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VIVIAN GALDINO DE ANDRADE
Graduada em História pela Universidade Estadual da
Paraíba (UEPB) e mestranda do Programa de Pós-graduação
em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
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Corpo em cena:
tecendo ‘masculinidades’ nas imagens em movimento
por Vivian Galdino de Andrade
Com
o intuito de analisar as representações masculinas contidas no filme
“O Auto da Compadecida”, nos apropriamos do cinema como um artefato
cultural passível de problematizações. Suas imagens reforçam uma
identidade masculinizada baseada no sertão, construindo estereótipos
do homem nordestino pautado na força, na virilidade e na astúcia,
imagens cristalizadas de um Nordeste da década de 20 do século
passado. É na análise desses discursos que o nordestino emerge como
um conceito ligado a elementos fundantes da região, um “cabra-macho”
que será ironizado e (des)construído pela narrativa fílmica.
Alguns apontamentos teóricos
Os Estudos Culturais, como referencial teórico, nos
possibilita ver a cultura como a grande mediadora dos processos de
produção comunicativa e educativa, articulando discursos, saberes e
representações que envolvem certos artefatos, no nosso caso o
filme. Analisando o cinema sob esta ótica, passamos a enxergá-lo
como um artefato cultural permeado de interesses e direções
mercadológicas, que acabam instituindo condutas e ensinando maneiras
de ser, sentir e ver o mundo em que vivemos. Dentro de um sutil jogo
de significados e endereçamentos, o cinema lida com a política de
identidades, com a Pedagogia, com as culturas que (des)legitimam
práticas, com discursos e imagens que institui representações do
‘outro’, traduzindo e reformulando memórias e alteridades.
Entendendo gênero como uma construção social e,
portanto histórica, amplia-se o alcance de sua definição com a
pluralidade de significados que o próprio conceito abrange,
reconhecendo as diversidades das representações masculinas em
diferentes momentos. No entanto, a linguagem fílmica através do
poder do entretenimento, fabrica com seus discursos um perfil de ser
macho que condiciona a masculinidade ao sexo, remodelando antigas
representações dos sujeitos. Segundo Louro (1997: p.63),
O processo de “fabricação” dos sujeitos é
continuado e geralmente muito sutil, quase imperceptível. Antes
de tentar percebê-lo pela leitura das leis ou dos decretos que
instalam e regulam as instituições (...), nosso olhar deve se
voltar especialmente para as práticas cotidianas em que se
envolvem todos os sujeitos. São, pois, as práticas rotineiras e
comuns, os gestos e as palavras banalizadas que precisam se
tornar alvos de atenção renovada, de questionamentos e, em
especial, de desconfianças. A tarefa mais urgente talvez seja
exatamente essa, desconfiar do que é tomado como “natural”.
As problematizações dos estudos de gênero têm sido
necessárias para a superação de preconceitos e estereótipos. A
recorrência de imagens de um nordestino macho, com características
rudes e rígidas acaba por incidir num trabalho pedagógico que
inscreve nos corpos o gênero e a sexualidade “legítimos”. Essa
influência cristã e sexista presente no filme, constroem
representações de gênero associadas aos espaços histórico e
cultural, como um apelo a mitos fundantes. Não se espera encontrar
no sertão um homem que fuja a tais normas, pois pelas imagens
recorrentes ele vem sendo reproduzido em sua materialidade,
associado à figura do cangaço, do coronel, do jagunço, do matador,
figuras firmes e de masculinidades específicas. Para Ceballos (2000:
p.4),
O nordestino, então, emerge historicamente como
um conceito capaz de enfrentar e lidar com novos modelos de
masculinidade. Um conceito bastante original, criador de um
estereótipo exorbitantemente masculino, conhecido no Brasil
inteiro pela imagem do sertanejo ignorante, forte, bravo... um
“cabra-macho”. Desta forma, o habitante da região Nordeste
ganhava uma identidade e passava também a identificar-se com a
própria região.
