Quem derrotou Flores da Cunha?
O velho caudilho
rio-grandense alegraria-se com o elogio que lhe traçou Lauro
Schirmer, na biografia Flores da Cunha de corpo
inteiro, lançada com ampla divulgação pela RBS
Publicações [239 pp.]. Autor de outros estudos de cunho
histórico, o conhecido jornalista rio-grandense aborda em
forma elogiosa até mesmo aspectos pessoais discutíveis do
ex-líder republicano, como a sua descontrolada paixão por
“mulheres ligeiras”, pelo carteado, pelas corridas de
cavalo.
Gaúcho de choro frouxo,
Flores da Cunha chegaria às lágrimas com o ataque sem peias
de Schirmer ao seu arquiinimigo Getúlio Vargas, antigo
correligionário, companheiro de revoluções e, finalmente,
responsável por sua deposição do governo do RS, em 1937, por
seu exílio no Uruguai, por sua prisão na ilha Grande, no Rio
de Janeiro. Sem dó, Schirmer desanca Vargas como ditador
frio, mesquinho e sórdido, capaz de todas as infâmias.
Com enorme pertinência, o
biógrafo destaca a minoração do papel histórico do caudilho
sulino, nos anos 1930, quanto ao Rio Grande do Sul, como
interventor-governador do Estado, por sete anos, e, no que
diz respeito ao Brasil, como o grande responsável pela
derrota da Revolução Constitucionalista, em 1932, e,
sobretudo, como derradeira barreira ao golpe getulista do
Estado Novo, de novembro de 1937.
A beatificação de Flores da
Cunha como político liberal-democrático infesto a qualquer
ditadura atrapalha a compreensão de seu enorme papel
histórico. Flores foi lídimo filho do republicanismo
positivista que, para defenestrar os segmentos
liberal-pastoris dominantes, dominou o Rio Grande por quase
quarenta anos sem pruridos democráticos. Flores da Cunha
nasceu e alimentou-se nesse caldo autoritário e reinou sobre
o Rio Grande, em 1930-35, sem perder o sono com a origem
discricionário de seu poder.
O confronto entre Flores da
Cunha e Getúlio Vargas não foi choque entre o bem e o mal,
entre a integridade e a perfídia, entre a democracia e a
ditadura. Para além das idiossincrasias pessoais, os dois
políticos republicanos e positivistas sulinos eram um a cara
do outro, farinhas do mesmo saco. No frigir dos ovos,
desempenharam, de certo modo, o mesmo papel, um no Rio
Grande, o outro no coração do Brasil. O choque de fins de
1937 deveu-se ao fato já sabido de que dois bicudos jamais
se beijam.
Se Flores da Cunha fosse
inimigo visceral da ditadura, não teria traído a palavra
empenhada e reprimido correligionários e aliados
rio-grandenses, condenando ao isolamento e à derrota a
Revolução Constitucionalista, e, assim, assegurando que
Vargas continuasse no poder. Em 1932, mesmo temendo Getúlio,
o caudilho rio-grandense temia ainda mais o retorno da ordem
liberal-oligárquica da República Velha, que fulminaria seu
projeto de inserção privilegiada do Rio Grande na nova ordem
nacional em construção.
O ambicioso programa florista
de relançamento da economia agrária, pastoril e industrial
sulina, de 1930-37, foi continuidade e superação das
iniciativas de Vargas, quando governador do Estado, em
1928-30. Getúlio rompeu apenas com seus laços sulinos
porque, no governo da nação, expressando o industrialismo
carioca e paulista dominante, implementou nacionalmente o
mesmo projeto sonhado por Flores para o Sul. E, se não o
fizesse, teria sido possivelmente afastado do governo e
reduzido a uma nota de pé-de-página da história do Brasil
contemporâneo.
O duro tratamento dado por
Vargas ao oponente derrotado não se deveu à maldade pessoal,
mas à importância e perigo político que ele representava,
mesmo no exílio. Flores da Cunha prosseguiu conspirando
desde o exílio uruguaio, não vacilando sequer em envolver-se
na fracassada tentativa de assassinato do
ditador-presidente, na madrugada de 11 de maio de 1938,
quando do assalto ao palácio Guanabara, capitaneado pelos
integralistas, que passaram para a história como os quase
únicos responsáveis pelo ato de sangue. Certo da liquidação
de presidente-ditador, Flores da Cunha distribuiu a
jornalista de Montevidéu versão sobre a vitória do ataque.
A minoração do papel
histórico de Flores no Rio Grande registrada por Lauro
Schirmer certamente se deve ao combate incessante à sua
imagem pelo Estado Novo, que lhe cassou o título de general
do Exército, conquistado por hábeis, reiteradas e destemidas
intervenções nos campos de batalha; retirou seus bustos e
seu nome de praças, ruas e educandários e, finalmente, o
julgou, condenou e encarcerou, por longos nove meses.
Na quase amnésia histórica
rio-grandense, certamente desempenhou papel significativo o
retorno de Flores da Cunha à política, após 1945, em
oposição visceral ao seu desafeto já despida de sentido
político e social, nas filas da conservadora UDN, que jamais
gozou de prestígio, sobretudo popular, no Sul, onde reinou
forte o PTB de Getúlio, Jango, Brizola. No crepúsculo de
sua vida, em 1955, o velho caudilho redimiria-se de sua
opção conservadora, ao apoiar, como presidente interino da
Câmara, a liquidação pelo general Lott das articulações
golpistas do seu partido, a UDN, para impedir que Juscelino
Kubitschek e João Goulart, eleitos presidente e
vice-presidente, assumissem os cargos.
Flores da Cunha arregimentou
contra o projeto ditatorial de Vargas, que sabia ser
estruturalmente antagônico com a autonomia e desenvolvimento
industrial do Rio Grande, a então poderosa Brigada Militar,
forças irregulares, equipadas com modernas armas iugoslavas,
e oficiais e tropas anti-golpistas do exército sediados no
Rio Grande. Seu poderoso esquema militar foi vergado sem
resistência devido a deserções internas. Essas defecções
registraram que importantes facções sulinas negaram apoio ao
projeto autonômico de Flores da Cunha, satisfeitas com a
posição subordinada de “Celeiro do Brasil” destinada ao
Estado na nova reorganização nacional do trabalho em
construção.
A moderna historiografia
sulina registrou a adesão maciça dos intelectuais sulinos ao
Estado Novo, despreocupados com a subordinação do Estado ao
industrialismo do Centro-Sul. Foi como se o florismo não
tivesse deixado herdeiros mesmo intelectuais no Rio Grande.
Em 1945, com o fim da ditadura, o grande acontecimento
cultural foi a celebração das raízes pastoril-regionalistas,
na literatura e no tradicionalismo, e não a retomada dos
ideais floristas. Apenas em 1958, o jovem governador Leonel
Brizola, o derradeiro caudilho sulino, voltaria a questionar
a minoração nacional do RS. Responsável pela restituição do
nome de Flores da Cunha ao Instituto de Educação, retirado
durante o Estado Novo, Brizola seguiria muito logo também
para o exílio uruguaio, devido a golpe militar que, apoiado
pela imensa maioria dos proprietários sulinos, consolidaria
sem dó a subordinação nacional e internacional da economia
sulina.
por
MÁRIO MAESTRI