Com quantos paus se faz uma canoa?
Com que material se faz uma guerra?
por Eva Paulino Bueno
Se
as forças armadas de um país são compostas de gente que não
é daquele país, e os seus efetivos são compostos por
mercenários, estas forças armadas serão melhores ou piores?
Os seus membros – contratados e/ou cooptados – serão mais
eficazes, ou mais caridosos com os inimigos? Ou serão mais
ferozes, já que são meros funcionários? Estas são perguntas
difíceis de responder. O que sabemos é que, por exemplo no
Iraque, os “contractors”
–
literalmente “empreiteiros” – que participam do conflito
como mãos armadas que dão proteção a diplomatas e
negociantes estrangeiros, funcionam mais como um exército
mercenário que não está sujeito a nenhuma lei, e que podem
fazer e desfazer praticamente sem medo da justiça.
O recente episódio
do dia 16 de setembro de 2006 quando um grupo destes
“contractors” da firma americana Blackwater matou 17 civis
iraquianos desarmados, em um cruzamento da cidade, ilustrou
bem este estado de coisas. A revolta internacional foi
imediata.
Mas a Blackwater não é a única a trazer mercenários para a
guerra. Talvez seus funcionários até nem sejam tantos, pois
afinal são apenas 850 entre os 160.000 “empreiteiros
privados” (dentre eles, 50.000 são “agentes de segurança” –
leia-se, homens armados) operando no Iraque atualmente. Mas
o que aconteceu em setembro de 2006 serviu para atrair a
atenção para o que alguns estão chamando de um “exército de
sombras” operando naquele país.
Mas qual é a
diferença entre estes “empreiteiros” da Blackwater e os
outros não iraquianos lutando naquele país? Existe alguma
diferença? De quem é a função de lutar numa guerra, afinal?
1. Uma razão muito
forte
Quando a assistente de uns trinta anos entrou
na sala de exames do meu oculista usando uma touca de
inverno, não prestei atenção, pois afinal está frio estes
dias e, além do mais, a expectativa de um exame desagradável
não deixa ninguém predisposto a conversas. Mas a moça era
muito simpática, e me desejou feliz ano novo, e comentou do
frio, algo não muito comum para o sul do Texas. Perguntei de
onde ela veio, ela disse que de San Diego, na Califórnia.
Ambas comentamos que o clima de lá é muito agradável, mas o
custo de vida muito alto. Enquanto ajustava os aparelhos
para o exame de meus olhos, ela complementou que uma vez foi
a Los Angeles para a entrevista para a escola de medicina de
UCLA, e chegou à conclusão que não ia poder estudar lá,
porque não ia poder pagar o aluguel nem de um quartinho.
Então eu perguntei se ela estava agora fazendo a faculdade
de medicina em San Antonio, ela disse que não, e que estava
aqui porque o marido havia se alistado nas forças armadas.
“E a escola de medicina?” eu perguntei. A moça disse, então,
que quando ela foi diagnosticada com um câncer, a escola de
medicina tinha sido adiada indefinidamente, e o marido tinha
se alistado porque, de acordo com ela, a única maneira de
obter seguro médico com cobertura para seu tratamento do
câncer foi seu marido entrar nas forças armadas. Entendi,
então, que a quimioterapia era então responsável pela touca
de inverno. Ela tinha perdido todo o cabelo, e com o frio
dos últimos dias, tinha que proteger bem a cabeça.
Quando saí do oculista, fiquei pensando na
situação desta jovem, que teve que adiar todos os planos
para seus estudos, mudar de estado, e aceitar que seu marido
se colocasse à disposição das autoridades militares, que
podem mandá-lo para qualquer parte do mundo, a qualquer
momento. A esperança desta mulher é que eles não o mandem ao
Iraque, mas, como ela mesma reconhece, se o mandarem, ele
tem que ir. Ele quer ir? Não! Claro que não! Ele é a favor
da guerra? Não! Claro que não!
Se pensarmos no tamanho das forças armadas
dos Estados Unidos – exército, marinha, força aérea, marines
– quantos casos há como estes deste marido desesperado para
salvar a vida da esposa que morreria sem o tratamento? É
difícil saber-se ao certo. O que se sabe, de fora, através
das notícias que aparecem em jornais, revistas e na
televisão, é que as forças armadas estão tendo cada vez mais
dificuldade em recrutar novos membros. Esta dificuldade
explica vários dos problemas que podem ser vistos como parte
desta máquina enorme e cada dia mais desengonçada e
desgovernada, e que tem presença em quase todos os pontos do
mundo, e está envolvida em uma guerra que cada dia fica mais
difícil de justificar.
