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MÁRIO MAESTRI
59, é historiador e
professor do PPGH da UPF
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Tropa de Elite: matando pelo bem do Brasil
por Mário Maestri
Em
"Tropa de Elite", o singular não é o filme em si, mas o estrondoso
sucesso, antes mesmo do seu lançamento, obtido através da venda de
cópias pirata de dvds. Como película, a obra de José Padilha
repete em geral as receitas inovadoras de "Cidade de Deus", sem o
brilho do célebre longa-metragem de Fernando Meirelles: a
criminalidade urbana como tema; o narrador como condutor da trama;
os quadros dinâmicos em uma sucessão de clips. Uma espécie de
plágio doce devido parcialmente ao fato de Bráulio Mantovani assinar
os roteiros das duas películas.
Na essência, os filmes são opostos. Em "Cidade de
Deus", através da história da comunidade homônima, Fernando
Meirelles relata a construção social do criminoso, para propor
superação individual pela arte, pelo trabalho [fotografia] e pelo
abandono do seu mundo, do destino do jovem favelado ao crime.
Mantendo-se nos marcos da leitura da favela pela cidade, a câmara de
Meirelles procura dar a voz aos protagonistas. No fundo, é leitura
social otimista, ainda que ingênua.
Não há meias cores em "Tropa de Elite", apesar do
sinistro claro-escuro em que o filme se move permanentemente. Os
protagonistas e antagonistas são feitos de uma só peça: corruptos ou
honestos às vísceras. Os únicos heróis, profundamente humanizados,
são os policiais do BOPE, a sinistra tropa de elite carioca que, no
filme, tortura, mata e morre em desesperada e incompreendida última
defesa da civilização contra a barbárie, da cidade contra o morro.
Ao iniciar a película, o narrador traça o quadro geral maniqueísta,
sumário e simplista: "Se o Rio dependesse só da polícia tradicional,
os traficantes já teriam tomado a cidade [...]."
"Tropa de Elite" não cria muito. Limita-se a encenar
sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias
endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime,
corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão
sem piedade. O “Brasil está em guerra”, grita-se de todos os lados,
exigindo-se tratamento implacável para o inimigo próprio aos
conflitos nacionais. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa
parcela da população que materializa e potencializa, no sentimento
de insegurança pessoal, o stress permanente produzido pelas
incertezas e insatisfações crescentes da vida quotidiana.
Nos seus limites, o filme possui soluções imaginosas,
como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao
apresentar a execução do horrível traficante "Baiano",
branco, pelo honestíssimo e muito humano Matias,
policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática
superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador
dos assassinatos e de sessões de tortura e homem sensível à espera
do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende, às
custas de sua permanente descida ao inferno.
O deputado quer apenas saber o "quanto" vai ganhar,
ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes
discutem as causas e soluções da marginalização social, citam
Foucault, mas são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de
criminosos. São os verdadeiros responsáveis pelos crimes do
traficante, ao pagar pela droga maldita. Nesse mundo em
degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura
ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que
entregam dilacerados a vida se necessário no cumprimento de suas
missões. Tudo pelo bem do Brasil.
José Padilha apenas dramatiza a apologia das
execuções de populares pelas forças policiais, sob as ordens e
cumplicidade das autoridades e os aplausos dos meios de comunicação.
Em “Pixote”, Hector Babenco humanizou o delinqüente, como ser social
fraco, eternamente perdedor. Em "Carandiru", denunciou sem maior
sucesso o mega-massacre da polícia militar paulista. Invertendo o
sinal, "Tropa de Elite" glamouriza mortandades como as do
Complexo do Alemão, em junho deste ano, levando a platéia ao orgasmo
coletivo com a tortura do prisioneiro rendido, que expia na dor de
seu corpo, o pecado social praticado, como o negro cativo, que
pagava na senzala, com bolos nas mãos, pés e nádegas, a
vagabundagem, desrespeito, furto e trabalho malfeito, sob o olhar
aprovador da casa-grande, angustiada com o desbunde da ordem
constituída.
Através da escusa da encenação do real, "Tropa de
Elite" radicaliza as propostas de "Tolerância Zero" com a
criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia
estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações
de séries como "Lei & Ordem" sobre a legitimidade da execução e da
tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do
terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.
Nos anos de chumbo, Fleury e sua escuderia
maldita matavam e torturavam nas sombras, para manter através do
medo e do terror a disciplina social. Hoje, Nascimento e seus
boys fazem igual, tintim por tintim, no cinema e na vida real,
sob os aplausos da mídia e de enormes setores da população.
Embarcando no bonde do consenso fácil, intelectuais de todos os
sabores clamam por medidas excepcionais, repetindo como o
sicário da ditadura, debruçado sobre a vítima inerme: – “Guerra é
guerra, meu filho”!
Em fins dos anos 1980, o sucesso da sub-literatura de
tema esotérico de Paulo Coelho registrou a crise geral da confiança
nas soluções sociais racionalistas, devido à vitória mundial da maré
neoliberal. O sucesso multitudinário de Tropa de elite é
sobretudo depoimento inarredável da barbarização social do Brasil de
nossos dias, onde a tortura e a execução sumária, contra setores
pobres da população, tornam-se medidas de profilaxia social
geralmente aceitas.
No mundo fantástico do segundo governo Lula da Silva,
enquanto cresce a dilaceração dos laços sociais e nacionais, os
ricos tornam-se mais ricos e as classes médias viajam ao exterior
despreocupadas com a inevitável ressaca do dia seguinte do
real-maravilha. Ao povão imenso sem rosto visível, a bolsa-família,
o trabalho precário, o salário miserável, o arranjar-se como for
possível nas filas do INPS, do SUS, dos que procuram trabalho com
carteira assinada, na luta cada vez mais dura e crua pela existência
de cada dia.
O sucesso de "Tropa de Elite" registra o
conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da
fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças
populares tradicionais na corrupção. Tudo enquanto empresários,
políticos e administradores farreiam-se seguros da impunidade total,
com o recurso, a renda, o trabalho nacional. É enorme vitória dos
poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da
insegurança e fragilidade nacional, distribuindo a morte entre os
pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. "Tropa de elite, osso
duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!" E, se não
te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo.
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