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por
CRISTINA MARIA DA SILVA
Socióloga
- Mestre em Ciências Sociais. Doutoranda em Ciências Sociais –
UNICAMP / CNPq.
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Narrando alteridades:
socialidades na literatura Contemporânea
O que o mar sim ensina ao
canavial: o avançar em linha rasteira da onda;
O espraiar-se minucioso,
de líquido, alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial sim
ensina ao mar: A elocução horizontal de seu verso;
A geórgica de cordel,
ininterrupta, narrada em voz e silêncio paralelos.
João Cabral de Melo Neto.
O Canavial e o
Mar. In:
A Educação Pela
Pedra. (1962-1965).
Neste texto, busco compreender e interpretar os
traços da socialidade atual na literatura contemporânea. A hipótese
apresentada é a de que os rastros da socialidade atual estão
presentes nas formas dessas narrativas literárias. Diante de uma
confluência de gêneros e formas literárias vemos buscas por exprimir
uma experiência social.
Socialidade ou socialidades são aqui abordadas como a
maneira “conflitual” que os valores, as ações e os sentidos da
sociedade contemporânea se apresentam, ou seja, o caráter “anômico”
que ultrapassa o que poderíamos chamar de sociabilidades, ou seja,
lugares, papéis sociais definidos, pretensamente organizados dentro
de regras e estruturas. As socialidades são as subversões que
perpassam essa ordem, certo mal estar diante dela, e a busca por
outras formas para as relações e interações sociais, uma possível
característica da sociedade atual.
São importantes para a análise as abordagens sobre
“formas sociais” de Georg Simmel, da concepção de “arqueologia” dos
saberes de Michel Foucault e as concepções de Michel Maffesoli sobre
a “socialidade” contemporânea. Partimos das leituras de obras de
João Gilberto Noll (Porto Alegre-RS) e de Luiz Ruffato (Cataguazes-MG).
Procurando inspiração nas metáforas do mar e do
canavial, presentes na poética de João Cabral de Melo Neto, busco
pensar sobre as possíveis trilhas entre as ciências sociais e a
literatura. Tal como o mar e o canavial trazem ensinamentos um ao
outro - o mar ensinando ao canavial o avançar de sua onda e o
canavial ensinando para o mar os movimentos de seu verso-, entendo
que as interpretações sociais atualmente têm muito a aprender com as
artes e, como é o caso aqui, com a literatura, assim como as
narrativas estudadas, ganham outros sentidos ao compreendermos os
espaços sociais e as temporalidades históricas que as atravessam. O
objetivo desse texto é evidenciar traços da socialidade, ou seja,
trajetórias de alteridades presentes nas relações que marcam a
sociedade atual, a partir de textos literários.
Diante de uma confluência de gêneros e de formas na
literatura contemporânea, encontro tentativas de expressão de uma
experiência social. Nessas narrativas podem ser encontrados tanto
esboços para uma “arqueologia” dessa era de incertezas, como,
também, um suporte, ainda que efêmero para certa mobilidade diante
de um mundo que ainda não aprendemos a olhar.
As socialidades fazem parte do intrincado jogo das
relações sociais, são os conflitos que recompõem o cenário da
cultura e da sociedade. Nas concepções de Michel Maffesoli sobre a
socialidade contemporânea, busco as relações que se estabelecem
entre o imaginário e as formas sociais atuais, ou melhor, em como
estas estão marcadas pela aparência ou pela ética da estética, pelos
jogos de imagens, pelos nomadismos e pelo instante. Nessas trilhas
se revela uma face maldita que se evidencia nos conflitos atuais em
suas diferentes dimensões. As socialidades são pensadas com uma
maneira de compreensão dos impasses atuais, menos para controlá-los,
mas pelo menos enunciá-los. É para isso que utilizamos essa
terminologia, que procura o lado avesso da vida social em
contraponto às sociabilidades que definem papéis, atribuições e
controles, bem como, tenta encontrar as formas sociais que indicam
os desgastes de certo “Processo Civilizador” para trazer aspectos
que compõem o que Maffesoli chama de “o ritmo da vida”.
