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ALARCON
AGRA DO Ó
Licenciado em História e Mestre em
Educação pela UFPB, é Doutorando em História (Bolsista CAPES)
pela UFPE. É professor da área de Teoria e Metodologia da
História na UFCG. Estuda as representações do envelhecimento na
literatura memorialística nordestina.
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Silvio Romero: espaços históricos e literários
por Alarcon Agra do Ó
Apresentação
Neste texto procuro, ainda que apenas rapidamente,
destacar contribuições oferecidas por Silvio Romero (1851-1914) para
o saber da história – em especial, para a história da literatura.
O estudo
Silvio Romero não pensava a literatura isolada do
mundo no qual ela era fabricada; ao contrário, ele fazia a sua
história – e a sua crítica – ambientando-a num contexto social,
histórico e cultural bastante ampliado, mas preciso (cf. NUNES,
1988). Para ele era impossível pensar o fenômeno literário sem
considerar os fios extra-textuais que o tramavam, ele crendo que o
olho do crítico deveria estar sempre afinado com o particular do
texto e o geral da história. Não por outra razão, escrevendo sua
“História da literatura brasileira” numa época marcada pela forte e
crescente presença européia pelo mundo, graças aos avanços do
imperialismo da segunda metade do século XIX, ele pôde afirmar que:
Todo e qualquer problema
histórico e literário há de ter no Brasil duas faces principais:
uma geral e outra particular, uma influenciada pelo momento
europeu e outra pelo meio nacional, uma que deve atender ao que
vai pelo grande mundo e outra que deve verificar o que pode ser
aplicado em nosso país. (ROMERO, 1980, p. 04)
Naquele pequeno trecho ele dava a público, e não de
forma elíptica, a sua posição: a compreensão do país, naquele
momento, no fim dos anos 1880, não deveria ser procurada a não ser
no cruzamento de séries locais e séries internacionais, porque assim
era a história daquele momento. Assim se comportava o mundo, naquele
instante de problematização incessante de fronteiras e de
distâncias; assim deveria se pautar o pensamento sobre as coisas do
espírito, enfocando com atenção o que vai dentro e o que vai fora
delas, e suas relações. O que não poderia, entretanto, ser
negligenciado, se depositava no mais íntimo de cada experiência
nacional, aquilo que a caracterizava e que indicava, desde aí, quais
os limites da absorção dos elementos exógenos. Voltarei a este
ponto, mais à frente, neste artigo.
Romero se via, enfim, como um homem que, mergulhado
até a alma no seu próprio mundo, pensava-o para intervir nele
(RODRIGUES, 2005). Esta intervenção se daria pela polêmica, pela
crítica, pela etnografia, pela exploração filosófica e histórica,
visto que para aquele autor as lides do pensamento eram, mais que
tudo, a política viva, o debate público por excelência, algo
necessário à nação e ao seu povo. Sem tais empresas, nada seríamos
no concerto das nações civilizadas. Quanto a isso, já no primeiro
parágrafo do primeiro capítulo de sua “História da literatura
brasileira” ele enuncie uma crítica que é ao mesmo tempo a
contraface de um programa de estudos:
As pátrias letras, entre outras
muitas lacunas, mostram bem claramente a grande falha causada
pela ausência de trabalhos históricos. Se não existe uma
história universal escrita por brasileiro, se a nossa própria
história política, social e econômica tem sido apenas esboçada e
foi mister que estrangeiros no-la ensinassem a escrever, no
terreno da literatura propriamente dita a pobreza nacional
ostenta-se ainda maior. (ROMERO, 1980, p. 01)
Talvez isso possa ser explicado pelo ambiente
intelectual no qual aquele autor formou-se e atuou (CERTEAU, 1982).
Aqueles eram anos em que o Brasil, em meio às redefinições da
geopolítica orquestrada pelo capitalismo cada vez mais
internacionalizado, via ser construído para si um novo rosto, e
mesmo uma nova identidade – e o papel do intelectual naquele cenário
se caracterizava por não ser apenas o de falar sobre o país, mas,
fundamentalmente, o de fundar o país, ainda mais uma vez.
