Questões de uso e gramática: respondendo aos desafios
Um “pulinho”, uma “passadinha” em uma
livraria pode resultar em um encontro casual que se revela
uma grata surpresa. Foi que ocorreu com uma dessas visitas
rápidas nas quais nós – loucos por livros – juramos que só
vamos dar uma “olhadinha”. Tudo no diminutivo para aliviar a
consciência.
Não tive como ignorar o lançamento do livro
Ensino de gramática: descrição e uso, organizado
pelas pesquisadoras Silvia Rodrigues Vieira e Silvia
Figueiredo Brandão, porque o livro traz embasamento para nós
que estamos em sala de aula ensinando Gramática Tradicional
- e Normativa - para nossos alunos sem perder de vista a
necessidade de que eles conheçam também as variantes em uso,
as formas lingüísticas que estão na boca do povo, e que, por
isso mesmo, criam tanta dificuldade em aprender e usar, de
fato, as regras gramaticais, uma vez que a aquisição de seus
conceitos e de suas nomenclaturas parece aprendizado de uma
língua estrangeira devido ao afastamento que há entre as
formas que a gramática tenta manter e as formas realmente
usadas no cotidiano. Aprender regras que, não raras vezes,
são inexistentes no uso, até mesmo nas situações mais
formais, torna-se um dilema para o aluno. Este livro vem nos
trazer luz neste momento em que nos são colocados inúmeros
desafios pelo reconhecimento da complexidade que envolve os
fatos e os usos da língua.
Dinah Callou cita João Ubaldo Ribeiro que
assim fala sobre a gramática:
A gramática é a mais perfeita das
loucuras, sempre inacabada e perplexa, vítima eterna de
si mesma e tendo de estar formulada antes de poder ser
formulada – especialmente se se acredita que no
princípio era o Verbo. Estou, como já contei, estudando
gramática e fico pasmo com os milagres de raciocínio
empregados para enquadrar em linguagem “objetiva” os
fatos da língua. Alguns convencem, outros não. Estes
podem constituir esforços meritórios, mas se trata de
explicações que a gente sente serem meras aproximações
de algo no fundo inexprimível, irrotulável,
inclassificável, impossível de compreender
integralmente. Mas vou estudando, sou ignorante, há que
aprender. Meu consolo é que muitas coisas que me afligem
devem afligir vocês também. Ou pelo menos coisas
parecidas (p.15).
Este trecho, “desabafo?”, me faz lembrar de
tantos outros textos que expressam a relação dos escritores
com a gramática, como, Gigolô das palavras, de Luis
Fernando Veríssimo; Nascer no Cairo, ser fêmea do cupim,
de Rubem Braga; De Mel a pior, de Fernando Sabino;
Colocador de pronomes, de Monteiro Lobato, além do ótimo
Emília no país da Gramática, também de Monteiro
Lobato, no qual, sem querer, se faz uma visita ao país da
Lingüística devido à compreensão avançada do autor quanto
aos fatos lingüísticos e a sua sujeição à mudança
lingüística.
Callou cita ainda Celso Cunha, gramático
respeitadíssimo, que afirmou “O que está a matar o estudo do
idioma em nossas escolas é que todo o ensino se faz na base
do certo e do errado, do que é o do que não é vernáculo
[...]. Evitem-se os erros, os erros verdadeiros. Mas para
isso só há um remédio já preconizado por Jerpersen: “Nada de
listas e de regras, repita-se o bom muitas e muitas vezes.
(p.14). Este trecho me recorda Machado de Assis, sobre o
qual se conta ter ficado espantado com a gramática de seu
sobrinho. Como Machado pôde ser alçado ao posto de maior
escritor do Brasil sem ter o conhecimento de gramática? É
neste exato momento que entra a questão da exposição aos
bons modelos, Machado era leitor, leitor voraz. E por meio
da exposição aos bons modelos é possível depreender as
formas valorizadas na língua sem que necessariamente se
saiba nomenclatura gramatical.
Ensino de Gramática: descrição e uso, muito
bem pensado, conta com capítulos de 11
docentes-pesquisadores do Setor de Língua Portuguesa do
Departamento de Letras Vernáculas da UFRJ e é organizado em
quatro eixos-temáticos: a primeira seção introduz a
problemática e intitula-se Conceitos básicos, a
segunda compreende a parte descritiva e recebeu o nome
Questões de descrição gramatical, a terceira
constitui-se em parte teórica denominada Questões de
Teoria Gramatical e a última traz o texto como o lugar,
o espaço privilegiado de uso dos mesmos fatos gramaticais
anteriormente citados e a seção denomina-se a Questão do
texto. As temáticas contempladas são: Gramática,
variação e normas; Saberes gramaticais na escola;
Concordância nominal; Concordância verbal; Pronomes
Pessoais; Flexão e derivação: o grau; Classes de palavras;
Termos da oração; Texto e contexto.
Em vários capítulos as definições
gramaticais, pretensamente isentas de problemas, são
revisadas em seções denominadas O que diz a gramática
tradicional: o cânone; a visão tradicional. Os pronomes,
por exemplo, são apresentados como nas gramáticas
comportadas: a língua portuguesa dispõe de seis pronomes
para três pessoas do discurso no singular e no plural: eu,
tu, ele, nós, vós, eles. Eis que somos alertados “esse leque
de pronomes, além de não incluir formas amplamente
utilizadas na linguagem coloquial, como é o caso de
você/vocês/a gente, concebe equivocadamente nós e
vós como meros plurais de eu e tu.” Após
esta retomada são trazidos os outros olhares que as
pesquisas sociolingüísticas vêm possibilitando nas análises
e um quadro que representasse a situação atual traria: eu,
tu/você, ele/ela, nós/a gente, vocês, eles/elas,
retirando o vós, hoje restrito a textos específicos, como os
religiosos. Enfim, refletiria minimamente a reorganização
que vem ocorrendo no sistema pronominal brasileiro e para o
qual ainda se faz vistas grossas nos materiais didáticos.
Uma discussão que perpassa todas as classes
de palavras são as definições semânticas comumente
empregadas no ensino e nem sempre satisfatórias para
classificar as palavras (atividade de reconhecimento na qual
a escola dedica amplos esforços) que estão nas gramáticas e
nos livros didáticos como, por exemplo, a do adjetivo que
seria uma palavra que indica qualidade. Verbo, advérbio,
olhadas de perto nenhuma dessas definições por nós
conhecidas desde as primeiras lições de gramáticas são
satisfatórias. A autora desde capítulo traz propostas de
definições mais exatas e que possam mininizar a
problemática.
Sabemos que um dos objetivos da escola é
proporcionar a norma culta aos alunos que nela estão e dela
pretendem sair preparados para a atuação profissional. A
verdadeira questão é “como ensinar a gramática de forma mais
significativa sem lançar mão dos velhos métodos de
“decoreba” e que concebem a língua como algo acabado,
tolhendo a possibilidade de análise?”
Esta obra é a prova de que descrições
gramaticais podem e merecem ser feitas com um olhar mais
sofisticado, do que simplesmente insistir em um ensino que
apenas reproduza a tradição gramatical de sempre, e mostra
que descrições gramaticais mais apuradas, baseadas em
estudos sociolingüísticos e não apenas em autores
consagrados da Literatura, são possíveis, embora saibamos
que o reflexo dessas discussões levará um tempo até que se
veja aplicado em um ensino de gramática mais eficaz.
Nas palavras das autoras:
já é possível enfrentar o grande desafio
que se impôs quando uma grande massa de brasileiros
trouxe às escolas seus falares, suas gramáticas
particulares. Ao se expor uma diversidade lingüística
que, no ambiente escolar e nos livros didáticos se
fingia não existir, se tornou urgente uma mudança
radical nas práticas descritivas e pedagógicas. Este
livro resulta do crescente interesse em atender às
exigências dessa mudança e em assumir uma posição
objetiva ante a realidade escolar.
Inteirar-se das discussões apresentadas nesta
obra é um passo importante rumo às respostas que precisamos
encontrar. Tomara que em breve tenhamos outra coletânea do
mesmo grupo. Seria outra grata surpresa.
por
TÂNIA BRAGA GUIMARÃES