Lênin versus Kautsky: a questão da democracia

A
problematização deste artigo está contida no debate teórico
travado, no início do século passado, entre V.I. Lênin,
principal líder e teórico do partido Bolchevique e Karl
Kautsky, teórico da II Internacional e membro do partido
social-democrata alemão. As discussões giraram em torno de
conceitos fundamentais, tais como, “democracia”, “ditadura
do proletariado” e “Estado”. Um longo e complexo debate foi
travado, contando, ainda, com a colaboração de Trotsky, Karl
Radek e Bukhárin.
Deixarei de lado certos aspectos dessa discussão,
limitando-me as questões fundamentais dessa polêmica,
ressaltando essencialmente, as análises de Lênin e Kautsky.
Os textos de Lênin partem do princípio,
exposto claramente por Engels, em A origem da família, da
propriedade privada e do Estado e em, Do socialismo
utópico ao socialismo científico, de que “o Estado não é
mais do que uma máquina de opressão de uma classe por
outra.” (LENIN, 1971, p. 70). Desenvolve-se então que, o
Estado tem sua gênese da manifestação do antagonismo
inconciliável entre as classes. Na medida em que essas
contradições se desenvolveram e se tornaram irremediáveis, o
Estado surgiu como um “mediador”. Dessa maneira, o Estado
aparece para Lênin como a institucionalização da dominação
de uma classe sobre outra, quer dizer, trata-se de uma ordem
criada para legalizar e consolidar a submissão de uma classe
por outra.
Nossa época caracteriza-se, essencialmente,
por ter simplificado os antagonismos de classe. Toda a
sociedade se divide, fundamentalmente, em duas grandes
classes diretamente contraditórias, a burguesia e o
proletariado.
Se o Estado é uma ordem institucionalizada que freia e
camufla o verdadeiro antagonismo entre as classes, resulta
disso, em principio, que ele é o órgão da classe mais
poderosa, da classe economicamente dominante. Dessa forma, o
Estado moderno (Democracia – parlamentarista) legitima a
exploração do trabalho assalariado pelo capital. Portanto, o
Estado na era do capital, só pode está a serviço da classe
burguesa.
Partindo dessa premissa, Lênin argumenta que:
“A ditadura revolucionária do proletariado é um poder
conquistado e mantido pela violência, que o proletariado
exerce sobre a burguesia, poder que não está preso por
nenhuma lei” (1971, p. 23). Para Lênin não basta que o
proletariado organizado derrube a burguesia do controle do
Estado e passe a exercer esse controle. Lênin enfatiza que a
tarefa fundamental do proletariado é destruir por
meio da violência a máquina burguesa do Estado.
Foi nesse sentido que, Marx e Engels no último prefácio do
Manifesto do partido Comunista, que assinaram juntos,
em 1872, tendo em conta a experiência da Comuna de Paris,
enfatizaram que: “Não basta que a classe operária se apodere
da máquina do Estado existente para fazê-la servir a seus
próprios fins” (2002, p. 26).
Em O Estado e a Revolução, Lênin
esclarece que:
Essa “força especial de
repressão” do proletariado pela burguesia, de milhões de
trabalhadores por um punhado de ricos, deve ser
substituída por uma “força especial de repressão” da
burguesia pelo proletariado (a ditadura do
proletariado). É nisso que consiste a “abolição do
Estado como Estado”. É nisso que consiste o “ato” de
posse dos meios de produção em nome da sociedade. (1983,
p. 22 – 23).
Essa passagem evidencia que o Estado burguês
se caracteriza pela exploração da maioria por uma minoria. A
revolução operária instaura a “ditadura do proletariado”, e
a situação se inverte. Fala-se da “abolição do Estado como
Estado”, exatamente devido a essa radical transformação.
Para Lênin, a ditadura do proletariado, não pode ser outra
coisa, que a morte, o aniquilamento, do Estado
Burguês por meio da ação violenta do proletariado.
Vejamos agora, o que kautsky pensa acerca da
ditadura do proletariado:
Literalmente, a palavra
ditadura significa supressão da democracia. Mas acontece
que, tomada à letra, esta palavra significa igualmente
poder pessoal de um só indivíduo que não está preso por
nenhuma lei. Poder pessoal que difere do despotismo no
fato de não ser entendido como uma instituição de Estado
permanente, mas como uma medida extrema de transição.
