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WILSON
F. CORREIA
Desenvolve pesquisa de doutoramento
em educação na UNICAMP. É mestre em Educação pela UFU. Cursou
especialização em Psicopedagogia pela UFG. Graduou-se em
Filosofia pela UCG. É professor universitário. É autor de
Saber Ensinar. São Paulo: EPU, 2006
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Ensino de Filosofia: o caso de Ética nos PCN
por Wilson F. Correia
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Resumo
O presente artigo indaga
se a ética como saber escolar não deveria ter sido
incluída nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)
como disciplina curricular normal, em vez de ser como
tema transversal como acabou acontecendo. Desenvolvido
segundo uma metodologia crítico-analítica, este trabalho
problematiza os dispositivos curriculares oficiais sobre
o ensino de filosofia, em particular a ética. Conclui
que o ensino desse saber se fez pulverizado como tema de
todas as disciplinas, o que pode não contribuir para o
enfrentamento de nosso ethos concreto. De outra
forma, sustenta que, como tema transversal, a ética pode
contribuir para a justificação da ideologia liberal, a
qual equipara cidadania e consumo, ética e imperativo da
sociedade de mercado e democracia e consenso, de modo a
potencializar o individualismo, a competitividade
capitalista e a cultura de massas das sociedades
liberais.
Palavras-chave: PCN,
Educação, Currículo, Ética, Cidadania |
Introdução
Estudos sobre as propostas de políticas públicas
ocorridas na década de 1990, a educação aí incluída, evidenciam que
elas se deram no contexto das mudanças ocorridas no interior do
sistema capitalista liberal e que acabaram se estendendo ao corpo
social amplo onde ele impera. Concorreram de modo especial para
essas tentativas de rearranjo societário em nível mundial o
enfraquecimento do estado de bem-estar social keneysiano, o
esgotamento das experiências socialistas reais e o fortalecimento do
receituário neoliberal para uma nova configuração social, econômica,
política e cultural das nações capitalistas.
Nesse contexto, a educação e o currículo foram (e
ainda estão) sendo afetados e redimensionados segundo os ditames da
globalização neoliberal. Daí os currículos reprodutores, a ética
individualista e a cidadania identificada com a idéia de
cliente-consumidor.
Se tais rearranjos remetem às relações entre Estado e
sociedade, o que assistimos nesse caso é que a noção
tecnocientificista relativa ao gerenciamento da coisa pública conduz
à preferência da competência técnica em prejuízo de
pressupostos éticos, valendo a ideologia, e não a vida real. E
isso tem a ver com a potencialização do privado, do mercado
desregulado e com a diminuição do Estado no que se refere à garantia
dos direitos sociais ao indivíduo que, num mundo mercadorizado, tem
de atuar como consumidor. É exatamente no vazio deixado pelo Estado,
minimalizado como ente regulador das relações sociais, que emergem as
exigências em torno de novos fundamentos éticos.
Modelos de formação ética segundo os PCN
No contexto descrito anteriormente, uma reforma
curricular que inclua o ensino de ética pode não ir muito além dos
interesses que presidem os modos de organização societária que
atribuem ao capital a tarefa de governar, deixando ao Estado a
tarefa precípua de administrar. Preso a esse círculo, dados os
interesses privados, que acarretam empecilhos quase intransponíveis
por sua inflexibilidade, o currículo pode assumir uma função
ideológica, justificando esses imperativos, até se valendo da ética
para ocultar os reais parâmetros segundo os quais a vida pessoal e
social está sendo conduzida em nossa sociedade.
Sobre ética e currículo, por exemplo, o PCN8 (BRASIL,
1997) registra cinco experiências educacionais de formação moral:
“filosófica, cognitivista, afetivista, moralista e da escola
democrática”.
A tendência filosófica é a dos sistemas éticos
produzidos no âmbito da filosofia e pode ser exemplificada pelos
gregos e pelos iluministas do século XVIII. A característica dessa
tendência é que ela não se preocupa em apresentar o que é o bem
e o mal, já que o seu foco são as diversas opções de
pensamento ético. Conhecendo esses modos de pensar a ética, o
estudante pode refletir sobre eles e, se for o caso, escolher o que
mais lhe convém.