Entre contos, romances e experimentações de gêneros
literários podem ser vistos marcas de uma experiência social, de um
mal-estar, a própria incorporação da socialidade através de
escritores em busca de uma narrativa, possivelmente perdida, mas nem
por isso é deixada de ser buscada como impossibilidade, como os
próprios impasses das interações sociais. Numa possível “etnografia
ficcional” podem ser percebidos, nesses textos literários, traços
dos embates da experiência social contemporânea, neles as muitas
vozes das alteridades em contraponto se evidenciam. Com esse
intuito, a idéia de “formas sociais”, inspirada em Georg Simmel,
pode apontar para a compreensão dessas formas como tipologias
ideais, que aparecem intrincadas no jogo das relações sociais, mas
que podem ganhar outros sentidos ao serem descritas e interpretadas
através do que os textos literários inspiram. É possível pensar numa
“etnografia ficcional” ou em ficções da vida social? Ou seja, pensar
o que a cultura e a sociedade tornam ficções e como a literatura
entra com uma fala de corte, recriando, mobilizando o imaginário,
revirando o avesso dessas ficções através de um jogo textual
permeado de outras.
Diante das narrativas dos escritores aqui indicados,
a escolha metodológica deste trabalho, de olhar a vida social pelas
frestas da literatura, surge norteada pelos princípios que apontam
sobre uma vida social em fragmentos, permeadas de conflitos, de
percepções sobre as incompletudes entre os projetos sociais e a
existência dos sujeitos. Sendo assim, essa escolha é marcada por uma
busca pelo o que trazem dos indivíduos nos rastros dessa socialidade
que se debate contra o “Social” instituído. Os escritores têm em
comum a maneira como buscam exprimir esse mal-estar diante do
vivido, dos laços perdidos que tentam em suas escritas não reatar,
mas mostrar como contingentes e arbitrários. Suas narrativas não
deixam de ser “vivências escritas”, nesse sentido, perceber essa
experiência é também uma maneira de perceber os liames entre o
individual e o social na configuração do que as narrativas
literárias trazem da socialidade.
Escritores: Trajetórias e Grafias da Vida
Social
Ao pensar em escritores que estão vivendo e
escrevendo, no mesmo contexto em que estou pesquisando, refletindo e
também escrevendo, torna esse “encontro de narrativas” e “narrativas
de encontros”, algo mais complexo e intricado, visto que não dá para
passar despercebido o fato de que em suas narrativas estão as
grafias do tempo em que vivem, estão as marcas das trajetórias que
fizeram, de suas escolhas, e de suas experiências do olhar e da
escrita. A percepção biográfica, as trajetórias que permeiam as
experiências se constituíram para nós como temas transversais.
Pensar nas marcas biográficas das narrativas literárias, não
significa nos perdermos na ilusão de que quem escreve está tal qual
em seus escritos e que reciprocamente como num espelho seus escritos
reflitam seu rosto. Pelo contrário, considerar o biográfico é pensar
nas intricadas teias que envolvem a constituição dos sujeitos e as
sinuosidades sociais e históricas que o atravessam.
Entretanto, o que pensar das “alterbiografias” ou dos
narradores múltiplos presentes nas narrativas que abordamos? Talvez
seja pensar não a partir da experiência de um sujeito, mas sim de
vários para podermos perceber suas experiências coletivas. Se Kofes
aponta a trajetória como um “processo de configuração de uma
experiência social singular ”(KOFES, 2001, p. 27), não seria possível pensar em
trajetórias escritas, ou seja, pensar, não linearmente na vida dos
escritores citados, mas nas experiências coletivas que apreenderam
em suas narrativas? Etnografias de experiências? Etnografias
ficcionais? Talvez sim, uma vez que se tratam de trilhas que
ressaltam relações entre as ficções e as experiências sociais dos
sujeitos por meio de narrativas em fluxo e suas descontinuidades.
