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por
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Uma pesquisa sobre o Mercosul:
sua possível evolução até 2011 e 2021
Recebi,
de uma universidade federal da qual me permito suprimir o nome (por
simples razões de ordem prática e também porque não pretendo expor a
iniciativa sem o expresso consentimento dos organizadores da
pesquisa), um convite para participar de uma pesquisa a propósito da
evolução futura do Mercosul. Para melhor familiarizar os leitores
com os termos dessa pesquisa, creio mais apropriado transcrever o
convite, como abaixo:
“Convidamos o senhor a participar de uma pesquisa
acadêmica que busca prospectar cenários futuros do Mercado Comum
do Sul (Mercosul) para os anos de 2011 e 2021, respectivamente
20 e 30 anos da assinatura do Tratado de Assunção.
“Para a realização desta pesquisa será utilizado
o método Delphi, que consulta um grupo de especialistas a
respeito de eventos futuros através de um questionário, que é
repassado continuadas vezes, até que seja obtida uma
convergência das respostas, um consenso, que representa uma
consolidação do julgamento intuitivo do grupo.
‘”De todas as maneiras, fica bem claro que em
toda e qualquer decisão, não será dado a conhecer o nome de
nenhum respondente. Todos terão conhecimento da lista de
participantes, mas os dados serão tratados de maneira coletiva.
“Essa pesquisa subsidiará a elaboração de um
artigo acadêmico da disciplina de Negócios Internacionais do
Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade
(XXX). Após o término da pesquisa, compartilharemos
primordialmente os resultados com todos participantes.”
Essa pesquisa, tanto em sua versão online, como no
documento de apoio encaminhado aos participantes, tinha a seguinte
introdução:
“O Mercosul, resultado de décadas de negociações
e de disputas entre seus países integrantes, foi considerado, no
seu início, como uma possibilidade muito efetiva de
desenvolvimento econômico e social da região via integração.
Surge, além disso, em uma década em que cada vez mais países em
desenvolvimento adotam políticas neoliberais, a globalização
ganha impulso e diversas crises cambiais ocorrem pelo mundo. Ao
final da década de 90, mesmo com aumento do comércio intra-bloco
e dos níveis de investimento produtivo, ainda restam diversas
barreiras comerciais entre os integrantes assim como questões
não resolvidas quanto à Zona de Livre Comércio e à União
Aduaneira. No início do século XXI, ocorrem crises econômicas
nos integrantes mais poderosos, Brasil e principalmente
Argentina e o comércio intra-bloco perde força: aumenta-se o
descrédito em relação ao Mercosul. Em seguida, a mudança nos
perfis políticos dos principais governos da região para
centro-esquerda, a definição da Venezuela como membro pleno, a
melhoria da economia argentina, o crescimento econômico mundial,
a recuperação do comércio intra-bloco, mas a insatisfação de
membros menores como Uruguai e Paraguai emitem novas incertezas
ao Mercosul, incluindo a sua continuidade. O Mercosul ainda não
é, efetivamente, Zona de Livre Comércio ou União Aduaneira. Está
longe de seu propósito principal, ser um mercado comum. Sendo
assim, para onde vai o Mercosul?”
Ainda que eu tivesse algumas objeções de forma e de
fundo aos argumentos acima reproduzidos e mesmo quanto ao enunciado
das questões – que apresentam diversas defasagens temporais e mesmo
de ordem factual – preferi responder ao questionário segundo os
padrões estabelecidos. Ademais das perguntas, que, como em todo
sistema Delphi, se baseavam na sua probabilidade de realização
efetiva num determinado prazo – neste caso, os anos de 2011 e 2021
–, havia sempre uma explicação ou justificativa para cada um delas,
do tipo: “Por quê; Quais entraves? Quais os riscos?”, etc.
Consolidei minhas respostas num arquivo à parte, reproduzido abaixo.
Prefiro suprimir minhas escolhas preferenciais, do tipo de média,
baixa ou alta, em cada uma das linhas (ou seja, para 2011 e 2021),
por não considerá-las muito relevantes (em vista dos imponderáveis
que sempre surgem no futuro), e apresentar apenas os comentários
explicativos, que seguem abaixo, tal como coletados em sistema
online e através de documento próprio.