A tendência cognitivista é centrada no
raciocínio e na reflexão para a elaboração de juízos morais, não
apresentando conjunto de valores a ser ensinado e aprendido. Difere
da tendência filosófica pelo conteúdo, pois a cognitivista adota os
dilemas morais a serem debatidos em grupo, ao passo que a filosófica
adota as obras dos grandes filósofos como materiais de estudo,
reflexão e elaboração de juízos morais.
A tendência afetivista propõe a busca do
equilíbrio e do crescimento pessoais por meio de técnicas
psicológicas. O que importa é que o estudante fique de bem consigo
mesmo, igual a como se submete a terapias psicológicas. A diferença
entre afetivismo e cognitivismo é que, em lugar de dilemas abstratos
do cognitivismo, na afetivista o conteúdo de ensino vem da própria
história de vida dos estudantes.
A tendência moralista é caracterizada por seu
objetivo normalizador, prescritivo. Valores e atitudes corretas
definidas a priori constituem seu conteúdo de ensino. E,
diferentemente das tendências afetivista, cognitivista e filosófica,
esta propõe estratégias de formação moral baseadas em um conjunto de
valores a ser transmitido aos estudantes.
A tendência da escola democrática não exige
momento reservado à aula de ética, preconiza a democratização das
relações interpessoais na escola e possibilita a cada estudante
participar da elaboração de regras de conduta e tomada de decisões
sobre problemas reais. Essas atividades são importantes ao alcance
da qualidade das relações escolares. A democracia é um modo de
convivência e os aprendizes devem experienciá-la na escola.
A opção pelo escolanovismo feita pelos PCN
O que parece evidente é que a proposta de ensino de
ética nos PCN baseia-se no escolanovismo de John Dewey (1973) e em
pressupostos de natureza construtivistas. O que o documento exclui é
a idéia de ética como uma disciplina filosófica, psicologizando-a
abertamente. Aí, a ênfase nas relações interpessoais no interior da
escola ganha todo o destaque, uma vez que a pressuposição é a de que
a vida escolar democrática serve de treinamento para o grande
consenso a ser vivido fora da escola.
Mas, uma análise acurada pode evidenciar que os
objetivos propostos no PCN8 se voltam para a moralização do
estudante, uma vez que os conteúdos respeito mútuo, justiça, diálogo
e solidariedade têm de possibilitar a instauração da comunidade
democrática, circunscrita ao convívio escolar. Em contraposição,
para possibilitar o exercício crítico por parte do estudante, a
sociedade em sua complexidade é que deveria ser objeto de estudo,
coisa que o PCN em questão não propõe. Se a proposta fosse nessa
direção, haveríamos de notar que, em uma sociedade na qual é visível
a prevalência legalista da dimensão civil da vida, esse trabalho
pedagógico teria de se encaminhar rumo à desconstrução de nosso
ethos, o que não coincide com o que é preconizado nos PCN.
Evidenciar os meandros de nosso ethos é adotar
a postura de ver a realidade tal qual ela é. Entretanto, essa
radicalidade não foi para esse documento, evidenciando que
disciplinas filosóficas, que podem possibilitar criticidade, não
lograram cidadania curricular dada a outras. Daí, a pergunta: se é
verdade que o estudante tem direito ao exercício da criticidade, por
que a filosofia, de que ética é parte, foi banida dos PCN? Por que,
nos PCN, fala-se tanto dos conceitos de criticidade, autonomia,
emancipação e felicidade, mas, ao mesmo tempo, nega-se ao estudante
o direito de fazer o percurso filosófico que poderia auxiliar na
aquisição da compreensão sobre esses bens simbólicos?
Talvez, com base nesse entendimento, a
transversalidade poderia ser mais bem encarada, não apenas como uma
questão didática, de relação entre as disciplinas. Uma
transversalidade diferente da dos PCN pode transcender a
epistemologia e abarcar outras áreas da ação humana, inclusive a
escola e o currículo. Transversalidade é um estilo de ser-estar-agir.
Por isso, pelo fato de nossas escolas e currículos ainda manterem
uma estrutura disciplinar, a ética só fará sentido no currículo se
lhe for dado o status de disciplina. Talvez nessa condição,
porque fática, e não fictícia, a ética filosófica poderia vir a
transversalizar com outros saberes escolares. Problemática é a
situação criada pelos PCN que, ao diluírem a ética em todas as
áreas, não a coloca em nenhum lugar.