Em todas as narrativas, sejam elas literárias,
científicas ou filosóficas em suas imagens e figurações “ressoam
algumas forma de vivência”, que “pode ser presente, passada ou
futura, individual ou coletiva, real ou imaginária. São sempre
partes constitutivas do pensamento e da realidade, dos sentimentos e
das fantasias”, que compõem o imaginário. Para Ianni,
É na experiência é que se escondem algumas das
possibilidades no pensamento e do sentimento, da compreensão e
da explicação, da intuição e da fabulação, que se transfiguram,
exorcizam, sublimam, clarificam ou enlouquecem em palavras e
narrativas. (IANNI, 1999, p.14).
Ao seguir traços biográficos, experiências e
trajetórias do vivido na escrita literária considero suas marcas na
composição de narrativas. O biográfico aparece não como uma oposição
entre indivíduo e sociedade, mas como uma resistência a isso e um
deslocamento entre os sujeitos e uma “identidade supostamente fixa”,
pela “multiplicidade destes e de suas situações”, o que possibilita:
Questionar um modo habitual de categorização da
prática considerada apenas do ponto de vista de agrupamentos
sociológicos, como problematizar o indivíduo como uma totalidade
coerente. Revela-se, ou permitiria revelar, que a superposição
de vários mundos nas experiências e interpretações de sujeitos
singulares são constituidores da socialidade e não incoerências
sociológicas. (KOFES, 2004, p.9)
Os escritores experimentam a realidade social e
histórica e relatam experiências por meio de suas narrativas, mas o
processo de escrita não pode ser visto como “um processo de
documentação, é um resgate de experiências”, no qual as lacunas da
história são preenchidas com a imaginação, como aponta a escritora
Ana Miranda (2006).
Pensar sobre a socialidade contemporânea é, de certa
maneira, uma busca por exprimir contextos em suas nuanças e em suas
especificidades. Se há comparações é pelo que diferem, se há
representações da vida social é pelos pedaços que encontramos em
meio ao que tais narrativas exprimem. A literatura contemporânea,
que tem se esboçado, sobretudo a partir da década de 1980 até os
dias atuais, segue por uma trilha que não procura defender,
ratificar ou ancorar mitos de fundação nem definir origens, antes
forja veredas sem bandeiras ou insígnias. As narrativas têm suas
formas rasuradas e acompanham as formas da vida social, ou seja, já
não encontram, na experiência em que se baseiam, a matéria-prima
para serem inteiras, de amor à língua, à pátria e às tradições,
antes são expressões de uma vida marcada por socialidades imediatas,
efêmeras, inconscientes e em fúria.
Como aponta Wander Melo de Miranda, tentar desenhar
um panorama para a prosa brasileira contemporânea é se confrontar
“um repertório de fatos históricos, culturais e literários
múltiplos, do qual a mobilidade nos incita a afastar de repente toda
tentativa de síntese totalizante”. Entretanto, o que se torna claro,
ainda que um “claro enigma”, é que diante das narrativas atuais
encontramos outras formas de articulação com as práticas sociais. Os
temas que cercarão esses escritos, nos anos de 1980, marcados por
“uma proliferação de estilos simultâneos”, perpassados por traços de
subjetividades tolhidas no imaginário brasileiro, pelo autoritarismo
presente na sociedade. A partir de experiências cotidianas, questões
como as dos índios, negros, homossexuais, mulheres, loucos,
operários, camponeses, velhos se articulam com “as micro-estruturas”
do cenário brasileiro. De um modo geral:
A ficção produzida a partir dos anos 80 é marcada
pelas formas híbridas e pela tendência ao ensaio. (...) cede o
espaço para uma discussão do conteúdo mais notadamente
metaficcional, que não se resume a uma reflexão sobre a
linguagem, mas se interroga também sobre o sentido de escrever e
sobre a situação do escritor na sociedade contemporânea (MIRANDA, 1999, p. 1;2).