Minha decisão em compartilhar estas respostas com um
número maior de leitores se deve fato de que, possuindo algum
conhecimento e experiência nessas questões de integração e de
Mercosul, estimo ser interessante iniciar um debate mais amplo sobre
a evolução futura do bloco, justamente, como aliás pretendido pelos
organizadores da pesquisa.
Pesquisa sobre a evolução futura do Mercosul
1. Qual a probabilidade de ocorrência
de acordos comerciais do Mercosul com a Comunidade Andina? Por quê?
Quais entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais
os riscos?
PRA: A probabilidade é alta, porque de fato já
existem diversos acordos entre os países do Mercosul e os da CAN, e
ambos blocos estabeleceram um acordo quadro em 2004 e vem,
supostamente, aprofundando esses acordos paulatinamente.
2. Qual a probabilidade de ocorrência
de acordos comerciais do Mercosul com o NAFTA? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Probabilidade de média a alta, pois a despeito
de existirem amplos laços comerciais e de investimentos entre ambos
os blocos, os países do Mercosul hesitam em se abrir a mais acordos
de natureza substantiva com o NAFTA, que aliás, não negocia
conjuntamente. O NAFTA é um acordo exclusivo da América do Norte e
para fins de estratégias comerciais, cada um dos seus membros atua
de modo independente e exclusivo. O que se cogitaria, portanto,
seria, na verdade, acordos entre os países do Mercosul – que sim
negociam conjuntamente – e países do Nafta, tomadas isoladamente,
isto é, EUA, México e Canadá, cada um a seu modo.
3. Qual a probabilidade de efetivação
de acordos comerciais do Mercosul com União Européia? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Os principais entraves se deve à baixa
disposição, de ambas as partes, a liberalizar amplamente as trocas,
sobretudo em setores considerados sensíveis ou incapazes de
sustentar a competição externa. A despeito de todos os economistas
recomendarem maior liberalização, abertura ao comércio e aos
investimentos, consolidação do jogo econômico pela via dos mercados,
em lugar do regulacionismo estatal exagerado, como ocorre
atualmente, os líderes políticos hesitam, continuamente, em engajar
seus países na vida da abertura e da liberalização, com o temor de
que perdas setoriais – fechamento de uma ou outra indústria não
competitiva, com perda localizada e temporária de empregos – possam
provocar protestos sociais (mais bem sindicais) e redundar e perda
de apoio eleitoral.
4. Qual a probabilidade de ocorrência
de acordos comerciais do Mercosul com o SADC? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Existem muitas possibilidades de intensificação
do comércio recíproco, mas o desconhecimento dos mercados e a
propensão à cautela impedem uma verdadeira liberalização comercial.
Ou seja, os acordos negociados sempre se caracterizam por baixos
patamares de abertura recíproca.
5. Qual é a probabilidade de
efetivação da ALCA? Por quê? Quais entraves? Quais as oportunidades?
Quais os benefícios? Quais os riscos?
PRA: Os responsáveis políticos continuam a insistir
na tese das assimetrias, neste caso entre os EUA, de um lado, como a
economia mais poderosa do hemisfério, e todas as demais economias de
outro, muito embora México, Canadá e alguns outros países já tenham
aderido, com todos os benefícios e problemas, ao projeto americano
de liberalização comercial. Na prática, a Alca – concebida com um
único acordo, abrangente e uniforme, dotada de regras comuns
aplicáveis a todos os participantes – pode revelar-se desnecessária,
na medida em que a oposição de alguns países da América do Sul ao
projeto original – notadamente Argentina, Brasil e Venezuela – já
determinou uma mudança na estratégia negocial dos EUA, fazendo-os
enveredar pela via mais fácil dos acordos bilaterais, em lugar de um
único acordo hemisférico. O que se tem, de fato, é uma rede de
acordos unindo quase todas as economias do hemisfério à economia dos
EUA, deixando de fora apenas os mais recalcitrantes, entre eles o
próprio Brasil.
6. Qual a probabilidade de ocorrência
de acordo comercial com algum outro bloco econômico? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Países da Ásia (possivelmente Asean) e do
Oriente Médio (Emirados, ou Conselho de Cooperação do Golfo), com a
possibilidade adicional de negociações com países da comunidade
econômica do Mar Negro e outros países da Ásia Central. Existem
possibilidades ainda não exploradas no comércio com outros blocos de
integração, em virtude do desconhecimento, ausência de ligações
físicas diretas e outros elementos negociais. Na prática, os
empresários, que são aqueles que sempre saem na frente dos governos,
irão criar os vínculos comerciais que depois serão ratificados ou
formalizados pelos governos, uma vez que as burocracias
governamentais são sempre lentas a se moverem. Governos são
geralmente assaltados por lobbies setoriais que defendem interesses
protecionistas, opostos a qualquer abertura ou liberalização.
