por RADAMÉS DE MESQUITA ROGÉRIO

Bacharel em Ciências Sociais (Universidade Estadual do Ceará – UECE); Mestrando em Sociologia na Universidade Federal do Ceará – UFC

 

 

(Im)perícias em “sistemas peritos”:

quem tem medo de avião?

 

fonte: http://www.mentalhelp.com/images/medo_de_aviao.jpgHá alguns meses duas frases têm sido reiteradamente repetidas e inculcadas, pelo menos se pretende isso, em nosso país: o avião é um dos meios de transporte mais seguros que o homem já inventou e o sistema aéreo brasileiro, bem como a estrutura que promove sua segurança, é eficiente. A necessidade de transformá-las em axiomas me faz lembrar, sem querer fazer afirmações prematuras, da famosa afirmação de um dos principais ideólogos do nazismo (Goebbels) de que uma mentira repetida várias vezes torna-se uma verdade.

Nosso foco não deve, no entanto, necessariamente recair sobre a busca em desmentir ou ratificar esta ou aquela afirmação do governo ou dos diversos órgãos e empresas envolvidas com a crise que assola a aviação civil brasileira, ao invés, a análise volta-se para a compreensão do que está por trás da (des)confiança do usuário de aeroportos em relação a todo este complexo sistema que deve ser sinônimo de excelência, perícia, segurança...

É necessário se perguntar por que o temor de voar se mantém em detrimento à suposta segurança garantida pelas estatísticas e pelos técnicos; o que demarca e norteia a relação entre usuário e sistema; como se dá a relação entre risco e confiança, previsibilidade e erro, medo e possibilidades, dúvida e racionalização; quais os critérios de aceitabilidade de risco e como este fator tem permeado o imaginário coletivo.  

Para alguns especialistas o medo de voar é natural e sua origem está localizada no próprio subconsciente humano, na medida em que este foi geneticamente “preparado” (treinado?) para se locomover na superfície terrestre, em terra firme, sendo, portanto, uma reação convencional do corpo e da mente a de reagir com desconforto à quebra desse paradigma. Historicamente estamos situados a “apenas” um século de distância das primeiras experiências do voar, o que também contribuiria, segundo essa linha de raciocínio.

Segundo pesquisa realizada pelo IBOPE[1] em 2003, 42% dos entrevistados admitiram ter medo de voar. Situando estes números em relação à média mundial (30% segundos estudos norte-americanos) o brasileiro é um dos passageiros que mais teme voar no mundo. Um dos fatores que podem explicar isso é o aumento do número de pessoas que está voando pela primeira vez, decorrência da queda das tarifas e “estabilidade” da economia, valorização do real em relação ao dólar dentre outros.

Porém, acredito que o conceito proposto pelo sociólogo inglês Anthony Giddens de “sistema perito” (GIDDENS, 1991:36) nos ajudará muito mais a compreender a relação entre sistema aéreo e o medo de voar. Assim, concordamos com a idéia deste autor ao afirmarmos que o aeroporto é um sistema perito.

Para Giddens vivemos uma era marcada pelo “desencaixe” - processo característico da “modernidade reflexiva” procedente a separação (“esvaziamento”) entre tempo e espaço a partir da padronização destes, como também da retirada de suas noções de um referencial de um domínio local (vivência cotidiana, hábitos e práticas locais, presença) para referenciais mais abrangentes (ausência) - das relações sociais nas quais se alteram as interações entre o próximo e o distante, entre presença e ausência e onde se institui o intermédio dos sistemas peritos.

O aeroporto é um espaço hierarquizado, vigiado, controlado, especializado, que obedece a um paradigma linear racional quantitativo, que se pretende seqüencial, preciso, o que influencia todo o seu contexto técnico, social e simbólico (funcionamento, procedimentos, relações, representações e atores sociais), é então um sistema perito no sentido da excelência ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje. “Fornecem ‘garantias’ de expectativas através de tempo-espaço distanciados. Este ‘alongamento’ de sistemas sociais é conseguido por meio da natureza impessoal de testes aplicados para avaliar o conhecimento técnico e pela crítica pública (sobre a qual se baseia a produção do conhecimento técnico), usado para controlar sua forma”.

Esse sistema pressupõe, portanto, “confiança”, ou seja, “exige” que seus usuários tenham por certo a credibilidade de uma pessoa (motorista do ônibus, médico-cirurgião, piloto de avião...) ou sistema (elétrico, internet, tráfego aéreo...), confiança “aqui revestida de capacidades não individuais, mas abstratas”. Ou seja, no avião o passageiro está totalmente à mercê do conhecimento especializado, habilitado do piloto e da segurança do equipamento, o que diferencia o transporte aéreo, dentre outros fatores mais óbvios e menos importantes nesta análise, do transporte terrestre, pois neste o passageiro pode, por exemplo, exigir que o motorista diminua a velocidade em caso de mau tempo ou até que este pare o ônibus até que haja uma melhora.

Porém, desde o fatídico acidente com o Boeing da Cia. Aérea “GOL”, há dez meses, que a “confiança” do passageiro no sistema aéreo brasileiro está em baixa e as razões não são poucas tendo em vista algumas constatações: segundo o especialista Christoph Gilgen que é representante da Federação Internacional de Controladores de Tráfego Aéreo (Ifatca), e esteve no Brasil quando do acidente supracitado afirmou que “os equipamentos usados no controle do tráfego aéreo no Brasil são antigos e ineficientes (...) os rádios são muito velhos, o alcance deles não é suficiente para cobrir todos os setores que são controlados, por exemplo, pelo Centro-Brasília. Os radares também são antigos, mostram muitas imagens de fantasmas e outros alvos incorretos. No geral achamos que o sistema é muito antigo, que são várias partes colocadas juntas sem uma idéia geral de como vai funcionar o conjunto”.