Com a versatilidade metodológica dos Estudos
Culturais, torna-se possível a análise deste objeto, que institui
modelos de masculinidade nordestina. Neste âmbito, a política de
identidades, discutida por esse campo de estudo, percebe as
identidades como plurais, fragmentadas, móveis e fluídas, nos
permitindo compreender a identidade masculina representada pelo
filme “O Auto da Compadecida”, como uma produção
imagético-discursiva, que se movimenta dentro de um dinamismo
cultural e regional.
A identidade nordestina e masculina, assim, é narrada
pelo cinema como se estivesse assentada no comum, no uno, sem
pluralidades. Com isso surgiu o incômodo que despertou o nosso
interesse não apenas para buscar o que nos altera, mas sim o que nos
forma, afirmando que existem pluralidades e maneiras de ser
nordestino, vendo-o como uma invenção.
As representações dos nordestinos são, assim, masculinizadas por uma
visão naturalista e machista, baseada nos ícones da força e da
resistência que interpelam os sertanejos, demonstrando alguns
arranjos e desdobramentos discursivos que geram sua representação
icônica.
De que ‘Nordeste’ estão falando?
O Nordeste não é um fato da natureza. Não está
dado desde sempre. Os recortes geográficos, as regiões são
pedaços de história, magma de enfrentamentos que se
cristalizaram, são ilusórios ancoradouros da lava da luta social
que um dia veio à tona e escorreu sobre este território.
(ALBUQUERQUE, 2001: p.66)
Neste sentido, as representações de gênero são uma
construção social que se reflete nos discursos e práticas dos
indivíduos masculinos e/ou femininos presentes em uma determinada
sociedade e região, sendo o filme uma dessas práticas discursivas em
que a história das relações de gênero se faz presente. Neste âmbito,
procuramos compreender como os discursos fílmicos construíram uma
imagem do Nordeste recorrente da década de 20 do século passado,
transmitindo um modelo masculino a ser seguido pelos homens
nordestinos, baseado no que consideram como típico na região: a
seca, a valentia, a astúcia. Tal estereótipo ganha
representatividade nacional, uma vez que a figura do nordestino tem
sido sempre relacionada a uma masculinidade por excelência. Agindo
de forma normativa, tais imagens impuseram posturas e
comportamentos, regulando através da cultura um modelo masculino
estereotipado no nordestino bravo, violento e apegado às tradições
do seu meio ruralizado. Proveniente dos mitos fundantes da região
como o cangaço, os retirantes e o coronelismo, tais discursos tomam
idéias regionalistas para estabelecer uma versão molde para a
masculinidade do nordestino, baseado de forma essencialista e
unitária no sertanejo, elemento este importante na construção
discursiva da região Nordeste.
Construído através do agenciamento de várias imagens,
que perpassam as figuras do ‘brejeiro’, do ‘praieiro’ e do
‘sertanejo’, o nordestino ganha visibilidade. Tais eixos
identitários substanciam outros tipos sociológicos, também
considerados típicos do Nordeste, como o vaqueiro, o senhor de
engenho/coronel, o caboclo, o matuto, o cangaceiro, o beato,
protótipos de ‘ser nordestino’ que invadem a composição da região,
sendo não só gramaticalmente enquadrados como masculinos (o sexismo
da linguagem), como essencialmente masculinos, pois o Nordeste é um
território onde até as mulheres são ‘macho sim senhor’. No entanto,
é na figura do sertanejo que centraremos nossa análise, tendo em
vista que ele será tomado como o tipo regional mais telúrico, ideal
para representar o lado viril da nação. Ele seria, em sua macheza, o
tipo de homem ideal para suportar as fatalidades climáticas da
região.
O sertanejo seria o cerne de nossa nacionalidade,
pois, isolado no interior, seria aquele elemento que não foi
modificado pelas influências cosmopolitas, fora do contato com a
civilização do litoral, sem vias de comunicação, sem meios
fáceis de transporte, segregado na muralha das condições físicas
mais hostis, diferenciou-se em tipo étnico vigoroso.
