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JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP
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Subir, subir, em chão escorregadio
por
José de Souza Martins
Parece
muito animadora a constatação, em pesquisas do DataFolha, de que nos
últimos cinco anos 20 milhões de brasileiros passaram das classes
D/E para a classe C, fenômeno que se acentuou a partir de 2006. O
País vai sendo beneficiado pelas políticas sociais inauguradas bem
antes do governo Lula e que nele se consolidam como instrumentos de
um sistema de poder e, provavelmente, de uma nova era política. Nem
tudo nesse sistema é visível e nem tudo é explicado. Nem por isso
deve-se deixar de reconhecer que, como ocorria no governo anterior,
aumentou a escolaridade e caiu a mortalidade infantil.
É verdade que monitoramentos internacionais colocam a
nossa educação entre as piores do mundo, nossos alunos com níveis de
aprendizado muito aquém do necessário e desejável. Verdade, também,
que favelas e cortiços desaparecem apenas quando os despejos
ocorrem, para rebrotarem em outro lugar e não porque tenha havido
significativa melhora nas condições de vida dos pobres.
O PróUni abriu portas de escolas superiores para
milhares de jovens, mas sabe-se que é maior a proporção de
desemprego entre os trabalhadores com mais escolaridade. Mesmo
assim, foi muito bom para os jovens, pois passam para um patamar
mais alto de acesso à cultura. Tornam-se mais competentes para
enfrentar as adversidades do mercado de trabalho.
Nesse cenário de ganhos e perdas, as políticas
sociais fazem o que podem para manter algum equilíbrio na sociedade.
Para assegurar, também, alguma fonte de esperança numa sociedade que
já teve maiores e melhores esperanças, baseadas em aspirações
sociais e não apenas em aspirações individuais. Os anos 70 foram os
anos que demarcaram a grande virada na concepção de ascensão social,
de passagem individual ou familiar de uma classe para outra. Até
então, mais se subia do que se descia. Mas já estávamos chegando a
esta era de estagnação social com crescimento econômico. Os mesmos
dados do DataFolha mostram que as classes A e B praticamente não
receberam novos membros, no pequeno crescimento que tiveram. A
mobilidade ficou restrita às quireras da pobreza, mais pobre ou
menos pobre, mas pobre, nas esperanças fictícias dos pequenos ganhos
adicionais em relação ao já insuficiente. Mera escalada social nos
degraus inferiores da sociedade.
A ideologia da ascensão social pelo trabalho surgiu e
se difundiu entre nós com o fim da escravidão. Num emblemático
discurso no Senado do Império, em 1888, Antônio da Silva Prado, de
uma família de grandes fazendeiros e grandes empresários, principal
patrono da abolição da escravatura e da imigração subvencionada pelo
Estado, como fonte substitutiva de mão-de-obra escrava por
mão-de-obra livre, explicou ao Parlamento que o País não precisava
do que chamaríamos hoje de reforma agrária. Se o trabalhador “fosse
morigerado, sóbrio e laborioso” poderia formar pecúlio para comprar
a terra que seria sua e o tornaria dono de seu trabalho. Essa
ideologia difundiu-se também na indústria e no meio operário, eficaz
no ritmo lento mas seguro das conquistas, como a casa própria e a
educação de filhos e netos, que se estendiam por duas ou três
gerações. Hoje, as aspirações são pequenas e urgentes, como fica
evidente entre os jovens de Notícias de uma Guerra Particular,
de João Salles. Vive-se pouco, apenas intensa e quantitativamente. O
ter ganhou precedência em relação ao ser.
A difusão da ideologia da ascensão social pelo
trabalho, a partir do final do século XIX, era própria de uma
sociedade que já não precisava da chibata para fazer o outro
trabalhar. No trabalho livre, é preciso motivo e motivação. Em vez
da ameaça de um castigo, a promessa de um prêmio. Por mais de 70
anos essa ideologia regeu as relações de trabalho no Brasil,
chegando aos tempos do populismo de Vargas. O populismo não
desapareceu, hoje personificado por Lula. Mas encolheram e mudaram
as condições da mobilidade de classe. O aclive da pirâmide social
ficou penoso de escalar e não raro escorregadio.
Essa ascensão social baseada no trabalho cedeu lugar
ao alpinismo social baseado na esperteza e, não raro, na corrupção,
de grandes e de pequenos, na sonegação de impostos, nos truques que
já valem mais do que o trabalho. Além do que, hoje a mobilidade
social é muito menos de natureza econômica e muito mais de natureza
simbólica, como o diploma de curso superior, o vestuário, o carro,
mesmo o carro velho, pequenos itens de consumo ostensivo que podem
chegar até os prisioneiros dos recintos de confinamento econômico,
como os moradores das favelas. Dão-lhes o disfarce visual que os
torna socialmente iguais, embora economicamente mais desiguais do
que foram os seus colegas dos anos 30 aos anos 70.
