(Im)perícias em “sistemas peritos”:
quem tem medo de avião?
Há
alguns meses duas frases têm sido reiteradamente repetidas e
inculcadas, pelo menos se pretende isso, em nosso país: o
avião é um dos meios de transporte mais seguros que o homem
já inventou e o sistema aéreo brasileiro, bem como a
estrutura que promove sua segurança, é eficiente. A
necessidade de transformá-las em axiomas me faz lembrar, sem
querer fazer afirmações prematuras, da famosa afirmação de
um dos principais ideólogos do nazismo (Goebbels) de que uma
mentira repetida várias vezes torna-se uma verdade.
Nosso foco não deve, no entanto,
necessariamente recair sobre a busca em desmentir ou
ratificar esta ou aquela afirmação do governo ou dos
diversos órgãos e empresas envolvidas com a crise que assola
a aviação civil brasileira, ao invés, a análise volta-se
para a compreensão do que está por trás da (des)confiança do
usuário de aeroportos em relação a todo este complexo
sistema que deve ser sinônimo de excelência, perícia,
segurança...
É necessário se perguntar por que o temor de
voar se mantém em detrimento à suposta segurança garantida
pelas estatísticas e pelos técnicos; o que demarca e norteia
a relação entre usuário e sistema; como se dá a relação
entre risco e confiança, previsibilidade e erro, medo e
possibilidades, dúvida e racionalização; quais os critérios
de aceitabilidade de risco e como este fator tem permeado o
imaginário coletivo.
Para alguns especialistas o medo de voar é
natural e sua origem está localizada no próprio
subconsciente humano, na medida em que este foi
geneticamente “preparado” (treinado?) para se locomover na
superfície terrestre, em terra firme, sendo, portanto, uma
reação convencional do corpo e da mente a de reagir com
desconforto à quebra desse paradigma. Historicamente estamos
situados a “apenas” um século de distância das primeiras
experiências do voar, o que também contribuiria, segundo
essa linha de raciocínio.
Segundo pesquisa realizada pelo IBOPE
em 2003, 42% dos entrevistados admitiram ter medo de voar.
Situando estes números em relação à média mundial (30%
segundos estudos norte-americanos) o brasileiro é um dos
passageiros que mais teme voar no mundo. Um dos fatores que
podem explicar isso é o aumento do número de pessoas que
está voando pela primeira vez, decorrência da queda das
tarifas e “estabilidade” da economia, valorização do real em
relação ao dólar dentre outros.
Porém, acredito que o conceito proposto pelo
sociólogo inglês Anthony Giddens de “sistema perito” (GIDDENS,
1991:36) nos ajudará muito mais a compreender a relação
entre sistema aéreo e o medo de voar. Assim, concordamos com
a idéia deste autor ao afirmarmos que o aeroporto é um
sistema perito.
Para Giddens vivemos uma era marcada pelo
“desencaixe” - processo característico da “modernidade
reflexiva” procedente a separação (“esvaziamento”) entre
tempo e espaço a partir da padronização destes, como também
da retirada de suas noções de um referencial de um domínio
local (vivência cotidiana, hábitos e práticas locais,
presença) para referenciais mais abrangentes (ausência) -
das relações sociais nas quais se alteram as interações
entre o próximo e o distante, entre presença e ausência e
onde se institui o intermédio dos sistemas peritos.
O aeroporto é um espaço hierarquizado,
vigiado, controlado, especializado, que obedece a um
paradigma linear racional quantitativo, que se pretende
seqüencial, preciso, o que influencia todo o seu contexto
técnico, social e simbólico (funcionamento, procedimentos,
relações, representações e atores sociais), é então um
sistema perito no sentido da excelência ou competência
profissional que organizam grandes áreas dos ambientes
material e social em que vivemos hoje. “Fornecem ‘garantias’
de expectativas através de tempo-espaço distanciados. Este
‘alongamento’ de sistemas sociais é conseguido por meio da
natureza impessoal de testes aplicados para avaliar o
conhecimento técnico e pela crítica pública (sobre a qual se
baseia a produção do conhecimento técnico), usado para
controlar sua forma”.
Esse sistema pressupõe, portanto,
“confiança”, ou seja, “exige” que seus usuários tenham por
certo a credibilidade de uma pessoa (motorista do ônibus,
médico-cirurgião, piloto de avião...) ou sistema (elétrico,
internet, tráfego aéreo...), confiança “aqui revestida de
capacidades não individuais, mas abstratas”. Ou seja, no
avião o passageiro está totalmente à mercê do conhecimento
especializado, habilitado do piloto e da segurança do
equipamento, o que diferencia o transporte aéreo, dentre
outros fatores mais óbvios e menos importantes nesta
análise, do transporte terrestre, pois neste o passageiro
pode, por exemplo, exigir que o motorista diminua a
velocidade em caso de mau tempo ou até que este pare o
ônibus até que haja uma melhora.