Neste sentido, é adequado pensar o quanto Romero se
empenhou em se imiscuir nos negócios do mundo que o rodeava,
distribuindo os autores e as obras que lhes pareciam significativos
pelos textos que escrevia, dando-lhes maior ou menor espaço,
legitimando ou não sua pretensão ao estatuto de personagem da cena
literária. Importa pensar, ainda, os critérios de que ele se valia
para isso. Silvio Romero, responsável por alguns dos textos mais
intensos da história da cultura no Brasil, não era apenas o autor de
uma descrição do mundo literário brasileiro, e sabia disso: ele era,
nos seus limites, um dos seus cartógrafos, visto que sua voz
atribuía lugares aos ditos dos outros, emprestando-lhes
credibilidade, ou não, a partir do espaço que lhes era dedicado nas
suas páginas. O texto, assim, era um dispositivo estratégico, que ao
mesmo tempo em que se remetia ao real, o disciplinava, dando-lhe uma
ordem e um sentido que não adviriam de outra maneira.
E, e isso é importante registrar, Silvio Romero
exercia seu papel de intelectual pela polêmica: pelo texto
apaixonado, pela escrita que não admitia controvérsias, pela
produção incessante de enunciados vibrantes, que eventualmente se
lançavam no debate público das idéias de forma até mesmo violenta.
Ao enunciar de que trataria na sua “História da literatura
brasileira”, por exemplo, ele indicou com firmeza e mesmo virulência
de quem não se aproximaria no estudo (numa lição implícita aos
letrados de sua própria época, aliás):
Em rápida excursão só me deterei
ante os talentos de mérito que saem engrandecidos do aparelho de
crítica e justificam-se à luz do método indicado.
Não tratar-se-á de saber qual
foi o primeiro brasileiro que escreveu uma poesia ou um livro, e
outras tantas questões impertinentes e ociosas.
Nada terá que se ver com alguns
frades despreocupados ou ociosos que mataram o tempo a escrever
versos latinos, ou a publicar sensaborias em Roma. São
homens que nunca viveram na consciência da pátria, não foram
forças vivas a seu serviço. Foram indiferentes na vida e
se-lo-ão sempre na morte e no esquecimento. Não merecem uma
justificativa e ressurreição história. (ROMERO, 1980, p. 03)
A sua imagem mais resistente, a que mais vem
persistindo ao longo do tempo, é a do polemista, do crítico feroz e
combativo, que não se furtava a um choque com quem pensasse
diferentemente dele – que não se furtava a uma valorização ou a um
silenciamento acerca de algum literato que lhe parecesse próximo ou
distante de suas crenças, de suas posições em relação ao Brasil e ao
estatuto mesmo do texto literário e de sua função na história do
Brasil (VENTURA, 1991).
A incursão que Silvio Romero realizou pelos campos da
literatura, enfim, foi possível num instante em que o Brasil era
reescrito, em que novos vocabulários eram propostos para explicá-lo,
em que os modos de dizer e de fazer ver que até então eram os mais
usuais entravam em crise. Para tanto, foram fundamentais as “idéias
novas” vindas da Europa, e que se diziam como alternativas
científicas de explicação do mundo e da vida social. Modos de pensar
e de descrever o real que eram experimentados em universidades e em
círculos intelectuais europeus eram apropriados pelos brasileiros
que se formavam no Velho Mundo, naquele fim de século, e que já
haviam partido do Brasil, em muitos casos, ansiosos por novas
gramáticas, novas possibilidades de compreensão do seu mundo de
origem. O neokantismo, o monismo evolucionista, a filosofia
sintético-evolucionista, o positivismo, o darwinismo – foram
diversas as correntes que chegaram ao Brasil naqueles anos e que se
combinaram entre si – muitas vezes de forma surpreendente –, gerando
novos discursos e novas práticas, as quais, em muito, colocaram sob
novas perspectivas o país, visto que alteravam a concepção que seus
filhos letrados tinham dele e de si mesmos.
Silvio Romero ligou-se à “geração de 1870”, um
movimento de idéias e gestos políticos que se referiam, em maior ou
menor grau, às transformações pelas quais o país passava, naqueles
anos. Ligado à Faculdade de Direito do Recife, um dos ambientes mais
férteis para aquelas novidades, Romero foi um dos atores de
maior influência no movimento então vigoroso de reação às narrativas
românticas, que se dava, como foi mencionado acima, pela
incorporação, no pensamento e na ação política (em especial no
abolicionismo e no republicanismo), de ideários naturalistas,
evolucionistas, cientificistas, combinados entre si de diversas
formas. O meio, a raça e a natureza foram desde ali acionados como
elementos de compreensão da realidade, e como ferramentas para a sua
transformação – e, no caso da abordagem da literatura, eles
ofereciam aos críticos e aos historiadores o que lhes parecia ser a
condição de uma intervenção objetiva e imparcial sobre o seu objeto,
o que destoava das apreensões subjetivistas em voga no auge do
romantismo (VENTURA, 1991).
Tudo isso parece condensado num pequeno trecho:
A literatura no Brasil, a
literatura em toda a América, tem sido um processo de adaptação
de idéias européias às sociedades do continente. Essa adaptação
nos tempos coloniais foi mais ou menos inconsciente; hoje tende
a tornar-se compreensiva e deliberadamente feita. Da imitação
tumultuária, do antigo servilismo mental, queremos passar à
escolha, à seleção literária e científica. A darwinização da
crítica é uma realidade tão grande quanto é a da biologia.
(ROMERO, 1980, p. 04)
Naquela breve intervenção, Romero indicava estar
próximo às enunciações cientificistas de sua época, delas tendo se
apropriado para desenvolver o seu próprio pensamento. Assim, ele
fala, ali, de adaptação, de inconsciente, se seleção, de
darwinização, de biologia – termos que não sinalizavam senão a
demarcação do olhar de Romero por enquadramentos que se
referenciavam numa certa sensibilidade favorável à predominância de
idéias e supostos científicos no âmbito do pensamento social (LÈVY-LEBLOND,2004).
O seu antagonista, em linhas gerais, era a
sensibilidade romântica até então em voga, e que havia acompanhado,
quando não orientado, a formação inicial da nacionalidade
brasileira, e dos seus tipos sociais e culturais característicos.
Conforme ressalta Benedito Nunes, o romantismo foi de extrema
importância para a construção de uma espécie de identidade nacional,
na primeira metade do século XIX, tendo se manifestado não apenas na
produção literária, mas, também, e de forma interligada a ela, na
produção historiográfica. O cientificismo do final do século veria
no romantismo uma sucessão de equívocos, aos quais só cabia o
combate. Este combate se deu, de acordo com a narrativa de Benedito
Nunes, em meio à experimentação simultânea de uma recusa à
metafísica, de um acolhimento do cientificismo e de uma compreensão
de nacionalismo que se pensava como crítica do real, como proposição
de caminhos outros.
Como relata Nunes, a mescla de idéias derivadas de
Spencer e de Comte deu ensejo, no Brasil, a fabulações acerca da
nação que se associavam a enunciados evolucionistas e a enunciados
cientificistas, num caldo geral cuja tônica era uma visão
marcadamente naturalista do mundo, “segundo a qual mesmo os
fenômenos sociais e históricos, na categoria dos quais incluíam-se a
Arte e a Literatura, poderiam ser explicados pela ação de fatores
naturais constantes, físicos ou orgânicos.” Disso decorreria, por
exemplo, que a narrativa de Silvio Romero acerca da história da
literatura no Brasil fosse iniciada com um texto em que o autor
punha-se a descrever criticamente a situação do país no fim da
década de 1880, compondo sua visão de um outro lugar que não o por
ele nomeado como o do idealismo romântico. Para Silvio Romero, o que
devia ser acionado como fio condutor da explicação do país e de sua
literatura, ao invés do que pensavam e faziam os românticos que o
antecederam, era uma abordagem mais científica do mundo, no seio da
qual os elementos mais significativos eram o meio e a raça
(completados pela consideração dos fatos políticos e econômicos, bem
como pelo intercâmbio com o mundo que era estrangeiro em relação ao
Brasil), elementos explicativos verdadeiramente eficazes e legítimos
(NUNES, 1998, p. 226-227).
Para Silvio Romero, então, era importante ler a
produção literária brasileira a partir da idéia de meio, e disso
decorria que seu texto definia o nosso povo como um aglomerado de
sujeitos destinados a uma vida tão curta quanto improdutiva. Este
povo, na narrativa de Romero, mal alimentado e submetido a um clima
que nem sempre estimulava a saúde (estávamos nos trópicos, enfim),
era destinado apenas a uma lírica que exigisse pouco esforço; a
ciência e a filosofia, pelo que exigiam de dispêndio mental e mesmo
corporal, estavam interditadas face à nossa fraqueza.
