EVA PAULINO BUENO

Eva Paulino Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

 

Com quantos paus se faz uma canoa?

Com que material se faz uma guerra?

 

por Eva Paulino Bueno

 

Se as forças armadas de um país são compostas de gente que não é daquele país, e os seus efetivos são compostos por mercenários, estas forças armadas serão melhores ou piores? Os seus membros – contratados e/ou cooptados – serão mais eficazes, ou mais caridosos com os inimigos? Ou serão mais ferozes, já que são meros funcionários? Estas são perguntas difíceis de responder. O que sabemos é que, por exemplo no Iraque, os “contractors” – literalmente “empreiteiros” – que participam do conflito como mãos armadas que dão proteção a diplomatas e negociantes estrangeiros, funcionam mais como um exército mercenário que não está sujeito a nenhuma lei, e que podem fazer e desfazer praticamente sem medo da justiça.

O recente episódio do dia 16 de setembro de 2006 quando um grupo destes “contractors” da firma americana Blackwater matou 17 civis iraquianos desarmados, em um cruzamento da cidade, ilustrou bem este estado de coisas. A revolta internacional foi imediata.[1] Mas a Blackwater não é a única a trazer mercenários para a guerra. Talvez seus funcionários até nem sejam tantos, pois afinal são apenas 850 entre os 160.000 “empreiteiros privados” (dentre eles, 50.000 são “agentes de segurança” – leia-se, homens armados) operando no Iraque atualmente. Mas o que aconteceu em setembro de 2006 serviu para atrair a atenção para o que alguns estão chamando de um “exército de sombras” operando naquele país.

Mas qual é a diferença entre estes “empreiteiros” da Blackwater e os outros não iraquianos lutando naquele país? Existe alguma diferença? De quem é a função de lutar numa guerra, afinal?

1. Uma razão muito forte

Quando a assistente de uns trinta anos entrou na sala de exames do meu oculista usando uma touca de inverno, não prestei atenção, pois afinal está frio estes dias e, além do mais, a expectativa de um exame desagradável não deixa ninguém predisposto a conversas. Mas a moça era muito simpática, e me desejou feliz ano novo, e comentou do frio, algo não muito comum para o sul do Texas. Perguntei de onde ela veio, ela disse que de San Diego, na Califórnia. Ambas comentamos que o clima de lá é muito agradável, mas o custo de vida muito alto. Enquanto ajustava os aparelhos para o exame de meus olhos, ela complementou que uma vez foi a Los Angeles para a entrevista para a escola de medicina de UCLA, e chegou à conclusão que não ia poder estudar lá, porque não ia poder pagar o aluguel nem de um quartinho. Então eu perguntei se ela estava agora fazendo a faculdade de medicina em San Antonio, ela disse que não, e que estava aqui porque o marido havia se alistado nas forças armadas. “E a escola de medicina?” eu perguntei. A moça disse, então, que quando ela foi diagnosticada com um câncer, a escola de medicina tinha sido adiada indefinidamente, e o marido tinha se alistado porque, de acordo com ela, a única maneira de obter seguro médico com cobertura para seu tratamento do câncer foi seu marido entrar nas forças armadas. Entendi, então, que a quimioterapia era então responsável pela touca de inverno. Ela tinha perdido todo o cabelo, e com o frio dos últimos dias, tinha que proteger bem a cabeça.

Quando saí do oculista, fiquei pensando na situação desta jovem, que teve que adiar todos os planos para seus estudos, mudar de estado, e aceitar que seu marido se colocasse à disposição das autoridades militares, que podem mandá-lo para qualquer parte do mundo, a qualquer momento. A esperança desta mulher é que eles não o mandem ao Iraque, mas, como ela mesma reconhece, se o mandarem, ele tem que ir. Ele quer ir? Não! Claro que não! Ele é a favor da guerra? Não! Claro que não!

Se pensarmos no tamanho das forças armadas dos Estados Unidos – exército, marinha, força aérea, marines – quantos casos há como estes deste marido desesperado para salvar a vida da esposa que morreria sem o tratamento? É difícil saber-se ao certo. O que se sabe, de fora, através das notícias que aparecem em jornais, revistas e na televisão, é que as forças armadas estão tendo cada vez mais dificuldade em recrutar novos membros. Esta dificuldade explica vários dos problemas que podem ser vistos como parte desta máquina enorme e cada dia mais desengonçada e desgovernada, e que tem presença em quase todos os pontos do mundo, e está envolvida em uma guerra que cada dia fica mais difícil de justificar.

