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CÉSAR
BENJAMIN
Autor de Bom Combate (Rio de Janeiro,
Contraponto, 2004).A opção brasileira (Contraponto, 1998,
décima edição), Diálogo sobre ecologia, ciência e política
(Nova Fronteira, 1992, quarta edição) e E o sertão se
impropriou à vida: um estudo sobre a seca no nordeste
(Vozes, 1983), além de dezenas de artigos em ciências sociais
publicados no Brasil e no exterior.
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Dicionário
de Biografias Científicas
Cesar Benjamin (editor)
Rio de Janeiro:
Contraponto, 2007
3 volumes, 2696 páginas
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Apresentação da edição brasileira
por
César Benjamin
[www.contrapontoeditora.com.br]
O American Council of Learned Societies, que
congrega 45 associações culturais
e científicas dos Estados Unidos, concebeu e editou uma publicação
enciclopédica, contendo ensaios sobre vida e obra de pensadores e
cientistas que influenciaram decisivamente a história da ciência, em
todas as épocas. É o Dictionary of Scientific Biography (DSB),
que contou com o apoio da National
Science Foundation e teve o aval da History of Science Society.
A elaboração do Dicionário mobilizou
historiadores e cientistas de muitos países. A obra vem sendo
atualizada desde o lançamento, em 1970. A
edição brasileira, que o leitor tem em mãos, usou como base a
décima edição norte-americana, a
mais recente.
O caráter multidisciplinar, o alto nível dos textos e
a combinação de informações factuais básicas e discussão ampla sobre
a contribuição de cada biografado, tudo isso fez deste Dicionário
um empreendimento único, logo transformado em referência nos meios
acadêmicos mais exigentes. Tornou-se também fonte permanente de
consulta para professores, estudantes, jornalistas e outros
profissionais, além dos amantes da cultura.
Todos os ensaios basearam-se em fontes primárias. Em
diversos casos, eles são o primeiro ou o mais importante estudo já
realizado sobre a obra de alguém, pois o objetivo do American
Council não era apenas difundir o conhecimento existente, mas
estabelecer conhecimento novo e explorar áreas em que nada existia.
O Comitê Editorial não
incluiu trabalhos sobre pessoas que estavam vivas na época em que a
obra foi concebida. Além disso, solicitou que a ênfase dos
textos recaísse sobre as realizações científicas dos biografados, de
modo que a história pessoal de cada um reduziu-se ao mínimo
necessário. Os ensaios foram encomendados a pesquisadores altamente
selecionados, muitos deles de grande projeção, como se pode ver em
rápida consulta ao Sumário. Diversos
ensaios sobre cientistas do século XX foram escritos por
colegas seus; por isso, citam fatos inéditos, mostram como o
biografado raciocinava e usam a primeira pessoa em algumas
passagens.
Nos casos de pensadores que deram contribuições
múltiplas – como Aristóteles, Leonardo da Vinci, Newton e Einstein,
entre outros – os ensaios contêm várias partes, escritas por autores
diferentes. Às vezes, têm dimensões de pequenos livros. O maior
deles, sobre Laplace, teria cerca de 240 páginas, se fosse publicado
no formato de um livro comum.
* * *
Para oferecer o Dicionário ao leitor
brasileiro, a Contraponto teve de realizar uma adaptação:
selecionamos os 329 ensaios que consideramos mais importantes e os
apresentamos na íntegra. Nossa edição, com aproximadamente 8.250
laudas de texto, corresponde a cerca de
25% da edição original em tamanho, mas nenhum ensaio sofreu
mutilação.
O American Council aprovou a seleção e concordou com
esta edição mais compacta em língua portuguesa, na qual colaboram
pesquisadores de 151 instituições
e de 27 países. O biografado mais antigo é
Pitágoras (século VI a.C.) e o
mais recente é o
físico japonês Hideki Yukawa (1907-1981), que propôs a teoria do
méson. Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, os dois brasileiros que constam
no original, permaneceram em nossa relação, com todos os méritos.
Escolhemos os principais nomes de cada época e
mantivemos a variedade das disciplinas. Como, no Brasil, há bastante
material disponível sobre os pensadores gregos, enfatizamos a
importância do legado árabe, menos conhecido, que ocupa quase 10% da
nossa edição, em número de ensaios. Preservamos, também, referências
à matemática chinesa dos tempos antigos.
Mas respeitamos a ênfase em pesquisadores do Ocidente, seja
para poder acompanhar passo a passo o nascimento da ciência moderna,
seja porque, sobre eles, há informação mais precisa.