(ALBUQUERQUE JR., 2003: p. 209)
A nós interessa enfatizar, diante de tais
problematizações, onde e como surge esta idéia estereotipada de
‘nordeste’ e de ‘nordestino’, que vai ser resgatada e reproduzida
pelo discurso fílmico. Para tanto, faremos um breve contexto
histórico que nos possibilitará entender como a figura do homem
nordestino transita por espaços considerados próprios para ‘machos’
e próprios para o homem ‘requintado/delicado’, tido como moderno.
As décadas de 20 e 30 são fundamentais para
compreendermos como estavam sendo estruturadas as condutas
masculinas, pois é um período pelo qual o Brasil passava por
processos de modernização, estando a sociedade urbana em franca
expansão. Eventos como a urbanização e a higienização passaram a ser
vistos como processos de ‘desvirilização’ da sociedade,
desencadeando nas experiências questionamentos, práticas cotidianas
e relações sociais que punham em permanentes conflitos o tradicional
e o moderno, vindo a contribuir para uma suposta corrosão da ordem
social patriarcalista, uma quebra de costumes e valores nas relações
de gênero. A mulher “moderna”, nesse momento, parecia romper com
aquela identidade social imposta e legitimada como mãe, esposa e
dona-de-casa, se “virilizando” ao assumir determinadas condutas
postas como masculinas, quando corta seus cabelos à lá garçon
e usa a saia Chanel, passando a constituir as relações de trabalho e
a ocupar lugares anteriormente masculinos. Neste bojo, em
contrapartida, a sociedade masculina parecia se ‘efeminizar’, devido
ao aburguesamento das formas de vida e as mudanças de hábito, onde
os homens passam a se preocupar mais com a aparência e com a
etiqueta.
Neste período se intensificará as discussões em torno
do homem nordestino, da definição de suas características, na
tentativa de burlar essa feminilidade que ganhava a sua figura na
sociedade.
O nordestino é definido como um homem que se
situa na contramão do mundo moderno, que rejeita suas
superficialidades, sua vida delicada, artificial, histérica. Um
homem de costumes conservadores, rústicos, ásperos, masculinos;
um macho capaz de resgatar aquele patriarcalismo em crise; um
ser viril, capaz de retirar sua região da situação de
passividade e subserviência em que se encontrava. (ALBUQUERQUE
JR., 2003: p. 162).
O discurso fílmico se utiliza das concepções
regionalistas para trazer a tona um Nordeste uniforme e
essencialista. Porém, baseado numa linguagem cômica, o filme ainda
redesenha a região como estigmatizada pelas condições climáticas e
pelos usos e abusos das oligarquias da época, demonstrando o
coronelismo como o ditador da ordem social.
O Nordeste é construído assim, enquanto um processo
de tecelagem, um manufaturamento de um tecido histórico e espacial
substanciado de múltiplas realidades, vidas, costumes, que se
costuram entre si, lhe dando uma história. A produção das
masculinidades nordestinas em torno do sertão se dá pelo desejo de
reconhecimento de uma região forte e austera, símbolos de
resistência ligados à figura do homem. No entanto, a noção de
masculinidade é uma produção social, que nos diferentes contextos
históricos e culturais é percebida e vivenciada de maneira
diferenciada.
O retorno da figura do sertanejo, no filme, não deixa
de ser referenciada a este contexto, ao resgate de uma imagem
voltada à origem da região, de um espaço que ‘parou’ no tempo, mas
que subsiste pela força que representa o ‘cabra-macho’ do sertão. O
Nordeste é um espaço de saudade, reproduzido e cristalizado pelos
discursos fílmicos de maneira cômica, folclórica e inferior,
demonstrando a construção de uma forma de pensamento interessado em
dá significados e subjetivar produções. Esse breve contexto nos
estimulou a investigar a política das identidades, e ver como a
masculinidade nordestina é produzida e instituída no Auto,
negligenciando aos homens nordestinos outras formas de viver o
gênero e sua sexualidade.