2. Conscrição

Durante a Segunda Guerra Mundial, houve soldados recrutados e houve voluntários, gente que acreditava na causa e foi lutar. O número total das forças armadas americanas de 1940 a 1946, de acordo com estatísticas encontradas em http://www.rootsweb.com/~miisabel/militaryWWII.htm, foi de 10.110.114 pessoas, entre homens e mulheres. Mas a Segunda Guerra Mundial é vista, nos Estados Unidos, como uma guerra que tinha que ser feita, como uma luta que tinha que ser encarada, custasse o que custasse, para livrar o mundo do perigo do nazismo. Não conheço ninguém que contradiga tal crença. De fato, quando os soldados voltaram da guerra, foram recebidos com flores e grande alegria.

O mesmo não aconteceu, por exemplo, com os soldados que voltavam do Vietnã, os quais por muito tempo só encontraram hostilidade, chacota, rejeição. Alguns levavam cusparadas no rosto quando chegavam com seus uniformes nos aeroportos. E a rejeição continuou por muito tempo: quando um grupo de veteranos decidiu começar uma campanha para levantar fundos para a construção de um memorial aos soldados americanos mortos naquela guerra, até um comediante na televisão fez piada com a idéia. Mas o muro com o nome dos mortos foi enfim dedicado em 1982, em Washington. Hoje, é um lugar de romaria por parte dos familiares e amigos daqueles americanos que perderam suas vidas. E também do público em geral. Cada um cujo nome está no muro deixou alguém sem um pai, ou filho, ou filha, ou irmão, ou irmã, ou mãe, ou amigo, ou amiga. Muitos não queriam ir, mas foram porque não tinham alternativas, nem amigos ricos e influentes que os livrassem, nem a possibilidade de fugir para o Canadá. [2]

Durante a guerra do Vietnã, teoricamente qualquer um podia ser forçado a ir para as forças armadas. Teoricamente, porque muitos, inclusive o atual presidente e o anterior, que estavam em idade de servir às forças armadas durante aquela guerra, escaparam devido a suas relações familiares, ao conhecimento das maneiras (“o jeitinho americano”!) de escapar da experiência sangrenta do Vietnã. Além destes casos e de outros de gente conhecida e famosa, houve outros que escaparam de ir porque eram casados, porque estavam fazendo a pós-graduação, porque eram doentes, e outras razões. Mas a carta do “draft” – recrutamento – podia chegar tanto na casa do pobre, como na casa do remediado, como na mansão do rico. Alguns, como o atual candidato à presidência, John McKain, e o candidato anterior, John F. Kerry, serviram no Vietnã apesar das famílias serem ricas e bem relacionadas. John F. Kerry, como sabemos, voltou e denunciou no Senado as iniqüidades e a grande inutilidade da guerra. John McKain, por sua vez, ficou prisioneiro por anos e até hoje vive com as seqüelas físicas devido ao tratamento recebido nas mãos dos seus captores no Vietnã.[3]

3. Forças armadas de voluntários

Desde o fim da guerra do Vietnã, se decidiu que as forças armadas seriam compostas somente de voluntários e voluntárias. Diferentemente do Brasil, em que “apresentar-se” e “servir o exército” (ou “dar um jeitinho de escapar de servir o exército”) é um ritual de passagem para todo rapaz de 18 anos de idade, aqui hoje em dia só vai quem quer. As forças armadas logicamente têm mais interesse nos jovens (mais “treináveis”? mais “doutrináveis”? mais impressionáveis?), mas pessoas mais velhas podem se alistar também. Como se lê na página About.com:military, de 26 de junho de 2006,

The Army raised the active-duty age limit to 40 in January as an interim step while it worked out the additional medical screening requirements for recruits ages 40 to 42. Before January, an applicant could not have reached his or her 35th birthday. The Army Reserve age limit was raised from 35 to 40 in March 2005.

http://usmilitary.about.com/od/armyjoin/a/enlage42.htm

O Exército aumentou a idade limite para serviço ativo para 40 anos em janeiro (de 2006), como um passo intermediário enquanto se trabalhavam nos requisitos médicos adicionais para recrutas de 40 a 42 anos de idade. Antes de janeiro (de 2006), o candidato não podia ter alcançado os trinta e cinco anos. A idade limite para a Reserva do exército foi aumentada de 35 a 40 anos em março de 2005.