Quando se lida com tão longo período de tempo e tão
amplo espectro de pessoas, toda divisão por disciplinas é
problemática, pois muitos trabalhos situam-se em regiões de
fronteira, muitos cientistas transitaram por várias áreas –
especialmente no passado – e o conteúdo das próprias disciplinas
varia com o tempo. Mesmo assim, seguindo uma decisão editorial que
também está no original, consideramos útil assinalar as áreas de
conhecimento em que nossos biografados mais se destacaram.
O leitor encontrará ensaios sobre pensadores que
trabalharam em antropologia, arquitetura, filosofia, medicina,
sociologia e disciplinas afins, além de outros, muitas vezes
classificados nas engenharias, que descobriram aplicações
importantes do conhecimento científico. Porém, essas áreas só foram
incluídas quando praticadas por pessoas cujos trabalhos tiveram
relação direta com as ciências da natureza ou com a matemática. Este
não é um dicionário de ciências sociais, de filosofia ou de
tecnologias. A ênfase da obra recai sobre a matemática, a física, a
astronomia, a química, a biologia, a zoologia e a botânica, além da
filosofia da ciência e da filosofia natural da época pré-moderna.
* * *
A história da ciência é essencial para se compreender
a ciência. Pois todos os problemas têm uma gênese e passam por
sucessivas formulações, que os moldam e
os modificam. Os problemas a que nos dedicamos hoje resultam de
processos longos e, por isso, de forma evidente ou encoberta,
guardam essa memória. Muitas vezes, os erros, os obstáculos e as
frustrações têm um papel decisivo para a correta compreensão das
questões. Em outros casos, idéias que não prosperaram logo ou que
eram “inúteis”, do ponto de vista da aplicação imediata, mostram-se
decisivas depois. E, de vez em quando, surgem mutações: novas
teorias fundamentais se apresentam, novas áreas se abrem.
Nosso ensino de ciências, em geral, não consegue
transmitir o fascínio dessa caminhada. Tudo se banaliza. Problemas
que exigiram esforço gigantesco, durante séculos – às vezes, durante
bem mais de mil anos, como, por exemplo, o problema do movimento da
Terra –, são apresentados em salas de aula em sua forma acabada,
como coisa simplesmente dada, algo que é assim, e ponto
final. Os estudantes não têm a possibilidade de conhecer a
construção e o sentido original das questões, de compreender as
dificuldades enfrentadas, de tomar contato com as sucessivas
tentativas de solucioná-las, de acompanhar como e por que as
próprias perguntas se alteraram, para então reconhecer a grandeza
das soluções encontradas e visualizar os desafios que permanecem em
aberto.
Apresentada sem história, a ciência não apaixona.
Pois a história é que contém boa parte da beleza – eu poderia dizer,
da estética – da ciência, que deve ser considerada uma parte da
grande aventura da existência humana, uma das vias necessárias para
compreendermos o mundo e nós mesmos.
Essa história decorre em variadas escalas de
observação, exige diferentes ferramentas de análise e se debruça
sobre os mais diversos objetos, grandiosos ou pequeninos, visíveis
ou invisíveis,
materiais ou ideais, vivos ou inanimados.
Quem não se curva diante da imponência das
realizações astronômicas e geográficas de Ptolomeu, mesmo tendo
cometido o erro de colocar a Terra no centro do universo?
Quem não se surpreende com o amplo e minucioso
sistema de classificação dos três reinos da natureza – o mineral, o
vegetal e o animal –, concebido por Linnaeus?
Quem não se impressiona com a ousadia de Mendeleev,
ao propor a tabela periódica de todos os elementos químicos, muitos
dos quais ainda não tinham sido descobertos?
Quem
não se emociona ao acompanhar a decifração, por
Karl von Frisch, da delicada dança
das abelhas, realizada na intimidade das colméias, para comunicar,
umas às outras, a exata localização do alimento em campos e
florestas, a centenas de metros?
Quem não perde o fôlego
diante da aventura intelectual que foi a criação de duas novas
teorias físicas, nas primeiras décadas do século XX, uma para
responder aos desafios vindos do mundo dos átomos, a outra para
compreender o macrocosmo?
* * *
Tamanha aventura não se deixa aprisionar
em um caminho único. Certos
problemas são visualizados e as soluções são perseguidas durante
séculos; diversos pensadores se aproximam delas, avançam, chegam
perto das respostas, mas não conseguem dar o salto, até que alguém
encontra a exata formulação que faltava.