Ao se pensar, nas socialidades contemporâneas, por
meio da literatura, podem ser lidos “desmontes” distintos da
escritura literária, porém trazem “formas da socialidade”, ou seja,
alguns aspectos são mais pertinentes em alguns autores, o que não
quer dizer que não atravessem os escritos de outros. As narrativas
literárias trazem múltiplas vozes, narradores múltiplos (alterbiografias)
e personagens oscilam entre 1ª e 3ª pessoa, confundem-se, talvez por
isso consigam trazer tantas vozes das cidades e das socialidades
nelas existentes. No entanto, as cidades aparecem, como esboça
Maffesoli, inspirado em Rimbaud, como: “ ‘cidade no plural’ (Rimbaud),
(...) imagens sublimes e do mesmo tanto inquietantes de um
território familiar e estranho onde se encena a aventura humana. ” (MAFFESOLI,
2001, p 86). Essa polifonia já desvela que os elementos que compõem
a socialidade contemporânea se tornam presentes na narrativa
literária que abordamos e que são múltiplas as narrativas da própria
socialidade. Essa permutação analisada por Wander Melo de Miranda, é
assim comentada:
A permutação constante de papéis jogados pelo
narrador, situado no espaço intervalar entre o interior e o
exterior da narrativa, relativiza as certezas adquiridas, - o
quanto antes destruídas -, ao proveito de módulos textuais que
operam na hesitação e na dúvida. Melhor ainda, o vai e vem do
narrador entre todas as sortes de virtualidades ficcionais
reproduz os relacionamentos de força que impregnam as
confrontações dos discursos e sua legitimação mais ou menos nata
no espaço social (MIRANDA, Idem, p.4).
Grafias das Socialidades
Em João Gilberto Noll e Luiz Ruffato vemos realmente
o esboço de socialidades movidas por vidas em trânsito, por
deslocamentos e inquietudes. Assim, como são muitas as narrativas e
os modos como elas se constituem, como também são várias as formas
da socialidade contemporânea. Essas formas aparecem, inicialmente:
num entrecruzamento de temporalidades, na “geografia rarefeita das
cidades”, em seus territórios flutuantes no tempo e nos espaços já
não reconhecíveis por insígnias e bandeiras; na fúria do corpo ou
nas faces do “quieto animal” humano, nas “dinâmicas da violência”, e
no esquecimento da memória social, que evidenciam as arenas de
alteridades da sociedade atual e trazem nesses aspectos os
nomadismos nela presentes. Talvez seja mais relevante mapear
narrativas do que se ater à ilusão de que lidamos com textos
semelhantes. Será que não são rastros de escritas que se encarnam em
escritores diversos, formas avessas da vida social e que por isso
mesmo são escritos que se tornam textos-rasuras de uma época?
João Gilberto Noll, nascido em 1946, em Porto Alegre,
onde ainda vive, vem esboçando seus trabalhos desde a década de
1980, com a publicação de O Cego e a Dançarina, e vem
publicando desde então, tendo publicado seu último livro em 2006,
intitulado como: Máquina de Ser. As narrativas de Noll se
inscrevem durante esse anos trazendo um cenário de personagens em
trânsito, extraviados da memória social, são o lado avesso do mundo
social, em pane, debatendo-se diante da estrutura social. Trata-se
de um escritor que dá “habitação a seres” que carregam um enorme
mal-estar diante da realidade em que vivem, não se sentindo inteiros
nem diante de seu próprio corpo e muito menos dos lugares que
habitam. É um escritor que “somatiza o que vive”, e isso não quer
dizer diretamente que suas narrativas são autobiográficas, para eles
se trata de uma “autoficção”, pois há uma teatralização no texto
literário que não permite que ele documente, antes transfigure a
realidade que ele tenta alcançar e remontar em palavras.