A precedência até política do simbólico disseminou
filigranas conceituais como as que se propõem em debates e escritos
sobre as diferenças econômicas entre indigentes, miseráveis e
pobres. Quando indigentes se tornam apenas miseráveis o salto,
meramente estatístico, dissemina a ilusão do progresso e esconde o
drama da falta de desenvolvimento econômico e, sobretudo, de
desenvolvimento social. Quando miseráveis se tornam pobres,
incontida e nem um pouco desconfiada euforia nos invade a todos, na
certeza de que o Brasil errado está dando certo. Nessa perspectiva,
bastaria que os ricos tivessem mais filhos para diminuir a proporção
de pobres. No entanto, tudo continuaria na mesma, como continua. Um
dos grandes especialistas no assunto já sugeriu que bastaria dar
pouco mais de R$ 10 por mês a cada miserável para que os miseráveis
desaparecessem das estatísticas. Mas, sociologicamente, convém
lembrar, a indigência, a miséria e a pobreza continuariam intocadas.
Nessa anulação da própria concepção de classe social,
em favor da mera classificação por estratos econômicos de pobreza,
vai-se ao extremo de discutir a má distribuição de renda, tomando
como referência os próprios assalariados. O abismo que separa o
salário mínimo dos salários decentes e justos é sempre tomado como
indício de injustiça social. Justificativa para medidas e
providências no sentido de achatar os salários só relativamente
altos para não tocar nos ganhos do crescimento econômico até
escandaloso porque sem real distribuição de renda.
Não é estranho que não se inclua o livro ou a música
nas necessidades vitais dos que trabalham e vivem de seu trabalho e,
portanto, na definição do salário justo. Ou a escola em tempo
integral para crianças e adolescentes e o bem estar de idosos e
aposentados. Porque isso seria estabelecer o desenvolvimento social
como premissa do crescimento econômico. Sem poesia, o crescimento
econômico é uma fraude.
Poucos se lembram de incluir nas cogitações sobre a
economia a necessidade que os trabalhadores tem de salários
suficientes para assegurar a habitação que lhes permita morar como
gente. Gente que trabalha duro para pagar a habitação cara, os
impostos iníquos, os equipamentos de identificação, como o traje e
os outros itens de apresentação pessoal, sem os quais o emprego
dança, a auto-estima declina e a sociabilidade, que nos faz
diferentes dos porcos e muares, sucumbe.
A escalada dos 20 milhões de brasileiros, que mudaram
de categoria econômica, deslocados alguns centímetros na pirâmide
social, se baseia na contagem de itens de consumo no domicílio,
escolarização do chefe de família e existência ou não de empregado
doméstico trabalhando para a família. Não se baseia nos itens
próprios da condição de classe, não só bens, mas modo de vida, visão
de mundo, direitos, esperanças e realizações. O que aí se mede não é
classe social nem progresso social, mas simplesmente potencial de
compra para consumo. Incrível: os socialmente excluídos do discurso
assistencialista e caritativo estão incluídos, movem-se no interior
do mercado, compram, consomem, fazem o dinheiro circular. A pobreza
é lucrativa.
Esse número indica os efeitos das chamadas políticas
sociais, sobretudo a Previdência e o Bolsa-Família. Porém, essa
melhora não retrata desenvolvimento econômico, mas tirania
tributária. Não resulta na multiplicação de empregos formais ou
melhora de salários que promovam um fluxo crescente de renda e
emprego. A informalidade aí está, sem declínio efetivo, como cruel
hipoteca sobre a velhice da juventude atual.
Há um lado não cogitado do Bolsa-Família que poderia
inspirar outra modalidade de política econômica, liberta da
ideologia da caridade, sensível à dignidade da pessoa que dela
depende. Segundo estudo da revista Exame o Bolsa-Família tem
nas grandes cidades um efeito-multiplicador de renda e emprego que
não tem em outras regiões e no meio rural. Dá certo onde existe um
potencial de mercado e de serviços. O que indica, também, que a
possibilidade da ascensão social renasce, encolhida, já não como
fruto exclusivo do trabalho, mas fruto de empreendedorismo de
pequena escala, a criatividade do povo como capital social e o
dinheiro do Bolsa-Família como capital econômico que abre efetivas
possibilidades de ascensão social.
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