por TÂNIA BRAGA GUIMARÃES

Doutoranda em Estudos da Linguagem (UEL)

 

resenha:

Silvia Figueiredo Brandão & Silvia Rodrigues Vieira (Orgs.). Ensino de Gramática: descrição e uso. São Paulo: Editora Contexto, 2007 (264p.)]

______________________________________________________

 

Questões de uso e gramática: respondendo aos desafios

 

Um “pulinho”, uma “passadinha” em uma livraria pode resultar em um encontro casual que se revela uma grata surpresa. Foi que ocorreu com uma dessas visitas rápidas nas quais nós – loucos por livros – juramos que só vamos dar uma “olhadinha”. Tudo no diminutivo para aliviar a consciência. 

Não tive como ignorar o lançamento do livro Ensino de gramática: descrição e uso, organizado pelas pesquisadoras Silvia Rodrigues Vieira e Silvia Figueiredo Brandão, porque o livro traz embasamento para nós que estamos em sala de aula ensinando Gramática Tradicional - e Normativa - para nossos alunos sem perder de vista a necessidade de que eles conheçam também as variantes em uso, as formas lingüísticas que estão na boca do povo, e que, por isso mesmo, criam tanta dificuldade em aprender e usar, de fato, as regras gramaticais, uma vez que a aquisição de seus conceitos e de suas nomenclaturas parece aprendizado de uma língua estrangeira devido ao afastamento que há entre as formas que a gramática tenta manter e as formas realmente usadas no cotidiano. Aprender regras que, não raras vezes, são inexistentes no uso, até mesmo nas situações mais formais, torna-se um dilema para o aluno. Este livro vem nos trazer luz neste momento em que nos são colocados inúmeros desafios pelo reconhecimento da complexidade que envolve os fatos e os usos da língua.

Dinah Callou cita João Ubaldo Ribeiro que assim fala sobre a gramática:

A gramática é a mais perfeita das loucuras, sempre inacabada e perplexa, vítima eterna de si mesma e tendo de estar formulada antes de poder ser formulada – especialmente se se acredita que no princípio era o Verbo. Estou, como já contei, estudando gramática e fico pasmo com os milagres de raciocínio empregados para enquadrar em linguagem “objetiva” os fatos da língua. Alguns convencem, outros não. Estes podem constituir esforços meritórios, mas se trata de explicações que a gente sente serem meras aproximações de algo no fundo inexprimível, irrotulável, inclassificável, impossível de compreender integralmente. Mas vou estudando, sou ignorante, há que aprender. Meu consolo é que muitas coisas que me afligem devem afligir vocês também. Ou pelo menos coisas parecidas (p.15).

Este trecho, “desabafo?”, me faz lembrar de tantos outros textos que expressam a relação dos escritores com a gramática, como, Gigolô das palavras, de Luis Fernando Veríssimo; Nascer no Cairo, ser fêmea do cupim, de Rubem Braga; De Mel a pior, de Fernando Sabino; Colocador de pronomes, de Monteiro Lobato, além do ótimo Emília no país da Gramática, também de Monteiro Lobato, no qual, sem querer, se faz uma visita ao país da Lingüística devido à compreensão avançada do autor quanto aos fatos lingüísticos e a sua sujeição à mudança lingüística.

Callou cita ainda Celso Cunha, gramático respeitadíssimo, que afirmou “O que está a matar o estudo do idioma em nossas escolas é que todo o ensino se faz na base do certo e do errado, do que é o do que não é vernáculo [...]. Evitem-se os erros, os erros verdadeiros. Mas para isso só há um remédio já preconizado por Jerpersen: “Nada de listas e de regras, repita-se o bom muitas e muitas vezes. (p.14). Este trecho me recorda Machado de Assis, sobre o qual se conta ter ficado espantado com a gramática de seu sobrinho. Como Machado pôde ser alçado ao posto de maior escritor do Brasil sem ter o conhecimento de gramática? É neste exato momento que entra a questão da exposição aos bons modelos, Machado era leitor, leitor voraz. E por meio da exposição aos bons modelos é possível depreender as formas valorizadas na língua sem que necessariamente se saiba nomenclatura gramatical.