O Auto da Compadecida e o “cabra-macho” do
Nordeste
O Auto da Compadecida foi filmado em
Cabaceiras, cidade hoje considerada a ‘roliúde nordestina’, por ter
sido cenário de 18 filmagens dentre documentários e filmes. Colocada
como um espaço “típico” do cabra-macho, a região é conhecida como o
ambiente do ‘Bode-Rei’, uma festividade que norteia a criação e
resistência de uma espécie de bode propícia para o clima seco da
Paraíba. Este fator viria a coadunar na existência e reafirmação dos
sertanejos viris, homens fortes e inabaláveis que desafiam o clima
na melhoria de suas condições de vida.
Ao relatar a história de dois sabidos, “João Grilo” e
“Chicó”, o filme se propõe a substanciar a vida como uma
representação, restringindo a sexualidade dos homens nordestinos a
uma forma biológica e naturalizante do sexo, sem permitir a não
normatividade. A narrativa fílmica modela territórios e corpos,
apresentando personagens caricaturados, maltrapilhos, com dentes
mal-tratados, que burlam astutamente as normas para viver, nos
passando a idéia de que ‘o cinema é um lugar de produção, mas que
também produz o lugar’ que se propõe a retratar.
Perpassado por relações de gênero e sexualidade,
essas imagens em movimento fixam a identidade masculina e a
sexualidade do nordestino em algumas categorias, transitando em mais
de um personagem. Entre elas, nomeamos a do (1) ‘sertanejo
viril’, (2) a do ‘bravo-manso’, (3) a do ‘homem
traído’, (4) a do ‘cabra-macho’ e (5) a do ‘astuto’.
Construções de gênero, elaboradas pelo filme de forma exótica, que
funcionam como uma espécie de educação dos sentimentos e das
condutas para os espectadores que consomem a película fílmica.
As noções de um ‘sertanejo viril’ permeiam a
representação do macho, daquele que não nega fogo, se relacionando
com mais de uma mulher. Nesta categoria de análise enquadramos Chicó,
que enquanto namora Rosinha se relaciona com a mulher do padeiro. As
estratégias usadas por ele para tais conquistas partem de histórias
imaginárias que aparecem como recortes no filme, traços da imagem de
uma região extremamente mítica. Chicó tenta chamar atenção a seu
inexplicável heroísmo (“Não sei, só sei que foi assim”), onde se
relaciona com animais épicos existentes apenas em sua imaginação. Ao
falar de seus contos, narra a história de uma mulher que ‘pariu’ um
cavalo na Serra do Araribe no Ceará, sendo justificado por João
Grilo: “Isso é coisa de seca. O cabra vir com essa fome, não dá pra
ter menino e haja cavalo no mundo” (O Auto da Compadecida,
1998).
Retratando o gosto feminino por homens machos e
valentes, o filme impõe essas condições como necessárias para um
envolvimento mais aprofundado e um possível casamento. Dora,
representada como uma mulher adúltera e ‘fogosa’ diz: “Eu adoro um
homem brabo. (...) Fala que quem manda aqui é você, fala” (O Auto
da Compadecida, 1998). Ela mantém relações com Chicó e com
Vicentão concomitantemente. Esta poligamia é tratada de forma
crítica no filme, identificando Dora como a adúltera que trai o
marido, mas que não consegue viver sem ele, assumindo uma espécie de
autonomia limitada. Nestas relações com a mulher do padeiro, Chicó
tenta se enquadrar no molde de virilidade do macho nordestino,
perceptível em diversas cenas, entre elas a da morte da cachorra.
Com a saída do marido, Dora o convida para o quarto, e ele temendo o
padeiro retruca. Mas ao ser indagado se estava com medo, responde:
“Medo? Eu? Agarro ele pelos chifres, rodo e sacudo pra cima” (O
Auto da Compadecida, 1998).
Rosinha, filha do coronel Antônio Moraes, é uma
personagem que não consta na obra original, mas foi buscada no
teatro medieval de Calderón de La Barca, escritor espanhol
que dá relevo a simbologia e aos sentidos reforçando a imagem de um
conto de fadas que representa um nordeste pitoresco. Sua candura
e castidade levam Chicó a ser um homem fiel, comprometendo-se a não
mais se envolver com outras mulheres. “Eu prometo nunca mais me
deitar com mulher nenhuma nessa vida, tirando Rosinha” (O Auto da
Compadecida, 1998).