Na consideração das questões da raça, por seu turno,
o maior problema a ser resolvido dava conta do caráter mestiço do
brasileiro, fruto da fusão de raças distintas. Para Silvio Romero,
será na miscigenação que se poderá encontrar a razão de ser das
expressões literárias nacionais, ele entendendo que o brasileiro
herdou as características de três grupos distintos. Ao pensar as
expressões literárias no âmbito mais geral da história, isto é, ao
relacionar o campo literário com os eventos políticos da história do
Brasil, Silvio Romero acabou por insistir na idéia de que o país
havia, desde sempre, produzido para o exterior, para a metrópole,
sendo o lugar de um povo ao mesmo tempo apático e sem uma
criatividade específica. Com isso Romero se apropriava de uma lógica
naturalista, evolucionista e mesmo organicista para dar conta da
história das idéias, da história da cultura e, enfim, da história da
literatura brasileira:
A filosofia da história de um
povo qualquer é o mais temeroso problema que possa ocupar a
inteligência humana. São conhecidas as dificuldades quase
insuperáveis dos estudos sociológicos. Uma teoria da evolução
histórica do Brasil deveria elucidar entre nós a ação do meio
físico, por todas as suas faces, com fatos positivos e não por
simples frases feitas; estudar as qualidades etnológicas das
raças que nos constituíram; consignar as condições biológicas e
econômicas em que se acharam os povos para aqui imigrados nos
primeiros tempos da conquista; determinar quais os hábitos
antigos que se estiolaram por inúteis e irrealizáveis, como
órgãos atrofiados por falta de função; acompanhar o advento das
populações cruzadas e suas predisposições; descobrir assim as
qualidades e tendências recentes que foram despertando;
descrever os novos incentivos de psicologia nacional que se
iniciaram no organismo social e determinaram-lhe a marcha
futura. De todas as teorias propostas a de Spencer é a que mais
se aproxima do alvo, por mais lacunosa que ainda seja. (ROMERO,
1980, p. 08)
Ele compôs assim um texto que era, na sua trama, uma
versão dramática da história literária brasileira, em que a
natureza, a cultura e a história eram os protagonistas, e em meio ao
qual se narrava a história de um povo mestiço, interessado em
conhecer a si próprio e ao seu país. Incisivamente, ele apontava
para a riqueza do dinamismo que derivava da multiplicidade de
experiências culturais existentes no território nacional –
entendendo as particularidades como vantagem evolutiva, como indício
de força cultural e histórica. Conforme apontei no início deste
artigo, para Romero a nacionalidade era o filtro pelo qual se
absorvia – ou não – o elemento exógeno, e isto fica patente na
citação a seguir:
Se não é possível confundir as
populações do Norte com as do Sul em pequenos países europeus;
se é exata a diferença entre o Algarve e o Minho, a Provença e a
Normandia, a Suábia e o Meclemburgo, o Piemonte e Nápoles, a
Escócia e a Inglaterra, as Astúrias e a Andaluzia, em pequenos
Estados da Europa, por que se hão de confundir o Pará,
Pernambuco ou o Ceará com São Paulo, Rio Grande ou Paraná?! A
vida histórica nestas regiões, tão distantes uma das outras, não
tem sido sempre a mesma. Ficava muito bem a um imperialismo
ferrenho comprimir toda e qualquer franquia provinciana que se
erguesse no país; era a grande solidão geral para sobre ela
levantar-se o espectro da corte superficial e presunçosa,
bradando aos quatro ventos: – o Brasil é o Rio de Janeiro!...
A grandeza futura do Brasil virá
do desenvolvimento autonômico de suas províncias, hoje estados.
Os bons impulsos originais que neles aparecerem devem ser
secundados, aplaudidos.
Não sonhemos um Brasil uniforme,
monótono, pesado, indistinto, nulificado, entregue à ditadura de
um centro regulador das idéias. Do concurso das diversas
aptidões dos estados é que deve sair o nosso progresso. A grande
alma nacional, apesar de muito batida de infortúnios, não caiu
ainda na imobilidade chinesa. Continuai, continuai, poetas e
romancistas, estudai os costumes reproduzi nos vossos cantos e
nas vossas novelas o bom sentir do povo, quer do Norte, quer do
Sul; marcai as diferenças e os laços existentes entre estas
gentes irmãs, que são o braço e o coração do Brasil. Não é de
vossos estudos, interessantes ao observador e ao psicólogo, que
nos pode vir o mal. Que seria melhor: uma pátria uniforme,
morta, gelada, ou vivace e múltipla em suas manifestações? Daí
não vem perigo. Não se chama isto dividir a literatura nacional
em duas; é apenas afirmar a unidade na multiplicidade. Destarte,
quando falam nas dissonâncias existentes entre as populações da
langue-d’oil, e as da langue-d’oc, em trouvêres e troubadours,
os críticos não dividem a antiga literatura francesa em duas. No
Brasil os estados do Norte e os do Sul têm a plena consciência
do fato assinalado; e não se lhes dá disso; porque sabem ser um
bem e conhecem nas suas próprias tradições, de lado a lado,
recursos para as produções literárias. Tenhamos, sim, muito
cuidado com as pretensões compressoras da capital; estejamos
alerta contra o parisismo e contra a almejada ditadura
científica de um centro regulador das idéias... É uma nova
fórmula do jesuitismo! (ROMERO, 1980, p. 42)
Para contar essa história, antecedida por tantas
prevenções e tantas indicações meta-textuais, Romero traçou um longo
panorama que remetia a 1592, data assumida como a da publicação da
Prosopopéia, e que se lançava até aos anos finais do século
XIX, momento em que as teorias do mestiçamento e o evolucionismo
filosófico lhe permitiam entender o trajeto histórico da literatura
nacional – em especial este movimento analítico sendo demarcado como
um deslocamento em relação aos modos românticos de estudo e de
apreciação do fenômeno literário.