Esta informação indica que algo está acontecendo, e que menos gente está considerando uma carreira militar como algo viável, como um “projeto de vida”. Se os americanos estão chegando a esta conclusão, que fazer? Como lemos no Boston Globe de 26 de dezembro de 2006,

The armed forces, already struggling to meet recruiting goals, are considering expanding the number of noncitizens in the ranks – including disputed proposals to open recruiting stations overseas and putting more immigrants on a faster track to US citizenship if they volunteer – according to Pentagon officials.

http://www.boston.com/news/nation/articles/2006/12/26/military_considers_recruiting_foreigners/?page=full

As forces armadas, que já estão lutando para conseguir suprir suas metas de recrutamento, estão considerando expandir o número de não-cidadãos nas suas fileiras – incluindo projetos controvertidos de abrir estações de recrutamento em outros países e colocar mais imigrantes em um caminho mais rápido para conseguir a cidadania americana se eles se oferecerem como voluntários – de acordo com oficiais do Pentágono.

De fato, num momento histórico em que a população americana finalmente se dá conta da grandessíssima estupidez desta guerra em que mais de 1.163.944 iraquianos já morreram, os Estados Unidos não têm mecanismos sequer para acompanhar o número de feridos na guerra[4], e existe uma grande pressão por parte do governo para que não se saiba exatamente quantos soldados americanos já morreram nesta guerra. Ainda, apesar de tudo isto, em todas as funções públicas aqui temos que ter, além do hino nacional, homenagens aos nossos “homens e mulheres que estão no Iraque lutando pela nossa liberdade.”

E daí?

A página das Forças Armadas americanas, situada em https://secure.military.com/Recruiting/page1.do?ESRC=cbggl_join2.kw, tem um slogan bem chamativo para sua campanha de recrutamento: “No bull, no bias, no pressure” – “Sem lorota, sem discriminação, sem pressão.”[5] Considerando-se a atual situação das forças armadas, em que os que se alistam podem receber até 40.000 dólares de bônus, podemos concluir que existe pressão. E é pressão financeira. Para um jovem de família pobre que queira fazer a faculdade, o caminho é alistar-se, porque receberá ajuda com as mensalidades e outras vantagens. E com a crescente onda de problemas financeiros no país levando à negativa de muitos empregadores em ajudar os empregados a pagar seus seguros de saúde, é fácil entender porque para muitos, as forças armadas ainda são a solução.

Então, talvez a pergunta com que iniciei esta reflexão esteja errada. Na atualidade, se tomamos como exemplo o caso americano, não existem forças armadas que não sejam compostas de mercenários. Todos – tanto o governo e as companhias americanas, como os seus aliados, como os que estão “do outro lado” – estão nesta guerra sórdida para ganhar alguma coisa. Todos, menos os civis iraquianos, que estão nesta como vítimas, danos colaterais, gente na calçada na hora errada, gente que leva bala perdida. E menos os soldados que voltam faltando pedaços, ou com problemas mentais, e nunca mais recuperam suas vidas normais.[6] E menos as famílias dos soldados que morrem, e ficam sem os seus entes queridos. E também menos as famílias dos soldados que voltam faltando pedaços, com problemas mentais, e que acabam descobrindo que, embora promessas tenham sido muitas, a realidade da ajuda e do cuidado médico aos seus entes queridos é muito menor do que o prometido quando eles se alistaram.

A diferença entre os mercenários operando na guerra moderna é que alguns deles ainda cantam a canção do patriotismo. E são estes os que ganham menos. Quarenta mil dólares não valem uma vida. Ou pernas e braços e olhos e outras partes faltando. Ou problemas mentais e incapacidade de trabalhar pelo resto da vida. O tratamento médico da assistente do meu oculista, por mais caro que seja, não vai chegar aos prováveis 200 mil dólares anuais que os mercenários do tipo dos funcionários da Blackwater ganham, e nem sequer aos pés do que ganham, por exemplo, os executivos das companhias que fazem armas, ou vendem equipamentos, ou fornecem comida aos soldados. Mas, pelo menos no caso dela e de seu marido, eles pesaram os positivos e os negativos dele se alistar, e chegaram à conclusão que a possibilidade de vida para ela valia o risco da vida dele. Mas é muito triste ver que as campanhas de alistamento continuam, algumas nas escolas secundárias. Mas o mais triste em tudo isto é ver, na televisão, ainda alguns pais de um soldado morto (às vezes jovens de19 ou 20 anos), dizerem que seu filho morreu “pela liberdade”. Se não fosse tão triste, seria cômico.