A isto soma-se a falta de planejamento do governo brasileiro em detrimento ao aumento da demanda por parte dos usuários, inabilidade ilustrada pela falta de pessoal qualificado e do prórpio investimento em qualificação, investimento em infra-estrutura dos aeroportos, levando ao limite o sistema o que levará incontestavelmente à diminuição da margem de erro humana e técnica.

A última tragédia com o avião da TAM traz novamente à tona algo que nem tinha ainda submergido: a fragilidade deste sistema e a ratificação e ressignificação do medo de voar. A falta de respostas convincentes, o mistério que envolve as causas dos acidentes aéreos, a sensação de impotência e à proporção que adquiri um acidente desta natureza são fatores preponderantes. “Quando caem muitos aviões de uma só vez a impressão que se tem é a de que vão cair todos. Isso definitivamente não vai ocorrer, e a aviação comercial, embora flerte com o desastre, vai continuar muito segura” afirmou Dan Smith especialista norte-americano à reportagem da revista Veja em 1989.

Desastres como esse tem como resultado direto a absorção de termos técnicos (flap, grooving, transponder, reversor etc.) por parte do imaginário coletivo, uma apropriação do conhecimento perito que passa a ser quase que 24 horas ventilado pela mídia. O resultado é a consolidação daquilo que o antropólogo francês Marc Augé chamou de “invasão do imaginário coletivo pelo imaginário ficcional” (AUGÉ, 1998:27).

Para este autor os “três pólos do imaginário” (individual, coletivo e ficcional) se retroalimentam dentro de certas oscilações, mas relativamente equilibrados. Porém, os dias hodiernos estão marcados por uma forte tendência de desequilíbrio deste pêndulo a favor do imaginário ficcional influenciado, por exemplo, pela mídia e meios de comunicação em geral.

Este é, sem dúvidas, um dos fatores que reduzem as possibilidades de se passar segurança através de estatísticas como as que comparam os acidentes aéreos e os rodoviários. Para se ter uma idéia, morrem por ano, em média, 34 mil pessoas nas estradas brasileiras, segundo reportagem do jornal Bom dia Brasil da Rede Globo, o que equivaleria a 182 desastres aéreos como o ocorrido no aeroporto de Congonhas no último dia 17 de julho.

Gênios como os escritores Vinicius de Moraes e Ariano Suassuna definem bem o paradigma aqui levantado: o primeiro afirmava não gostar de avião por que “é mais pesado do que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por um brasileiro”. O segundo, seguindo a mesma linha irônica, explica por que não hesita em trocar a viagem de avião pela de carro mesmo com o péssimo estado das rodovias brasileiras ao afirmar que “na estrada, tem um buraco aqui, outro mais adiante. No avião, aonde você vai o buraco vai embaixo”.

Em meio a tudo isso uma maneira de fugir ao medo quando este insiste em permanecer naqueles que são “obrigados” pelas circunstâncias a “voar” é o entorpecimento pelo álcool, conforme mostrou reportagem do jornal O Povo (Fortaleza/Ce) do dia 20 de julho, dois passageiros “enchiam” a cara já que iriam voar para Porto Alegre saindo do aeroporto internacional de Fortaleza, o que nos faz lembrar a música do cearense Belchior [2]“medo de avião” na qual ele diz: “Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez na tua mão, um gole de conhaque...”.

Com bebida ou sem o usuário do sistema aéreo brasileiro quer perguntar, parafraseando o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), se tudo que é sólido realmente se desmancha no ar, sem, entretanto, saber ao certo a quem ou quem lhe ouvirá.

 

Referências bibliográficas

AUGÉ, Marc. A Guerra dos Sonhos: Exercícios de etnoficção Campinas, SP: Papirus, 1998.

___________. Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994.

BOM DIA BRASIL ON-LINE. Crise aérea e seus impactos. 18 jul. 2007. Disponível em: http://bomdiabrasil.globo.com/Jornalismo/BDBR/0,,AA1590328-3685-703398-1590328-26265,00.html. Acesso em: 19 julho 2007.

FANTÁSTICO ON-LINE. Por que voar no Brasil virou um pesadelo? 24 jun. 2007. Disponível em: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0,,AA1571830-4005-0-0-24062007,00.html. Acesso em: 25 junho 2007.

GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade. São Paulo, SP: Ed. UNESP, 1991.

REMOR, Eduardo A. Tratamento psicológico do medo de viajar de avião, a partir do modelo cognitivo: caso clínico. Madrid, Universidad de Madrid, Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010279722000000100021&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 18 abril 2007.

VEJA ON-LINE. Nuvens no horizonte. Veja On-line, São Paulo, 29 mar. 1989. Disponível em: http://vejaonline.abril.com.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.
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. Acesso em: 18 julho 2007.

_______________. Pânico nas alturas. Veja On-line, São Paulo, 05 ago. 1998. Disponível em: http://veja.abril.com.br/050898/p_122.html. Acesso em: 18 julho 2007.

 


[1] Segundo artigo de Eduardo Augusto Remor intitulado “Tratamento psicológico do medo de viajar de avião, a partir do modelo cognitivo: caso clínico”, disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010279722000000100021&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt, conforme referências bibliográficas.

[2] “Era uma vez um homem e o seu tempo”, Waner music Brasil, 1979.

 

por RADAMÉS DE MESQUITA ROGÉRIO

   

 

 

 

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