Tal como Chicó, Vicentão também é retratado como um
macho viril, que se utiliza de sua peixeira para prevalecer. Nas
falas: “Hoje eu tô com a gota, hoje eu tô com a moléstia. Por que
não abriu a porta logo, quando eu lhe mandei, em?” e “Eu hoje
amanheci azeitado, sabe. Eu até jurei que a primeira pessoa que eu
vice eu enfiava a faca no apendicite” (O Auto da Compadecida,
1998). Vincentão ainda transita pela categoria ‘bravo-manso’, quando
se acovarda diante do padeiro, marido traído, e do revolver do cabo
Setenta, demonstrando a representação de uma masculinidade que
desconstrói os padrões do sertanejo macho e bravo por excelência.
Eurico é o famoso ‘homem traído’, figura tão
caricaturada na região, e por isso mesmo reproduzida pelo filme.
Posto como ‘o último que sabe’ é um tipo de macho que tenta domar
sua mulher, mas que acaba sendo domesticado por ela, demonstrando
que nas relações de gênero a mulher também exerce poder. Na
tentativa de se afirmar como o centro do casal, o padeiro constitui
o segundo sexo, que se submete frequentemente aos ditos da mulher.
Ele não deixa de permear também a categoria de análise que
denominamos de ‘bravo-manso’, demonstrando que tais figurações de
masculinidades podem estar diluídas numa mesma identidade. Quando
sua mulher se ‘engraça’ pelo cabo Setenta, ele se impõe como macho e
diz: “Onde já se viu o cabra ter que usar uniforme para provar que é
macho” . Ainda na tentativa de impressionar sua mulher, critica
Chicó dizendo: “Também, cabra frouxo que você é, heim Chico? Por que
não enfrentou o homem, se fosse eu descangotava ele”. Mas, o padeiro
é percebido pelos outros personagens como ‘frouxo’ e ‘corno’, o que
fica perceptível nas falas: “Tem corno para o alfabeto todo, desde o
apressado que é antes mesmo de casar, até o zeloso que só gosta de
ver a mulher bem vestida” e “Eurico, engole cobra, cabra frouxo.
Anda roubando muito a freguesia” (O Auto da Compadecida,
1998).
O Cabo Setenta, representante da ordem na cidade,
caminharia pela representação do ‘bravo-manso’, quando se
coloca pronto para enfrentar Vicentão: “Você tá insinuando que a
autoridade aqui presente tem medo de um valentão!” (O Auto da
Compadecida, 1998). No entanto, ao longo do filme, mostra sinais
de acovardamento diante de situações hostis, se submetendo a uma
ordem maior posta pelo major Antônio Moraes.
O espaço rural que domina o citadino constitui um
traço característico das obras de Suassuna, quando demonstra o
centro da economia no sertão. Na fala do major vê-se a raiva em ir à
cidade: “Isso aqui tá pior que merda de gado, só venho por
obrigação” (O Auto da Compadecida, 1998). O major, ao
idealizar o casamento de sua filha, deseja “só falta você encontrar
um homem doutor e valente pra você casar”. Ainda posto como símbolo
da ordem, institui sob o signo do medo o respeito diante das
autoridades civis e religiosas. Visíveis na seguinte fala: “Padre,
veja bem com quem o senhor está falando. A igreja é coisa séria como
garantia da sociedade, mas tudo tem um limite” .Transitando pela
categoria ‘cabra-macho’, o coronel nem chega a ser atacado
pelos cangaceiros que invadem a cidade no decorrer do filme, traço
este intencionalmente posto por Suassuna, que vê nas oligarquias,
grupo político ligado a sua história pessoal, uma classe inabalável.
Representado no filme como um personagem sabido e
estrategista, líder intelectual da dupla, João Grilo é narrado
apenas pelas suas espertezas, não se vê nenhuma menção a sua
sexualidade. Ele exemplifica a categoria masculina que nomeamos de
‘astuto’. Ao contrário de Chicó, sua virilidade não é vivida
tão visivelmente no filme, mas é relevada pela resistência típica de
alguns sertanejos pobres que dão golpes para sobreviver. Se
colocando como mediador entre Chicó e seus romances, João Grilo
tenta angariar privilégios e formas de ascender socialmente.