2. Conscrição
Durante a Segunda Guerra Mundial, houve
soldados recrutados e houve voluntários, gente que
acreditava na causa e foi lutar. O número total das forças
armadas americanas de 1940 a 1946, de acordo com
estatísticas encontradas em
http://www.rootsweb.com/~miisabel/militaryWWII.htm, foi
de 10.110.114 pessoas, entre homens e mulheres. Mas a
Segunda Guerra Mundial é vista, nos Estados Unidos, como uma
guerra que tinha que ser feita, como uma luta que tinha que
ser encarada, custasse o que custasse, para livrar o mundo
do perigo do nazismo. Não conheço ninguém que contradiga tal
crença. De fato, quando os soldados voltaram da guerra,
foram recebidos com flores e grande alegria.
O mesmo não aconteceu, por exemplo, com os
soldados que voltavam do Vietnã, os quais por muito tempo só
encontraram hostilidade, chacota, rejeição. Alguns levavam
cusparadas no rosto quando chegavam com seus uniformes nos
aeroportos. E a rejeição continuou por muito tempo: quando
um grupo de veteranos decidiu começar uma campanha para
levantar fundos para a construção de um memorial aos
soldados americanos mortos naquela guerra, até um comediante
na televisão fez piada com a idéia. Mas o muro com o nome
dos mortos foi enfim dedicado em 1982, em Washington. Hoje,
é um lugar de romaria por parte dos familiares e amigos
daqueles americanos que perderam suas vidas. E também do
público em geral. Cada um cujo nome está no muro deixou
alguém sem um pai, ou filho, ou filha, ou irmão, ou irmã, ou
mãe, ou amigo, ou amiga. Muitos não queriam ir, mas foram
porque não tinham alternativas, nem amigos ricos e
influentes que os livrassem, nem a possibilidade de fugir
para o Canadá.
Durante a guerra do Vietnã, teoricamente
qualquer um podia ser forçado a ir para as forças armadas.
Teoricamente, porque muitos, inclusive o atual presidente e
o anterior, que estavam em idade de servir às forças armadas
durante aquela guerra, escaparam devido a suas relações
familiares, ao conhecimento das maneiras (“o jeitinho
americano”!) de escapar da experiência sangrenta do Vietnã.
Além destes casos e de outros de gente conhecida e famosa,
houve outros que escaparam de ir porque eram casados, porque
estavam fazendo a pós-graduação, porque eram doentes, e
outras razões. Mas a carta do “draft” – recrutamento – podia
chegar tanto na casa do pobre, como na casa do remediado,
como na mansão do rico. Alguns, como o atual candidato à
presidência, John McKain, e o candidato anterior, John F.
Kerry, serviram no Vietnã apesar das famílias serem ricas e
bem relacionadas. John F. Kerry, como sabemos, voltou e
denunciou no Senado as iniqüidades e a grande inutilidade da
guerra. John McKain, por sua vez, ficou prisioneiro por anos
e até hoje vive com as seqüelas físicas devido ao tratamento
recebido nas mãos dos seus captores no Vietnã.
3. Forças armadas de voluntários
Desde o fim da guerra do Vietnã, se decidiu
que as forças armadas seriam compostas somente de
voluntários e voluntárias. Diferentemente do Brasil, em que
“apresentar-se” e “servir o exército” (ou “dar um jeitinho
de escapar de servir o exército”) é um ritual de passagem
para todo rapaz de 18 anos de idade, aqui hoje em dia só vai
quem quer. As forças armadas logicamente têm mais interesse
nos jovens (mais “treináveis”? mais “doutrináveis”? mais
impressionáveis?), mas pessoas mais velhas podem se alistar
também. Como se lê na página About.com:military, de 26 de
junho de 2006,
The Army raised the active-duty age limit
to 40 in January as an interim step while it worked out
the additional medical screening requirements for
recruits ages 40 to 42. Before January, an applicant
could not have reached his or her 35th birthday. The
Army Reserve age limit was raised from 35 to 40 in March
2005.
http://usmilitary.about.com/od/armyjoin/a/enlage42.htm
O Exército aumentou a idade limite para
serviço ativo para 40 anos em janeiro (de 2006), como um
passo intermediário enquanto se trabalhavam nos
requisitos médicos adicionais para recrutas de 40 a 42
anos de idade. Antes de janeiro (de 2006), o candidato
não podia ter alcançado os trinta e cinco anos. A idade
limite para a Reserva do exército foi aumentada de 35 a
40 anos em março de 2005.