É o caso, por exemplo, da invenção do cálculo, realizada, de
forma independente, por Newton e Leibniz, no século XVIII, depois de
esforços de gerações sucessivas. Passamos a contar, finalmente, com
uma ferramenta matemática capaz de modelar o movimento, no espaço e
no tempo, e de determinar a área de figuras irregulares.
Outras questões também permanecem longamente
pendentes, mas geram desdobramentos inesperados. É o caso, por
exemplo, dos questionamentos ao postulado das paralelas, de
Euclides, que, depois de história extensíssima, mais que milenar, se
desdobram na formulação das novas geometrias no século XIX,
antevistas por Gauss e propostas por
Lobachevsky e Bolyai. A geometria de Euclides – um saber
perfeito e imutável, a mais grandiosa realização do espírito humano,
a teoria mais duradoura – foi então reconhecida como um caso
especial de geometrias mais abrangentes.
Outro exemplo de solução
surpreendente, agora no campo da lógica matemática, foi aquela
obtida por Kurt Gödel em 1931, reagindo ao desafio de Hilbert:
realizar a completa formalização dos sistemas dedutivos para, dessa
forma, conseguir provas absolutas de sua consistência, uma aspiração
dos matemáticos de todas as épocas. Em um teorema impecável, Gödel
mostrou que o projeto de Hilbert era impossível: para provar que um
sistema formal não contém contradições, sempre é preciso recorrer a
meios de demonstração que são sistemas formais mais fortes que
aquele que se deseja conhecer. Assim, a questão permanece
inconclusiva, pois se torna necessário provar que os meios de
demonstração também não contêm contradições. O problema se transfere
indefinidamente, de modo que o formalismo matemático não pode, a
partir de si mesmo, legitimar-se de forma incontroversa. Conclusão
chocante, nunca antes imaginada, cujas conseqüências ainda não foram
bem compreendidas: o que era sólido desmanchou-se no ar.
Há, também, desafios
seculares, periodicamente renovados, mas que, a meu ver,
permanecerão sem solução. Na história da ciência e da filosofia, é
recorrente, por exemplo, a busca de uma linguagem que seja capaz de
evitar por si mesma, por sua estrutura, o erro, a confusão, a
ambigüidade e, por extensão, a mentira e o engodo. No Dicionário,
essa busca aparece, entre outros, em Comenius, em Leibniz e no
Wittgenstein do Tractatus, que depois reverá sua posição.
Parece-me uma busca destinada a fracassar sempre, a não ser em
âmbitos limitados e muito específicos: erro, confusão, ambigüidade,
mentira e engodo são expressões da liberdade ontológica do homem, de
modo que uma linguagem imune a tudo isso nunca será uma linguagem
humana. Erro é tentativa, mentira é imaginação, ambigüidade é
dúvida, componentes essenciais do nosso existir. Sem eles, tampouco
haveria emoções, poesia, mitos, arte em geral, e toda a nossa psique
teria de ser outra, também. Quando Russell quis colocar em rigorosa
forma lógica a frase “O atual rei da França é careca”, foi levado a
escrever: “Nem sempre é falso que x seja rei da França e que
x seja careca, nem que y seja sempre verdadeiro; se
y é atualmente rei da França, y é idêntico a x.”
Retire-se a possibilidade
de erro e de ambigüidade na comunicação humana e, como se vê, no dia
seguinte todos enlouqueceremos.
* * *
O Dicionário permite mil leituras diferentes.
Certos pensadores esbarram em descobertas e em novas questões, mas
não as reconhecem plenamente. Às vezes não dispõem dos novos
conceitos que serão necessários para descrevê-las e compreendê-las.
Priestley isolou o oxigênio, mas foi Lavoisier quem descobriu a
importância da descoberta. Saccheri esteve perto das geometrias
não-euclidianas, Kepler esteve perto da gravitação, Meyer esteve
perto da tabela periódica, Poincaré esteve perto da relatividade,
mas nenhum deles as formulou.
Motivações equivocadas resultam em conhecimentos
válidos, como a relação, buscada por Kepler, entre os cinco sólidos
perfeitos de Platão e as órbitas planetárias. É emocionante reviver
o sentimento do astrônomo, quando ele, finalmente, realizou a tarefa
a que se propusera e acreditou ter compreendido
a Harmonice mundi, ou seja,
a mente de Deus.