O filme apresenta personagens que vivem em um
exacerbado meio religioso, com influências ibéricas e medievais. A
concepção cristã contida no filme não permite ao autor demonstrar
outros tipos de sexualidade, apresentando apenas a
heteronormatividade. O Diabo e o Cristo acabam também sendo
enganados por João Grilo, que recebe uma segunda chance pela
complacência da Compadecida. O diabo, em sua fala, demonstra a
típica masculinidade, tecendo as críticas a figura feminina, quando
diz: “Lá vem a compadecida, mulher em tudo se mete” ou “Não tem
jeito para homem que mulher governa” (O Auto da Compadecida,
1998), enfatizando o poder que a figura feminina exerce nas decisões
tomadas pelos homens, que na cena seria o próprio Jesus.
O personagem Severino de Aracajú, cangaceiro,
‘cabra-macho’ matador, que trás no poder de sua espingarda a arma
para subverter a condição social em que vive. Associado a um grupo
de homens cangaceiros, ligados a terra, se põe a desbravar a região,
conseguindo mexer com a ordem vigente dos poderosos, postos pela
narrativa. No assalto à igreja e à casa do padeiro demonstra que,
apesar dos assassinatos, tem um forte apego a moral católica, quando
critica a poligamia de Dora: “Vergonha é uma mulher casada na igreja
se oferecer desse jeito. Sabe o que eu faço com as que eu encontro
com esse costume? (...) ferro na tábua do queijo” (O Auto da
Compadecida, 1998).
Apesar da reprodução de um sertanejo bravo e viril,
que deveria dominar as relações, quem acaba conduzindo o desfecho
final da história é uma mulher. A Compadecida justifica as
alegóricas astúcias de João Grilo pela vida sofrida que ele teve.
Através dessas estratégias de governo, funda-se uma imagem de
homem-macho e de Nordeste estereotipada, marcada e aprisionada num
território marginal que lhes foi atribuído, o do ‘outro’, o do
‘inferior’. Na defesa da salvação de João Grilo, a Compadecida
interpela a compaixão de Cristo, intercedendo por uma nova chance
para o sabido. As condições sociais e climáticas acabam, segundo
este discurso, justificando as imagens e ações que se desenvolvem na
região:
João foi um pobre como nós, meu filho, e teve que
suportar as maiores dificuldades numa terra seca e pobre como a
nossa. Pelejou pela vida desde menino. Passou sem sentir pela
infância, acostumou-se a pouco pão e muito suor. Na seca comia
macambira, bebia os frutos do xiquexique. Passava fome e quando
não podia mais rezava, e quando a reza não dava jeito ia se
juntar a um grupo de retirantes, que ia tentar sobreviver no
litoral. Humilhado, derrotado, cheio de saudade. E logo que
tinha notícia da chuva pegava o caminho de volta, animava-se de
novo, como se a esperança fosse uma planta que crescesse com a
chuva. E quando revia sua terra, dava graças a Deus por ser um
sertanejo pobre, mas corajoso e cheio de fé. (O Auto da
Compadecida, 1998).
O cinema é um artefato cultural, instrumento
pedagogizante que educa o ser nordestino através de seus discursos,
atribuindo padrões sociais que modelam os sujeitos. Tais discursos
são práticas descontínuas que sempre reformulam e remodelam velhos
estereótipos, reafirmando preconceitos com pitadas do momento
histórico a que se veiculam. Um modelo estereotipado passa, neste
contexto, a ser usado como símbolo de um todo, negando as diferenças
e a heterogeneidade existente no território. Como um espaço de
muitas fronteiras culturais, o Nordeste é naturalizado a partir das
construções representativas do sertão, que envolve a masculinidade
como um elemento definidor e diferenciador dos papéis sociais e
culturais que existe na região, caracterizando um sertanejo
‘cabra-macho’ e viril, guardião dos valores sociais e morais que
devem permanecer na sociedade.
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