A expressão “ditadura do
proletariado”, por conseqüência não de um só indivíduo,
mas de uma única classe, prova que Marx não pensava aqui
em ditadura no sentido literal da palavra.
Fala aqui não da forma
de governo, mas do estado de coisas, que deve
necessariamente produzir-se por toda a parte onde o
proletariado conquistou o poder político (1979, p.30).
Kautsky começa sua argumentação investigando
a definição da palavra “ditadura”. Em primeiro lugar,
considera ditadura como poder de um só indivíduo ou classe.
Além disso, salienta que ditadura é sinônimo de supressão da
democracia. Esse argumento encerra uma questão extremamente
importante: Qual é a relação existente entre a ditadura do
proletariado e a democracia? Como vimos, em sua argumentação
Kautsky declarou que são totalmente incompatíveis.
Na mesma perspectiva de Kautsky, Ruy Fausto,
em Trotsky, a democracia e o totalitarismo, defende
que a democracia é essencial para a construção do
socialismo:
Só a democracia no plano
global é uma garantia de democracia dentro do partido
dominante, de novo, só a democracia pode senão garantir
em absoluto, pelo menos oferecer alguma garantia, de que
o inevitável arrefecimento do ethos revolucionário não
degenere em puro e simples ethos burocrático. (...) Se
não havia democracia, e a revolução aparecera como única
saída, de certo modo talvez como mal menor, é essencial
que o poder revolucionário institua a democracia, nas
melhores condições possíveis. (2004, p. 124)
E em A polêmica sobre o poder bolchevista,
Fausto acrescentou que:
A essência dessas teses
[se referindo a Lênin e Trotsky] é a recusa da
democracia em nome de bem curioso “mecanismo proletário”
(...) Assim, o poder bolchevista não aparece como uma
ditadura do proletariado, nem mesmo com uma ditadura
revolucionária. Tem-se lá uma ditadura reacionária
sui generis, que deve ser condenada pelos
socialistas, tanto por razões morais como por razões
políticas (2001, p. 58 – 66).
Nesse ínterim é importante questionar, o que
Kautsky e Fausto entendem por democracia? Qual o seu
conceito de democracia? Em um comentário sobre a experiência
da Comuna de Paris, Kautsky enfatizou que “A primeira tarefa
do novo regime revolucionário foi a consulta pelo sufrágio
universal. A eleição, realizada com a maior liberdade, deu
em todos os distritos de Paris e com raras exceções, grande
maioria a favor da Comuna” (1979, p.32). Em outra passagem,
se referindo a Revolução proletária, Kautsky evidenciou que:
“Um regime que conta com o apoio das massas só empregará a
força para defender a democracia, e não para aniquilá-la.
Ele cometeria verdadeiro suicídio se quisesse destruir seu
fundamento mais seguro: o sufrágio universal, fonte profunda
de poderosa autoridade moral” (1979, p. 32).
As passagens citadas deixaram claro que ambos
os autores partem do conceito de “democracia pura”.
Citam o sufrágio universal e a liberdade eleitoral, ou seja,
entendem que no Estado burguês, todos os cidadãos têm os
mesmos diretos e estão em igualdade diante do Estado. Assim,
defendem que esse princípio deve ser mantido após a tomada
do poder pelo proletariado. Em outras palavras, a
“democracia pura” a qual Kautsky e Ruy Fausto se referem,
retira do Estado o seu caráter de classe. E o Estado aparece
então, como uma instituição acima da sociedade, que preza
pelo “interesse comum”.
Os argumentos utilizados por Kautsky e por
Fausto são fortemente combatidos por Lênin, ao ressaltar
que: “enquanto existirem classes distintas, não se
poderá falar de “democracia pura”, mas só de democracia de
classe (diga-se entre parêntesis, “democracia pura” é
não só uma fórmula de ignorante que nada entende da
luta de classes nem da natureza do Estado)” (1971, p. 35).
Em contrapartida as concepções de Kautsky e Fausto, Lênin
trabalha com o conceito de “democracia de classe”. Ou seja,
considera a democracia também como manifestação do Estado.
Lênin enfatiza que Kautsky:
Não nota a natureza de
classe do aparelho de Estado. Na democracia
burguesa, por mil estratagemas, - tanto mais engenhosos
e eficazes quanto mais a democracia pura estiver
desenvolvida, - os capitalistas afastam as massas
da participação na gestão do país, da liberdade de
reunião, de imprensa, (...) Mil barreiras se opõem
à participação das massas trabalhadoras no
parlamento burguês (que, numa democracia burguesa,
nunca resolve as maiores questões; estas são
obstruídas pela Bolsa, pelos bancos). (1971, p. 43).
