não têm mais nada a ver com o legado português). A responsabilidade
está com cada um de nós… |
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