Porém, desde o fatídico acidente com o
Boeing da Cia. Aérea “GOL”, há dez meses, que a
“confiança” do passageiro no sistema aéreo brasileiro está
em baixa e as razões não são poucas tendo em vista algumas
constatações: segundo o especialista
Christoph Gilgen que é representante da
Federação Internacional de Controladores de Tráfego Aéreo (Ifatca),
e esteve no Brasil quando do acidente supracitado afirmou
que “os equipamentos usados no controle do tráfego aéreo no
Brasil são antigos e ineficientes (...) os rádios são muito
velhos, o alcance deles não é suficiente para cobrir todos
os setores que são controlados, por exemplo, pelo
Centro-Brasília. Os radares também são antigos, mostram
muitas imagens de fantasmas e outros alvos incorretos. No
geral achamos que o sistema é muito antigo, que são várias
partes colocadas juntas sem uma idéia geral de como vai
funcionar o conjunto”.
A isto soma-se a falta de
planejamento do governo brasileiro em detrimento ao aumento
da demanda por parte dos usuários, inabilidade ilustrada
pela falta de pessoal qualificado e do prórpio investimento
em qualificação, investimento em infra-estrutura dos
aeroportos, levando ao limite o sistema o que levará
incontestavelmente à diminuição da margem de erro humana e
técnica.
A última tragédia com o avião da TAM traz
novamente à tona algo que nem tinha ainda submergido: a
fragilidade deste sistema e a ratificação e ressignificação
do medo de voar. A falta de respostas convincentes, o
mistério que envolve as causas dos acidentes aéreos, a
sensação de impotência e à proporção que adquiri um acidente
desta natureza são fatores preponderantes. “Quando caem
muitos aviões de uma só vez a impressão que se tem é a de
que vão cair todos. Isso definitivamente não vai ocorrer, e
a aviação comercial, embora flerte com o desastre, vai
continuar muito segura” afirmou Dan Smith especialista
norte-americano à reportagem da revista Veja em 1989.
Desastres como esse tem como resultado direto
a absorção de termos técnicos (flap, grooving,
transponder, reversor etc.) por parte do
imaginário coletivo, uma apropriação do conhecimento perito
que passa a ser quase que 24 horas ventilado pela mídia. O
resultado é a consolidação daquilo que o antropólogo francês
Marc Augé chamou de “invasão do imaginário coletivo pelo
imaginário ficcional” (AUGÉ, 1998:27).
Para este autor os “três pólos do imaginário”
(individual, coletivo e ficcional) se retroalimentam dentro
de certas oscilações, mas relativamente equilibrados. Porém,
os dias hodiernos estão marcados por uma forte tendência de
desequilíbrio deste pêndulo a favor do imaginário ficcional
influenciado, por exemplo, pela mídia e meios de comunicação
em geral.
Este é, sem dúvidas, um dos fatores que
reduzem as possibilidades de se passar segurança através de
estatísticas como as que comparam os acidentes aéreos e os
rodoviários. Para se ter uma idéia, morrem por ano, em
média, 34 mil pessoas nas estradas brasileiras, segundo
reportagem do jornal Bom dia Brasil da Rede Globo, o que
equivaleria a 182 desastres aéreos como o ocorrido no
aeroporto de Congonhas no último dia 17 de julho.
Gênios como os escritores Vinicius de Moraes
e Ariano Suassuna definem bem o paradigma aqui levantado: o
primeiro afirmava não gostar de avião por que “é mais pesado
do que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por um
brasileiro”. O segundo, seguindo a mesma linha irônica,
explica por que não hesita em trocar a viagem de avião pela
de carro mesmo com o péssimo estado das rodovias brasileiras
ao afirmar que “na estrada, tem um buraco aqui, outro mais
adiante. No avião, aonde você vai o buraco vai embaixo”.
Em meio a tudo isso uma maneira de fugir ao
medo quando este insiste em permanecer naqueles que são
“obrigados” pelas circunstâncias a “voar” é o entorpecimento
pelo álcool, conforme mostrou reportagem do jornal O Povo
(Fortaleza/Ce) do dia 20 de julho, dois passageiros
“enchiam” a cara já que iriam voar para Porto Alegre saindo
do aeroporto internacional de Fortaleza, o que nos faz
lembrar a música do cearense Belchior
“medo
de avião” na qual ele diz: “Foi por medo de avião, que eu
segurei pela primeira vez na tua mão, um gole de
conhaque...”.
Com bebida ou sem o usuário do sistema aéreo
brasileiro quer perguntar, parafraseando o filósofo alemão
Karl Marx (1818-1883), se tudo que é sólido realmente se
desmancha no ar, sem, entretanto, saber ao certo a quem ou
quem lhe ouvirá.
Referências
bibliográficas
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___________.
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por
RADAMÉS DE MESQUITA ROGÉRIO