Lênin considera o Estado uma “forma especial
de repressão”, de uma classe sobre outra. Repressão da
classe dominante sobre a dominada, portanto, segundo ele,
quando se fala em democracia deve-se questionar-se
“democracia de qual classe?”. Lênin fez severas críticas à
democracia burguesa, a fim de demonstrar que a igualdade
formal, posta pelo sufrágio universal e pelas eleições
livres é apenas aparência. Portanto, essa igualdade aparente
não se concretiza em igualdade na essência. Na sociedade
dividida em classes, burgueses e proletários não tem a mesma
liberdade e não gozam da mesma igualdade.
Ainda é preciso tecer mais algumas
importantes observações sobre o que Lênin pensou acerca da
relação entre “ditadura do proletariado” e “democracia”.
Para ele: “A ditadura do proletariado, período de transição
para o comunismo, instituirá pela primeira vez uma
democracia para o povo” (1983, p. 110) E continua:
Ao mesmo tempo em que
produz uma considerável ampliação da democracia, que se
torna pela primeira vez a democracia dos pobres,
a do povo e não apenas da gente rica, a ditadura do
proletariado traz uma série de restrições à liberdade
dos opressores, dos exploradores, dos capitalistas.
Devemos reprimir-lhes a atividade para libertar a
humanidade da escravidão assalariada, devemos quebrar a
sua resistência pela força; ora, é claro que onde há
esmagamento, onde há violência, não há liberdade, não há
democracia. (1983, p. 109).
Essa passagem esclarece claramente qual o
significado da “ditadura do proletariado” na concepção
leninista. Na realidade a aparente democracia do Estado
moderno burguês é em sua essência uma ditadura burguesa, que
reprime violentamente a classe trabalhadora, significa
então, democracia para a classe capitalista e ditadura para
os trabalhadores.
Nesse sentido, a “ditadura do proletariado”, isto é, a
classe trabalhadora enquanto classe dominante deve instituir
uma democracia para os operários e uma ditadura para os
capitalistas. Para Lênin pressuposto a uma verdadeira
“democracia” está o aniquilamento do Estado, e pressuposto
ao Estado está à luta de classes. Portanto, enquanto houver
uma sociedade dividida em classes não poderá haver
democracia plena. Dessa maneira, fica bem claro o caráter de
classe que o Estado representa. Portanto, para Lênin:
Só na sociedade
comunista, quando a resistência dos capitalistas estiver
perfeitamente quebrada, quando os capitalistas tiverem
desaparecido e já não houver classes, isto é, quando não
houver mais distinções entre os membros da sociedade em
relação à produção, só então é que “o Estado deixará de
existir e se poderá falar de liberdade”. Só então
se tornará possível e será realizada uma democracia
verdadeiramente completa e cuja regra não sofrerá
exceção alguma. (1983, p. 110).
Para Lênin democracia significa, sobretudo,
igualdade de todos os membros da sociedade quanto ao gozo
dos meios de produção. Enquanto não ser eliminada toda e
qualquer forma de exploração de uma classe por outra não se
pode falar em igualdade, nem em democracia de fato. Por fim,
Lênin argumenta que o Estado proletário, isto é, a “ditadura
do proletariado” definha medida em que o antagonismo entre
as classes desaparece. Quando as classes já não existirem, o
Estado se torna uma entidade supérflua. A “democracia” seria
exercida diretamente, por meio dos sovietes, ou seja,
pelos próprios operários em seus conselhos.
O advento da revolução russa em 1917,
suscitou importantes debates em torno de questões
fundamentais para a construção do socialismo. Nesse ínterim,
a polêmica entre Lênin e Kautsky é fundamental. Os
argumentos de Lênin são mais consistentes, e retomam as
teses de Marx e Engels desenvolvidas em o Manifesto do
partido comunista: “Já vimos que o primeiro passo da
revolução dos trabalhadores é a ascensão do proletariado à
situação de classe dominante, ou seja, a conquista da
democracia” (2005, p. 27). Nessa passagem os autores deixam
claro que a democracia só é conquistada com a revolução, com
a tomada do poder pelo proletariado, que se eleva, a partir
de então, a classe dominante.
por
CARLOS BATISTA PRADO