A boa notícia é que alguns que antes não resistiam e se alistavam sem pensar, hoje já começam a resistir.[7] Talvez, num futuro que mal podemos imaginar, mas precisamos imaginar, ninguém queira jamais lutar em guerra nenhuma, em nome de seja lá o que for, seja ele patriotismo, nacionalismo, óleo, dinheiro, religião, ou mesmo um tratamento médico. É difícil imaginar. Mas precisamos imaginar, como já dizia John Lennon.

 


[1] Ver, por exemplo, a reação na França, http://www.liberation.fr/actualite/monde/283245.FR.php?rss=true na Espanha, http://www.telesurtv.net/secciones/noticias/nota/18035/irak-lleva-a-tribunales-a--blackwater--por-masacre-de-civiles/

Ver também o New York Times de 14 de novembro de 2006, “F.B.I. Says Guards Killed 14 Iraqis Without Cause” — “O F.B.I diz que guardas mataram 14 iraquianos sem causa” http://www.nytimes.com/2007/11/14/world/middleeast/14blackwater.html?n=Top/Reference/Times%20Topics/Subjects/M/Mercenaries

[2] Ver a lista de livros e outros trabalhos escritos sobre os “draft dodgers” — “os que escapam ao recrutamento” em http://www.library.ubc.ca/jones/vwddrbks.html. Victor Levant calcula que 12.000 “draft resisters” buscaram refúgio no Canadá, e lembra que, ao mesmo tempo, o Canadá 500 firmas venderam o equivalente a 2.5 bilhões de dólares ao Pentágono em material de guerra, e 10 bilhões de dólares foram vendidos em forma de roupa, comida, e outros apetrechos para os soldados americanos. Ver o artigo completo em Levant, Victor. “Quiet Complicity: Canadian Involvement In The Vietnam War” (“Quieta cumplicidade: o envolvimento canadense na guerra do Vietnã”). The 1998 Canadian & World Encyclopedia. Toronto: McClelland & Stewart, 1986.

[3] O interessante é que, açulados pela direita, muitos veteranos da Guerra do Vietnã se voltaram contra Kerry durante a campanha. Um grupo destes direitistas inclusive quis colocar dúvidas quanto à atuação de Kerry, e o chamou de “traidor,” porque ele falou no senado que aquela guerra era uma vergonha, e que o governo deveria deixar de sacrificar o povo numa luta insana.

[4] Dados disponíveis em AntiWar.com, http://www.antiwar.com/casualties/

[5] Na verdade, a palavra “bull” usada desta maneira se refere ao termo “bullshit” — “merda de boi” — que é uma palavra usada muito comumente pelos jovens para indicar bobagem estupidez, mentira. O uso de “bull”, que corta a palavra “shit” ainda assim se refere ao termo inteiro. Talvez esta seja uma maneira de indicar ao jovem que está considerando alistar-se que as forças armadas “falam sua língua”?

[6] Visite a página localizada em   http://www.capveterans.com/caprd_004.htm, que se dedica a contar a história dos veteranos da guerra do Vietnã. Algumas estatísticas entre outras que eles apresentam: A. 59.000 soldados (homens e mulheres) morreram na guerra do Vietnã. Cinco anos depois do fim da guerra, 150.000 veteranos daquela guerra tinham cometido suicídio. B. A porcentagem de divórcio entre os veteranos do Vietnã é 3 vezes maior que a média nacional. C. Cerca de 25% de todas as pessoas na prisão são veteranos do Vietnã (a maioria por crimes não violentos). D. 56% de todos os sem-casa americanos são veteranos, e 44% deles são veteranos da guerra do Vietnã.

Estas informações e outras contidas nesta página (e em outras páginas e publicações oficiais) mostram que, quando uma Guerra termina, ela continua por muitas décadas, com as seqüelas que os soldados trazem para suas casas, suas famílias, suas comunidades.

[7] Um fenômeno interessante é a proliferação de páginas como Cojterrecruiter.net em http://counterrecruiter.wordpress.com/2007/07/02/resisting-military-recruitment-focus-on-nclb/, e as notícias de grupos comunitários juntando-se para resistir aos recrutadores. Ver artigos em http://www.pww.org/article/view/6895/1/267/, e http://bluenecks.blogspot.com/2005/08/resisting-recruitment.html, que darão outros links sobre o assunto.

 

 

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