Esta informação indica que algo está
acontecendo, e que menos gente está considerando uma
carreira militar como algo viável, como um “projeto de
vida”. Se os americanos estão chegando a esta conclusão, que
fazer? Como lemos no Boston Globe de 26 de
dezembro de 2006,
The armed forces, already struggling to meet recruiting
goals, are considering expanding the number of
noncitizens in the ranks – including disputed proposals
to open recruiting stations overseas and putting more
immigrants on a faster track to US citizenship if they
volunteer – according to Pentagon officials.
http://www.boston.com/news/nation/articles/2006/12/26/military_considers_recruiting_foreigners/?page=full
As forces
armadas, que já estão lutando para conseguir suprir suas
metas de recrutamento, estão considerando expandir o
número de não-cidadãos nas suas fileiras – incluindo
projetos controvertidos de abrir estações de
recrutamento em outros países e colocar mais imigrantes
em um caminho mais rápido para conseguir a cidadania
americana se eles se oferecerem como voluntários – de
acordo com oficiais do Pentágono.
De fato, num
momento histórico em que a população americana finalmente se
dá conta da grandessíssima estupidez desta guerra em que
mais de 1.163.944 iraquianos já morreram, os Estados Unidos
não têm mecanismos sequer para acompanhar o número de
feridos na guerra,
e existe uma grande pressão por parte do governo para que
não se saiba exatamente quantos soldados americanos já
morreram nesta guerra. Ainda, apesar de tudo isto, em todas
as funções públicas aqui temos que ter, além do hino
nacional, homenagens aos nossos “homens e mulheres que estão
no Iraque lutando pela nossa liberdade.”
E daí?
A página das
Forças Armadas americanas, situada em
https://secure.military.com/Recruiting/page1.do?ESRC=cbggl_join2.kw,
tem um slogan bem chamativo para sua campanha de
recrutamento: “No bull, no bias, no pressure” – “Sem lorota,
sem discriminação, sem pressão.”
Considerando-se a atual situação das forças armadas, em que
os que se alistam podem receber até 40.000 dólares de bônus,
podemos concluir que existe pressão. E é pressão financeira.
Para um jovem de família pobre que queira fazer a faculdade,
o caminho é alistar-se, porque receberá ajuda com as
mensalidades e outras vantagens. E com a crescente onda de
problemas financeiros no país levando à negativa de muitos
empregadores em ajudar os empregados a pagar seus seguros de
saúde, é fácil entender porque para muitos, as forças
armadas ainda são a solução.
Então, talvez a
pergunta com que iniciei esta reflexão esteja errada. Na
atualidade, se tomamos como exemplo o caso americano, não
existem forças armadas que não sejam compostas de
mercenários. Todos – tanto o governo e as companhias
americanas, como os seus aliados, como os que estão “do
outro lado” – estão nesta guerra sórdida para ganhar alguma
coisa. Todos, menos os civis iraquianos, que estão nesta
como vítimas, danos colaterais, gente na calçada na hora
errada, gente que leva bala perdida. E menos os soldados que
voltam faltando pedaços, ou com problemas mentais, e nunca
mais recuperam suas vidas normais.
E menos as famílias dos soldados que morrem, e ficam sem os
seus entes queridos. E também menos as famílias dos soldados
que voltam faltando pedaços, com problemas mentais, e que
acabam descobrindo que, embora promessas tenham sido muitas,
a realidade da ajuda e do cuidado médico aos seus entes
queridos é muito menor do que o prometido quando eles se
alistaram.
A diferença entre
os mercenários operando na guerra moderna é que alguns deles
ainda cantam a canção do patriotismo. E são estes os que
ganham menos. Quarenta mil dólares não valem uma vida. Ou
pernas e braços e olhos e outras partes faltando. Ou
problemas mentais e incapacidade de trabalhar pelo resto da
vida. O tratamento médico da assistente do meu oculista, por
mais caro que seja, não vai chegar aos prováveis 200 mil
dólares anuais que os mercenários do tipo dos funcionários
da Blackwater ganham, e nem sequer aos pés do que ganham,
por exemplo, os executivos das companhias que fazem armas,
ou vendem equipamentos, ou fornecem comida aos soldados.
Mas, pelo menos no caso dela e de seu marido, eles pesaram
os positivos e os negativos dele se alistar, e chegaram à
conclusão que a possibilidade de vida para ela valia o risco
da vida dele. Mas é muito triste ver que as campanhas de
alistamento continuam, algumas nas escolas secundárias. Mas
o mais triste em tudo isto é ver, na televisão, ainda alguns
pais de um soldado morto (às vezes jovens de19 ou 20 anos),
dizerem que seu filho morreu “pela liberdade”. Se não fosse
tão triste, seria cômico.
A boa notícia é
que alguns que antes não resistiam e se alistavam sem
pensar, hoje já começam a resistir.
Talvez, num futuro que mal podemos imaginar, mas precisamos
imaginar, ninguém queira jamais lutar em guerra nenhuma, em
nome de seja lá o que for, seja ele patriotismo,
nacionalismo, óleo, dinheiro, religião, ou mesmo um
tratamento médico. É difícil imaginar. Mas precisamos
imaginar, como já dizia John Lennon.