7. Qual a probabilidade da Venezuela
participar ativamente do Mercosul? Por quê? Quais entraves? Quais as
oportunidades? Quais os benefícios? Quais os riscos?
PRA: A Venezuela teria todas as condições de
participar plenamente do Mercosul, mas apresenta dificuldades
conjunturais derivadas de seu regime político, dominado por uma
ditadura personalista, engajada supostamente na construção de um
"monstro metafísico" chamado "socialismo do século XXI", que
representa simplesmente uma deformação completa das regras do jogo
econômico. As distorções acumuladas por um estilo caudilhesco de
poder político diminuem o espaço da economia de mercado na Venezuela
– em total contradição com o que ocorre no resto do mundo, e
hipoteticamente no Mercosul –, dificultam o surgimento de indústrias
competitivas e portanto reduzem o espaço para a liberalização e a
integração completa da Venezuela no jogo do livre comércio, que é,
simples assim, o princípio básico do Mercosul. As práticas
"econômicas" do ditador venezuelano afastam a Venezuela das regras e
normas do Mercosul, tornando difícil, portanto, sua incorporação
plena ao Mercosul. A "alta probabilidade" da Venezuela participar do
Mercosul depende assim de que essas orientações bizarras no plano
econômico sejam afastadas. As opções indicadas são totalmente
condicionadas a que essa mudança de orientação ocorra, caso
contrário a Venezuela vai retardar a integração plena do Mercosul e
sua evolução para um mercado comum, como seria o projeto original.
8. Qual a probabilidade de haver a
incorporação de algum(ns) outro(s) país(es) como membro(s) do
Mercosul? Quais? Por quê?
PRA: Tanto a Bolívia, como o Equador poderiam aderir
mais plenamente ao Mercosul, pois não assumiram outros compromissos
liberalizantes com outros esquemas – ambos são teoricamente membros
da CAN, que deveria ser uma união aduaneira, mas que não funcional
como tal – ou com os EUA. O que os impediria, talvez, é o mesmo tipo
de orientação estatizante e protecionista que caracterizam os
regimes politicamente fechados, de que são exemplos, na região,
Venezuela e Cuba (e possivelmente Nicarágua, se predomina esse tipo
de orientação). Os demais países, como Chile ou Colômbia, já
perseguem estratégias liberalizantes mais afirmadas, tendo concluído
acordos com os EUA e dispostos a avançar em novos acordos de livre
comércio com outros países.
9. Qual a probabilidade de haver a
efetiva circulação de mão-de-obra no Mercosul? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: As diferenças de tamanho, sobretudo em relação
ao Brasil, e os desníveis sócio-econômicos, são um poderoso indutor
à não liberalização dos fluxos de pessoas, o que não significa que
não possa haver maior liberalização de trabalhadores. Ou seja, a
mão-de-obra poderia circular de forma mais ampla no Mercosul, mas
sempre de forma regulada, ou seja, mais de acordo com princípios
mercantilistas do que livre-cambistas.
10. Qual a probabilidade de haver
livre circulação de capitais no Mercosul? Por quê? Quais entraves?
Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os riscos?
PRA: Já existe relativa mobilidade capitais no
Mercosul, o que tende a aumentar com a abertura gradual das
economias. Uma liberalização completa, porém, dependeria da plena
estabilização econômica em cada um dos países, o que está
condicionado a que os graves problemas fiscais em quase todos eles –
com reflexos orçamentários e na dívida pública – sejam equacionados
de forma satisfatória no médio prazo.
11. Qual a probabilidade que se possa
efetivar um Parlamento para o Mercosul? Por quê? Quais entraves?
Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os riscos?
PRA: Já existe Parlamento do Mercosul, mas atualmente
ele se dedica mais a "turismo parlamentar" do que a discussão e
resolução de questões reais da união aduaneira deficiente que é a
situação atual do Mercosul. Por outro lado, não estão resolvidas as
questões da proporcionalidade da representação assim como a do
processo decisório, elementos cruciais não apenas do Parlamento, mas
do próprio bloco.
12. Qual a probabilidade da Zona de
Livre Comércio existir plenamente, sem exceções? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: A ZLC já um fato predominante, e as exceções
remanescentes – setor automotivo e açúcar – deveriam, em princípio,
ser equacionadas em médio prazo.
13. Qual a probabilidade do Mercosul
alcançar plenamente o estágio de União Aduaneira? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Os países relutam em ceder soberania, mas os
fatores mais limitantes são as diferentes estruturas tributárias, os
regimes diferenciados de fiscalização e os próprios regimes
aduaneiros, que não estão verdadeiramente integrados como deveria
ser. Quinze anos depois do seu início, e doze anos depois de sua
suposta conversão em UZ, o Mercosul simplesmente não possui um
Código Aduaneiro e uma autoridade aduaneira unificada. Será um
processo difícil de ser concretizado.
14. Qual a probabilidade do Mercosul
alcançar plenamente o estágio de Mercado Comum? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Os países membros, por deficiências de suas
lideranças políticas e protecionismo exacerbado em vários setores
produtivos, simplesmente não caminham para atingir a liberalização
plena das trocas de bens e serviços na região. Os riscos, como
sempre, derivam das ameaças de desemprego setorial por motivo de
concorrência – sendo o Brasil, ao mesmo tempo o país mais forte
economicamente e aquele politicamente mais protecionista – e das
incertezas fiscais derivadas de uma reformulação nas normas
tributárias que deveriam ser implementadas parda que o mercado comum
fosse efetivo. Outras dificuldades se explicam pela baixa propensão
das lideranças políticas – do executivo e do legislativo – em se
engajar pela via das reformas legais que precisariam ser feitas para
viabilizar o mercado comum.
15. Qual a probabilidade dos países
membros do Mercosul utilizarem uma moeda única? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Não há nenhum, repito, nenhum, espírito de
convergência macroeconômica entre os países do Mercosul atualmente.
A despeito de todos serem moderadamente capitalistas – a exceção
sendo a Venezuela, caso seja admitida, provavelmente submetida à
macroeconômica surrealista de um ditador personalista –, todos eles
perseguem objetivos econômicos estreitamente nacionais, com escassa,
ou nenhuma, coordenação conjunta com vistas a atingir, ainda que no
médio ou longo prazo, condições macroeconômicas convergentes de
maneira a dar início a um processo de uniformidade nas políticas
monetárias e cambiais, o que poderia abrir caminho para uma "banda
cambial" conjunta e, mais adiante, se falar em "moeda comum". De
toda forma isso só se aplica se, e quando, os países caminharem
efetivamente para um mercado comum, que sendo verdadeiramente
unificado "chama" naturalmente uma moeda comum, ou única. Não
havendo mercado comum, é absolutamente irrealista falar de moeda
única, e os promotores idealistas dessa quimera podem ser colocados
na "ala dos Napoleões de hospício".
16. Qual a probabilidade dos países
membros do Mercosul adotarem uma União Monetária? Por quê? Quais
entraves? Quais as oportunidades? Quais os benefícios? Quais os
riscos?
PRA: Os mesmos motivos explicitados acima, ainda que
neste âmbito possa se pensar em "sistema monetário" do Mercosul, ou
seja, uma variação correlacionada das moedas nacionais segundo
alguma banda de referência, com intervenção ativa dos bancos
centrais. Mas, para que isso se faça, seria necessário que os países
renunciassem à soberania em matéria de política monetária e cambial,
o que parece longe de se realizar. Isso exigiria, antes de mais
nada, que todos eles fossem animados dos mesmos princípios em termos
de políticas fiscais, que se caminhasse para a harmonização
tributária, que os intercâmbios de todos os tipos – inclusive de
mão-de-obra – fossem totalmente livres e que a racionalidade
implícita num processo de unificação de mercados fosse
manifestamente superior à situação atual de independência monetária
e comercial. No fundo, se trata de saber se a densidade de comércio,
de intercâmbio de tecnologia, de trocas financeiras e de todos os
tipos se justifica economicamente. Só vale renunciar à soberania em
matéria econômica se os ganhos esperados superam os inconvenientes
da nova situação. Nas condições do Mercosul e da América do Sul não
existe certeza de que esses ganhos justifiquem os custos.
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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