por FÁBIO MALINI

Jornalista. Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ; Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social na
Universidade Federal do Espírito Santo

 

Resenha:

Graciela Hopstein. A rebelião argentina: assembléias de bairro, piqueteros e empresas recuperadas. Rio de Janeiro: editora E-papers, 2007, 150 p.

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A releitura do Panelaço argentino

 

O filósofo Antonio Negri argumenta que a característica dos movimentos políticos na atualidade é que eles não apenas resistem e se defendem, mas afirmam-se como forças criadoras. Pois é a partir dessa premissa que Graciela Hopstein, no seu A Rebelião Argentina (editora E-papers, 2007), relê os acontecimentos que no Brasil ficou conhecido como o Panelaço. Os deslumbrantes protestos e conflitos insurrecionais de rua, ocorridos na Argentina entre os dias 19 e 20 de dezembro emergiram contra todo um conjunto de políticas neoliberais que colocaram o país em um agudo drama social desde o início da década de 90, exemplificados no aumento substantivo da pobreza (cerca de 40% da população), colapso das classes médias, que se vêem empobrecidas e descapitalizadas ou ainda o aumento dos processos de precarização e desocupação da força de trabalho nacional.

A rebelião argentina, para Hopstein, foi então um instante de abertura para o novo, consubstanciado, num primeiro momento, nas cenas em que a população, durante a madrugada, batendo panelas, gritava “que se vayan todos, que no quede ni uno solo”, que todos vão embora e que não fiquem mais ninguém, referindo-se à necessidade de expurgar, de vez, toda uma classe política que afundou o país numa onda de corrupção e políticas fracassadas de reconstrução de uma Argentina falida. Na leitura do livro, o surpreendente é perceber que a rebelião argentina foi uma iniciativa de um sujeito político estranho, pois que era formada pelos sujeitos ligados principalmente ao conjunto da população precarizada não coberta pelas políticas de proteção social do Estado. Tratava-se naquele momento de uma anomalia do ponto de vista de uma certa ciência política. Isso porque a rebelião não tinha uma vanguarda. Era uma revolta de uma força de trabalho precária, flexível, móvel, mas sem o direcionamento de partidos ou sindicatos operários.

Não é à toa que a autora relaciona (nos ótimos capítulos sobre os Piqueteros, empresas recuperadas e as Assembléias de Bairro) a ação desses precários como um movimento político que, além de resistir, inspiraram a criação de novas práticas sociais, como quando passaram a: assumir o comando da gestão de fábricas falidas para recuperá-las de anos de contração produtiva; exigir do Estado transferência direta de renda para servir de base de um novo regime de produtividade do trabalho, como fazem grupos trabalhadores sem ocupação, os piqueteiros; ou ainda, experimentar novas formas de democracia, através das chamadas assembléias comunitárias de bairro.

A Argentina se transformou então em um esplêndido laboratório político, à medida que sua reconstrução terá que ser elaborada sem a utilização dos manuais do Consenso de Washington (sem recorrer ao FMI, sem privatizações etc) e também sem as medidas desenvolvimentistas, que carregam a herança do modelo militar argentino: corporativismo, desordem urbana, inflação e regressão da distribuição de renda. A rebelião argentina foi então contra o Estado e contra o Mercado Neoliberal.

Com forte influência da literatura dos autonomistas italianos, como Antonio Negri e Mario Tronti, Rebelião Argentina é uma obra que lê os movimentos sociais sem aquele ranço transcendental da esquerda que busca ver nos acontecimentos de 19 e 20 de dezembro uma reação nacionalista a uma dinâmica imperialista, ao contrário, Graciela coloca esses acontecimentos num outro lugar, como uma demonstração de um ciclo de lutas associado às revoltas globais contra o regime global de poder que impôs, em todos os territórios mundiais, a flexibilidade, a mobilidade e a precarização das formas de trabalho, a intensificação da propriedade intelectual de bens comuns, a financeirização como dispositivo de controle biopolítico ou ainda a guerra como estado permanente de controle social.

 

por FÁBIO MALINI

   

 

 

 

 

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