Uma sucessão de Escolas, de Correntes e de Gêneros
foi enunciada assim por Romero, numa tentativa de disciplinar o
campo literário brasileiro, de nomear e classificar cada uma de suas
manifestações – isto se dando nos marcos de um olhar evolutivo que
atribuía a causas intrínsecas e extrínsecas, bem como às
peculiaridades do país, as mudanças ali havidas. Com esse esforço,
no dizer de Benedito Nunes, Romero, ao enfatizar nas suas análises o
teor das idéias expressas em cada obra, “construiu o primeiro
sistema orgânico da Historiografia literária” brasileira (Nunes,
1998, p. 230). Não abria mão do critério da nacionalidade,
entretanto, o que de uma certa forma retomava uma tese cara aos
românticos, mas fazia isso de forma peculiar, entendendo a história
do país como uma derivação do esforço dos seus próprios habitantes,
e não de forças anteriores à própria existência humana e social.
Silvio Romero, autor de um sistema descritivo e
interpretativo que marcou por longo tempo a história da literatura
brasileira, foi, enfim, um pessimista, que entendia a literatura
brasileira, e, de resto, toda a sua história, como o resultado nem
sempre bem sucedido da transplantação para o Novo Mundo de idéias,
valores e modos de expressão europeus, os quais precisaram se
adaptar e se conformar aos rigores da experiência histórica
inaugurada pela colonização e prolongada pela instauração do Estado
Nacional.
Conclusão
Como lembra José Carlos Reis, cada autor, nos limites
de sua obra, desloca o campo no qual atua, nele introduzindo uma
diferença que aos contemporâneos e aos pósteros cabe discernir,
avaliar, problematizar. (REIS, 2003)
A maior contribuição de Silvio Romero terá sido,
talvez, a de aliar um conhecimento enciclopédico sobre a literatura
brasileira (prejudicado, para alguns, pela sua dificuldade em tecer
juízos estéticos mais refinados) com o desejo de propor
interpretações do fenômeno literário que alargassem a sua
compreensão como parte fundamental da experiência histórica nacional
– pensando a partir de um lugar laico e público, talvez pela
primeira vez na nossa história. Silvio Romero pode ser pensado,
assim, como um a(u)tor comprometido com a construção de certas
representações da nacionalidade brasileira, basicamente críticas e
voltadas para a politização da cultura. As questões por ele
colocadas em cena, de alguma forma, ainda fazem parte do cenário
contemporâneo da interpelação acadêmica da literatura e da história.
Não bastasse seu caráter singular, em relação à sua
própria época, Romero merece ser lido pelo que ainda pode, se não
dizer, pelo menos, nos incitar a pensar – afinal, ele nos coloca a
refletir sobre a relação do que chamamos de pensamento brasileiro
(seja ele na história, na literatura etc.) e as contribuições
estrangeiras, o que parece ser especialmente oportuno nos dias em
que vivemos. O local e o não-local são posições cuja demarcação se
dá em meio a batalhas nem sempre incruentas, e pensar nisto é tarefa
do intelectual contemporâneo. Silvio Romero nos faz pensar, ainda,
sobre os critérios que podem ser utilizados para a atribuição do
caráter de literário às obras (ou seja, ele nos faz pensar, de uma
certa forma, na dimensão histórica do cânone); por fim, ele nos
convida a refletir acerca do papel que os letrados representaram, e
representam, na construção da auto-imagem do Brasil e dos
brasileiros.
Referências
CERTEAU, Michel de. A
operação historiográfica. In. __________. A escrita da história.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982. pp. 65-119.
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