Questões fundamentais, como as forças da natureza, a
geração da vida ou a evolução das espécies, são tratadas, pelos
próprios cientistas, em estreita relação com a filosofia ou a
teologia. Oersted conduziu sua bem-sucedida pesquisa em
eletromagnetismo guiado pelos princípios da filosofia de Kant.
Pasteur empenhou-se em provar que não havia geração espontânea de
vida – e estava certo –, porque, caso contrário, o lugar do Criador
ficaria ameaçado. Darwin hesitou, durante muitos anos, em publicar
A origem das espécies, assustado com as repercussões
ideológicas e culturais que o livro teria. Foi preciso que Wallace
chegasse às mesmas conclusões, de forma independente, para que
Darwin decidisse publicar seu trabalho.
Saberes antiqüíssimos, como a alquimia, são
finalmente superados, nesse caso com o surgimento da química.
Outros, como a influente astrologia, embora recusados pela ciência,
permanecem vivos nos interstícios da cultura das sociedades
modernas. A ciência e a modernidade desencantaram bem menos o mundo
do que Max Weber supôs.
Os exemplos poderiam se multiplicar. Há muitíssimos
deles nos ensaios que aqui publicamos.
Talvez o mais importante subproduto de uma leitura
atenta do Dicionário – este Editor leu toda a obra mais de
uma vez – seja a clara percepção de que muito do que se diz em
história da ciência, como, de resto, em outras áreas, é apenas
simplificação. O pensamento científico, como qualquer empreendimento
humano complexo, decorre de um formidável esforço coletivo,
estendido no tempo, múltiplo, cheio de idas e vindas, muitas vezes
surpreendente, que não se deixa capturar por nenhum esquema fixo,
formulado com ligeireza. A própria noção
de uma Revolução Científica realizada em um momento específico, mais
ou menos entre os séculos XVII e XVIII, embora útil sob certos
pontos de vista, deve ser considerada com cautela. As idéias
fundamentais aparecem diversas vezes na história e amadurecem
longamente. Mutações são mais raras do que se pensa. E, quando
existem, não nascem em um ambiente vazio nem representam a negação
do que veio antes. Não há começos absolutos para quem está imerso na
História. Copérnico, personagem tão representativo da aurora
da Revolução Científica, foi fortemente influenciado pelos
astrônomos árabes que o antecederam, e o heliocentrismo, que propôs,
já era uma idéia presente, com força, entre os gregos antigos.
* * *
Durante a fase de planejamento da edição original,
alguns consultores do American Council defendiam que uma obra de
referência em história da ciência, com esse porte, seria mais bem
organizada por assuntos e tópicos – por exemplo, “gravitação”, “seleção
natural”, “atomismo” etc. – do que pela descrição de trajetórias
individuais. Não foi este, como vimos, o caminho adotado. A
especificação dos assuntos mostrou-se difícil, arbitrária, sujeita a
infinitos questionamentos e passível de se tornar obsoleta. Além
disso, prevaleceu o ponto de vista de que a ciência é feita por
pessoas, não por temas ou abstrações.
Tal decisão, a meu ver, mostrou-se correta. Um dos
aspectos fascinantes deste Dicionário é, justamente, mostrar
a ciência como construção humana, feita com hesitações, preconceitos
e disputas, ligada a histórias de vida, com suas motivações, e
imersa nas idéias gerais de cada época, além de freqüentemente
influenciada pelos acontecimentos políticos e os sistemas de poder
predominantes.
O Dicionário mostra
quem são as pessoas que fazem a ciência. Chama a atenção a
escassa presença feminina: em 329 biografados, apenas quatro são
mulheres, a física Marie Curie e as matemáticas Sophie Germain,
Hipátia e Emmy Noether. Quase sempre, elas pagaram algum preço pela
ousadia.
Alguns dramas humanos são comoventes, como a vida do
norueguês Niels Henrik Abel, paupérrimo, sempre em dificuldades para
obter um emprego ou uma simples bolsa de estudos, que viveu só
26 anos, abatido pela tuberculose;
e o trágico destino do francês Evariste Galois, morto com menos de
21 anos de idade em um misterioso duelo do qual ele sabia de antemão
que não sairia com vida; toda a sua obra, completada às pressas, às
vésperas da morte, cabe em menos de cem páginas. Só depois os
trabalhos matemáticos dos infortunados Abel e Galois foram
reconhecidos como geniais e decisivos.