Pelo que pode ser compreendido em uma perspectiva
diferenciada da dos PCN, o processo curricular, cuja função não deve
ser apenas a de hierarquizar áreas e temas, implica lidar com a
parte dos bens simbólicos socialmente produzidos e passíveis de
escolarização ao lado da complexidade humana. Nessa linha, será que
a escola não deveria ser concebida como local privilegiado de
prática social, como ponto de apoio privilegiado à transformação
social? Ou a escola pode se contentar em preparar os futuros
cidadãos da democracia liberal, o
proprietário-consumidor-trabalhador, como, numa perspectiva
antropológica, parece ser as finalidades maiores dos PCN?
Em linha similar, Gallo afirma a idéia de uma escola
diferente:
“se desempenha necessariamente uma função
ideológica, a escola pode também desempenhar uma ação
contra-ideológica, que consistiria no desenvolvimento de um
processo de subjetivação autônomo, podendo levar a indivíduos
verdadeiramente singulares ou livres” (GALLO, 1995: 66).
Para que essa tarefa seja alcançada a contento, é
necessário que a ética vá para a escola como parte dos bens
simbólicos a que o conjunto dos brasileiros tem direito. Nessa
condição, a ética pode contribuir para propor alternativas de
superação da ideologia hegemônica. Entretanto, enquanto continuar
sendo tratada como foi nos PCN, a cidadania curricular da ética
filosófica continuará a ser negada, o que é lamentável.
Paralelamente a isso, nosso ethos real concreto permanecerá
incólume e robusto.
Conclusão
A reforma curricular que deu origem aos PCN foi feita
segundo os pressupostos da qualidade, eficiência e produtividade.
Nesse processo, os professores não foram ouvidos. Ao contrário do
que se propala Brasil afora, os estrangeiros é que tiveram voz e vez
nesse processo. Dessa maneira, o que acabou sendo curriculizado nos
PCN não brotou de nossas experiências, nem das pesquisas do campo
curricular feitas no Brasil. O capital internacional e os organismos
internacionais falaram mais alto. Agora, na operacionalização dos
PCN, tomara que, na prática efetiva, expressemos nosso pensamento
sobre esses documentos, particularmente no que respeita ao tema
transversal ética, cujos conteúdos podem, sim, ser buscados na vida
cotidiana, em nosso ethos real, para que não venhamos a
aceitar uma proposta de currículo reprodutora ou conformadora.
Tomara que nossa prática evidencie que outro
currículo, outra ética e outra cidadania são possíveis, fazendo-nos
assumir nosso ethos real com o intento de superá-lo, porque
outros modelos de educação, de ser humano e de sociedade, diferentes
daqueles que os neoliberais propõem, também são possíveis. Sem um
currículo que forme o sujeito com base na ética da igualdade, da
justiça e liberdade, fortalecidas, pela eqüidade, não capitalistas,
como poderemos falar em condições de possibilidade de cidadania?
Em face do exposto, é oportuno indagar: como
trabalhar conteúdos de ética, tal como propõem os PCN, senão em uma
perspectiva crítico-transformadora? Não há dúvida de que o ensino de
ética nas escolas é possível. Mesmo em face de uma sociedade que
absolutiza o ter e seus princípios correlatos. Mas nós, professores
e professoras, podemos ficar passivos diante de uma proposta
curricular de ética que se contente com a reprodução de valores
morais e princípios éticos dominantes? Nosso desafio maior não é
justamente o de trabalharmos em um sentido crítico, a começar pela
avaliação dos próprios PCN, evidenciando que podemos ir além da
redenção e da reprodução para alimentarmos a utopia dos projetos
sociais transformadores, incluindo o currículo, a ética e a
cidadania?
Se assim for, então somos instados a questionar o
ethos sobre o qual nosso modelo de sociedade se baseia, e não
adotar a postura de alheamento ou indiferença em face dele. Nessa
tarefa, a ética filosófica pode ser um instrumento de grande valia.
Contudo, a maneira confusa como o correspondente tema transversal
foi inserido nos PCN não cumpre essa finalidade. E isso dá a
entender que a confusão dos espíritos de que fala Santos
(2001) alcança a escola e o currículo.
Com essa idéia, fica registrada a esperança de que as
questões aqui levantadas possam ser entendidas como manifestação de
uma profunda preocupação com a problemática relacionada ao ensino de
filosofia em nossas escolas. Em especial com o ensino de ética, que,
para ser digna do próprio nome, deve ser vista como merecedora de
verdadeira cidadania curricular, para além daquilo que os PCN lhe
reservaram. |
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