Seus personagens seja nos contos O Cego e a
Dançarina (1980), como em A Fúria do Corpo (1981); no
romance Bandoleiros (1985); Rastros do Verão (1986),
Hotel Atlântico (1989), O Quieto Animal da Esquina
(1991), em Harmada (1993), A Céu Aberto (1996),
Canoas e Marolas (1999); Berkeley em Bellagio (2002);
Mínimos Múltiplos Comuns (2003); em romance Lorde (2004)
e nos contos Máquina de Ser (2006), trazem uma falta de
lugar, ou melhor, uma insatisfação individual diante do que são e do
mundo que os cercam. Uma de suas características, é um extravio da
memória, como se isso os redimisse e apagasse os seus passos, como
se num vazio fosse possível reescrever uma outra escritura de vida
ou mesmo habitar o nada.
As formas que as ações desses seres tomam são a de
uma “fúria” diante de seus corpos, diante dos sentidos dados a eles,
percorrem cidades de uma “rarefeita”, no qual os lugares onde pisam
e os lugares dos quais se lembram pelos rastros da memória se
misturam. Há uma certa vigília “a céu aberto”diante do
sentido da vida, ou seja, seus personagens não cabem no espaço
doméstico, perambulam pelas ruas, seguem numa contestação
silenciosa, mas em fúria diante da sexualidade, de seu lado animal.
O próprio lugar onde se dá a escritura e onde os
personagens habitam é marcado pela rasura da linguagem, a ausência
de memória se dando como um rasgo na escrita, permeando a escritura
de um vazio que se inscreve no movimento da construção narrativa e
da leitura, sobretudo porque está latente no vivido.
Luiz Ruffato (1961) é mineiro de Cataguazes, mas vive
em São Paulo. É jornalista, formado em comunicação social pela
Universidade Federal de Juiz de Fora - MG, filho de um pipoqueiro e
de uma lavadeira. Ele afirma que foi nesta ordem:
pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de
armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio
de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de
livros autônomo e novamente jornalista (RUFFATO, 2006a).
Ruffato esboça em suas narrativas fatos da vida
cotidiana, tanto na cidade de São Paulo, como na Cataguazes de suas
memórias. Uma narrativa descritiva, mas envolta em poesia pelo o
que guarda dos lugares. Traz as marcas dos espaços rural e urbano
nos sujeitos e tateia os fluxos das metrópoles atravessando-os.
Ruffato de sua escrita como algo que não é conto, nem romance, mas
“mosaico”, talvez porque configure suas narrativas por meio de
tramas que de alguma maneira guardam um pano de fundo sobre a vida
proletária na ditadura militar, sobre as violências cotidianas,
tendo como característica a forte carga de realidade na sua ficção.
Suas narrativas se compõe com um olhar observador, que procura as
grafias da vida, como ela se constituem, como as trajetórias dos
sujeitos se fazem em meio a tudo o que experimentam. Sobre tratar em
mosaicos a vida proletária na ditadura militar, ele responde:
O que me importa, nesse caso, é o entrecruzamento
das experiências de “fora”, e “de dentro” dos personagens, o
impacto que as mudanças objetivas (a troca do espaço amplo pela
exigüidade, a economia de subsistência pelo salário, etc)
provoca na subjetividade dos personagens, ou seja, fazer
interpretar a História nas histórias (RUFFATO, Idem).
Em seu trabalho Eles eram muitos Cavalos,
busca exprimir os fragmentos que compõem a vida cotidiana na cidade
de São Paulo: o fluxo da metrópole atravessando a vida dos sujeitos,
a vida social e a individual imbricadas, mapeadas em várias
histórias que se entrecruzam. Rastros de violência de personagens
que são “universais no que têm de regionais” (HOSSNE, 2002, p. 135)
em seus espaços de sobrevivência num único dia (9 de maio de 2000)
na cidade de São Paulo. “Bocejos do dia”, cansaços, chacinas,
seqüestros, assassinatos, “espelhos-labirintos”, “jardins que se
bifurcam”.
Sobre a Série, intitulada: Inferno Provisório,
uma tentativa de contar como passamos em 50 anos de uma sociedade
agrária para uma sociedade industrial, traz narrativas que, no
entanto, apesar de divididas se entrelaçam no tempo e no espaço.