Além dos dramas individuais, há os coletivos. Se
alguém tiver dúvidas sobre o que um poder desmedido pode fazer,
lembre de Giordano Bruno, queimado vivo, de Galileu, condenado e
silenciado, de Lavoisier, guilhotinado, ou leia os ensaios sobre os
geneticistas que se opuseram a Lyssenko na antiga União Soviética.
Há, também, passagens curiosas. Kepler descreveu
assim a própria família: o avô era
“facilmente irritável e
obstinado”; a avó era “esperta, enganadora, odienta, a rainha das
bisbilhoteiras”; o pai era “propenso ao crime, brigão, passível de
um final infeliz”; a mãe era “magra, tagarela e mal-humorada,
tratada miseravelmente” (mais tarde, foi julgada por bruxaria); a
esposa era “gorda, confusa e ignorante”. Mesmo assim, e apesar de
uma existência errante, quase sempre às voltas com problemas
financeiros, ele foi capaz de formular as três leis do movimento
planetário. Olhar para o céu talvez fosse um alívio.
William Rowan Hamilton, um “rabiscador inveterado”,
escreveu pela primeira vez a fórmula da multiplicação
dos quatérnios em uma pedra, ao
passar por uma ponte a caminho de Dublin, pois a idéia veio de
repente. “De acordo com seu filho”, diz o ensaio, [Hamilton]
“rabiscava nas unhas e até no ovo cozido, no café da manhã, quando
não havia papel à mão.”
Ernst Mach, já idoso, protestou quando o jovem Albert
Einstein declarou que tinha uma dívida intelectual com ele, na
formulação da relatividade; Mach não quis
ver o próprio nome associado a uma teoria tão inusitada,
quase aventureira.
Edwin Hubble dividiu a vida entre pacatas observações
cosmológicas – devemos a ele a constatação de que vivemos em um
universo em expansão – e tremendas lutas de boxe, esporte no qual
foi um conceituado peso-pesado, cotado para disputar o cinturão
mundial.
São assim as pessoas que fazem a ciência.
* * *
Cada ensaio termina com uma bibliografia que destaca
as obras originais do biografado, os principais trabalhos sobre ele
(literatura secundária) e, quando é o caso, as edições brasileiras
desses autores, antigas ou recentes. Nossa equipe pesquisou na
Biblioteca Nacional, na Internet e em outras fontes para apresentar
o quadro mais completo possível dos livros publicados aqui e,
eventualmente, em Portugal. No final dos ensaios, aparecem as
iniciais dos nomes das pessoas que trabalharam nele, em tradução e
revisão, todas citadas por extenso na página de créditos da nossa
edição.
A primeira entrada dos nomes de todos os nossos
biografados, quando citados em outros ensaios, está assinalada em
negrito e registrada no índice onomástico colocado no fim de cada
volume. Quem quiser estudar a influência de qualquer um deles,
poderá verificar no índice quais são os ensaios em que o nome é
citado, de modo a acompanhar a projeção do trabalho de cada um sobre
os contemporâneos e os sucessores. Assim organizado, o Dicionário
se torna uma fonte quase inesgotável de leituras cruzadas e
pesquisas.
Considerando que o Dicionário contém figuras
de época, que não poderiam ser refeitas, optamos por reproduzir
todas as figuras a partir do original norte-americano impresso. Por
isso, elas nem sempre apresentam a melhor qualidade gráfica. Esta é
uma característica recorrente quando se trabalha com documentos
antigos e a partir de edições estrangeiras.
* * *
A primeira idéia de realizar uma edição brasileira do
Dicionário – vejo por minha correspondência com o American
Council – ocorreu-me há quatorze anos, na época em que eu consultava
regularmente a edição original, em estudos pessoais, na biblioteca
do Instituto de Matemática Pura e Aplicada. A Contraponto não
existia. Seguiu-se um longo período preparatório, cheio de
dificuldades, em que o projeto não deslanchou, mas também não
morreu. Os trabalhos começaram, de fato, há quatro anos.
Tenho a sensação de dever cumprido. Ao mesmo tempo,
sei que a tradução e edição de uma obra desse porte, com essa
complexidade, nunca é um trabalho perfeito. Tentei fazê-lo do modo
menos imperfeito possível.
Indicações de lapsos e falhas serão sempre
bem-vindas.
Se o Dicionário ajudar os professores de hoje
a formarem os nossos cientistas de amanhã, se a ciência mostrar-se
bela, valiosa e estimulante aos olhos dos nossos leitores,
especialmente os jovens, se o talento das gerações passadas for
compreendido e valorizado, o nosso esforço terá valido a pena. |
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