Ensino de Gramática: descrição e uso, muito bem pensado, conta com capítulos de 11 docentes-pesquisadores do Setor de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Vernáculas da UFRJ e é organizado em quatro eixos-temáticos: a primeira seção introduz a problemática e intitula-se Conceitos básicos, a segunda compreende a parte descritiva e recebeu o nome Questões de descrição gramatical, a terceira constitui-se em parte teórica denominada Questões de Teoria Gramatical e a última traz o texto como o lugar, o espaço privilegiado de uso dos mesmos fatos gramaticais anteriormente citados e a seção denomina-se a Questão do texto. As temáticas contempladas são: Gramática, variação e normas; Saberes gramaticais na escola; Concordância nominal; Concordância verbal; Pronomes Pessoais; Flexão e derivação: o grau; Classes de palavras; Termos da oração; Texto e contexto.

Em vários capítulos as definições gramaticais, pretensamente isentas de problemas, são revisadas em seções denominadas O que diz a gramática tradicional: o cânone; a visão tradicional. Os pronomes, por exemplo, são apresentados como nas gramáticas comportadas: a língua portuguesa dispõe de seis pronomes para três pessoas do discurso no singular e no plural: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Eis que somos alertados “esse leque de pronomes, além de não incluir formas amplamente utilizadas na linguagem coloquial, como é o caso de você/vocês/a gente, concebe equivocadamente nós e vós como meros plurais de eu e tu.” Após esta retomada são trazidos os outros olhares que as pesquisas sociolingüísticas vêm possibilitando nas análises e um quadro que representasse a situação atual traria: eu, tu/você, ele/ela, nós/a gente, vocês, eles/elas, retirando o vós, hoje restrito a textos específicos, como os religiosos. Enfim, refletiria minimamente a reorganização que vem ocorrendo no sistema pronominal brasileiro e para o qual ainda se faz vistas grossas nos materiais didáticos.

Uma discussão que perpassa todas as classes de palavras são as definições semânticas comumente empregadas no ensino e nem sempre satisfatórias para classificar as palavras (atividade de reconhecimento na qual a escola dedica amplos esforços) que estão nas gramáticas e nos livros didáticos como, por exemplo, a do adjetivo que seria uma palavra que indica qualidade. Verbo, advérbio, olhadas de perto nenhuma dessas definições por nós conhecidas desde as primeiras lições de gramáticas são satisfatórias. A autora desde capítulo traz propostas de definições mais exatas e que possam mininizar a problemática.

Sabemos que um dos objetivos da escola é proporcionar a norma culta aos alunos que nela estão e dela pretendem sair preparados para a atuação profissional. A verdadeira questão é “como ensinar a gramática de forma mais significativa sem lançar mão dos velhos métodos de “decoreba” e que concebem a língua como algo acabado, tolhendo a possibilidade de análise?”

Esta obra é a prova de que descrições gramaticais podem e merecem ser feitas com um olhar mais sofisticado, do que simplesmente insistir em um ensino que apenas reproduza a tradição gramatical de sempre, e mostra que descrições gramaticais mais apuradas, baseadas em estudos sociolingüísticos e não apenas em autores consagrados da Literatura, são possíveis, embora saibamos que o reflexo dessas discussões levará um tempo até que se veja aplicado em um ensino de gramática mais eficaz.

Nas palavras das autoras:

já é possível enfrentar o grande desafio que se impôs quando uma grande massa de brasileiros trouxe às escolas seus falares, suas gramáticas particulares. Ao se expor uma diversidade lingüística que, no ambiente escolar e nos livros didáticos se fingia não existir, se tornou urgente uma mudança radical nas práticas descritivas e pedagógicas. Este livro resulta do crescente interesse em atender às exigências dessa mudança e em assumir uma posição objetiva ante a realidade escolar.

Inteirar-se das discussões apresentadas nesta obra é um passo importante rumo às respostas que precisamos encontrar. Tomara que em breve tenhamos outra coletânea do mesmo grupo. Seria outra grata surpresa.

 

por TÂNIA BRAGA GUIMARÃES  

   

 

 

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico 

 

 

clique e acesse todos os artigos publicados

http://www.espacoacademico.com.br - © Copyleft 2001-2007

É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída