Educação para a democracia
O debate sobre a educação tem-se polarizado
em duas posições doutrinárias bem distintas: por um lado, os
defensores do paradigma de “recursos humanos” para o
desenvolvimento, associados aos tecnocratas preocupados com
o crescimento econômico a fim de alimentar o sistema
produtivo com mais um “insumo”. Do outro lado, alinham-se
idealistas e visionários que encaram a educação como o
caminho predileto de democratização, de mudança social e de
realização pessoal.
A polêmica ressurgiu na década dos oitenta,
com o avanço impetuoso de tecnologias derivadas da
microeletrônica (comando numérico, automação e
informatização na indústria e nos serviços) e seus impactos
sobre nível de emprego, a qualificação e desclassificação de
amplos segmentos da força de trabalho, bem como em termos de
seus requisitos de reorganização das linhas de produção nas
fábricas, seus sistemas técnicos e hierárquicos e de
comunicação.
A teoria do capital humano encara a
produtividade como função derivada da formação e
qualificação profissionais e procura justificar os
investimentos os em educação de um ponto de vista econômico,
não se preocupando com as dimensões psicossociais e de
motivação da força de trabalho. Esse reducionismo encara a
educação como investimento em mão-de-obra face às demandas
do mercado de trabalho. Por abstrair das necessidades,
valores e tradições da população inviabiliza a melhoria das
condições de vida dos trabalhadores.
A adoção de políticas nacionais de formação
que não atendem às especificidades dos problemas de países
em desenvolvimento, caracterizados por uma carência tremenda
de ensino básico e pela formação insuficiente dos
professores, inviabilizam a formação profissional posterior.
Por outro lado, a concepção idealista atribui
à educação (entendida como escolarização em diversos graus)
a função de mudança social. Reflete assim, uma visão
histórica e distorcida da evolução e da organização sociais.
Escolas – como instituições de instrução formal – constituem
um fenômeno relativamente recente nas sociedades ocidentais
e o ensino universal, público e gratuito foi conquistado
somente no fim do século XIX nos países hoje industrialmente
mais desenvolvidos.
Durante o mais longo período da História,
educação entendida como socialização ou transmissão de
costumes, normas de conduta e valores sociais, tem sido
proporcionada informalmente pela família, pelos pares de
grupos de idade e pelos membros do clã ou da tribo. Nesse
sentido, coube à educação apenas a função de manter,
perpetuar e reproduzir as estruturas sociais, à medida que
transmita padrões de conduta e treine para os papéis
socialmente desejáveis de indivíduos dóceis e submissos,
sendo insuficiente para uma formação crítica e
transformadora.
Foi, todavia, nas últimas décadas, à luz da
aceleração de inovação e difusão de conhecimentos
científicos e tecnológicos, que o modelo convencional de uma
educação que conserva, reproduz e transmite um saber e uma
cultura “acabados”, passou a sofrer críticas mais profundas,
dirigidas também às instituições que a sustentam. Não se
afigura mais possível “educar” despejando informações para
formar leitores de catálogos ou de manuais de instruções. Se
o objetivo for preparar trabalhadores para uma participação
ativa e responsável, é necessário criar condições mediante a
difusão de informações e de conhecimento para a
democratização da sociedade, oposta à centralização do saber
que constitui a base do poder da tecnocracia.
Caberia à universidade um papel central na
criação e difusão de um potencial científico e tecnológico
que, por sua vez, induziria maior racionalidade no sistema
produtivo, na administração pública e à vida da sociedade em
geral.
Será possível produzir conhecimentos
objetivos, politicamente neutros e, portanto, “racionais”, a
partir dos quais poderíamos realizar as transformações
necessárias para o advento de uma sociedade democrática?
Vista em retrospectiva histórica, a difusão do modo
tecnocrático e autoritário da organização do trabalho nos
leva a duvidar da eficiência dessa suposta racionalidade.
Como assegurar a utilização prioritária da racionalidade
técnica para a solução dos problemas que afligem três
quartos da população mundial? Ou, devemos aceitar a premissa
que o objetivo principal da racionalização crescente do
sistema produtivo seja uma maior acumulação de riquezas nas
mãos de poucos? A pretensa neutralidade da ciência e a
instrumentalidade da tecnologia parecem ilusões e fazem
parte do imaginário de nossa época, que promete a expansão
ilimitada do bem estar para todos, enquanto serve à
exploração e dominação.
A suposta racionalidade da educação e
profissionalização serve à generalização de padrões de
comportamento individualista, contrários à participação e
cooperação em atividades coletivas, falta de consciência
crítica quanto às fontes das informações e total ausência de
sentimentos de compaixão e solidariedade.
Em um mundo de mudanças rápidas e contínuas,
nem os conhecimentos acumulados, nem a conduta “correta” são
tão importantes quanto a capacidade crescente do estudante
de identificar os problemas existenciais e de pesquisar por
soluções originais e criativas.
Observações e interpretações coletivas
constituem experiências de aprendizagem valiosas e conduzem
à comunicação, participação e interação solidárias, baseadas
em consenso e “eficiência coletiva”.
Entre os resultados mais prováveis dessa
abordagem coletiva encontraremos uma forte motivação para a
cooperação em busca de soluções para os problemas comuns; a
utilização de tecnologias “apropriadas” e/ou a criação de
tecnologias culturalmente compatíveis com as tradições e,
sobretudo, a resistência do grupo à dominação autoritária,
interna ou externa à comunidade, reforçando os laços de
solidariedade e assim, as tendências à autonomia, democracia
e sustentabilidade.
por
HENRIQUE RATTNER