Sobre o título do romance, Ruffato explica que:
O título geral do romance se inspira numa frase
do poeta Murilo Mendes, católico, que dizia que ele preferia um
inferno eterno a um paraíso provisório... Pois eu, pensei, acho
que nós vivemos no inferno ... e, pior, esse inferno é
provisório. (...) Essa é a questão. A eternidade é, e ponto
final. Não há qualquer expectativa. A provisoriedade indica que
há algo além, depois. Isso cria a expectativa, a angústia, a
ansiedade. Por isso, na minha opinião, pior que a eternidade é a
provisoriedade: porque não é o fim, você ainda tem que viver a
eternidade do inferno depois ...(RUFFATO, 2006b).
De certa maneira, a série conta a história de um
povo, ou busca por isso, ao trazer elementos da vida de pessoas que
viveram no século XX entre Rodeiro e Cataguazes, que migraram para
cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e como foram os seus sonhos,
perdas e lutas nessas travessias. Assim, Ruffato compõe elementos da
História nas suas narrativas, romanceando a própria história,
estando sensível aos confrontos do homem consigo mesmo e com os
outros nas transições dos espaços.
Desse modo, percebo que diante das narrativas da
socialidade, a partir da literatura contemporânea, é possível pensar
que nelas existem marcas da experiência social atual, as quais
delimitam o jogo de formas, e de composições da narrativa, como as
ações e os sentidos que perpassam as personagens.
A escrita de Noll e Ruffato provoca uma revisão dos
lugares consagrados ou canônicos para autores, leitores e críticos.
A literatura se apresenta de fato como o “rumor da língua”, para
lembrar da metáfora de Barthes (2004) diante dos encarceramentos por
ela criados e sedimentados pelas vivências sociais que a ritualizam
e eternizam como verdades irrefutáveis.
As narrativas da socialidade ou suas formas são
várias como também múltiplas as vozes que tentam narrá-la, sejam nas
ciências como nas artes. Falar da realidade social construída pelas
lentes literárias preenche lacunas do real com o literário, que
percorre sua trilha pelo imaginário e mobiliza a circularidade dos
signos sociais, os fios que conduzem as relações sociais. Esses
escritores se entrelaçam nas narrativas, nos contextos nos quais
elas se inscrevem, mas diferentemente de outros tempos do cenário
literário brasileiro não há como pensá-las, mas nem sei se temos
necessidade disso, em termos de grupos, escolas, geração falando e
criando literatura. Existem antes aproximações entre os escritores,
das vivências que trazem nas suas narrativas marcadas pela própria
constituição social e histórica.
Noll traz a tensão de uma escrita pautada na solidão
do indivíduo, no desamparo que o habita; Ruffato parte de uma
dimensão mais coletiva, parecendo buscar na história, o fio da meada
pelo qual nos constituímos como somos.
Nessas narrativas estão as marcas de um tempo (ou
suas formas), atravessado por socialidades ou conflitos, por rasuras
da memória social, em narrativas de esquecimentos, marcadas pelo
instante, pelo provisório e incertezas, diante dos quais buscam
compor ou mobilizar imaginários, que despertam, que se recriam ou se
criam na arena social. Os reducionismos da imagem se dissipam, e é
possível ver “em obras individuais (...) grandes frutos da
imaginação criativa ou interpretativa”, intrinsecamente relacionadas
com a constituição da cultura e da sociedade, num quadro de
narrativas que não deixam de trazer o que Said, chama de “uma
estrutura de atitudes e referências”. (SAID, 1995, p. 24), ou seja,
referem-se ao que se dá nas experiências sociais, mas o trazem no
avesso da escrita literária, que encarna as lacunas e a própria
inquietação do ser humano com o existente na sociedade e na cultura
as quais ele pertence. Nesse sentido, abre-se um “campo” literário
para as ciências sociais repensarem a vida social e os desafios que
ela aponta, como também um caminho de inspiração para uma
“sociologia da arte” ou para uma “etnografia ficcional” da
contemporaneidade.
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por
CRISTINA
MARIA DA SILVA
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